Silêncio de Michelle e Jair Bolsonaro em depoimento soa como confissão
e não conterá danos da investigação
IMAGINE QUE VOCÊ ESTÁ
SENDO injustamente acusado de cometer crimes
graves. Você perderia a oportunidade de esclarecer às autoridades os fatos que
provam sua inocência? Certamente não. Jair Bolsonaro e Michelle
Bolsonaro abriram mão dessa chance e aderiram ao silêncio em
depoimento à Polícia Federal no caso do roubo das joias. É a primeira vez na história do país que um ex-presidente
investigado se recusa a responder às perguntas dos investigadores.
A escolha do silêncio diante do interrogatório está
garantida por lei. A não autoincriminação é um direito constitucional. Mas é
estranho, para dizer o mínimo, que alguém convicto da sua inocência abra mão de
se defender e recorra ao direito de não produzir provas contra si mesmo. O
silêncio do casal, portanto, é barulhento e soa como uma confissão. Só recorre
ao direito constitucional de ficar calado quem admite a existência da
possibilidade de se autoincriminar.
Além deles, outras seis pessoas foram intimadas a
depor simultaneamente na Polícia Federal. O secretário de Comunicação e
advogado Fabio Wajngarten e o ex-assessor do presidente, Marcelo Câmara, também
optaram pelo silêncio, o que sugere uma coordenação entre as defesas.
Em ofício
enviado ao STF, os advogados do casal Bolsonaro afirmaram que só
“prestarão depoimento” ou “fornecerão declarações adicionais” quando o caso
sair do Supremo e for remetido à primeira instância. Para eles, o caso deveria
voltar para a 6ª Vara Federal de Guarulhos, onde fica o aeroporto no qual o
primeiro kit de joias foi apreendido pela Receita Federal. O argumento é
sustentado por um parecer da então vice-procuradora-geral da República Lindôra
Araújo, que solicitou
ao STF que o caso fosse transferido para lá.
Como se sabe, Lindôra é parça da
família Bolsonaro, sendo muito próxima de Flávio Bolsonaro.
Alexandre de Moraes, que é o juiz do caso, negou o pedido da PGR. É dele a
prerrogativa de definir a competência das investigações. Em outras
oportunidades, Moraes
deixou claro que a apuração sobre o roubo das joias tem
conexão com outras investigações em curso contra Bolsonaro no STF, como o
inquérito das Fake News e o das Milícias Digitais. Esse fato é suficiente para
se manter o caso no STF. A manobra dos advogados de defesa é, portanto,
puramente diversionista. A chance de uma mudança de foro é zero, e eles sabem
disso.
O objetivo da Polícia Federal com a convocação de
depoimentos simultâneos era o de evitar respostas combinadas entre os depoentes
e identificar contradições. Os advogados recomendaram aos seus clientes o
silêncio justamente por saberem que a exposição dessas contradições seria
inevitável.
Mas nem todos optaram por silenciar nos
depoimentos. O ex-ajudante de ordens Mauro Cid, seu pai César Lourena Cid, o
ex-assessor do presidente Osmar Crivelatti e o advogado da família Bolsonaro
Frederick Wassef responderam às perguntas dos investigadores. Isso sugere que
as defesas desse grupo não atuam em coordenação com a defesa de Bolsonaro. Já
se sabe que Mauro Cid tem feito muitas revelações para a Polícia Federal, não
apenas sobre o caso das joias. Segundo apuração
da jornalista Andrea Sadi, Mauro Cid já deu detalhes
sobre reuniões e conversas que objetivavam a tentativa de um golpe de estado
para manter Bolsonaro no poder após a derrota nas eleições.
Wassef é outro que, apesar de ter demonstrado
lealdade à família Bolsonaro até agora, tem alto potencial para complicá-la
criminalmente. O advogado é um sujeito instável, falastrão, com serviços
obscuros prestados para Bolsonaro. Lembremos que ele ajudou a esconder em sua
casa um amigo do então presidente, Fabrício Queiroz, que estava foragido da
justiça.
O seu silêncio valeria ouro — perdão pelo
trocadilho — para os Bolsonaro, mas ele optou por falar aos investigadores. No
caso do roubo do Rolex, Wassef já havia mudado diversas vezes de versão antes
do depoimento. Começou dizendo que nunca havia visto o relógio e terminou
confessando que foi aos EUA para comprá-lo. Com os fatos escancarados pelo
avanço das investigações, o advogado se viu obrigado a confessar.
A Polícia Federal apreendeu quatro celulares de
Wassef, sendo um deles usado exclusivamente para falar com Jair Bolsonaro.
