terça-feira, 5 de setembro de 2023

Vladimir Putin rejeita novo acordo para transporte de cereais

Vladimir Putin falava após conversações com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, nesta segunda-feira (04.09), na estância balnear de Sochi, no sul da Rússia.

A par da ONU, Erdogan foi um dos mediadores do acordo original, conhecido como a "Iniciativa do Mar Negro" e firmado no verão de 2022 em Istambul, que permitiu à Ucrânia exportar a sua produção de cereais em segurança. Moscovo abandonou unilateralmente o protocolo em julho.

De acordo com a imprensa de Ancara, o chefe de Estado turco esperava no encontro de Sochi "convencer" o Presidente russo a retomar os acordos.

Na abertura do primeiro encontro entre os dois chefes de Estado desde outubro do ano passado, Erdogan tinha prometido para o final um anúncio "muito importante" sobre as exportações de cereais.

Nas declarações após o encontro com Erdogan, Putin disse que a Rússia está a finalizar um acordo para fornecer gratuitamente cereais a seis países africanos.

O Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, defende que o continente africano deve ser priorizado na obtenção de grãos. Muitos países africanos dependem da importação de cereais, apesar do potencial agrícola que possuem.

O Presidente turco considerou também que a Ucrânia deve suavizar a sua posição nas negociações com a Rússia sobre a revitalização de um acordo de exportações de cereais.

·         Putin está ‘aberto’ a negociar acordo de grãos

O presidente russo, Vladimir Putin, assegurou, nesta segunda-feira (4), que está disposto a reativar o acordo dos cereais com a Ucrânia, poucas horas depois de o Exército russo ter bombardeado infraestruturas agrícolas ucranianas em um porto fluvial no Danúbio.

“Faremos isso quando os acordos sobre as restrições às exportações de produtos agrícolas russos forem aplicados”, declarou Putin durante uma entrevista coletiva com seu contraparte turco, Recep Tayyip Erdogan, em Sochi, no litoral russo no mar Negro.

Durante essa mesma coletiva, Erdogan afirmou que seu país havia feito “novas propostas” para reativar o acordo sobre a exportação de cereais ucranianos pelo mar Negro, alcançado no verão de 2022 com mediação da Turquia e da ONU e suspenso pela Rússia em julho.

O acordo do verão passado (inverno no Brasil) contava com um convênio paralelo para que a Rússia pudesse vender seus produtos, cujos envios estão prejudicados pelas sanções ocidentais contra Moscou. O Kremlin aguarda propostas concretas para voltar a aderir ao pacto.

O presidente russo também anunciou que acordos estão a ponto de serem fechados com seis países para o envio gratuito de cereais.

Os envios serão efetuados “nas próximas semanas”, detalhou Putin.

Para além dessas declarações, os dois dirigentes não fizeram anúncios mais concretos sobre uma reativação do pacto dos cereais nas próximas semanas, o que permitiria a exportação das safras de outono (primavera no Brasil) da Ucrânia, um dos maiores exportadores de grãos e óleo do mundo e do qual depende o mercado alimentício mundial.

Erdogan é um dos poucos líderes da Otan que mantém boas relações com Putin e espera que esta reunião seja também uma plataforma para uma negociação mais ampla para a paz entre Kiev e Moscou.

– Tensões no Mar Negro –

Na linha da frente, as autoridades ucranianas relataram novos bombardeios russos contra infraestruturas agrícolas e industriais em Izmail, no sudoeste, onde fica um porto fluvial do Danúbio, fundamental para as exportações ucranianas.

À noite, Kiev afirmou que derrubou 23 drones lançados pela Rússia no sul e sudeste.

Oleg Kiper, governador da região de Odessa, no sul, informou que “várias cidades do distrito de Izmail registraram danos em armazéns e edifícios de fábricas, máquinas agrícolas e empresas industriais”, sem deixar vítimas.

O porto fluvial de Izmail tornou-se a principal rota das exportações ucranianas depois que a Rússia se retirou do acordo do Mar Negro.

Os militares ucranianos relataram que a Rússia usou drones Shahed, de fabricação iraniana, no ataque noturno, o qual descreveram como “maciço” e afirmaram que “foi dirigido contra a infraestrutura civil na região do Danúbio”.

