Tornozeleira
visa parar o crime de lesa-pátria
Que
fique bem claro: o uso de tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente Jair
Bolsonaro, determinado na sexta-feira, 18 de julho, pelo ministro Alexandre
Moraes, não é uma antecipação de sua provável condenação por liderar a ação
golpista que culminou com a invasão e depredação das sedes dos três Poderes, em
8 de janeiro de 2023. Relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do julgamento
de Jair Bolsonaro e outros sete réus pelos crimes de conspiração golpista
contra o Estado Democrático de Direito, Moraes mandou a Polícia Federal
investigar as ações de Bolsonaro e seu filho, o deputado federal licenciado
Eduardo Bolsonaro (PL-RJ), para induzir o governo Trump a interferir no
julgamento em curso, com a chantagem da ameaça de tarifas de 50% contra as
exportações brasileiras a partir de 1º de agosto.
Ou seja, agora são três situações contra o ex-presidente tramitando no
Judiciário. Jair Messias Bolsonaro já foi condenado e considerado inelegível
até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral, em 30 de junho de 2023. E está sendo
julgado na Ação Penal 2.668 (denúncia do golpe) com outros 33 acusados, dos
quais oito, incluindo generais quatro estrelas, fariam parte do núcleo do
golpe. Depois, houve a manifesta interferência do deputado, que pediu licença
de 120 dias (expira neste domingo, 20 de julho) para atuar nos subterrâneos do
governo Trump a fim de sancionar o relator do processo, o ministro Alexandre de
Moraes. Mas Eduardo, que já pleiteou ser embaixador do Brasil nos Estados
Unidos em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro e quando Donald Trump estava
em seu primeiro mandato, não passa de aprendiz de feiticeiro. Sua magia junto à
MAGA virou um tiro pela culatra.
Ignorando a soberania entre os três Poderes, o presidente dos Estados Unidos
tomou a defesa de Jair Bolsonaro como uma causa pessoal e, se imiscuindo nos
assuntos internos do Brasil, exigiu "imediatamente" (em letras
maiúsculas) que o presidente Lula interrompa as ações contra Bolsonaro, sob a
ameaça de impor tarifaço de 50% sobre todas as exportações brasileiras aos EUA.
Trump usou o argumento mentiroso de que o Brasil causa, “por práticas desleais
de comércio”, grande déficit aos Estados Unidos [em15 anos, desde 2009, a
balança comercial é negativa para o Brasil, que acumula déficit de US$ 410
bilhões com os EUA]. A ameaça de Trump provocou revolta dos empresários,
trabalhadores e da opinião pública em defesa da soberania nacional (estimativas
dos maiores bancos brasileiros projetam perdas comerciais de dezenas de bilhões
de dólares e desemprego de mais de 150 mil trabalhadores) com a afronta às
instituições brasileiras.
Pela
declaração dos membros do clã Bolsonaro condicionando a suspensão das barreiras
tarifárias à anistia a Jair Bolsonaro e demais acusados que ainda nem tiveram o
julgamento concluído, para forçar o governo Lula a interferir no Judiciário, o
relator do processo das ações golpistas, o ministro Alexandre de Moraes,
determinou à Polícia Federal a instauração do inquérito 4.995/DF para
investigar as ações de Eduardo Bolsonaro – devidamente bancadas nos EUA com a
transferência de R$ 2 milhões, via Pix, confessada pelo pai. (Bolsonaro
arrecadou R$ 17 milhões em 2024 com contribuições de apoiadores, via Pix, para
"custear advogados"). A remessa foi considerada como uma
interferência direta do clã Bolsonaro para atrapalhar o andamento da Ação
Penal. Como o Judiciário – bem como o Legislativo – entraria em recesso
sexta-feira, 18 de julho, o ministro Moraes determinou o uso de tornozeleira
eletrônica por parte de Jair Messias Bolsonaro, para ser monitorado 24 horas, e
outras medidas cautelares. Com o passaporte retido, Bolsonaro deve cumprir
prisão domiciliar (ficar em casa das 18 horas até o amanhecer), está proibido
de ter contato com o filho Eduardo, de acessar mídias sociais e de se aproximar
de embaixadas estrangeiras.
