terça-feira, 5 de setembro de 2023

Perícia da PF dos crimes de 8 de janeiro esmiúça milhares de dados

Rostos que passam de frente para as câmeras de monitoramento. Mensagens de áudio, vestígios biológicos, impressões digitais, fotos, pistas deixadas em ônibus ou nos telefones celulares. Desde o dia 8 de janeiro, há quase 8 meses, os peritos criminais da Polícia Federal sabem que os trabalhos de investigação com a coleta de provas não tem data para acabar. “Não há prazo porque os materiais continuam chegando”, disse o diretor do Instituto Nacional de Criminalística (INC), Carlos Eduardo Palhares, em entrevista à Agência Brasil. Todas as pistas e vestígios, de agressores a financiadores dos ataques, são fundamentais para coleta de provas daquela série de crimes que marcou a história do Brasil.

Para se ter uma ideia, nos palácios sedes dos Três Poderes, invadidos e depredados, os sistemas de câmera de monitoramento identificaram mais de dois milhões de rostos nos vídeos. Referem-se às mais de duas mil pessoas investigadas que fizeram os ataques. As identificações encontram cada movimento deles dentro dos prédios.

 “É um trabalho de reconstrução. O trabalho continua, principalmente na busca pelos elementos audiovisuais e no setor da informática. Mas a gente segue à disposição de tudo o que a investigação demandar”, disse o diretor do INC. Ele participou, nesta semana, em Brasília, do InterForensics, o maior evento de ciências forenses da América Latina.

Os trabalhos sobre o 8 de janeiro são considerados muito singulares entre os profissionais de perícia. “É um trabalho de rastreio. São quase duas mil horas de gravação, e envolve muitos peritos porque é uma atividade que não dá pra colocar o computador para fazer”, explica Palhares.

Em outras situações, o computador é fundamental porque foram apreendidos mais de 800 telefones celulares, e com ferramentas, é possível buscar com palavras até os áudios gravados. A automatização também permite, por exemplo, localizar imagens nos aparelhos a partir de procuras de rostos de pessoas.

As análises de celulares de pessoas que foram presas nas 15, até agora, fases da Operação Lesa Pátria, estão entre as tarefas. “A gente está fazendo também a identificação do valor do dano das obras de arte, que a gente chama de obras de patrimônio cultural”, informou. São ações fundamentais para a materialização do dano, acrescenta.

•        A maior perícia

A investigação é detalhista e cada informação se junta com outra para organizar o quebra-cabeças. Palhares disse que essa foi a operação, em curto período de tempo, com a maior mobilização de setores da perícia. É preciso contatar os autores por imagens, impressões digitais, materiais genéticos. “Buscamos materialidade, autoria e dinâmica dos eventos. Nesse caso, pela proporção que foi o evento, e pela quantidade de envolvidos e também pelo que representava à democracia brasileira, era um caso muito complexo”, avalia o diretor do INC.

De acordo com Palhares, mesmo com a complexidade, as equipes buscaram ser céleres para atender as necessidades demandadas pela Justiça. “Foi preciso acessar várias áreas da criminalística para trazer as respostas”, disse. Ele recorda que, quando as equipes chegaram aos palácios dos Três Poderes, puderam constatar uma infinidade de vestígios pelo chão que poderiam ajudar na identificação das pessoas.

“No campo da criminalística da PF usamos muito os dados genéticos para identificação das vítimas e dos autores. O perito de local coleta e manda para os laboratórios. Como foi uma mega mobilização, foram peritos de todas as áreas para atuar”, revelou. Foram organizadas inicialmente oito equipes. Em cada uma delas, havia especialistas em genética para que a coleta de material ocorresse da forma correta.

•        Dinâmica dos eventos

As imagens foram utilizadas para identificação e também para entendimento da dinâmica dos crimes. Os peritos chamam essa fase como “análise de conteúdo”. A documentação do local envolveu atividades detalhistas e exaustivas. “Essa documentação demandou o uso de equipamentos especiais, como drones, câmeras 360 graus, scanner 3D e equipes próprias para fazer esse tipo de trabalho”.

Para realizar o trabalho, segundo Palhares, foi demandado um serviço de perícias em audiovisual e eletrônicos. Cada imagem é considerada um vestígio. A coleta pela equipe é de documentação de local a fim de compreender as cenas de crimes.

Somente no primeiro dia foram 75 peritos em ação. Depois, pelo menos 80 peritos passaram a fazer coleta de material de referência entre as pessoas que foram presas na penitenciária da Papuda (homens) e da Colmeia (feminino). No total, mais de 100 peritos atuaram e atuam para encontrar as provas.

“Foram apreendidos muitos celulares, e isso demanda muito trabalho da área de informática”, explicou. Outros materiais investigados foram os veículos que transportaram as pessoas que participaram dos atos daquele dia. Foram mais de 100 ônibus periciados.

Nos três primeiros meses, os peritos entregaram os laudos de local de crime, os de genética para identificar autoria e também os resultados dos crimes contra o patrimônio cultural. Mas as demandas foram mudando por causa das imagens que surgiam. “Assim, tem sido possível identificar o que cada pessoa fez dentro dos palácios”, explicou Palhares.

 

       Ex-nº 2 do GSI admite caráter violento de 8/1

 

Ex-número 2 do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, o general Carlos José Assumpção Penteado avaliou a manifestação do 8 de Janeiro como “muito violenta” e disse que foi agredido.

Ele presta depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Atos Antidemocráticos, em andamento na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), nesta segunda-feira (4/9).

Penteado ocupava o cargo de secretário-executivo na gestão de Augusto Heleno, e se manteve no posto após a transição. Nas redes, fazia diversas críticas ao partido do presidente Lula (PT). Ele acabou sendo exonerado do cargo e substituído pelo general Ricardo José Nigri ainda em janeiro.

“Era uma manifestação muito violenta. […] Tivemos gente que nos agrediu naquele dia, eu fui agredido, mas, graças aà proteção dos soldados, não fomos atingidos por pedras, extintores, cadeiras e tudo mais.”

Penteado, porém, opinou que nem todos os manifestantes eram violentos. “Muita gente permaneceu na Esplanada, na Praça dos Três Poderes. Tínhamos manifestantes extremamente violentos, tínhamos gente que permaneceu no centro da Esplanada, tivemos gente que estava na Praça dos Três Poderes e tivemos quem invadiu Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo.”

O militar, agora na reserva, afirmou que “não há a mínima possibilidade de um integrante do Gabinete de Segurança Institucional sabotar qualquer autoridade desta República”. “Os militares que ali estão têm plena consciência do dever funcional. Somos servidores do Estado, servimos a nação brasileira”, argumentou.

Em outro momento, o general levantou que houve falha do “fluxo de informações”.

“Olhando para o retrovisor, houve falha. Não de planejamento, mas do fluxo de informações. Trabalhamos com sensores, que vão adquirir a informação, e era feito pela Abin. Trabalhamos com decisores, que são aqueles que recebem a informação. A medida que vão recebendo a informação, decidem e mandam para os atuadores. Tivemos quebra nesse fluxo de informação e isso levou a um planejamento do Plano Escudo abaixo daquilo que se verificou.”

Na oitiva da CPI de G. Dias, o ex-chefe do GSI citou que o seu ex-secretário-executivo, o general Penteado, chegou a sinalizar um cenário de tranquilidade às 14h do dia 8 de janeiro.

“Por volta das 14h, eu estava inquieto e preocupado, pois assistia pela TV as manifestações e elas não batiam com o clima de controle que me havia sido descrito. Decidi ligar para o celular general Penteado, que me disse que estava ‘tudo normal’, ‘tudo tranquilo’, e que eu não precisava ir ao Palácio do Planalto. Mas permaneci inquieto e decidi ir até o Palácio.”

G. Dias ainda citou uma briga que teve com seu número 2, com direito a palavrões.

“Peguei um carro disponibilizado pelo tenente coronel Alex, com motorista do GSI. A viatura levou-me à cancela Leste do Palácio do Planalto. O general Penteado foi ao meu encontro. Perguntei a ele o porquê de o bloqueio da frente do Palácio do Planalto, que deveria ter sido feito pela Polícia Militar do Distrito Federal, não havia sido montado. Aquele era o bloqueio do Plano Escudo do Planalto e tinha de estar montado. Não estava. Inclusive, cobrei dele, com um palavrão, o motivo de o bloqueio do Plano Escudo não ter sido montado.”

Ainda segundo o ex-ministro do GSI, o general Penteado não respondeu aos questionamentos dele naquela discussão e só saiu para montar o bloqueio de proteção porque ele deu a ordem. G. Dias era ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República em 8 de janeiro de 2023.

Pressionado após a divulgação de imagens que o mostram circular pelo Palácio do Planalto durante as invasões bolsonaristas, ele pediu exoneração. O anúncio da saída do militar se oficializou em 19 de abril de 2023.

