sábado, 2 de setembro de 2023

O assassinato da sacerdotisa Mãe Bernadete e a ascensão da ‘guerra santa’ contra as religiões africanas no Brasil

Maria Bernadete Pacífico, 72 anos, era uma instituição e tanto em Salvador da Bahia , no Nordeste do Brasil, onde era conhecida simplesmente como Mãe Bernadete: uma respeitada líder quilombola (descendente das comunidades formadas por escravos que fugiram de seus senhores).) e ialorixá , um sacerdote de candomblé , uma das religiões de origem africana professadas no país. Durante anos ele lutou pela integridade territorial de seu quilombo, localizado na periferia de Salvador e cobiçado por madeireiros e especuladores. Há algumas semanas, dois homens armados invadiram seu terreiro, o local sagrado onde acontecem as cerimônias, e a matou a tiros. Seis anos antes, seu filho foi morto. Os investigadores apontam o conflito agrário como principal causa do assassinato, mas não descartam o fator religioso.

Os crimes por intolerância religiosa têm crescido no Brasil nos últimos anos. Segundo os dados mais recentes do Ministério dos Direitos Humanos, os casos aumentaram 45% nos últimos dois anos. No ano passado foram registadas 113 denúncias, embora o Governo qualifique que a subnotificação pode ser enorme, porque muitos destes crimes ainda são considerados brigas entre vizinhos, e sobretudo porque acusam a anterior administração de Jair Bolsonaro de desmantelar o sistema que facilitou as denúncias deste tipo.

•        Viva a religião escondida

Entende-se que o crime de intolerância religiosa vai desde o caso extremo, como o homicídio, até aos ataques quotidianos, como insultos, ameaças e outros tipos de discriminação por motivos religiosos. Eles podem pegar de dois a cinco anos de prisão. No Brasil, quem mais sofre são os praticantes de religiões de base africana, como o candomblé, a umbanda ou a quimbanda. O babalorixá Sidnei Nogueira dirige um terreiro na periferia de São Paulo e está acostumado a lidar com a discriminação sofrida pelos fiéis que o frequentam . Nas cerimônias são usados colares de contas e roupas brancas e turbantes que, dependendo de quais casas e de quais bairros, são vistos como algo demoníaco. Ele conta por telefone que para proteger seus ‘filhos de santo’, ele teve que construir algumas pias e um armário para que as roupas ficassem lá. “Alguns têm pais neopentecostais; se carregam essas coisas, são expulsos de casa. Eles vivem a religião em segredo. Por outro lado, eles (os evangélicos) exibem a Bíblia, o crucifixo o tempo todo… mas temos que nos esconder, em pleno século 21”, lamenta. Nogueira, doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Intolerância Religiosa , também defende o uso do conceito “racismo religioso” porque a maioria dos ataques é dirigida contra religiões socialmente lidas como negras.

O Brasil, um país extremamente religioso, ainda é o maior país católico do mundo, com mais de 108 milhões de fiéis, embora os evangélicos tenham crescido exponencialmente nos últimos anos e espera-se que sejam maioria em 2032. Embora seja um grupo heterogêneo, com centenas de denominações diferentes, em geral há tensões com os católicos (por causa da veneração de imagens, que consideram paganismo) e especialmente com os afro -Religiões brasileiras. Um dos fundamentos teóricos desse crescente sentimento de rejeição remonta a 1997, quando o bispo Edir Macedo, da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus, publicou um livro no qual defendia que as religiões afro são “seitas demoníacas” e a África uma continente amaldiçoado. Essa igreja hoje tem até partido político próprio, com 43 parlamentares.

Por outro lado, as religiões de matriz africana representam apenas 0,3% da população brasileira. É uma minoria composta majoritariamente por fiéis negros e cujos locais de culto, tão discretos que muitas vezes passam despercebidos, costumam ficar em favelas e periferias, justamente onde as igrejas evangélicas se multiplicam a um ritmo vertiginoso, abrindo cerca de 14 mil por ano. A coexistência geralmente não é fácil. Nesses bairros, cartazes ou grafites como os que alertam que “só Jesus expulsa Exú das pessoas” são uma constante. Exú é uma divindade do candomblé que muitos evangélicos identificam erroneamente com o diabo. Também é comum que o som dos ata[ba]ques seja proibido, os tambores sagrados usados na liturgia. Muitos fiéis acabam expulsos de seus bairros. Na periferia norte do Rio, nos últimos anos, houve uma onda de ataques muito violentos, com vários  terreiros  completamente destruídos ou incendiados.

O promotor Júlio Araújo, que trabalhou durante anos acompanhando esses casos, comenta por telefone que ainda existem vários líderes religiosos com escolta policial. Na sua opinião, os ataques podem ser explicados, em geral, pelos “setores neopentecostais que estimulam o ódio”, mas vai um pouco mais longe, acredita que o ritmo crescente nos últimos anos se deve, sobretudo, ao facto que esse discurso penetrou nas estruturas de poder. “O grande impacto que vejo da oficialização de uma visão estigmatizante dos grupos religiosos de origem africana foi a inação em estabelecer políticas para prevenir e mitigar esses problemas”, afirma, referindo-se indiretamente ao governo de Jair Bolsonaro.

O líder da extrema direita, que tinha como lema ‘Deus acima de tudo’, sempre defendeu o Brasil como um “país cristão” e chegou a falar de “cristofobia” na ONU. No pântano de notícias falsas que inundaram a Internet na última campanha eleitoral, os cultos afro-brasileiros também foram usados para associar o presidente Lula da Silva ao “satanismo” e a sua esposa, Janja, à “macumba”, um termo depreciativo para estas religiões. . A ‘guerra santa’ nas redes não para. Em abril, o Ministério Público do Rio pediu ao YouTube que monitorasse permanentemente canais como ‘Geração Jesus Cristo’ e ‘Geração de Mártires’ devido “ao enorme volume de conteúdo discriminatório”. Mas à medida que os ataques aumentam, as minorias religiosas também começam a articular-se e a levantar-se. Em agosto passado, mais de 60.

 

       ‘Alvos ambulantes’: execução de mãe Bernadete revela descaso com regularização de quilombos. Por Tamyres Matos

 

O assassinato de Bernadete Pacífico, liderança do quilombo de Pitanga dos Palmares, ocorrido no dia 17 na região metropolitana de Salvador (BA), reflete os riscos da demora no processo de titulação dos territórios tradicionalmente ocupados por essas comunidades, avaliam especialistas ouvidos pela Repórter Brasil.

Pelo menos 30 quilombolas foram mortos nos últimos 10 anos em 18 territórios diferentes, segundo a Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq). Somente duas destas comunidades foram tituladas e outras duas receberam titulação de parte do território, de acordo com o Observatório Quilombola da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP).

Para Hédio Silva Jr, ex-secretário de Justiça do Estado de São Paulo, a morosidade desse processo transforma os moradores de quilombos em “alvos ambulantes”. “Se você titula a terra, diminui drasticamente a chance de conflito”, afirma Silva, primeiro advogado a defender a titulação de quilombos no Supremo Tribunal Federal (STF).

Pitanga dos Palmares foi reconhecida como comunidade quilombola pela Fundação Cultural Palmares (FCP) em 2005. Esse é o primeiro passo para a demarcação do território. No entanto, passadas quase duas décadas, o processo de titulação definitiva ainda não foi concluído pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Assim como os habitantes de Pitanga dos Palmares, 90% dos quilombolas do Brasil ainda vivem em territórios não titulados. A informação é do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado em julho com dados específicos sobre essa população. De acordo com o levantamento inédito, existem 1.327.802 de pessoas identificadas como quilombolas em todo o país. Os estados do Nordeste concentram 68% desse total.

Ainda segundo o IBGE, existem seis mil comunidades à espera da demarcação final de seus territórios – boa parte está localizada em áreas em disputa com empreendimentos imobiliários e agropecuários.

•        Conflitos e regularização

Em ofício expedido um dia após o assassinato de Mãe Bernadete, o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) demandaram à Presidência da República e ao governo da Bahia a adoção de medidas urgentes para efetivar a proteção dos territórios quilombolas no estado.