Horas depois, o Ministério das Relações Exteriores ucraniano informou que, durante o ataque, drones russos caíram em território romeno, mas Bucareste negou “categoricamente” esta afirmação.

Nesta segunda-feira, a Rússia disse que destruiu quatro lanchas rápidas ucranianas que transportavam soldados no Mar Negro, depois que as forças russas reivindicaram, em 30 de agosto, a destruição das embarcações das forças especiais de Kiev.

As autoridades russas alegaram que as embarcações viajavam em direção a Tarjankut, a oeste da península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014.

Moscou também denunciou nesta segunda-feira que repeliu ataques de drones ucranianos, um perto da península da Crimeia e outro em Kursk, uma região do sul da Rússia, perto da fronteira com a Ucrânia.

No avanço da contraofensiva ucraniana, Kiev afirmou nesta segunda-feira que as suas tropas fizeram progressos limitados na frente sul, onde concentra a sua operação para repelir as forças russas, e que também recuperou território perto de Bakhmut, uma cidade no leste, devastada pelos combates e que a Rússia conseguiu tomar em maio, após combates ferozes.

Na capital ucraniana, as autoridades anunciaram que receberam um novo alerta de bomba contra todas as escolas de Kiev, três dias depois de uma primeira ameaça, que se revelou falsa, em 1º de setembro, data de início do ano letivo.

O ministro da Defesa ucraniano – demitido no domingo pelo presidente Volodimir Zelensky, que apelou a “uma nova abordagem” face à contraofensiva para repelir a invasão russa – disse nesta segunda-feira que entregou a sua carta de renúncia ao Parlamento.

O anúncio da mudança do ministro ocorre após diversos escândalos de corrupção que afetaram a pasta da Defesa em pleno conflito.

·         Erdogan apoia Putin sobre acordo de grãos; Rússia ataca porto

No primeiro encontro de um chefe de Estado da Otan [aliança militar ocidental] com Vladimir Putin desde a invasão da Ucrânia em 2022, o turco Recep Tayyip Erdogan defendeu a posição do colega russo na disputa acerca do acordo para a exportação de grãos por Kiev pelo mar Negro.

Os líderes se reuniram em Sochi, balneário russo predileto de Putin, às margens do mesmo mar. Horas antes, a Rússia deixou claro que manteria a posição com um recado nada sutil, uma nova rodada de bombardeio contra a infraestrutura portuária da Ucrânia.

Erdogan afirmou que a Ucrânia deveria "amenizar sua posição em relação à Rússia" na questão do acordo abandonado por Putin em 17 de julho. O arranjo, mediado um ano antes pela Turquia e pela ONU, havia permitido a Kiev exportar 32 milhões de toneladas de produtos agrícolas.

Em troca, Moscou teria facilitada a exportação de seus grãos e insumos agrícolas, apesar das sanções ocidentais que sofre devido à guerra. Putin afirma que isso não ocorreu de maneira satisfatória, algo com que Erdogan concorda, e disse que está "pronto para retomar" o acordo se a contrapartida for cumprida.

Para a irritação de Kiev, o turco também disse que "as alternativas ao acordo de grãos não oferecem uma solução duradoura" para a questão. Foi uma referência indireta à proposta ucraniana de um corredor exclusivo ligando Odessa, principal porto do país, ao estreito de Bósforo na Turquia, ponto que liga os mares Negro e Mediterrâneo.

Alguns navios estrangeiros têm passado pela área sem serem importunados pelos russos, mas Putin voltou a dizer que não aceitará o uso do corredor para transporte de armas.

Putin afirmou que as "conversas foram construtivas" e destacou a ideia russa de transformar a Turquia num centro distribuidor do seu gás natural. Seu colega afirmou acreditar que "o acordo de grãos pode ser retomado rapidamente", apesar de não ter havido avanço real nesta segunda.

O chanceler ucraniano, Dmitro Kuleba, afirmou enquanto transcorriam as três horas da reunião em Sochi que o presidente Volodimir Zelenski esperava uma ligação de Erdogan ao fim das conversas. O turco exerce um delicado malabarismo, mantendo suporte militar a Kiev e condenando a guerra, mas sem adotar sanções contra Moscou e mantendo uma interlocução forte com o colega do Kremlin.

