segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Vítimas nuas, dopadas e torturadas: o horror na clínica de pastores

Dependentes químicos, deficientes intelectuais e idosos viviam um verdadeiro horror dentro de um centro terapêutico comandado por um casal de pastores em Goiás. Cinquenta pacientes, com idades entre 14 e 96 anos, foram resgatados dessa clínica pela Delegacia do Idoso, da Polícia Civil, na última terça-feira (29/8).

Cinco vítimas relataram em depoimentos a rotina de torturas e humilhações à qual eram submetidas nessa instituição, que funcionava em uma chácara na zona rural de Anápolis. O Metrópoles teve acesso aos documentos com os testemunhos.

Nos relatos, as vítimas contam que os pacientes com deficiência considerados mais “problemáticos” eram amarrados, levavam banhos de água gelada, tinham suas roupas arrancadas e ficavam nus, como forma de castigo. Também ocorriam agressões físicas e verbais, inclusive com ameaças.

“O autista conhecido como ‘Dudu’ era amarrado e agredido pelos monitores”, revelou um interno. “Amarravam o autista e tacavam remédio nele”, contou outro. Um dos internos, dependente químico, disse que ficou três dias dopado, após tomar medicamento sem prescrição médica.

Os pacientes da Amparo Centro Terapêutico não recebiam atendimento médico e ficavam nas mãos de poucos funcionários. O local era coordenado por Angelo e Suelen Klaus, casal de pastores da Igreja Batista Vida Nova. Eles mantinham distância dos internos, segundo as testemunhas.

A pastora foi presa, e o pastor está foragido. Ele escapou por um matagal quando a polícia chegou ao estabelecimento. Outras quatro pessoas que trabalhavam no local também foram detidas. Suelen nega que soubesse das torturas e diz que era apenas uma funcionária administrativa.

O delegado que apura o caso, Manoel Vanderic, continua a investigar os estabelecimentos do pastor. A polícia resgatou outras 43 pessoas em uma segunda chácara administrada por Angelo Klaus na sexta (1º/9), que também funcionava clandestinamente. Dois empregados fugiram, mas já foram identificados.

•        Humilhação

Pelo menos três vítimas relataram que um paciente com deficiência intelectual de apelido “Gasolina” era constantemente torturado.

“Quando ele ficava pedindo por cigarros ou outras coisas, baldes de água fria eram jogados nele. Chegou ao extremo de a roupa dele ser tirada na frente de todo mundo e a cueca ser puxada para cima. Os internos eram dopados para não dar trabalho”, disse uma das vítimas em depoimento.

Um homem de 40 anos, que foi parar na clínica para tratar o alcoolismo, relatou que o pastor Klaus fez várias promessas, mas não as cumpriu, como atendimento psiquiátrico, psicológico e médico. A clínica era divulgada na internet de forma enganosa.

“Foi tudo diferente do que prometiam. Nunca cheguei a ser agredido, até porque eu procurava fazer tudo o que mandavam pra não ser castigado. As pessoas desobedientes eram trancadas no quarto e, caso gritassem para sair, eram amarradas”, contou o homem para a polícia.

As famílias dos pacientes chegavam a pagar uma mensalidade de R$ 1,3 mil para o casal de pastores, conforme depoimentos e documentos anexados ao inquérito. Os familiares só podiam falar com os internos após 30 dias do início da internação. Klaus acompanhava esse momento do contato com parentes, para evitar que falassem mal do tratamento, de acordo com depoimento de uma vítima.

•        Xingamento

A clínica era dividida em duas alas, sendo que uma era voltada para pacientes idosos e acamados. Faltavam fraldas, e os velhinhos permaneciam em lençóis molhados de urina, ou faziam suas necessidades em garrafas de plástico e vasilhames.

“Os idosos que não conseguiam fazer sua própria higiene pessoal acabavam fazendo as necessidades nas roupas, e não tinha ninguém para ajudar eles na higiene”, contou uma vítima para a polícia.

