domingo, 3 de setembro de 2023

Sensação de cansaço o tempo todo? Mudança de hábito ao acordar pode aumentar disposição ao longo do dia

A grande maioria dos brasileiros sente algum tipo de dificuldade para dormir, seja por conta da insônia ou qualquer outro tipo de distúrbio do sono, o que pode ser um dos motivos para o sentimento de cansaço excessivo durante o dia. Uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que mais de 70% dos brasileiros sofrem com algum distúrbio relacionado ao sono. Além disso, um levantamento feito pela YouGov mostrou que uma a cada oito pessoas se sente cansada o tempo todo, enquanto um em cada quatro entrevistados relata estar cansado a maior parte do tempo.

Entretanto, os problemas na hora de dormir não são os únicos culpados nesse sentimento de cansaço excessivo que aflige grande parte da sociedade. Alguns comportamentos matinais que são comumente cometidos podem potencializar o cansaço durante o dia. Por isso, ações tomadas logo ao acordar podem ajudar a sentir-se mais descansado ao longo do dia.

Boa parte de manter o processo de se tornar ativo e estar disposto o dia inteiro está relacionada à manutenção de rotina, que tem início desde a hora de dormir, conforme explica o fisiologista e professor dos cursos de Educação Física e Enfermagem da Universidade Positivo (UP), Ricardo Cunha. “A programação do sono nos diz que deve haver uma programação de pelo menos 30 minutos antes de se deitar. Por exemplo, tomar um banho relaxante, com uma temperatura mais alta, causa a vasodilatação e gera uma maior circulação de sangue; diminuir os elementos estimulantes, como TV, celular, tablet, e as luzes do ambiente também faz parte da ‘higiene do sono’”, detalha Ricardo, ressaltando que, a partir disso, é criada uma rotina, que é essencial para o cérebro conseguir descansar, pois grande parte do cansaço físico vem de ordem psíquica.

O professor aponta que sair ao ar livre logo nos primeiros instantes após acordar pode contribuir para uma série de condições hormonais, com a produção de dopamina e serotonina no cérebro, aumentando a disposição para o resto do dia, pois o corpo humano precisa da homeostasia, que é o equilíbrio do organismo. “Entretanto, depende também da condição ambiental dessas primeiras horas do dia. Sair em um ambiente muito frio não favorece tanto quanto a gente pensa, pois essa variação de temperatura e a baixa luminosidade podem causar um estresse fisiológico”, alerta.

Outro comportamento comum do brasileiro é beber uma xícara de café imediatamente após acordar. No entanto, esse hábito pela manhã pode ser um importante fator para a sensação de cansaço ao longo do dia, pois, durante o sono, alguns hormônios são mais atuantes nesse período de grandes horas de jejum, como o GH, que é responsável por tentar preservar a massa muscular, e, ao acordar, é preciso diminuir a atuação desse hormônio até que o corpo melhore, aos poucos e naturalmente, as condições de absorção energética. “O café causa um choque muito grande ao ser ingerido imediatamente após acordar, pois a pessoa estava em uma área muito latente, como é o sono, e a ingestão de cafeína interfere na homeostase do corpo, criando um estresse que pode gerar um desequilíbrio do organismo”, alerta Ricardo.

O especialista aponta que outra questão que interfere no cansaço durante o dia é a brusca queda de temperatura que o corpo sofre no despertar. Ricardo explica que, ao dormir, o metabolismo é desacelerado, o que nos torna mais suscetíveis a sentir frio. O corpo precisa manter a temperatura de homeostase por volta de 37 graus, por isso a necessidade de usar cobertor durante o sono. “Ao acordar, a pessoa se expõe a uma temperatura diferente da que estava, causando um estresse fisiológico por conta da variação de temperatura. Por isso é importante manter a temperatura do corpo ao acordar, para evitar esse choque térmico que, além de interferir no cansaço, pode ser um gatilho para reações alérgicas, como a rinite, por exemplo”, revela Ricardo, que recomenda praticar exercícios físicos ou tomar um banho gelado logo após levantar da cama para aumentar a temperatura interna do corpo.

Segundo o especialista, manter uma alimentação minimamente saudável durante o dia, ingerindo uma menor quantidade de alimentos no jantar, e praticar exercícios físicos são comportamentos fundamentais para uma boa qualidade de sono. Além disso, o professor ressalta a importância de respeitar os hábitos saudáveis próximo à hora de dormir. “Manter a higiene do sono é fundamental para uma noite bem dormida e, consequentemente, um dia seguinte mais descansado e com mais disposição”, finaliza.

