Áreas quilombolas apresentam os menores índices de desmatamento, aponta
levantamento
Um levantamento do MapBiomas, rede colaborativa
formada por ONGs, universidades e startups de tecnologia, mostra que os
territórios quilombolas estão entre as áreas de menor desmatamento no país.
Segundo a pesquisa, em 38 anos, 240 mil hectares de vegetação nativa foram
destruídos.
Territórios quilombolas titulados ou em processo de
titulação ocupam 3,8 milhões de hectares, ou 0,5% do território nacional.
Segundo o Censo 2023 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
são 30% áreas já tituladas e 70% em processo de titulação.
De acordo com a análise, essa diferença reflete-se
na conservação ambiental: enquanto nos territórios já titulados a perda de
vegetação nativa entre 1985 e 2022 foi de 3,2%, nas áreas em processo de
titulação esse percentual foi de 5,5%. Na média, 14% de sua área comunitária é
dedicada para atividades humanas.
A maioria dos territórios quilombolas (181) fica na
Amazônia, seguida pela Mata Atlântica (136), Caatinga (94), Cerrado (63) e
Pampa (20). A Amazônia também lidera em termos de área: nela, os territórios
quilombolas ocupam 2,5 milhões de hectares. A Mata Atlântica, que ocupa a
vice-liderança em quantidade de territórios quilombolas, fica em quarto lugar a
extensão total deles é analisada: 278 mil hectares. Caatinga (550 mil hectares)
e Cerrado (500 mil hectares) vêm em segundo e terceiro lugar, respectivamente.
No caso do Pampa, são apenas 6,5 mil hectares.
A vegetação nativa dessas comunidades concentra-se
na Amazônia (73%), no Cerrado (12%) e Caatinga (10%). Os territórios
localizados na Caatinga foram os que mais perderam em área a vegetação nativa
(72,6 mil hectares), entre 1985 e 2022, seguidos da Amazônia (58,4 mil
hectares) e no Cerrado (36,7 mil hectares). Na contramão, o estudo identificou
um ganho de 7,8 mil hectares na área da Mata Atlântica, considerado pelo o
estudo como um bioma ameaçado, com menos de um terço coberto com vegetação
nativa.
O estudo conclui que os quilombolas estão na
liderança da preservação da cobertura vegetal nativa no Brasil, ao lado dos
territórios indígenas. Estes últimos ocupam 13% do território nacional, mas
possuem 19% de toda a vegetação do país e apenas 1% de perda nas últimas três
décadas.
“Cultivar
as sementes crioulas é cuidar da vida”, defende guardiã de sementes
As sementes crioulas são cultivadas e protegidas
por guardiães em todos os cantos do Brasil e tornaram-se símbolos de
resistência contra os desafios enfrentados por comunidades que buscam não
apenas garantir o direito à terra, mas também estabelecer um modo de vida
autônomo e sustentável. Elas ecoam a resistência contra a imposição de modelos
agrícolas que ameaçam a soberania alimentar.
Em meio às barracas de sementes crioulas da feira
da 20ª Jornada de Agroecologia encontramos duas personagens cujas vidas se
entrelaçaram com essas pequenas maravilhas desde os primeiros dias de sua
jornada no Movimento dos(as) Trabalhadores(as) Sem Terra (MST).
Maria Aparecida da Silva Kerber, conhecida como
dona Maria, e Sirlene Morais, a Lene, são guardiãs das sementes crioulas,
tesouros que trazem consigo não apenas a promessa de autonomia em relação ao
sistema capitalista de produção de alimentos, mas também a essência de uma
resistência que se entrelaça com a história do MST e da Jornadas de
Agroecologia.
Dona Maria, tem 59 anos, é moradora do assentamento
Contestado, localizado na Lapa (PR). Ela nos contou que sua jornada com as
sementes crioulas, uma tradição que começou quando ela adentrou as fileiras do
MST. “Mesmo sendo agricultora desde criança, conhecia muito pouco das sementes
crioulas. A visão ampla veio quando entrei no MST”, revela.
“As sementes crioulas são mais do que grãos. São a
voz dos que resistem, uma conexão profunda com a terra e nossa identidade.
Cuidar delas é preservar nossa história.”, ressalta Maria. Para ela, a
resistência popular e a proteção das sementes crioulas são inseparáveis, uma
conexão que fortalece não apenas as plantações, mas também os alicerces do
projeto político do MST.
Sirlene, moradora do assentamento Guanabara,
localizado em Imbaú (PR), conta que sua trajetória entrelaçada com as sementes
crioulas desde a infância. Mas sua consciência sobre a importância dessas
sementes se ampliou após a primeira Jornada de Agroecologia, realizada em Ponta
Grossa. “Quando houve o debate sobre transgenia, percebemos que a semente não
era apenas uma necessidade, mas uma forma de resistir ao modelo que ameaçava
nossa independência e nossa saúde”, ela explica.
Para Sirlene, a semente é vida, e cultivá-la é
cuidar do futuro. “A semente é uma forma de resistir porque queremos viver.
Cuidar dela é resistir ao sistema capitalista que busca nos tornar dependentes.
Nós queremos um projeto político de vida, não de morte”, enfatiza.
A luta pela reforma agrária popular vai além da
conquista por terra. Sirlene destaca a independência que as sementes
proporcionam, não apenas financeiramente, mas também ideologicamente,
combatendo o agronegócio e promovendo um projeto político de vida. “A semente
crioula é um ato político. Ao cultivá-la, estamos dizendo não ao controle
externo, à dependência. Estamos afirmando nossa autonomia e a construção de um
projeto político que valoriza a vida”, ressalta.