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A nova acusação
O
inquérito 4.995 deve resultar na acusação de “coação no curso do processo e
tentativa de obstrução de Justiça". Mas o mais grave é o crime de
“atentado à soberania”. Trata-se de uma acusação inédita para Bolsonaro, e por
ironia foi o próprio ex-presidente quem sancionou a lei que incluiu a
tipificação no Código Penal, em 2021. No artigo 359-I do texto, classifica-se
como atentado à soberania a atitude de “negociar com governo ou grupo
estrangeiro, ou seus agentes, com o fim de provocar atos típicos de guerra
contra o país ou invadi-lo”. A pena prevista é de reclusão de três a oito anos.
Um crime de lesa-pátria.
Os
Bolsonaros, patriotas do pau-oco, alheios aos prejuízos à nação, aos
empresários e trabalhadores, assim como o pai só tratava a força terrestre como
“o meu Exército”, julgam que podem agora induzir o presidente Trump - como num
jogo de pôquer, no qual se renovam as apostas - a triplicar as ameaças
comerciais contra o Brasil, que já incluem o Pix, na retaliação à medida
cautelar de monitorar os passos de Jair Bolsonaro para não interferir no
processo.
Seria
mais irônico ainda se, no bojo das acusações que o USTR (o escritório de
comércio dos Estados Unidos) arrola para investigar o Pix - o sistema de
transferência eletrônica criado pelo Banco Central em 2020, no governo
Bolsonaro (repetindo o que já fazem cerca de 50 países) - por suposta
concorrência desleal contra bandeiras de cartões de crédito e débito dos EUA
(Visa, Mastercard e American Express, e a Western Union, em transferências
internacionais), houvesse o estorno de muitas operações. Imagine o que diria o
clã Bolsonaro se o botim dos R$ 17 milhões "doados" ao pai fosse
parcialmente confiscado pelo governo Trump. Seria atitude imperial como a
imposição de tarifas de 50%. A Redecard, do espanhol Santander, de Ana Botin,
não reclamou.
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Vitória com derrota do Brasil
Os
Bolsonaro saborearam uma pequena vitória na noite de sexta-feira, quando o
secretário de Estado dos Estados Unidos, o republicano Marco Rubio, anunciou
nas redes sociais (os grandes jornais dos EUA não noticiaram) ter determinado a
revogação dos vistos americanos do ministro Alexandre de Moraes, familiares e
“aliados no tribunal”. Numa agressão à soberania nacional do Poder Judiciário,
a suspensão de vistos seria estendida ao presidente do Supremo Tribunal
Federal, Luís Roberto Barroso, e aos ministros Dias Toffoli, Cristiano Zanin,
Flavio Dino, Carmen Lúcia, Edson Fachin e Gilmar Mendes. Como a Suprema Corte é
composta de 11 membros, divididos em duas turmas, a rigor ficaria de fora das
sanções, na Primeira Turma, que está julgando a ação do golpe, apenas o
ministro Luís Fux (ele integra a turma, presidida por Cristiano Zanin, junto
com Carmen Lúcia, Flavio Dino, Gilmar Mendes e o relator do caso, Alexandre de
Moraes). Na Segunda Turma, os isentos de qualquer sanção seriam os dois
ministros nomeados por Jair Bolsonaro, Cássio Nunes Marques e André Mendonça.
Essa
era, originalmente, como reconheceu Eduardo Bolsonaro, a sanção pela qual
batalhou nos Estados Unidos. Mas o aprendiz de feiticeiro só conseguiu seu
intento depois que o presidente Donald Trump, numa agressão à soberania do
Brasil, ameaçou o país com tarifas de 50% nas exportações, se não parasse
“IMEDIATAMENTE” as ações contra Jair Bolsonaro. Todo o episódio de chantagem do
clã Bolsonaro gerou forte reação em defesa dos interesses nacionais, ameaçados
como moeda de troca numa hipotética anistia para Bolsonaro, que desgastou a
direita e favoreceu o presidente Lula. A ação do Secretário de Estado
norte-americano, Marco Rubio, contra Moraes e mais de dois terços do STF, só
ocorreu depois que Moraes impôs restrições à circulação, com tornozeleira
eletrônica, do ex-presidente, e o proibiu de continuar trocando informações com
o filho 03 para interferir no julgamento em curso. Alheio aos bilionários
prejuízos dos empresários nas exportações aos EUA, o deputado licenciado
declarou em redes sociais que se considerava vingado pela sanção a Alexandre de
Moraes e demais ministros, pela “humilhação" ao pai.