•        Ex-nº 2 do GSI rebate GDias e diz que 8/1 seria diferente com informes

O general Carlos José Assumpção Penteado deu versões conflitantes com o depoimento do ex-ministro Gonçalves Dias. Penteado presta esclarecimentos à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Atos Antidemocráticos, em andamento na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).

Segundo ele, se não houvesse uma “retenção” de informações por GDias, a situação do 8 de Janeiro poderia ter sido diferente.

Também na CPI, anteriormente, o ex-ministro chegou a dizer que Penteado relatou uma situação “tranquila” às 14h daquele dia. “Decidi ligar para o celular general Penteado, que me disse que estava ‘tudo normal’, ‘tudo tranquilo’, e que eu não precisava ir ao Palácio do Planalto. Mas permaneci inquieto e decidi ir até o Palácio”, disse o general GDias.

O depoente desta segunda-feira rebateu: “Esse horário não me lembro se ele me ligou ou não, mas eu dificilmente diria que estava tudo normal, porque não tinha informações e não estava acompanhando”.

“Ele [GDias] recebeu, desde muito antes, todos os alertas que só ficamos sabendo posteriormente, da Abin. Às 8h, ele fala com o diretor da Agência que nós iríamos ter problema, e isso não foi repassado. […] Tivéssemos recebido as informações, a situação teria sido diferente.”

Penteado era o número 2 do GSI, ocupando o cargo de secretário-executivo na gestão de Augusto Heleno, e se manteve no posto após a transição, trabalhando também com o general Gonçalves Dias. Ele acabou sendo exonerado do cargo e substituído pelo general Ricardo José Nigri ainda em janeiro.

Penteado deu entender que houve uma “retenção” de alertas da Abin pelo então ministro GDias, afirmando que eles não foram “disponibilizados oportunamente” para que se acionasse o Plano Escudo, de proteção ao Palácio do Planalto.

O general disse que foi convidado por Dias para se manter no GSI, ressaltou o trabalho de segurança realizado na posse do presidente Lula (PT) e comentou não ter tido acesso aos documentos de alerta para atos antidemocráticos. “Não recebi nenhum relatório, mensagem de WhatsApp ou contato telefônico alertando para a possibilidade de ações violentas na Praça dos Três Poderes”, disse.

O depoente ainda criticou essa falta de informações dizendo que a “dosagem de tropa” seria “bem maior do que aquela aplicada no dia 8” caso os dados da Abin fossem repassados a ele. Segundo ele, a tropa dentro do Palácio do Planalto naquela data contava com 133 militares, “que não foram suficientes para conter os manifestantes”.

•        Críticas políticas

Os deputados distritais levaram para apresentar na sessão uma série de manifestações políticas de Penteado. No Twitter, o general fazia críticas ao Partido dos Trabalhadores e compartilhava pensamentos de João Figueiredo sobre a tentativa da esquerda de implantar o “comunismo” no Brasil. “Minhas opiniões e pensamentos não são norteadores do trabalho funcional”, comentou, na Comissão.

O depoente ainda admitiu o contexto violento da manifestação de 8 de Janeiro, mas avaliou que nem todos os protestantes tinham essa característica.

“Era uma manifestação muito violenta, [mas] tínhamos de tudo. Tivemos gente que nos agrediu naquele dia, eu fui agredido, mas graças a proteção dos soldados, não fomos atingidos por pedras, extintores, cadeiras e tudo mais. Muita gente permaneceu na Esplanada, na Praça dos Três Poderes. Tínhamos manifestantes extremamente violentos, tínhamos gente que permaneceu no centro da Esplanada, tivemos gente que estava na Praça dos Três Poderes e tivemos quem invadiu Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo.”

•        “Não recebi nenhum relatório”, diz ex-nº 2 do GSI sobre 8/1

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Atos Antidemocráticos, em andamento na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), ouve a partir das 10h desta segunda-feira (4/9) o general Carlos José Assumpção Penteado. Segundo o depoente, ele não recebeu relatório sobre manifestações violentas no 8 de Janeiro e o ex-ministro Gonçalves Dias não repassou dados da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

A sessão do colegiado, que normalmente ocorre às quintas, foi adiantada nesta semana por causa do feriado do Dia da Independência.

Penteado era o número 2 do GSI, ocupando o cargo de secretário-executivo na gestão de Augusto Heleno, e se manteve no posto após a transição, trabalhando também com o general Gonçalves Dias. Ele acabou sendo exonerado do cargo e substituído pelo general Ricardo José Nigri ainda em janeiro.