Alguns internos dependentes químicos que ganhavam confiança da administração eram colocados para vigiar os pacientes e passavam a ser chamados de monitores.

Segundo uma das vítimas, esses monitores xingavam os outros internos de palavras como “desgraçado”, “pau no cu”, “viado” e “filho da puta”. Além disso, alguns chegavam a ameaçar, com frases como: “Vou te matar lá na rua”. Também há relatos de puxões de orelha e tapas.

•        Amontoados

Os internos não tinham acesso a toda a chácara e ficavam trancados nos quartos entre as 19h e as 8h.

Um dos internos disse que dividia o quarto com outras 20 pessoas, que usavam o mesmo banheiro. O vaso sanitário vivia entupido, e o cheiro era insuportável.

As refeições, segundo esse interno, era um pedaço de cuscuz e chá no café da manhã. Já na janta e no almoço, a base era arroz e macarrão, sendo salsicha e frango as opções predominantes de proteína. Raramente havia carne vermelha.

“Escutamos relatos desses internos que eles apanhavam para não se manifestarem, não reclamarem da comida, na maior parte vencida”, informou o delegado Manoel Vanderic.

Um interno resgatado tinha um ferimento no antebraço com sinais de infecção. Ele contou que se acidentou com óleo quente na cozinha, quando fritava coxinhas. Não houve atendimento médico, e ele foi orientado a apenas passar uma pomada.

As pessoas resgatadas das duas clínicas foram levadas para um ginásio de Anápolis, onde passam por uma triagem. Nove idosos tiveram de ser hospitalizados por causa de infecções graves e desnutrição.

•        Investigação

As investigações começaram após funcionários do Hospital de Urgência de Anápolis (Heana) procurarem a polícia. Os profissionais desconfiaram da situação depois de admitirem um paciente de 96 anos com claros sinais de agressão, desnutrição, sujeira e mau cheiro, proveniente dessa clínica.

Policiais da Delegacia de Idosos foram então até o endereço da chácara que funcionava como centro terapêutico, mas os funcionários não os deixaram entrar. Por cima do muro, um dos agentes relatou ter visto o pastor Klaus fugindo para um matagal. Quando, enfim, acessou o local, a equipe se deparou com os pacientes amontoados.

Além da pastora Suelen, foram presos Jonas da Silva Geral, Jhonatan Alexandre Silva Santos, Francisco Carlos Lira Junior e Ruimar Marcio Silva Qualhato. Eles vão responder por tortura, maus-tratos e cárcere privado.

•        Defesas

A defesa de Jhonatan pediu a soltura dele por ser réu primário com bons antecedentes. Além disso, segundo o advogado, ele era vítima e tinha de pagar R$ 1.300 mensais, bem como o mesmo valor na hora da matrícula. Testemunhas dizem que ele era um dos monitores que agredia os internos.

Em seu interrogatório, Suelen disse que não tem acesso à área onde os internos permanecem e que sua função é estritamente administrativa. Pontuou ainda que está no processo de recuperação de uma cirurgia bariátrica que fez há cerca de 20 dias. O CNPJ da clínica é no nome do marido de Suelen, Angelo Klaus. O estabelecimento não tinha registros na prefeitura, na vigilância e nos órgãos responsáveis, segundo a polícia.

A reportagem tenta contato com a defesa de Suelen e dos outros presos. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

<><> Internos são encontrados amarrados em outra clínica dos mesmos pastores

Na mesma semana em que 50 pessoas foram encontradas feridas e desnutridas em uma clínica clandestina, na zona rural de Anápolis, a cerca de 55 km da capital goiana, a Polícia Civil resgatou internos de um segundo estabelecimento semelhante, que inclusive, pertence ao mesmo pastor.