Antes da guerra, o presidente turco estava na realidade em um momento de ampliação de laços, que além de energéticos seriam militares, após a compra de poderosos sistemas antiaéreos russos que levou os EUA a expulsar Ancara do projeto de construção do caça F-35. Esse movimento agora está congelado.

O acordo de grãos de 2022 estancou uma febre inflacionária provocada pelos então cinco primeiros meses da guerra, e aliviou o risco de uma crise alimentar nos países africanos, bastante dependentes dos grãos da região. A Ucrânia tem cerca de 10% do mercado mundial de trigo, metade da fatia russa.

Desta vez, a medida de Putin impactou imediatamente os preços de grãos, mas eles voltaram a patamares mais baixos devido, ironicamente, à supersafra russa do trigo deste ano. No longo prazo, contudo, a situação seria imprevisível.

O presidente russo aproveitou a conjuntura e, ante as acusações de que usava comida como arma no conflito, ofereceu enviar grãos gratuitamente a países na África em maior dificuldade durante uma cúpula com líderes do continente em São Petersburgo, no mês passado. Nesta segunda, afirmou que "está tudo pronto" para o fornecimento, e que "não há fome no mundo" devido à suspensão do acordo.

ROMÊNIA NEGA QUE TENHA SIDO ATINGIDA EM ATAQUE

Com a saída russa, o mar Negro voltou rapidamente a ser uma área ativa na guerra, algo que não ocorria desde que o acordo havia sido implementado. Moscou passou a bombardear os portos ucranianos e a infraestrutura de exportação de grãos, concentrada em Odessa.

O governo de Zelenski buscou então aumentar o escoamento pelos seus dois portos principais no Danúbio, Izmail e Reni, na esperança que a vizinhança imediata do outro lado do rio de um país da Otan [aliança militar ocidental], a Romênia, demovesse Putin de ataques.

Não deu certo, e ambas as estruturas também passaram a ser atacadas. A Otan aumentou a vigilância na área, sem sucesso, e o risco da campanha foi colocado à prova nesta segunda, horas antes do encontro entre Putin e Erdogan.

Um ataque intenso, de três horas e meia com drones kamikazes, atingiu Izmail. Segundo o Ministério das Relações exteriores, ao menos dois aparelhos caíram na Romênia, causando um incêndio cujas imagens foram postadas em redes sociais.

Rapidamente, o Ministério da Defesa romeno negou ter havido danos ou ameaças militares. Horas depois, a chanceler Luminita Odobescu disse a repórteres em Berlim: "Claro, há um risco de acidentes ou incidentes, mas não foi o caso desta vez". Pode ou não ser verdade, mas o que é certo é que Bucareste buscou evitar uma escalada.

A chancelaria em Kiev afirmou que tinha "evidências" sobre sua afirmação, mas a tendência é de contenção de danos, uma constante da Otan, que busca evitar uma Terceira Guerra Mundial: se Bucareste se declarasse atacada pelos russos, os outros 30 membros da aliança teriam de intervir para socorrê-la.

A crise no mar Negro gerou outros impactos. Sem uma Marinha de fato, Zelenski passou a empregar uma armada de drones aquáticos para ameaçar a Rússia. Atingiu um navio de guerra e um petroleiro, que foram avariados, além de manter as tentativas de ataque contra a simbólica ponte que liga a Crimeia anexada à região russa de Krasnodar.

Kiev chegou a ameaçar um bloqueio ao tráfego de navios dos seis portos russos no mar Negro, por onde passa 2% da produção mundial de petróleo, enviada para os países que não aplicaram sanções a Moscou, como Índia e China. Por incapacidade ou falta de oportunidade, nada aconteceu.

Essa nova frente marítima da guerra é um dos aspectos da fase atual do conflito, marcado pela dificuldade da Ucrânia em fazer avançar sua contraofensiva, lançada em 4 de junho. Houve sucessos pontuais, mas também um renovado ataque russo no nordeste do país, na região de Kharkiv, que ameaça as linhas de Zelenski.

O ritmo lento, somado a um histórico de acusações de corrupção, acabou derrubando neste domingo (3) o ministro da Defesa ucraniano, Oleksii Reznikov. Ele será substituído por Rustam Umerov, que participou das negociações infrutíferas com a Rússia no começo da guerra e também da confecção do primeiro acordo de grãos.

 

Fonte: Deutsche Welle/IstoÉ/FolhaPress

 

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