A perícia
foi feita nos aparelhos e trouxe novas
revelações e detalhes sobre as negociações, os pagamentos e o destino da grana
obtida com o esquema criminoso de venda das joias. Os policiais investigam
também o registro de um arsenal composto por 32 armas de propriedade de Wassef,
sendo 12 delas fuzis. A PF não encontrou o arsenal no apartamento do advogado
e desconhece
o seu paradeiro.
Nesta semana, Flávio Bolsonaro declarou
confiar na lealdade de Wassef. Ocorre que, ao que tudo indica, a
PF já tem elementos suficientes para provar que Bolsonaro e Michele receberam a
grana obtida no esquema de venda das joias organizado por Mauro Cid. As
investigações estão tão avançadas que a lealdade de Wassef no depoimento não
será suficiente para poupar a família Bolsonaro.
A estratégia de ficar em silêncio adotada pela defesa
do casal não terá muita serventia no resultado final desse inquérito. Os
depoimentos de Mauro Cid e os diálogos encontrados nos celulares de Wassef já
falam alto o suficiente. As investigações avançam, as provas do crime se
acumulam e já não há nada que a defesa possa fazer para segurar essa bola de
neve que corre ladeira abaixo. Tic, tac.
Ø O que significa assumir tudo, coronel Mauro Cid?. Por Moisés Mendes
Advogados de grandes criminosos devem estar
assombrados com os dribles que o defensor do coronel Mauro Cid aplica há duas
semanas na grande imprensa. Cezar Bitencourt está toureando os jornalistas das
corporações como se lidasse com estagiários afoitos em busca de furos. Todos
são usados e enrolados.
Desde que assumiu o caso, em 15 de agosto, Bitencourt
joga à vontade. Começou dizendo que Cid confessaria tudo e deixaria claro que
cumpria ordens do presidente. Na sequência, afirmou que não havia dito nada.
Logo depois, admitiu que seu cliente participou da venda de joias, e no dia
seguinte corrigiu que se referia não a joias em geral, mas apenas ao relógio
Rolex.
Bitencourt diz ou manda que alguém diga, no ouvido
de jornalistas das corporações, o que quer ver publicado. Um blefe recente, que
os jornalões também atribuíram a ele, sugeriu que o coronel estava disposto a
colaborar com a Polícia Federal.
Bitencourt fez circular, com cara de vazamento para
a imprensa, que Cid havia encaminhado um pré-acordo com a PF, sem esclarecer do
que trataria esse acerto. Em todas as idas e vindas, o advogado usou a imprensa
para mandar o recado, recuar, criar uma informação dada como categórica mais
adiante, recuar de novo, até produzir, na sexta-feira, um vídeo com a
declaração de que Cid livraria Bolsonaro.
Cid havia assumido tudo. As mais de 10 horas de
depoimentos à PF na quinta-feira, entendidas como uma maratona para detalhar os
rolos e os personagens dentro do Palácio do Planalto, seria apenas para
incriminá-lo, segundo a última versão do advogado. O mandalete de Bolsonaro,
assumidamente mandalete, depõe da manhã à noite para passar à PF detalhes de
operações que transferem para ele toda a responsabilidade dos crimes. Mas quais
crimes?
O que temos agora é que Cid assumiu tudo, e são
desprezadas todas as informações anteriores desde a declaração de que ele
cumpria ordens. Parece que assim fica tudo bem para Cid, para o pai dele, para
o Exército, para Bolsonaro, para Michelle. Mas não fica. Porque podemos estar
de novo diante de mais um blefe e porque a informação do advogado é genérica e
incompleta.
Nas notícias sobre o pré-acordo, a grande imprensa
informou que o ajudante poderia detalhar todas as operações nas quais se
envolveu, das joias, da fraude do cartão de vacina e do golpe. Na última
informação, de sexta-feira, a fraude e o golpe desaparecem e fica apenas a
declaração do advogado de que Cid assumiu tudo. Tudo o quê? Tudo sobre a venda
e a recompra do relógio e tudo sobre os pagamentos que fazia com dinheiro de
Bolsonaro, porque o chefe nem cartão de crédito tinha? Só?
Falta esclarecer o que é o tudo que ele assume e
falar sobre a fraude da vacina e as articulações do golpe. O advogado pode
estar, segundo um antigo verbo, tergiversando para enrolar quem deseja ser
enrolado. Pode estar confundindo a imprensa com mais uma versão. E pode ele
mesmo estar confuso por ter perdido o controle da situação.
“O Cid assumiu tudo, não colocou Bolsonaro em
nada”, afirma o advogado. E fica em aberto o que o tudo e o nada representam no
conjunto da obra. Talvez não signifiquem nada mesmo. O tal pré-acordo seria
para assumir a bronca e livrar Bolsonaro, e os jornalistas que passavam as
mensagens adiante entenderam errado?
