Vladimir Putin rejeita novo acordo para transporte de cereais
Vladimir Putin falava após conversações com o
Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, nesta segunda-feira (04.09), na
estância balnear de Sochi, no sul da Rússia.
A par da ONU, Erdogan foi um dos mediadores do
acordo original, conhecido como a "Iniciativa do Mar Negro" e firmado
no verão de 2022 em Istambul, que permitiu à Ucrânia exportar a sua produção de
cereais em segurança. Moscovo abandonou unilateralmente o protocolo em julho.
De acordo com a imprensa de Ancara, o chefe de
Estado turco esperava no encontro de Sochi "convencer" o Presidente
russo a retomar os acordos.
Na abertura do primeiro encontro entre os dois
chefes de Estado desde outubro do ano passado, Erdogan tinha prometido para o
final um anúncio "muito importante" sobre as exportações de cereais.
Nas declarações após o encontro com Erdogan, Putin
disse que a Rússia está a finalizar um acordo para fornecer gratuitamente
cereais a seis países africanos.
O Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, defende
que o continente africano deve ser priorizado na obtenção de grãos. Muitos
países africanos dependem da importação de cereais, apesar do potencial
agrícola que possuem.
O Presidente turco considerou também que a Ucrânia
deve suavizar a sua posição nas negociações com a Rússia sobre a revitalização
de um acordo de exportações de cereais.
·
Putin está ‘aberto’ a negociar acordo de grãos
O presidente russo, Vladimir Putin, assegurou,
nesta segunda-feira (4), que está disposto a reativar o acordo dos cereais com
a Ucrânia, poucas horas depois de o Exército russo ter bombardeado
infraestruturas agrícolas ucranianas em um porto fluvial no Danúbio.
“Faremos isso quando os acordos sobre as restrições
às exportações de produtos agrícolas russos forem aplicados”, declarou Putin
durante uma entrevista coletiva com seu contraparte turco, Recep Tayyip
Erdogan, em Sochi, no litoral russo no mar Negro.
Durante essa mesma coletiva, Erdogan afirmou que
seu país havia feito “novas propostas” para reativar o acordo sobre a
exportação de cereais ucranianos pelo mar Negro, alcançado no verão de 2022 com
mediação da Turquia e da ONU e suspenso pela Rússia em julho.
O acordo do verão passado (inverno no Brasil)
contava com um convênio paralelo para que a Rússia pudesse vender seus
produtos, cujos envios estão prejudicados pelas sanções ocidentais contra
Moscou. O Kremlin aguarda propostas concretas para voltar a aderir ao pacto.
O presidente russo também anunciou que acordos
estão a ponto de serem fechados com seis países para o envio gratuito de
cereais.
Os envios serão efetuados “nas próximas semanas”,
detalhou Putin.
Para além dessas declarações, os dois dirigentes
não fizeram anúncios mais concretos sobre uma reativação do pacto dos cereais
nas próximas semanas, o que permitiria a exportação das safras de outono
(primavera no Brasil) da Ucrânia, um dos maiores exportadores de grãos e óleo
do mundo e do qual depende o mercado alimentício mundial.
Erdogan é um dos poucos líderes da Otan que mantém
boas relações com Putin e espera que esta reunião seja também uma plataforma
para uma negociação mais ampla para a paz entre Kiev e Moscou.
– Tensões no Mar Negro –
Na linha da frente, as autoridades ucranianas
relataram novos bombardeios russos contra infraestruturas agrícolas e
industriais em Izmail, no sudoeste, onde fica um porto fluvial do Danúbio, fundamental
para as exportações ucranianas.
À noite, Kiev afirmou que derrubou 23 drones
lançados pela Rússia no sul e sudeste.
Oleg Kiper, governador da região de Odessa, no sul,
informou que “várias cidades do distrito de Izmail registraram danos em armazéns
e edifícios de fábricas, máquinas agrícolas e empresas industriais”, sem deixar
vítimas.
O porto fluvial de Izmail tornou-se a principal
rota das exportações ucranianas depois que a Rússia se retirou do acordo do Mar
Negro.
Os militares ucranianos relataram que a Rússia usou
drones Shahed, de fabricação iraniana, no ataque noturno, o qual descreveram
como “maciço” e afirmaram que “foi dirigido contra a infraestrutura civil na
região do Danúbio”.
Horas depois, o Ministério das Relações Exteriores
ucraniano informou que, durante o ataque, drones russos caíram em território
romeno, mas Bucareste negou “categoricamente” esta afirmação.