As vozes de dona Maria e Sirlene ecoam uma mensagem
clara: o cultivo das sementes crioulas vai além da agricultura, é a construção
de um tecido social resistente, que tem um compromisso contínuo com a luta por
um futuro mais sustentável e equitativo.
Elas fazem parte da ReSA, a Rede de Sementes da
Agroecologia, criada em 2015 como espaço de articulação e organização das
iniciativas relacionadas às sementes no Paraná. A Rede, que também integra a
organização da Jornada de Agroecologia, tem como objetivo dar visibilidade e
fortalecimento político ao enfrentamento das diversas ameaças enfrentadas para
a preservação das sementes.
• Se o
campo não planta, a cidade não janta
A diferença entre a conquista da terra e a luta por
reforma agrária é significativa para a agricultora. A terra é o primeiro passo,
mas a reforma agrária popular vai além, conectando campo e cidade em um projeto
político que busca uma sociedade mais justa e igualitária.
Para Sirlene, produzir alimento saudável pensando
não apenas em nós, mas na cidade também é necessário. “Nós não queremos apenas
viver da terra, mas para a terra. É um compromisso com a vida, produzir
alimento saudável para todos, conectando o campo e a cidade em um projeto que
transcende nossas fronteiras.”, enfatiza Sirlene.
Na visão de Dona Maria, conscientizar a população
urbana sobre a proteção das sementes crioulas é um desafio que Maria encara com
otimismo. Ela destaca a importância de eventos como a Jornada de Agroecologia,
onde pessoas de diversas áreas têm a oportunidade de conhecer a diversidade das
sementes crioulas. “Pessoas sem ligação com movimentos sociais, com formações
como médicos e advogados, se surpreenderam e se encantaram ao conhecer nossa
banca”, ressalta.
• Feiras
de troca e variedade de sementes
A troca de sementes crioulas é uma prática
constante para dona Maria e sua família, responsável pelo Sítio Joaninhas,
local em que cultivam sementes e produzem alimentos livres de transgênicos e
agrotóxicos. “Em cada jornada e feira, trocamos, doamos e plantamos o que
coletamos. Começamos com poucas sementes, valorizando cada uma delas porque
sabemos que a nossa saúde depende daquilo que a gente come”, explica.
Ela destaca a importância de valorizar as sementes
crioulas para fortalecer o sistema, aproveitando a diversidade e a capacidade
de produção em pequenos espaços. “Ao multiplicarmos as sementes crioulas,
multiplicamos a resistência e ao valorizar as sementes crioulas, fortalecemos o
sistema agroecológico. Nós sabemos que é possível produzir muito em um espaço
pequeno, com diversidade”, destaca Dona Maria.
A diversidade das sementes crioulas é uma riqueza
que Dona Maria aprendeu a manejar ao longo dos anos, mas ainda se surpreende
com a capacidade de adaptação de algumas variedades ao clima local. “Temos
sementes que se adaptaram ao nosso clima, algumas demoram mais, mas com
observação e cuidado, aprendemos a entender suas necessidades e cultivar em
quase todos os lugares”, explica.
• Saúde
popular e as sementes nas comunidades
A conexão entre sementes crioulas e saúde não é
apenas teórica para dona Maria. Ela testemunha melhorias tangíveis na saúde da
comunidade, alimentada por uma dieta proveniente dessas sementes. Cultivar e
proteger as sementes crioulas está diretamente ligado à saúde nas comunidades,
proporcionando uma alimentação de qualidade que se reflete em menos dependência
de medicamentos e mais autonomia na busca pela cura para diversas condições.
“Nossa saúde vem da terra. As sementes crioulas não
são apenas alimento, são medicina. Quando cuidamos delas, estamos cuidando da
nossa saúde e resistindo contra um sistema que nos enfraquece.”, afirma Maria,
com um sorriso de quem vê o poder transformador nas pequenas sementes que
guarda. Ela enfatiza a importância da alimentação para a saúde e como as
sementes crioulas desempenham um papel crucial nesse equilíbrio.
• Partilha
de sementes
Ao longo da Jornada, 5 mil kits de sementes da Rede
de Sementes Agroecológicas BioNatur
foram doados aos participantes, como forma de multiplicar a variedade de
sementes pelo estado. A Rede é uma cooperativa de agricultores e agricultoras
assentados pela Reforma Agrária, produtores de sementes de diversas espécies de
hortaliças, plantas ornamentais, forrageiras e grãos, em sistemas de produção
de base agroecológica. Atualmente, a Bionatur envolve mais de 350 famílias, nos
estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
A Jornada de Agroecologia é realizada desde 2002,
de forma conjunta por cerca de 60 organizações, movimentos sociais e populares,
coletivos e instituições de ensino. O objetivo central é fomentar a
agroecologia e mostrar ao grande público urbano os frutos e a viabilidade deste
modo de produção de alimentos, baseado no equilíbrio ambiental e na qualidade
de vida para quem produz e quem consome.
Neste ano, a edição contou com A atividade tem
patrocínio Itaipu Binacional, Conselho Nacional Sesi, Fundação Banco do Brasil
e Governo Federal, com apoio da Agroecology Fund, Secretaria de Agroecologia e
Abastecimento, Incra, Conab, Ministério Desenvolvimento Agrário e Agricultura
Familiar e Governo Federal.
Fonte: Alma Preta/Página do MST

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