Mauro Cid está exaurido. O coronel precisa de um
acordo, mas consigo mesmo, que pese a sua situação de possível ex-militar, a
situação do pai dele, de Bolsonaro, de Michelle, dos oficiais amigos com os
quais trocava mensagens e das Forças Armadas. É um acordo complexo, antecedido
pela disseminação de mensagens enviesadas para, enganando a imprensa, testar
reações, principalmente dos militares, e ganhar tempo para decidir o que de
fato fazer.
Não exagera quem suspeitar que, por motivos
oferecidos por outras situações com desfechos ruins e até trágicos, Mauro Cid
esteja sentindo um medo que ex-aliados dos Bolsonaros já sentiram.
Ø Procuração passada a assessor mostra que Bolsonaro quis se blindar no
caso das joias
Duas semanas antes de expirar seu conturbado
mandato, quando ainda não estava na mira da Polícia Federal (PF) por
envolvimento com suposta trama para venda de joias sauditas, o ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL) fez uma procuração em cartório por meio da qual conferia a
um de seus assessores, coronel Marcelo Costa Câmara, poderes para cuidar do
acervo de presentes que ganhou durante os quatro anos de mandato (2019-2022).
Os investigadores trabalham com a hipótese de que
Bolsonaro, com a procuração passada em nome de Câmara, já buscava se eximir de
qualquer responsabilidade sobre a guarda e destinação do tesouro.
O fato de o ex-presidente ter tomado essa precaução
reforça, na avaliação de fontes da investigação, a suspeita de que o entorno de
Bolsonaro já previa problemas com a Justiça.
O documento, registrado em 16 de dezembro de 2022,
consta em um dos inúmeros apensos da investigação, que trata sobre o inventário
dos presentes organizado pelo Gabinete Adjunto de Documentação Histórica da
Presidência da República. O volume, ao qual o Estadão teve acesso, tem 1909
páginas.
“Declaro o senhor Marcelo Costa Câmara, para os
devidos fins, como meu representante legal no que se refere aos acervos
presidenciais privados”, diz a procuração com firma reconhecida.
Para investigadores a procuração não foi um mero
detalhe burocrático. Àquela altura, alijado do Palácio do Planalto nas eleições
de outubro, Bolsonaro já estaria preparando sua estratégia para evitar o que se
avizinhava – o escândalo dos presentes da Arábia Saudita.
O ex-presidente e seus assessores foram envolvidos
em uma trama de venda e recompra de peças que teriam desviado do acervo
presidencial. Os presentes chegaram a ser negociados em lojas especializadas na
venda de artigos de luxo nos Estados Unidos e até anunciados em sites de
leilão, conforme descobriu a PF.
Marcelo Costa Câmara é coronel do Exército e foi
assessor especial do gabinete de Bolsonaro. Ele permanece como auxiliar do
ex-presidente após o fim do governo. Seria ouvido quinta-feira pela Polícia
Federal, em uma rodada de depoimentos simultâneos com outros investigados, mas
decidiu ficar em silêncio.
Relatório parcial da investigação aponta que Câmara
teve participação direta no que a PF chama de “operação resgate” – movimentação
para recuperar presentes negociados ilegalmente e devolver os itens ao
patrimônio público, após ordem do Tribunal de Contas da União (TCU).
Ø Bolsonaro ignora investigação das joias sauditas e fala de 'página
virada' em evento do PL
Jair Bolsonaro ignorou as denúncias do escândalo das joias sauditas durante um
evento do PL Mulher em Brasília neste sábado (2), enquanto sua esposa, Michelle
Bolsonaro, disse sofrer "assassinato de reputação". De acordo com o
relato da Folha de S. Paulo, Bolsonaro disse durante
seu discurso no evento que deu "tudo de si" nos últimos quatro anos e
que o ano passado "é página virada".
Por sua vez, Michelle foi mais incisiva, afirmando
que "estão querendo apagar o legado" do que fizeram no governo de
Jair Bolsonaro e pediu para que "estejam atentos a mentiras". Ela
também disse que teve depressão em 2019 e que pensou "até em morrer"
por 'ataques' que recebeu da mídia.
Michelle disse ainda ser alvo, junto com o marido,
de "assassinato de reputação". "Não liguem para as narrativas
que estão construindo para nos difamar, para assassinar a nossa reputação.
Estão querendo apagar o nosso legado", disse.
A Polícia Federal (PF) está investigando Jair
Bolsonaro e Michelle Bolsonaro por alegações de tentativa de importação e venda
ilícita de joias, presenteadas pelo governo da Arábia Saudita, com valor
estimado em milhões de reais.
Fonte: The Intercept/Agencia Estado/Brasil 247

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