Movimento nacional contra bolsonarismo não se encaixa em Salvador,
segundo dirigentes partidários
Com a finalidade de isolar o bolsonarismo nas
eleições municipais do ano que vem, o movimento "Direitos Já! Fórum pela
Democracia" não se encaixa em Salvador por alguns motivos, entre eles o
fato de a capital baiana contar com possibilidade de segundo turno e por não
ter uma pré-candidatura bolsonarista como favorita ao pleito para prefeito.
Em conversas com o Portal A TARDE, o
coordenador-geral do "Direitos Já! Fórum pela Democracia", Fernando
Guimarães, o cientista político Cláudio André e os presidentes estaduais do PT,
Éden Valadares, do PL, João Roma, e do Podemos, Heber Santana, expressaram seus
posicionamentos sobre os cenários nacional e municipal da política.
"Nossa proposta, primeiramente, não é uma
frente ampla em todos os municípios, mas uma análise caso a caso. Por exemplo,
em cidades em que a disputa se dará entre candidatos a prefeito que são do
campo democrático, não há porque ter qualquer tipo de intervenção de construção
de frente ampla", comenta o coordenador-geral do "Direitos Já! Fórum
pela Democracia", Fernando Guimarães.
As cidade em que o movimento prioritariamente tenta
atender são as com até 100 mil eleitores, o que impossibilita o segundo turno,
e que tiveram votação de pelo menos 60% em Jair Bolsonaro (PL) na eleição
presidencial, que aconteceu em outubro do ano passado. "No sul há uma
proporção maior de cidades dessas do que no Nordeste", afirma Guimarães,
que diz ter como objetivo limar candidatos que tenham posicionamentos
anticiência e antidemocráticos, como por exemplo discursar contra a vacinação de
covid-19 e apoiar os atos de 8 de janeiro, em Brasília, que pediam a
destituição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) da Presidência da República.
No cenário da eleição de Salvador, até o momento, o
prefeito Bruno Reis (União Brasil) deve tentar a reeleição, ainda que tente
despistar sobre suas pretensões. O principal bloco de oposição, do qual faz
parte o governador Jerônimo Rodrigues (PT), pretende ter apenas um candidato,
mas ainda não definiu qual será. Com a desistência de José Trindade (PSB),
pleiteiam o posto os deputados estaduais Robinson Almeida (PT) e Olívia Santana
(PCdoB), o vereador Sílvio Humberto (PSB) e o vice-governador Geraldo Júnior
(MDB).
Por outro lado, o Partido Liberal, de Jair
Bolsonaro (PL), tem como pré-candidato a prefeito de Salvador o presidente
estadual da legenda, João Roma (PL), que já sinalizou não descartar o apoio a
Bruno Reis em 2024. "Já declarei que estou pré-candidato a prefeito, o que
não quer dizer que não seja possível o entendimento com outra candidatura que
impeça a hegemonia completa do PT na Bahia", afirmou o ex-ministro da
Cidadania de Bolsonaro e ex-deputado federal, que foi candidato a governador
pelo PL no ano passado.
"A democracia é um jogo aberto, em que as
diferenças devem ser respeitadas e o veredito se estabelece pela vontade
popular. O PL, sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro, já deixou claras
as suas diferenças e a decisão é do povo. Não participamos de conluios. Temos a
clareza de que o PT é nosso adversário principal, mas jogamos dentro das regras
democráticas, por mais que insistam em narrativas contrárias que não se
sustentam", concluiu Roma.
• Contexto
de Salvador
Cientista político e professor da Universidade da
Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Cláudio André
não enxerga que o "Direitos Já - Fórum Pela Democracia" possa
influenciar a eleição de Salvador pelo fato de que Bruno Reis, que pode ser
apoiado por Roma, não se enquadra no perfil de "antidemocrático"
classificado pelo movimento.
"Ainda mais em um momento em que o União
Brasil passa a dialogar com a base governista [de Jerônimo Rodrigues] e com o
governo Lula em nível nacional", afirma Cláudio André. "Não vejo como
prosperar esse tipo de acordo [de isolamento de uma candidatura em Salvador]
porque entre as forças políticos partidárias próximas de Bruno Reis, há
partidos que são progressistas, como o PV e o PDT", continua o cientista
político.
O espaço de João Roma em um possível segundo
mandato de Bruno Reis, para Cláudio André, é um ponto que deixa dúvidas sobre a
disputa política na capital baiana. "A gente sabe que, em Salvador, a
votação de Lula foi muito superior à de Bolsonaro, então é importante pensar
como é que vai se dar essa tratativa ou se o PL vai apostar em uma candidatura
própria, para sustentar o partido e conseguir se articular mantendo ali
mobilizado um eleitorado [de extrema-direita]", conclui Cláudio André.
• PT
diz "não se misturar com o bolsonarismo"
Para o presidente estadual do PT, Éden Valadares,
não há qualquer hipótese de a legenda de Jerônimo Rodrigues e de Lula estar em
uma chapa com um bolsonarista, ainda que o bolsonarista não companha a chapa
majoritária. "Nós traçamos um risco no chão: onde a turma de Bolsonaro
estiver, onde a turma da extrema-direita, onde a turma que alimenta o ódio
estiver, nós estaremos do outro lado, nós estaremos combatendo e vencendo em
prol da democracia brasileira”, afirmou o petista.
A crítica de Éden se volta também a partidos de
esquerda, de centro e de direita que se articulam com o governo Lula, mas que
no cenário municipal são adversários históricos. "Com todo respeito aos
demais partidos aí citados na pergunta [PSDB e PDT], acho que esse
questionamento cabe a eles. Como é que alguns partidos nacionalmente se alinham
a essa estratégia de isolar essa política inspirada no autoritarismo, no
militarismo e no fascismo, e em algumas capitais caminharão juntos com os
bolsonaristas", conclui Éden.
Superintendente de Proteção e Defesa Civil (Sudec)
e presidente estadual do Podemos, Heber Santana enxerga que as eleições municipais
trazem uma nova roupagem na comparação com o cenário nacional. "Aqueles
que atuaram até a eleição do ano passado seguindo essa linha de bolsonarista,
naturalmente vão tentar se encaixar no processo eleitoral, desmistificando um
pouco isso", disse Heber.
"Sobre o movimento de isolamento do
bolsonarismo, eu não consigo mensurar o que pode resultar, porque dentro de uma
característica municipal, por exemplo, as questões são muito diferentes da
nacional. Pode ter municípios onde o PL seja muito forte, onde há uma
conjuntura municipal forte e algum outro partido ache necessária uma composição
com eles", conclui o presidente do Podemos, que está alinhado com o grupo
de Jerônimo Rodrigues.
O cientista político Cláudio André também diz
enxergar que o cenário em eleições municipais pode mudar ao ponto de o eleitor
relevar alianças nacionais. "As eleições municipais são particulares, elas
têm alianças e coligações próprias. Acabam sendo pautadas por agendas locais.
Então, é muito difícil uma verticalização, na qual os partidos nacionalmente
decidam o que vai acontecer nos 5 .570 municípios", disse Cláudio André.
Fonte: A Tarde

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