A segunda chácara foi localizada pela corporação nessa quinta-feira (31/8), com 43 internos. No local, as pessoas – maioria com deficiência intelectual – estavam trancadas com cadeados e alguns estavam amarrados. Segundo o delegado responsável pela investigação do caso, Manoel Vanderic, os suspeitos Ângelo Máio Klaus Júnior e Suelen Amaral Klaus tiveram a prisão preventiva decretada. No entanto, apenas a mulher foi presa, o homem é considerado foragido.

•        Local insalubre

De acordo com a polícia, assim como a primeira clínica, a segunda chácara foi encontrada em condições insalubres, com alimentos vencidos e medicações sedativas que eram aplicadas nos pacientes sem receita ou qualquer orientação médica.

Os internos que conseguem se comunicar relataram agressões físicas e contaram ser soltos apenas duas vezes por dia, para refeições.

A polícia explicou que os 43 resgatados foram levados para o albergue montado pela prefeitura no estádio municipal, onde passam por triagem para identificação e recambiamento, já que a maioria é de outros estados. Alguns dos internos precisaram ser hospitalizados, de acordo com o delegado.

A Polícia Civil ainda explicou que dois seguranças do local fugiram com a chegada da polícia. Ao todo, seis pessoas foram autuadas em flagrante e foram presas preventivamente.

 

       Pastores são donos de clínica clandestina que torturava pacientes

 

Os proprietários da clínica clandestina onde 50 pacientes eram mantidas em cárcere privado e sofriam tortura, são pastores de uma igreja evangélica em Anápolis, a cerca de 55 km da capital goiana. De acordo com a Polícia Civil, o casal de religiosos se identifica como Junior e Suelen Klaus.

Conforme a corporação, o homem está foragido, já a esposa dele, que é servidora da Companhia Municipal de Trânsito e Transporte (CMTT) de Anápolis, foi presa durante a operação que aconteceu na noite de terça-feira (29/8). Além da mulher, outras cinco pessoas foram presas e devem responder por tortura e cárcere privado qualificado.

Por meio de nota, a prefeitura de Anápolis informou que “ao tomar conhecimento da situação irá exonerar a servidora.

•        Foragido

De acordo com o delegado responsável pelo caso, Manoel Vanderic, o pastor fugiu da clínica por uma mata. O local fica na zona rural do município e ele chegou a ser procurado na região, mas, até o momento, não foi localizado. O líder religioso é pastor da Igreja Batista Nova Vida de Anápolis.

Além da pastora, outros quatro funcionários, investigados por agredir as vítimas, foram presos. Segundo a Polícia Civil, “todos responderão por tortura e cárcere privados qualificados e foram recolhidos na cadeia pública, com exceção de um, que fugiu durante a diligência e segue sendo procurado.”

•        Tortura

Cinquenta pessoas, que eram mantidas em cárcere privado e sofriam tortura em uma clínica clandestina localizada na zona rural de Anápolis (GO), foram resgatadas durante uma operação da Polícia Civil na terça-feira (29/8). As vítimas são homens, entre 14 e 96 anos. Entre eles, há pacientes com deficiência intelectual, cadeirante, autista e alguns dependentes químicos.

Os pacientes eram trancados em ambiente insalubre e tinham alimentação precária. Os responsáveis não forneciam medicação ou acompanhamento médico.

Consta nas investigações que eles foram levados de forma ilegal e involuntária ao local, onde eram confinados mediante pagamento de, no mínimo, um salário mensal. Vários apresentavam lesões graves, desnutrição e confusão mental compatível com sedação.

As vítimas foram acolhidas pelos serviços de saúde mental e assistência social da Prefeitura de Anápolis, onde passaram a madrugada desta quarta-feira (30/8) recebendo alimentação, higiene e primeiros socorros. Os pacientes foram acomodados no estádio da cidade, local onde foi montada uma força-tarefa para recebê-los.

Os servidores municipais realizaram a identificação das vítimas e tentam localizar familiares, já que muitos são de outros estados da Federação. Alguns precisaram de hospitalização e foram resgatados pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

 

Fonte: Metrópoles

 

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