Nesta segunda-feira, a Rússia disse que destruiu
quatro lanchas rápidas ucranianas que transportavam soldados no Mar Negro, depois
que as forças russas reivindicaram, em 30 de agosto, a destruição das
embarcações das forças especiais de Kiev.
As autoridades russas alegaram que as embarcações
viajavam em direção a Tarjankut, a oeste da península da Crimeia, anexada por
Moscou em 2014.
Moscou também denunciou nesta segunda-feira que
repeliu ataques de drones ucranianos, um perto da península da Crimeia e outro
em Kursk, uma região do sul da Rússia, perto da fronteira com a Ucrânia.
No avanço da contraofensiva ucraniana, Kiev afirmou
nesta segunda-feira que as suas tropas fizeram progressos limitados na frente
sul, onde concentra a sua operação para repelir as forças russas, e que também
recuperou território perto de Bakhmut, uma cidade no leste, devastada pelos
combates e que a Rússia conseguiu tomar em maio, após combates ferozes.
Na capital ucraniana, as autoridades anunciaram que
receberam um novo alerta de bomba contra todas as escolas de Kiev, três dias
depois de uma primeira ameaça, que se revelou falsa, em 1º de setembro, data de
início do ano letivo.
O ministro da Defesa ucraniano – demitido no
domingo pelo presidente Volodimir Zelensky, que apelou a “uma nova abordagem”
face à contraofensiva para repelir a invasão russa – disse nesta segunda-feira
que entregou a sua carta de renúncia ao Parlamento.
O anúncio da mudança do ministro ocorre após
diversos escândalos de corrupção que afetaram a pasta da Defesa em pleno
conflito.
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Erdogan apoia Putin sobre acordo de grãos; Rússia
ataca porto
No primeiro encontro de um chefe de Estado da Otan
[aliança militar ocidental] com Vladimir Putin desde a invasão da Ucrânia em
2022, o turco Recep Tayyip Erdogan defendeu a posição do colega russo na
disputa acerca do acordo para a exportação de grãos por Kiev pelo mar Negro.
Os líderes se reuniram em Sochi, balneário russo
predileto de Putin, às margens do mesmo mar. Horas antes, a Rússia deixou claro
que manteria a posição com um recado nada sutil, uma nova rodada de bombardeio
contra a infraestrutura portuária da Ucrânia.
Erdogan afirmou que a Ucrânia deveria
"amenizar sua posição em relação à Rússia" na questão do acordo
abandonado por Putin em 17 de julho. O arranjo, mediado um ano antes pela
Turquia e pela ONU, havia permitido a Kiev exportar 32 milhões de toneladas de
produtos agrícolas.
Em troca, Moscou teria facilitada a exportação de
seus grãos e insumos agrícolas, apesar das sanções ocidentais que sofre devido
à guerra. Putin afirma que isso não ocorreu de maneira satisfatória, algo com
que Erdogan concorda, e disse que está "pronto para retomar" o acordo
se a contrapartida for cumprida.
Para a irritação de Kiev, o turco também disse que
"as alternativas ao acordo de grãos não oferecem uma solução
duradoura" para a questão. Foi uma referência indireta à proposta
ucraniana de um corredor exclusivo ligando Odessa, principal porto do país, ao
estreito de Bósforo na Turquia, ponto que liga os mares Negro e Mediterrâneo.
Alguns navios estrangeiros têm passado pela área
sem serem importunados pelos russos, mas Putin voltou a dizer que não aceitará
o uso do corredor para transporte de armas.
Putin afirmou que as "conversas foram
construtivas" e destacou a ideia russa de transformar a Turquia num centro
distribuidor do seu gás natural. Seu colega afirmou acreditar que "o
acordo de grãos pode ser retomado rapidamente", apesar de não ter havido
avanço real nesta segunda.
O chanceler ucraniano, Dmitro Kuleba, afirmou
enquanto transcorriam as três horas da reunião em Sochi que o presidente
Volodimir Zelenski esperava uma ligação de Erdogan ao fim das conversas. O
turco exerce um delicado malabarismo, mantendo suporte militar a Kiev e
condenando a guerra, mas sem adotar sanções contra Moscou e mantendo uma
interlocução forte com o colega do Kremlin.
Antes da guerra, o presidente turco estava na
realidade em um momento de ampliação de laços, que além de energéticos seriam
militares, após a compra de poderosos sistemas antiaéreos russos que levou os
EUA a expulsar Ancara do projeto de construção do caça F-35. Esse movimento
agora está congelado.
O acordo de grãos de 2022 estancou uma febre
inflacionária provocada pelos então cinco primeiros meses da guerra, e aliviou
o risco de uma crise alimentar nos países africanos, bastante dependentes dos
grãos da região. A Ucrânia tem cerca de 10% do mercado mundial de trigo, metade
da fatia russa.
Desta vez, a medida de Putin impactou imediatamente
os preços de grãos, mas eles voltaram a patamares mais baixos devido,
ironicamente, à supersafra russa do trigo deste ano. No longo prazo, contudo, a
situação seria imprevisível.
O presidente russo aproveitou a conjuntura e, ante
as acusações de que usava comida como arma no conflito, ofereceu enviar grãos
gratuitamente a países na África em maior dificuldade durante uma cúpula com
líderes do continente em São Petersburgo, no mês passado. Nesta segunda,
afirmou que "está tudo pronto" para o fornecimento, e que "não
há fome no mundo" devido à suspensão do acordo.
ROMÊNIA NEGA QUE TENHA SIDO ATINGIDA EM ATAQUE
Com a saída russa, o mar Negro voltou rapidamente a
ser uma área ativa na guerra, algo que não ocorria desde que o acordo havia
sido implementado. Moscou passou a bombardear os portos ucranianos e a
infraestrutura de exportação de grãos, concentrada em Odessa.
O governo de Zelenski buscou então aumentar o
escoamento pelos seus dois portos principais no Danúbio, Izmail e Reni, na
esperança que a vizinhança imediata do outro lado do rio de um país da Otan
[aliança militar ocidental], a Romênia, demovesse Putin de ataques.
Não deu certo, e ambas as estruturas também
passaram a ser atacadas. A Otan aumentou a vigilância na área, sem sucesso, e o
risco da campanha foi colocado à prova nesta segunda, horas antes do encontro
entre Putin e Erdogan.
Um ataque intenso, de três horas e meia com drones
kamikazes, atingiu Izmail. Segundo o Ministério das Relações exteriores, ao
menos dois aparelhos caíram na Romênia, causando um incêndio cujas imagens
foram postadas em redes sociais.
Rapidamente, o Ministério da Defesa romeno negou
ter havido danos ou ameaças militares. Horas depois, a chanceler Luminita
Odobescu disse a repórteres em Berlim: "Claro, há um risco de acidentes ou
incidentes, mas não foi o caso desta vez". Pode ou não ser verdade, mas o
que é certo é que Bucareste buscou evitar uma escalada.
A chancelaria em Kiev afirmou que tinha
"evidências" sobre sua afirmação, mas a tendência é de contenção de
danos, uma constante da Otan, que busca evitar uma Terceira Guerra Mundial: se
Bucareste se declarasse atacada pelos russos, os outros 30 membros da aliança
teriam de intervir para socorrê-la.
A crise no mar Negro gerou outros impactos. Sem uma
Marinha de fato, Zelenski passou a empregar uma armada de drones aquáticos para
ameaçar a Rússia. Atingiu um navio de guerra e um petroleiro, que foram
avariados, além de manter as tentativas de ataque contra a simbólica ponte que
liga a Crimeia anexada à região russa de Krasnodar.
Kiev chegou a ameaçar um bloqueio ao tráfego de
navios dos seis portos russos no mar Negro, por onde passa 2% da produção
mundial de petróleo, enviada para os países que não aplicaram sanções a Moscou,
como Índia e China. Por incapacidade ou falta de oportunidade, nada aconteceu.
Essa nova frente marítima da guerra é um dos
aspectos da fase atual do conflito, marcado pela dificuldade da Ucrânia em
fazer avançar sua contraofensiva, lançada em 4 de junho. Houve sucessos
pontuais, mas também um renovado ataque russo no nordeste do país, na região de
Kharkiv, que ameaça as linhas de Zelenski.
O ritmo lento, somado a um histórico de acusações
de corrupção, acabou derrubando neste domingo (3) o ministro da Defesa
ucraniano, Oleksii Reznikov. Ele será substituído por Rustam Umerov, que
participou das negociações infrutíferas com a Rússia no começo da guerra e
também da confecção do primeiro acordo de grãos.
Fonte: Deutsche Welle/IstoÉ/FolhaPress

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