Dentre os pedidos, destacam-se a criação de uma unidade de investigação especializada em casos relacionados a povos tradicionais e a suspensão de licenças para obras e empreendimentos em que as comunidades impactadas não tenham sido previamente consultadas.

“Se por um lado a regularização dos territórios tradicionais não avança, por outro, as atividades econômicas seguem em ritmo acelerado em todas as regiões baianas, com a anuência estatal, impactando as comunidades tradicionais e colocando suas lideranças em risco constante”, destaca o documento.

Liderança de Bananeiras, uma das comunidades do quilombo Ilha de Maré, em Salvador, Marizelia Lopes cobra ações efetivas das autoridades para reverter o atual quadro de vulnerabilidade. “Não são só os assassinos que estão com a mão suja de sangue, também é o Estado”, afirma. “É a cor da gente que incomoda. Se a gente reclama, estamos condenadas a morrer”, complementa Marizelia.

•        Ameaças e investigação

Em nota, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) afirma que Mãe Bernadete há dois meses sofria ameaças de morte, atribuídas a “grupos ligados à especulação imobiliária em Salvador”.

O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), chegou a afirmar que a principal tese da investigação apontava para uma relação do assassinato com a disputa de facções criminosas. Procurada, a Polícia Civil não confirmou a informação e respondeu que segue com as investigações, mantida sob sigilo.

A Conaq lembrou que Flávio Gabriel Pacífico dos Santos (Binho do Quilombo), filho de mãe Bernadete, também foi assassinado há seis anos. Até hoje, ninguém foi punido pelo crime.

“Ainda que alguns tentem colocar na conta do [ex-presidente Jair] Bolsonaro a morosidade ou a paralisação na regularização fundiária, nós temos dito que a boiada tem passado independente de gestões de governo de direita ou de esquerda”, critica Elionice Sacramento, defensora de direitos humanos da comunidade de pescadores e quilombolas de Conceição de Salinas, em Salinas da Margarida, na Bahia.

•        Proteção da família de Bernadete

De acordo com reportagem publicada no G1, o advogado David Mendez, que representa a família de mãe Bernadete, pediu para ser beneficiado no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH). David relata ter sofrido perseguição quando retornava da sede do quilombo em que a ialorixá foi morta. No dia do crime, os familiares de Bernadete deixaram o quilombo.

Em março deste ano, foi aprovado o Plano de Atuação Integrada de Enfrentamento à Violência contra Povos e Comunidades Tradicionais. Segundo o governo baiano, o documento tem como objetivo desenvolver ações preventivas e repressivas a fim de manter a integridade de pessoas e patrimônio em áreas de conflitos decorrentes de disputas de terra.

“Com vigência até 2026, o plano foi criado conjuntamente pelas Secretarias de Segurança Pública, de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais, de Justiça e Direitos Humanos e de Desenvolvimento Rural, além das Polícias Militar, Civil, Técnica e do Corpo de Bombeiros Militar”. Clique aqui para conferir a nota na íntegra.

•        Assassinatos de famílias

Bernadete e seu filho Flávio não são os únicos exemplos de famílias de lideranças quilombolas assassinadas.

Em 2020, Celino Fernandes e seu filho Wanderson Fernandes foram mortos por quatro pistoleiros na comunidade do Cedro, no município de Arari (MA), dentro de casa e na frente de familiares. Cedro é mais um dos quilombos com o processo de titulação em aberto.

Segundo o Mapa de Conflitos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), plataforma que reúne informações sobre disputas por terra no Brasil, os conflitos em Arari se intensificaram nos últimos anos. As vítimas denunciavam os cercamentos dos campos naturais por fazendeiros acusados de “uso predatório das áreas de uso comum de territórios tradicionais e camponeses para o monocultivo de arroz transgênico e criação de búfalos”.

Em 2021, o trabalhador rural José Francisco de Souza Araújo foi assassinado a tiros por dois homens na comunidade Volta da Palmeira, no município de Codó (MA). Vanu, como era conhecido, já havia perdido quatro de seus familiares em circunstâncias semelhantes. O processo de reconhecimento pelo Incra também foi iniciado, mas ainda não teve uma resposta final.

 

Fonte: Por Joan Royo Gual, no El País/Reporter Brasil

 

 

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