terça-feira, 5 de setembro de 2023

Imprensa e Centrão pressionam Lula sobre ministro investigado

Lula mantém em banho-maria há mais de três meses a articulação que visa entregar ministérios a André Fufuca e Silvio Costa Filho, deputados do PP e do Republicanos. Demorou tanto para ampliar a presença do centrão no governo que surgiu uma panela nova na cozinha do Planalto. Nela, ferve o ministro das Comunicações Juscelino Filho, do União Brasil. Agora, além de pressionar Lula para obter novos cofres, o centrão se move para manter Juscelino no cargo a despeito das suspeitas de corrupção levantadas pela Polícia Federal.

Nos bastidores, oligarcas de centrão disseminaram durante o final de semana uma tese conspiratória segundo a qual a demora de Lula em concluir a mini-reforma ministerial e o bote da PF sobre Juscelino e seu grupo político no Maranhão não são mera coincidência. Nessa versão, o avanço da investigação policial teria o propósito de constranger o centrão a aceitar ministérios periféricos, de menor densidade política e menos permeáveis à fruição de emendas parlamentares. A alegação de complô já havia sido usada quando a PF pediu autorização ao Supremo Tribunal Federal para investigar Arthur Lira, condestável do centrão, no caso dos kits de robótica.

Com conversas com auxiliares, Lula cogitou a hipótese de substituir Juscelino por um novo indicado do União Brasil. Farejando o cheiro de queimado, os líderes do partido na Câmara e no Senado, Elmar Nascimento e Efraim Filho, divulgaram uma nota de “solidariedade e apoio” a Juscelino. Usaram no texto uma expressão muito usual na retórica de Lula. Em vez de explicar os crimes atribuídos a um político, encaixaram as investigações contra o ministro sob o guarda-chuva da “criminalização da atividade política”. Os líderes do União Brasil alegaram que o inquérito da PF contém “denúncias e indícios que ainda não foram devidamente apurados”. Realçaram que o ministro do Supremo Luís Roberto Barroso negou pedido de busca e apreensão contra Juscelino. Ignoraram a decisão de Barroso de bloquear preventivamente R$ 835 mil em bens de Juscelino.

No momento, o governo tem a seu favor dois fatores: a autonomia concedida à PF e o fato de as verbas suspeitas terem sido liberadas sob Bolsonaro. Mantendo Juscelino no cargo, Lula consolidará a percepção de que, para obter apoio no Congresso, está disposto a contemporizar com a malversação de verbas públicas. É o primeiro grande teste moral do terceiro mandato.

– Leia abaixo a íntegra da nota do União Brasil:

“Diante do afastamento da prefeita de Vitorino Freire (MA), Luanna Bringel, de seu cargo, e considerando os demais acontecimentos do dia de hoje, manifestamos nossa solidariedade e apoio à prefeita e ao ministro das Comunicações, Juscelino Filho. Luanna tem 93% de aprovação, índice recorde no município, fruto de seu trabalho direcionado à população vitorinense com resultados efetivos.

Tanto a prefeitura quanto a prefeita, atenderam às solicitações de disponibilização de informações. Temos uma investigação ainda em fase de inquérito, com denúncias e indícios que ainda não foram devidamente apurados, e cuja falta de evidências serviram de embasamento para que se negasse, por exemplo, mandados de busca contra a pessoa do ministro Juscelino.

Há algum tempo, enfrentamos uma situação desfavorável de criminalização da atividade política. Existe uma constante tentativa de relacionar atos normais da atividade parlamentar como a simples destinação de recursos para os municípios, como atos de corrupção. O resultado desse cenário é perigoso, pois resulta na desconfiança generalizada em relação a todos os políticos, nas instituições democráticas e na própria democracia.

Inicialmente, essas alegações são amplamente divulgadas nos meios de comunicação e nas redes sociais, criando uma atmosfera de acusação pública. No entanto, quando as investigações subsequentes não encontram evidências de crime, má-fé ou corrupção, a divulgação da verdade é negligenciada ou minimizada.

Expressamos solidariedade à prefeita Luanna Bringel e estendemos ao ministro Juscelino Filho, que tem sido alvo de ataques desde que assumiu seu cargo no ministério e tem respondido com muita dedicação ao trabalho.

Elmar Nascimento (BA), Líder do União Brasil na Câmara dos Deputados

Efraim Filho (PB), Líder do União Brasil no Senado Federal.”

 

       Sob pressão, Republicanos hesita em apoiar Lula

 

Mesmo após a a promessa de que Silvio Costa Filho (Republicanos-PE) será nomeado ministro, processo que se arrasta há mais de dois meses, o Palácio do Planalto ainda vai precisar resolver pendências na Câmara para ampliar o apoio do seu partido. Deputados da sigla que são ligados à Igreja Universal e outras vertentes evangélicas estão insatisfeitos com tratamento do governo a pautas de interesse dos religiosos.

Ainda que digam ter abertura para diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros, parte da legenda continua a criticar a administração. A bancada tem bispos da Universal entre seus representantes, como os deputados Marcelo Crivella (RJ), Gilberto Abramo (MG), Márcio Marinho (BA), além do próprio presidente do partido, Marco Pereira (SP). Todos eles têm evitado se classificar como oposição e dizem ser favoráveis a algumas iniciativas do governo na economia, mas registram queixas sobre outras políticas públicas, principalmente relacionadas aos costumes.

Crivella, por exemplo, disse que a escolha de Silvio Costa Filho como ministro não irá fazer com que o partido seja da base na Câmara, mas também descarta “oposição por oposição”.

Silas Câmara (Republicanos-AM), coordenador da bancada evangélica e um dos líderes da Assembleia de Deus, avalia que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) era melhor que Lula.

– Não tem nem como comparar, o ex-governo do presidente Bolsonaro era completamente pró-vida, pró-família, pró-cristão e o governo atual é na contramão de tudo isso – disse Câmara ao GLOBO.

Silas teve em sua posse como líder da bancada evangélica a presença dos ministros Jorge Messias (Advocacia Geral da União), Márcio Macedo (Secretaria-Geral) e Márcio França (Portos e Aeroportos). Ainda assim, o deputado demonstra afastamento.

– Não sei avaliar se é ou não um bom sinal (ter os ministros na posse). Acredito que sinais se dão na prática, e não com visitas em eventos abertos a todos.

Uma demanda cara aos evangélicos e que ainda não foi aprovada é uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que dá imunidade tributária a templos religiosos e prédios de partidos políticos. A PEC foi apresentada em março e conta com a assinatura de seis deputados do PT. O relator é Silvio Costa Filho, que deu parecer favorável.

Crivella chegou a falar com o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, sobre o assunto em março, e disse que teve uma sinalização favorável do governo, mas o texto ainda não avançou. A PEC chegou a ser pautada na semana passada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, presidida por Rui Falcão (PT-SP), mas não foi discutida.

O deputado Alencar Santana (PT-SP), vice-líder do governo na Câmara e integrante da CCJ, disse que o foco da base está em barrar uma outra PEC, que dificulta o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de financiar obras no exterior.

— Estávamos preocupados semana passada com PEC 3 — disse, ao comentar o texto de Crivella.

A ala do Republicanos mais ligada à religião reclama de pautas de esquerda incentivadas pelo governo, como medidas que vão na direção de flexibilizar o aborto. A ministra da Saúde, Nísia Trindade, revogou uma série de portarias editadas durante o governo de Bolsonaro que dificultavam a prática de aborto legal.

— Boa parte da ala governista insiste na pauta de costumes — disse o deputado Gilberto Abramo.

Apesar disso, ele evita se classificar como oposição a Lula.

— Seguimos o mesmo pensamento do presidente Marcos. Somos independentes, as pautas que são essenciais ao desenvolvimento do país terão nosso apoio. Retrocessos, não

Editorial da Folha Universal, periódico ligado à igreja, publicado no final de agosto, também reclama de orientações do Conselho Nacional de Saúde (CNS) sobre religiões africanas e a população LGBTQIAP+. A publicação se queixa da “considerável politização e certo palanque para agendas inegavelmente ideológicas, com vestígios progressistas”.

O partido e também a Universal já foram aliados de Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff no passado, mas no governo Lula 3 há uma dificuldade em se reaproximar dessa ala. Um dos motivos é a maior identificação do grupo ideologicamente com Bolsonaro.

 

       Partido de Bolsonaro estuda aliar-se a Lula

 

O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, deve seguir a posição do PT e abrir espaço a alianças nas eleições municipais de 2024 com a sigla de seu principal adversário na última disputa presidencial. Apesar da pressão do bolsonarismo por um veto a quaisquer aproximações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a cúpula da legenda dirigida por Valdemar Costa Neto avalia que os cenários locais podem conduzir ou a alianças com candidatos do PT ou ao apoio de petistas a nomes do próprio PL em 2024.

Além de articulações entre os dois partidos no Rio, como O GLOBO mostrou na última semana, há conversas entre PT e PL em estados como Ceará, Maranhão e Bahia. Para o entorno de Valdemar, embora não haja disposição de veto, a efetivação das alianças dependerá do jogo de cintura dos candidatos para não entrar no foco dos bolsonaristas.

No Ceará, o deputado federal Júnior Mano (PL-CE) discute uma aliança com o petista Júlio César Filho, pré-candidato à prefeitura de Maracanaú, quarta maior cidade do estado. No início do ano, ao receber Julinho, como o deputado estadual do PT é conhecido, em seu gabinete na Câmara dos Deputados, Mano disse que ambos estavam “dialogando e tentando construir uma viabilidade que seja positiva” para Maracanaú e outros municípios em que são “parceiros”.

Mano, também cotado para concorrer no município, emplacou um aliado, o empresário Bruno Barreto, no comando do PL em Maracanaú. Por ora, PT e PL fazem dobradinha para criticar a gestão do prefeito Roberto Pessoa (União).

Em Juazeiro do Norte, outro dos maiores colégios eleitorais do Ceará, a movimentação do deputado federal Yury do Paredão para concorrer à prefeitura pavimentou sua expulsão do PL. Buscando o apoio do governador Elmano de Freitas (PT) para enfrentar o prefeito, Glêdson Bezerra (Podemos), Yury se aproximou do governo Lula e chegou a posar ao lado de ministros fazendo um gesto de “L” com as mãos. A foto enfureceu a base bolsonarista, e Valdemar decidiu liberar Yury para buscar outro partido.

Mano, por sua vez, é um dos oito deputados do PL punidos pela sigla, com perda de vagas em comissões na Câmara, após votar pela Medida Provisória (MP) da reestruturação ministerial do governo Lula.

Outro cacique regional do PL que tem votado alinhado ao Planalto, o deputado federal Josimar Maranhãozinho (PL-MA) conversa sobre uma aliança com seu colega de Câmara, Duarte Jr. (PSB), pré-candidato à prefeitura de São Luís. Duarte disse que planeja aglutinar partidos como PP, do deputado André Fufuca, e PDT, do senador Weverton Rocha, que faziam parte da base do ministro da Justiça, Flávio Dino (PSB), quando governou o Maranhão, até o ano passado.

Josimar e Dino, que se afastaram após a filiação de Bolsonaro ao PL, têm ensaiado uma reaproximação neste ano — o deputado já foi recebido e posou ao lado do ministro em seu gabinete. Na eleição de 2022, o PL se coligou à candidatura de Weverton, do PDT, ao governo, enquanto PT e PSB marcharam com o governador eleito Carlos Brandão.

— Está certa minha candidatura em São Luís, com vice do PT, consolidando o apoio da federação (PT, PCdoB e PV). A partir daí vamos buscar outras forças, incluindo o PL, com Josimar — afirmou Duarte.

As movimentações envolvendo PT e PL já geraram reações de parlamentares da sigla de Bolsonaro, em especial após a legenda de Lula publicar, na última semana, uma resolução que abre brecha a alianças em 2024. Ex-ministro de Bolsonaro, o senador Rogério Marinho (PL-RN) postou, nas redes sociais, que candidatos do PL a prefeituras em busca de alianças com o PT “devem procurar outro partido”.

O deputado federal Giovani Cherini, presidente do PL gaúcho, discursou na Câmara contra a aproximação, disse que proibirá coligações com o PT no estado e sugeriu a mesma atitude a Valdemar. Procurado, Cherini afirmou não ter feito um pedido formal à direção do PL, mas que “mandou o vídeo” com seu discurso ao presidente da sigla.

Valdemar disse à CNN, na quarta-feira, que vai “tomar providência” contra deputados que tenham cargos no governo Lula e que eventuais interessados em ingressar na gestão “vão ter que deixar o partido”. A declaração ocorreu três meses após o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) apadrinhar a nomeação do advogado Otávio Freire na Superintendência de Patrimônio da União (SPU) na Bahia. Após assumir o cargo, em maio, Freire já recebeu em audiências o próprio Bacelar e sua irmã, Cristiane, secretária de Turismo em Camaçari.

No PL baiano, o deputado estadual Raimundinho da JR ensaia uma aproximação com o PT. Pré-candidato à prefeitura de Dias D’Ávila, onde o PT não apresentou nome à disputa, Raimundinho tenta atrair o apoio do governador Jerônimo Rodrigues (PT). No último mês, o deputado anunciou a indicação de emendas à Saúde no município e um projeto de tratamento de água tocado pela Embasa, empresa estadual de saneamento. Ao agradecer a Jerônimo pela ação, chamou-o de “grande líder”.

 

Fonte: O Globo

 

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