'Amazing Grace': como composição de
ex-traficante de escravos virou hino contra escravidão
Por muitos perigos, labuta e armadilhas/Eu já
passei/Essa graça me trouxe seguro até aqui/E a graça vai me conduzir até minha
casa.
Esse é um trecho, em tradução livre para o
português, de um famoso hino cristão escrito em inglês no século 18, Amazing
Grace.
Para negros escravizados e seus descendentes, essas
palavras se tornaram um símbolo de resistência e esperança — mas o
surpreendente é que um de seus autores havia sido no passado um capitão de
navios negreiros e compôs o hino inspirado em uma experiência pessoal a que ele
atribuiu o resgate de sua fé.
Era março de 1748 e o inglês John Newton
(1725-1807) estava à frente de mais uma viagem transatlântica como capitão de
um navio negreiro.
Mas, naquele momento, uma forte tempestade alterou
o seu destino: em perigo, sua fé cristã renasceu e o fez mudar completamente de
vida, a ponto de, anos mais tarde, tornar-se um abolicionista.
"O navio quase se rompeu e algumas pessoas
morreram, mas ele foi resgatado e passou por uma transformação religiosa. Sua
fé cristã começou a retornar", diz Tim German, um voluntário no Museu
Cowper and Newton, em Olney, na Inglaterra.
Depois do susto, Newton ainda fez mais três viagens
entre 1750 e 1754 como capitão de navios negreiros — as rotas que ele fazia
costumavam sair da Inglaterra, passar pelo continente africano (principalmente
na costa da Guiné) e pelas Índias Ocidentais.
Em 1754, um ataque convulsivo o forçou a abandonar
a vida no mar.
Em 1764, Newton foi nomeado pároco de uma igreja
anglicana na cidade de Olney, a noroeste de Londres, e logo ganhou popularidade
como pregador e escritor de hinos.
Ele colaborou com o poeta William Cowper, seu
vizinho em Olney, nessa criação.
Juntos, eles compuseram Glorious Things of Thee are
Spoken e Amazing Grace — essa, baseada em um sermão de Newton em uma missa de
Ano Novo, em 1º de janeiro de 1773.
Amazing Grace ("Maravilhosa graça", em
tradução livre), originalmente intitulada Faith's Review and Expectation, foi
publicada pela primeira vez no livro The Olney Hymns em 1779.
Tim German diz que as palavras de Amazing Grace não
foram como um pedido de desculpas de Newton por seu papel no comércio de
escravizados, mas "sobre sua jornada redentora de volta" ao
cristianismo após a tempestade.
"Em Olney, eles costumavam realizar cultos
todos os dias de Ano Novo e era uma tradição olhar para trás e para
frente", diz o voluntário do museu.
"Ele queria ilustrar a história que estava
contando [em seu sermão], que refletia sua própria vida e sua mudança de volta
ao cristianismo", afirma. "Sua jornada para dizer 'meu papel na
escravidão foi totalmente errado e me arrependo' só veio mais tarde."
Em 1788, Newton publicou um panfleto chamado
Thoughts Upon the African Slave Trade ("Reflexões sobre o comércio de
escravos africanos"), que começava com um pedido de desculpas e descrevia
o que havia testemunhado durante seu tempo como capitão de navios negreiros.
A primeira edição esgotou, e cópias da segunda
edição foram enviadas a todos os parlamentares britânicos.
Newton também testemunhou perante o Conselho
Privado e em audiências parlamentares sobre a escravidão.
Depois, Newton tornou-se um abolicionista e mentor
de William Wilberforce, líder do movimento abolicionista britânico. Os dois
também trabalharam juntos para criar um lar para escravizados libertos em Serra
Leoa.
Sean Lang, professor sênior de história na
Universidade Anglia Ruskin, afirma que Newton é agora considerado uma
"figura muito importante" na história abolicionista, pois foi uma das
primeiras pessoas a apontar o problema humanitário do comércio de escravizados.
O pároco estava na "posição perfeita"
para fazê-lo porque, como ex-capitão, tinha um "conhecimento único de como
o sistema funcionava".
"A maioria das pessoas naquela época não via
problema nisso", afirma Lang.
"As pessoas sabiam que isso estava
acontecendo, mas não conheciam todos os detalhes. Na verdade, muitos pensavam
que estavam resgatando africanos, os salvando e fazendo o bem."
"As igrejas desempenharam um papel importante
ao começar a mudar opiniões e fazer com que as pessoas vissem o que estava
diante dos seus olhos de uma nova maneira."
Lang destaca que houve uma geração — cerca de 40
anos — entre a ordenação de Newton e a Lei do Comércio de Escravos de 1807, que
proibiu o comércio no Império Britânico.
"[A abolição] Foi algo enorme. Era um negócio
gigante [o comércio de escravizados] e era uma tarefa difícil pará-lo. Não era
possível fazê-lo sem mudar de atitude, e ele [Newton] foi um dos primeiros a
começar a fazer isso", diz o professor.
"Ele deve ser admirado porque é difícil estar
em minoria. Foi um processo longo e lento e ele persistiu."
Newton morreu no final de 1807, nove meses depois
de o parlamento britânico ter votado pela abolição.
A reverenda Rose Hudson-Wilkin, bispa de Dover e
negra, afirma que se trata de um "hino icônico para os negros".
"É muito estranho no sentido de que foi
escrito por um homem branco que estava envolvido no comércio de escravos",
diz Hudson-Wilkin.
"Mas ele conseguiu escrever de uma forma que,
como uma mulher negra, e para muitos negros, em particular os afro-americanos,
pode-se ver Deus."
Nos últimos 250 anos, Amazing Grace tornou-se um
hino conhecido internacionalmente e cantado por estrelas como Elvis Presley,
Aretha Franklin e Andrea Bocelli.
A Biblioteca do Congresso dos EUA tem registros de
mais de 3.000 performances gravadas por diferentes músicos, individualmente ou
em conjunto.
"A melodia que hoje consideramos inseparável
da letra surgiu nos EUA nas primeiras décadas do século 19 e só ganhou
popularidade na Grã-Bretanha nos últimos 50 anos", explica Martin Clark,
chefe do departamento de música da Open University.
Para Clark, é a relação entre as palavras e a
música que a torna tão popular por tanto tempo.
"Algumas das palavras em que ela [letra] se
concentra, ideias sobre graça, esperança e redenção, são coisas que tocam as
pessoas ao longo do tempo", analisa.
James Walvin, professor emérito de história na
Universidade de York (Inglaterra), afirma que o hino "tem um significado
extraordinariamente profundo, tanto no nível da devoção quanto secular".
"Ele dá consolo em tempos de estresse,
esperança para os abatidos e perspectivas de salvação para os
necessitados."
O hino é um ícone em Olney, que tem uma placa na
entrada da cidade dizendo "Bem-vindo a Olney, casa de Amazing Grace".
Fonte: BBC News Mundo

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