sábado, 2 de setembro de 2023

Paulo Fernandes Silveira: Angústia do precariado e ideologia da vergonha

Num livro que se tornou uma referência nos estudos sobre a agressiva e perversa lógica capitalista da exploração da força de trabalho, Christophe Dejours (1992) investiga a ideologia da vergonha. 

Há um conjunto de sofrimentos comumente enfrentados pelo subproletariado (DEJOURS, 1992) e pelo precariado (BRAGA, 2014). Além das enfermidades atreladas às condições de vida, como as doenças infecciosas e a tuberculose, na população mais pobre existe uma grande incidência de sequelas originadas de acidentes e de doenças que não receberam um tratamento médico adequado (DEJOURS, 1992).  

Para esses grupos sociais, qualquer situação que afaste a pessoa do trabalho é considerada um motivo de vergonha, “a própria gravidez aparece como uma vergonha” (DEJOURS, 1992, p. 32). É nesse contexto que se desenvolve a ideologia da vergonha. Não se trata de uma angústia frente à doença, à saúde ou à morte, mas à possibilidade de impedimento do trabalho.

A ideologia da vergonha é uma ideologia defensiva, na medida “em que consiste em manter à distância o risco de afastamento do corpo ao trabalho e, consequentemente, à miséria, à subalimentação e à morte” (DEJOURS, 1992, p. 34).

A naturalização da ideologia da vergonha nos meios populares torna comum algumas práticas, como não falar ou mesmo esconder da família, amigos e vizinhos qualquer sintoma de doença. Em muitos casos, a pessoa é responsabilizada por ficar doente e precisar interromper as atividades profissionais: “Quando um cara está doente, acusam esse cara de passividade” (DEJOURS, 1992, p. 29).

As mulheres que vivem nas comunidades periféricas, mesmo as que se dedicam a cuidar de inúmeros filhos, procuram esconder cada nova experiência de gravidez, como se fosse tão vergonhoso quanto contrair uma doença: “Quando se fica sabendo que uma mulher espera um filho, diz-se em cochicho: ‘Ela só sabe fazer isso, dar a luz e fazer filhos’” (DEJOURS, 1992, p. 32).

A ideologia da vergonha parece ser motivada por um instinto de sobrevivência. O alcoolismo pode ser considerado como um fracasso dessa ideologia: “é uma saída individual e gravemente condenada pelo grupo social” (DEJOURS, 1992, p. 34).

Analisando os dados coletados em pesquisas empíricas, Dejours argumenta que a ideologia da vergonha e outros mecanismos de defesa são utilizados em empresas e escritórios para aumentar a produtividade. Trata-se da exploração do sofrimento mental. Numa pesquisa recente sobre o tema (SAFATLE; SILVA JÚNIOR; DUNKER, 2021), as autoras e autores cunharam a expressão: gestão do sofrimento psíquico.

A pesquisa de Dejours, realizada nos anos 80, analisa o trabalho das telefonistas. As empresas dessa área possuem um sistema de avaliação das funcionárias. Uma vez que não é permitido responder agressivamente aos assinantes desagradáveis ou desligar qualquer chamada: “a única solução autorizada é reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa” (DEJOURS, 1992, p. 103).

A produtividade das telefonistas, relacionada ao tempo gasto em cada chamada, vincula-se ao controle das suas ansiedades. Estratégias semelhantes são empregadas, atualmente, em outras empresas:

“Comparemos esse quadro com a situação neoliberal expressa pelas narrativas de gestão dos anos 2010-2020. Dar mais serviço do que alguém pode realizar, atribuir mais controles e responsabilidades do que alguém é capaz de cumprir no horário regular de trabalho, criar metas inexequíveis para ‘puxar ao máximo’ os esforços do trabalhador, criar políticas de competição entre departamentos e sistemas predatórios de bônus são exemplos de como o aumento de sofrimento, segundo a racionalidade da gestão e principalmente da microgestão, extrai valor de condições precárias de trabalho, o que acaba reunindo o mundo corporativo com aqueles que já têm uma relação precarizada com o labor, seja por contratos intermitentes (zero hora), seja por terceirização ou exclusão de benefícios protetivos” (DUNKER; PAULON; SANCHES; SANTOS; ALVES LIMA; BAZZO, 2021, p. 240).

Nos últimos tempos, a gestão do sofrimento psíquico tem encontrado eco e representatividade no debate público sobre o futebol. Uma das expressões utilizadas para tratar do rendimento de jogadoras e de jogadores refere-se a quanto se entrega ou deixa de entregar em cada jogo. Essa mesma expressão já começa a ser utilizada no mundo corporativo.

Ainda que muitos jogadores tenham origens bastante humildes, suas condições de vida e seus salários não são compatíveis com as do subproletariado ou do precariado. Por outro lado, no Brasil, o interesse pelo futebol alcança trabalhadoras e trabalhadores de todas as classes sociais. Ao término das partidas, jogadores e técnicos costumam justificar para um conjunto de jornalistas o desempenho dos seus clubes.  Recentemente, numa coletiva de imprensa, após o jogo em que o Corinthians conseguiu classificar-se para a semifinal da Copa Sul-Americana, o jornalista Rodrigo Vessoni perguntou ao técnico Vanderlei Luxemburgo: “O seu sentimento é mais de alívio pela classificação ou um tanto quanto, por ser um treinador de futebol e ver seu time tomar mais de trinta chutes no gol, é um sentimento um pouco de vergonha?”.

Apesar dos ótimos salários que possam receber, como qualquer trabalhador, jogadores ou técnicos não devem ter vergonha por não alcançar as metas pretendidas pelas empresas que os contrataram!

 

Fonte: Jornal GGN

 

Nenhum comentário: