Jair de Souza: Por que devemos continuar empregando o termo
bolsonarismo
Muita gente tem reclamado do uso do termo
“bolsonarismo” para fazer referência à corrente política de extrema direita que
começou a ganhar destaque em nosso país a partir de meados da década passada.
O que se costuma alegar para justificar tal
contrariedade é, fundamentalmente, o fato de que a pessoa de cujo nome o termo
se deriva não contaria com a envergadura requerida para ser reconhecido como o
idealizador de uma corrente de pensamento político.
De acordo com quem levanta esta objeção, não é
justo que um sujeito tão inculto, tosco, falto de caráter e desprovido de
qualquer brilhantismo intelectual venha a gozar de uma importância tão
significativa a ponto de ter seu próprio nome servindo como base para a
designação de uma linha de visão política, seja ela de que orientação for.
É inegável que, se os critérios a respeitar nesta
questão forem realmente os mencionados no parágrafo anterior, seríamos forçados
a reconhecer que os que levantam essa objeção estão cobertos de razão.
Não há dúvidas de que o ex-capitão que é visto como
a Alma Mater do bolsonarismo pode ser considerado um dos políticos mais abjetos
de que se tem notícia no cenário político brasileiro desde tempos imemoriais.
Afora a circunstância de ter sido eternamente arredio ao trabalho, ele jamais
se envolveu em nenhuma atividade que não fosse exclusivamente em seu próprio
benefício.
Além do mais, sua cultura e sua capacidade
intelectual nunca foram seus pontos fortes, muito pelo contrário.
Em vista do que expusemos até o momento, não
deveríamos evitar recorrer a essa designação daqui para frente?
Não está mais do que evidente que alguém com
qualificações tão escabrosas não é merecedor de ser fonte para a nomeação de
nenhuma força atuante no jogo social?
Bem, embora eu tenha ciência de que vou frustrar as
expectativas de várias pessoas, quero deixar bem claro que sou favorável a que
não apenas continuemos a empregar a expressão, senão que passemos a utilizá-la
com muito mais frequência.
As justificativas para este meu posicionamento é o
que vou me esforçar por explicar nas seguintes linhas.
Em primeiro lugar, precisamos entender que, neste
caso específico, esta expressão não tem o objetivo de louvar aquele de quem ela
etimologicamente se derivou, e sim o de desmascarar a todos os que engendraram
a monstruosidade e depravação que ela carrega consigo.
Em outras palavras, ao escrevê-la ou proferi-la
oralmente e vinculá-la com certas pessoas ou grupos, nossa intenção é revelar
toda a podridão que caracteriza aos que com ela estão associados.
De modo nenhum almejamos equiparar um energúmeno a
um filósofo gestador de uma nova maneira de sentir e refletir o mundo em que estamos
inseridos, ou seja, devemos considerar sua aplicação como uma severa punição
daqueles que são, em realidade, os responsáveis pela existência de todas as
mazelas que o termo simboliza e transmite.
Não nos iludamos, não foi o ex-capitão miliciano o
inventor das monstruosidades com as quais sua imagem está indissoluvelmente
ligada.
A bem da verdade, ele é o fruto mais completo de
toda a sordidez comportamental e de caráter que vem marcando nossas classes
dominantes desde os primórdios de nossa constituição como sociedade.
Portanto, mesmo sem ser criador de nada, sua figura
reflete todas as aberrações cultivadas e praticadas pelos setores que sempre
agiram como senhores absolutos de tudo e de todos.
À continuação, vamos tentar expor e elucidar as
principais características do bolsonarismo.
Em sua base, está um furibundo ódio contra as
maiorias populares e uma profunda aversão a tudo que possa favorecer as camadas
mais despossuídas.
Em consequência, sempre houve uma enorme
resistência a qualquer medida que viesse a contribuir para diminuir o nível de
desigualdade social. Este traço tem se evidenciado em nossas terras desde os
primórdios da colonização europeia.
Não podemos nos esquecer que, com a chegada dos
colonos portugueses, instalou-se por aqui um regime de cruel exploração, com a
coisificação da mão de obra aborígene e daquela trazida da África na condição
de escravos.
No entanto, com o passar do tempo, este ódio ao
povo não deixou de existir. Tão somente adquiriu novas facetas e até se
acentuou.
Hoje em dia, esta ira histórica contra os menos
privilegiados continua presente e permanece como um dos fundamentos de nossos
exploradores e, como não poderia deixar de ser, do bolsonarismo.
Em segundo lugar, mas não menos importante para sua
constituição, está a hipocrisia. Seria impossível definir o bolsonarismo sem
levar em conta este fator.
