Paulo Fernandes Silveira: Angústia do precariado e ideologia da
vergonha
Num livro que se tornou uma referência nos estudos
sobre a agressiva e perversa lógica capitalista da exploração da força de
trabalho, Christophe Dejours (1992) investiga a ideologia da vergonha.
Há um conjunto de sofrimentos comumente enfrentados
pelo subproletariado (DEJOURS, 1992) e pelo precariado (BRAGA, 2014). Além das
enfermidades atreladas às condições de vida, como as doenças infecciosas e a
tuberculose, na população mais pobre existe uma grande incidência de sequelas
originadas de acidentes e de doenças que não receberam um tratamento médico
adequado (DEJOURS, 1992).
Para esses grupos sociais, qualquer situação que
afaste a pessoa do trabalho é considerada um motivo de vergonha, “a própria
gravidez aparece como uma vergonha” (DEJOURS, 1992, p. 32). É nesse contexto
que se desenvolve a ideologia da vergonha. Não se trata de uma angústia frente
à doença, à saúde ou à morte, mas à possibilidade de impedimento do trabalho.
A ideologia da vergonha é uma ideologia defensiva,
na medida “em que consiste em manter à distância o risco de afastamento do
corpo ao trabalho e, consequentemente, à miséria, à subalimentação e à morte”
(DEJOURS, 1992, p. 34).
A naturalização da ideologia da vergonha nos meios
populares torna comum algumas práticas, como não falar ou mesmo esconder da
família, amigos e vizinhos qualquer sintoma de doença. Em muitos casos, a
pessoa é responsabilizada por ficar doente e precisar interromper as atividades
profissionais: “Quando um cara está doente, acusam esse cara de passividade” (DEJOURS,
1992, p. 29).
As mulheres que vivem nas comunidades periféricas,
mesmo as que se dedicam a cuidar de inúmeros filhos, procuram esconder cada
nova experiência de gravidez, como se fosse tão vergonhoso quanto contrair uma
doença: “Quando se fica sabendo que uma mulher espera um filho, diz-se em
cochicho: ‘Ela só sabe fazer isso, dar a luz e fazer filhos’” (DEJOURS, 1992,
p. 32).
A ideologia da vergonha parece ser motivada por um
instinto de sobrevivência. O alcoolismo pode ser considerado como um fracasso
dessa ideologia: “é uma saída individual e gravemente condenada pelo grupo
social” (DEJOURS, 1992, p. 34).
Analisando os dados coletados em pesquisas
empíricas, Dejours argumenta que a ideologia da vergonha e outros mecanismos de
defesa são utilizados em empresas e escritórios para aumentar a produtividade.
Trata-se da exploração do sofrimento mental. Numa pesquisa recente sobre o tema
(SAFATLE; SILVA JÚNIOR; DUNKER, 2021), as autoras e autores cunharam a
expressão: gestão do sofrimento psíquico.
A pesquisa de Dejours, realizada nos anos 80,
analisa o trabalho das telefonistas. As empresas dessa área possuem um sistema
de avaliação das funcionárias. Uma vez que não é permitido responder
agressivamente aos assinantes desagradáveis ou desligar qualquer chamada: “a
única solução autorizada é reduzir o tempo da comunicação e empurrar o
interlocutor para desligar mais depressa” (DEJOURS, 1992, p. 103).
A produtividade das telefonistas, relacionada ao
tempo gasto em cada chamada, vincula-se ao controle das suas ansiedades.
Estratégias semelhantes são empregadas, atualmente, em outras empresas:
“Comparemos esse quadro com a situação neoliberal
expressa pelas narrativas de gestão dos anos 2010-2020. Dar mais serviço do que
alguém pode realizar, atribuir mais controles e responsabilidades do que alguém
é capaz de cumprir no horário regular de trabalho, criar metas inexequíveis
para ‘puxar ao máximo’ os esforços do trabalhador, criar políticas de
competição entre departamentos e sistemas predatórios de bônus são exemplos de
como o aumento de sofrimento, segundo a racionalidade da gestão e
principalmente da microgestão, extrai valor de condições precárias de trabalho,
o que acaba reunindo o mundo corporativo com aqueles que já têm uma relação
precarizada com o labor, seja por contratos intermitentes (zero hora), seja por
terceirização ou exclusão de benefícios protetivos” (DUNKER; PAULON; SANCHES;
SANTOS; ALVES LIMA; BAZZO, 2021, p. 240).
Nos últimos tempos, a gestão do sofrimento psíquico
tem encontrado eco e representatividade no debate público sobre o futebol. Uma
das expressões utilizadas para tratar do rendimento de jogadoras e de jogadores
refere-se a quanto se entrega ou deixa de entregar em cada jogo. Essa mesma
expressão já começa a ser utilizada no mundo corporativo.
Ainda que muitos jogadores tenham origens bastante
humildes, suas condições de vida e seus salários não são compatíveis com as do
subproletariado ou do precariado. Por outro lado, no Brasil, o interesse pelo
futebol alcança trabalhadoras e trabalhadores de todas as classes sociais. Ao
término das partidas, jogadores e técnicos costumam justificar para um conjunto
de jornalistas o desempenho dos seus clubes. Recentemente, numa coletiva
de imprensa, após o jogo em que o Corinthians conseguiu classificar-se para a
semifinal da Copa Sul-Americana, o jornalista Rodrigo Vessoni perguntou ao
técnico Vanderlei Luxemburgo: “O seu sentimento é mais de alívio pela
classificação ou um tanto quanto, por ser um treinador de futebol e ver seu
time tomar mais de trinta chutes no gol, é um sentimento um pouco de
vergonha?”.
Apesar dos ótimos salários que possam receber, como
qualquer trabalhador, jogadores ou técnicos não devem ter vergonha por não
alcançar as metas pretendidas pelas empresas que os contrataram!
Fonte: Jornal GGN

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