 

       Dor crônica tem relação intrínseca com sono e saúde mental

 

Um portador de dor crônica, embora desenvolva mecanismos para lidar com seu sofrimento (diário e constante), com o intuito de se manter produtivo, nunca consegue se desligar totalmente da agonia que sente, pela própria natureza de sua condição. Ainda mais, explica a médica intervencionista em dor e autora do livro “Existe vida além da dor” dra. Amelie Falconi, porque esse sofrimento nunca vem sozinho. Com ele arrasta uma série de limitações que impedem seu portador de levar uma vida plenamente satisfatória. Não à toa, a maioria dos pacientes atendidos pela médica durante anos de prática clínica reclamam inicialmente de desejos, sonhos e momentos que foram roubados pela dor, em vez da própria dor.

A dor interfere em diversos aspectos da vida, mas dois deles, segundo dra. Amelie, merecem maior destaque, por terem como característica não serem apenas influenciados pela dor, como também serem fatores que causam impacto nela, agravando-a, quando negligenciados. Estes aspectos são: o sono e a saúde mental. “Juntos, a dor crônica, o sono e a saúde mental formam um sistema de retroalimentação, no qual a presença da dor impacta negativamente o sono e a saúde mental, aumentando a intensidade de problemas relativos a estes dois fatores, que respondem da mesma maneira e aumentam a intensidade da dor”, explica.

Que a dor pode interferir no sono, parece óbvio, tanto que existe um termo cunhado por portadores de dor crônica para descrever essa condição: painsônia, (uma junção de dor, em inglês, com insônia) que diz respeito à incapacidade de adormecer devido a dores prolongadas e intensas. Contudo, de acordo com a médica intervencionista em dor, estudos epidemiológicos mostraram que a má qualidade e a duração insuficiente do sono são fatores de risco para o desenvolvimento de dor crônica. “Existem ainda evidências de que um sono curto e perturbado pode causar amplificação da dor (hiperalgesia) e desenvolvimento de sintomas espontâneos de dor, como dores musculares ou dores de cabeça”, diz.

A relação bidirecional entre dor crônica e a saúde mental também é facilmente comprovada empiricamente. Segundo dra. Amelie, é muito difícil alguém sofrer tantos anos com dor sem apresentar algum impacto na saúde mental, ao mesmo tempo que, em seus anos atendendo pacientes com esse tipo de condição, não raramente ouviu de seus acompanhantes, que a dor costumava piorar quando eles ficavam nervosos. Uma das explicações para essa associação pode residir no fato que a dor crônica e a saúde mental compartilham as mesmas áreas anatômicas e mecanismos neurais no sistema nervoso, conforme mostram estudos científicos. “Como as duas funções compartilham áreas semelhantes, elas acabam interferindo no funcionamento da outra”, explica a médica.

Dessa forma, levando em consideração a relação intrínseca entre sono, saúde mental e dor crônica, não há como tratar essa sem zelar pela boa qualidade daquelas. E para isso, segundo a médica intervencionista em dor, não basta tomar medicamentos visando dormir melhor ou combater distúrbio emocionais, como a  depressão ou a ansiedade. “Os remédios possuem um papel importante, mas a abordagem dessas situações vai muito além de um comprimido ou vários”, pondera. Para tratar de maneira eficiente a insônia e distúrbios psiquiátricos, é necessário também, conforme dra. Amelie, combater as raízes destes problemas associadas ao estilo de vida. Isto porque, um sono de baixa qualidade e distúrbios psiquiátricos muitas vezes refletem uma saúde ruim, que por sua vez está relacionada diretamente a um estilo de vida ruim. Inversamente, uma boa saúde está ligada a um estilo de vida saudável.

A médica intervencionista compara o tratamento da dor crônica em um paciente com saúde de boa qualidade ao plantio de sementes em um solo bem-preparado: com nutrientes, irrigado, sem ervas daninhas e com iluminação adequada. “É óbvio que a colheita tem mais chances de dar certo em um solo assim do que em um terreno descuidado, abandonado”, diz. Do mesmo modo, segundo a médica intervencionista em dor, as chances de uma pessoa com um estilo de vida saudável colher resultados melhores em um tratamento para dor crônica são maiores do que de uma pessoa com estilo de vida ruim.

Então, conforme dra. Amelie, como parte do planejamento estratégico em busca do alívio das dores, é imprescindível que sejam realizadas alterações no estilo de vida. “Assim, o portador de dor crônica zela por seu sono e por sua saúde mental e consequentemente trata suas dores”, diz. Além disso, ao adotar um estio de vida mais saudável o paciente ganha um outro prêmio: aumento com qualidade na sua expectativa de vida. A médica intervencionista em dor ressalta que o fato de as pessoas estarem vivendo mais atualmente não significa que estão vivendo melhor. “O aumento da expectativa de vida tem gerado uma maior incidência de doenças crônicas que provocam limitações na vida. Ao realizar mudanças no estilo de vida agora, é possível prevenir e tratar estas doenças crônicas”, conclui.

 

Fonte: Saúde & Bem Estar 

 

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