Porém, uma vez mais, não foi o ex-capitão e nem
seus aduladores mais achegados os introdutores do hábito de fingir e falsear
posicionamentos para levar vantagens na vida política de nosso país.
Poderíamos, sim, dizer que o bolsonarismo conseguiu
a proeza de sintetizar e potencializar quase todas as variantes de hipocrisia
que há muito vêm sendo destiladas em profusão por nossas classes dominantes.
Em suma, ele tão somente se transformou no
desaguadouro natural das variadas torrentes de manipulação farsante de cunhos
pseudo-nacionalista, pseudo-moral, pseudo-cristão, entre outros, oriundas dos
eternos sanguessugas da nação brasileira.
Sabemos que o bolsonarismo foi gestado nas casernas
e nos círculos de militares retirados inconformados com a possibilidade de
acerto de contas com a Comissão da Verdade criada por Dilma Rousseff. Para
ganhar musculatura, se apropriaram das cores de nossa bandeira e dos símbolos
nacionais.
Por isso, tornou-se corriqueiro em manifestações
bolsonaristas o vestir camisetas verde-amarelas de nossa seleção de futebol,
cantar o hino nacional e bradar loas à Pátria.
Tudo isso para justificar a entrega de nossas
reservas petrolíferas às multinacionais gringas, o desmantelamento e
inviabilização da Petrobrás, a privatização e transferência da Eletrobrás a
grupos capitalistas estrangeiros e nacionais, e por aí vai.
Ou seja, nunca antes os símbolos da Pátria tinham
sido manipulados tão descaradamente para favorecer nossa espoliação e submissão
aos desígnios de potências estrangeiras. Porém, o bolsonarismo foi reflexo e
consequência de um espírito entreguista de longa data, e não a razão causante
do mesmo.
Como exemplo do moralismo hipócrita que permeia os
meios de comunicação corporativos do Brasil, é fundamental observar como esses
órgãos atuaram para ancorar e fortalecer o lavajatismo-morismo e sua pretensa
luta contra a corrupção.
Agora, já está mais do que comprovado que o
lavajatismo-morismo foi um dos mais nefastos instrumentos arquitetados pelas
forças do imperialismo e do grande capital local para travar o avanço de nosso
país pelos caminhos da soberania nacional.
Sob o pretexto de combater a corrupção, esses meios
se lançaram com tudo na campanha de endeusamento do ex-juiz suspeito Sergio
Moro e a justificação de todas as arbitrariedades por ele cometidas.
Além de destruir grande parte da infraestrutura
industrial do Brasil, de causar e expandir a miséria como nunca antes a todos
os rincões de nossa pátria, o lavajatismo-morismo acabou se mostrando como uma
das mais insidiosas máquinas de corrupção de toda nossa história, estando
envolvido em desvios ilegais que ultrapassariam a casa dos dois bilhões de
reais.
Em outras palavras, o lavajatismo-morismo levava em
seu bojo a hipocrisia típica de nossas classes dominantes. Cresceu e se nutriu
com base no apoio total e articulado da rede Globo e do restante da mídia
corporativa.
Atuou sempre em consonância com os interesses das
classes que o patrocinaram. Em decorrência, como não podia deixar de ser, o
lavajatismo-morismo ajudou a abrir as portas para a chegada do bolsonarismo ao
comando do Estado.
Para sacramentar essa questão da hipocrisia, convém
escrever algumas palavras sobre a mais significativa fonte de sustentação
numérica de massas do bolsonarismo: as igrejas ditas evangélicas, mormente as
neopentecostais.
Neste caso, temos o mais flagrante descaramento de
ver como se usa o nome de Jesus para defender tudo aquilo contra o que o
próprio Jesus lutou durante toda sua vida.
Os capitalistas donos dessas igrejas não se
envergonham de passar a seus seguidores a ideia de um Jesus avarento, sequioso
por dinheiro, vingativo, guerreirista e profundamente preconceituoso. Ou seja,
procuram transformar a imagem de Jesus em algo completamente contrário ao que
Jesus foi.
São essas igrejas que dão ao bolsonarismo uma certa
expressividade numérica junto ao povo. Essas igrejas neopentecostais
bolsonaristas recebem aos que vão a procura da bondade de Jesus e procuram
reencaminhá-los na rota do diabo.
Por tudo o que argumentamos até este ponto,
defendemos que o termo bolsonarismo continue sendo usado para fazer referência
a toda a podridão de nossas classes dominantes.
Entendo isto como uma maneira de puni-los por todo
o mal que vêm causando a nosso povo.
Fonte: Viomundo

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