Penteado deu entender que houve uma “retenção” de alertas da Abin pelo então ministro G. Dias, afirmando que eles não foram “disponibilizados oportunamente” para que se acionasse o Plano Escudo, de proteção ao Palácio do Planalto.

O general disse que foi convidado por Dias para se manter no GSI, ressaltou o trabalho de segurança realizado na posse do presidente Lula (PT) e comentou não ter tido acesso aos documentos de alerta para atos antidemocráticos. “Não recebi nenhum relatório, mensagem de WhatsApp ou contato telefônico alertando para a possibilidade de ações violentas na Praça dos Três Poderes”, disse.

O depoente ainda criticou essa falta de informações dizendo que a “dosagem de tropa” seria “bem maior do que aquela aplicada no dia 8” caso os dados da Abin fossem repassados a ele. Segundo ele, a tropa dentro do Palácio do Planalto naquela data contava com 133 militares, “que não foram suficientes para conter os manifestantes”.

Os deputados distritais levaram para apresentar na sessão uma série de manifestações políticas de Penteado. No Twitter, o general fazia críticas ao Partido dos Trabalhadores e compartilhava pensamentos de João Figueiredo sobre a tentativa da esquerda de implantar o “comunismo” no Brasil. “Minhas opiniões e pensamentos não são norteadores do trabalho funcional”, comentou, na Comissão.

O depoente ainda admitiu o contexto violento da manifestação de 8 de Janeiro, mas avaliou que nem todos os protestantes tinham essa característica.

“Era uma manifestação muito violenta, [mas] tínhamos de tudo. Tivemos gente que nos agrediu naquele dia, eu fui agredido, mas graças a proteção dos soldados, não fomos atingidos por pedras, extintores, cadeiras e tudo mais. Muita gente permaneceu na Esplanada, na Praça dos Três Poderes. Tínhamos manifestantes extremamente violentos, tínhamos gente que permaneceu no centro da Esplanada, tivemos gente que estava na Praça dos Três Poderes e tivemos quem invadiu Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo.”

Também na CPI do DF, G. Dias citou que o seu ex-secretário-executivo chegou a sinalizar um cenário de tranquilidade às 14h do dia 8 de janeiro.

“Por volta das 14h, eu estava inquieto e preocupado, pois assistia pela TV as manifestações e elas não batiam com o clima de controle que me havia sido descrito. Decidi ligar para o celular general Penteado, que me disse que estava ‘tudo normal’, ‘tudo tranquilo’, e que eu não precisava ir ao Palácio do Planalto. Mas permaneci inquieto e decidi ir até o Palácio”, disse o general G. Dias.

•        GDias ficou inerte após alerta: “Havia tempo para reagir”, diz general

Ex-secretário executivo do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o general Carlos José Assumpção Penteado disse nesta segunda-feira (4/8) ter havido inércia do então ministro do GSI, Gonçalves Dias (GDias), na invasão ao Palácio do Planalto em 8 de Janeiro.

Penteado prestou depoimento à CPI da Câmara Legislativa do Distrito Federal que investiga as depredações às sedes dos Três Poderes. Ele afirmou que haveria tempo das forças de segurança reagirem se as informações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) tivessem sido repassadas por GDias.

Segundo Penteado, houve falha no fluxo de informações entre os órgãos de segurança do Planalto.

 “Poderia não ter acontecido? Poderia. Se os alertas tivessem chegado àqueles que tinham condições de colocar em execução o Plano Escudo, isso teria sido efetivo. A inteligência não chegou a quem devia atuar. Os alertas eram enviados direto ao ministro [GDias]. Não chegou para nós”, disse o militar da reserva.

O general citou as mensagens trocadas entre o ex-diretor-geral da Abin, Saulo Moura, e GDias na manhã do dia 8 de janeiro.

“Às 8h36 da manhã do dia 8 de janeiro, a Abin avisa [a GDias] que já tinha formado opinião sobre a manifestação e quer ela teria, como teve, o grau de violência que houve. Às 8h36, o ex-ministro já tinha cognitivamente chegado à conclusão. Ele mesmo diz: ‘Vamos ter problemas’”, lembrou Penteado

“Das 8h36 até a invasão do Planalto, por volta das 15h10, nós teríamos tempo de fazer muita coisa. Teríamos tempo de fazer a chamada do gabinete, colocar as tropas lá, teríamos tempo de levar as tropas previstas no Plano Escudo par o Palácio do Planalto. Nós teríamos tempo de reagir. Nós não recebemos a informação”, lamentou.

 

Fonte: Agencia Brasil/Metrópoles

 

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