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E o Brasil, ó!
A
última do Congresso antes do recesso.
Em todo
o mundo, a começar pelo Reino Unido, onde a Carta Magna definiu, no século 13,
a criação do Parlamento (então Câmara dos Lordes, ou senhores de terras) para
frear a sanha de gastos do Rei, a ser coberta com mais impostos, além de votar
leis, os deputados e senadores, eleitos para o Legislativo pelo
cidadão/contribuinte/eleitor, têm como obrigação fiscalizar as ações do
Executivo para impedir que o excesso de gastos resulte em mais impostos (para
cobrir os gastos) ou no pior dos impostos indiretos – a inflação.
No
penúltimo dia de atividades, antes do recesso de 18 de julho a 4 de agosto, o
Senado escolheu uma comissão de senadores de variados partidos para ir aos EUA
negociar com senadores americanos um nível menor nas tarifas às exportações. O
time de parlamentares será coordenado por Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da
Comissão de Relações Exteriores. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner
(PT-BA), entra como titular, acompanhado do líder do PT, Rogério Carvalho
(PT-SE), que ocupa uma cadeira de suplente. Dois ex-ministros do governo
Bolsonaro participarão das negociações: o astronauta Marcos Pontes (PL-SP) e
Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura.
Mas,
enquanto o Senado se prepara para defender os interesses da Nação, os deputados
aprontaram mais uma emboscada contra as finanças públicas, em represália ao
veto do presidente Lula ao aumento de 18 cadeiras de deputados federais na
legislatura de 2027 (eleição de 2026). O presidente da Câmara, o paraibano do
Republicanos, Hugo Motta, que já comemorara com os conterrâneos a cadeira de
mais um deputado (a representação aumentaria de oito para nove deputados
federais), irritado com a decisão do presidente Lula, pautou uma proposta
(aprovada) que onera em R$ 30 bilhões os gastos do Tesouro, com mais subsídios
no crédito do agronegócio, com saques a fundos constitucionais federais.
Ou seja, o discurso que tenta forçar o governo a cortar gastos sociais para
evitar aumento de impostos sobre os ricos, e que gerou a celeuma contra o IOF,
é muito de autodefesa. Os parlamentares, com os benefícios indiretos, ganham
bem mais que R$ 50 mil mensais, o limite acima do qual o governo propõe um
aumento gradativo do Imposto de Renda das Pessoas Físicas até 10%, incluindo
receitas de lucros e dividendos. Cortar gastos, só no bolso do eleitor.
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O que dizem as pesquisas?
O caro
leitor ou leitora que acompanha esta coluna já deve saber que dou valor
relativo às pesquisas eleitorais muito antecipadas. Na última postagem sobre o
assunto, dizia que só interessava aos governadores que não podem mais se
candidatar à reeleição e queriam medir as chances de uma vice-presidência ou
uma disputa ao Senado (duas vagas por estado em 2026). Pois bem: Lula, que
parecia enfraquecido, deu a volta por cima, com as trapalhadas do “sequestro”
do país pelo presidente Trump e a “famiglia” Bolsonaro.
Por
isso mesmo, continua ainda muito cedo para juízos de valor mais sólidos. E cabe
ressaltar que os bons resultados do governador do Paraná (Ratinho Jr, do PDS)
podem ser atribuídos a entrevistados que imaginavam ser o pai, o popular
apresentador do SBT, o candidato da planilha.
¨
Trump não é os Estados Unidos da América. Bolsonaro não é
o Brasil. Por Adhemar Bahadian
Será
mesmo o fim do caminho? O Brasil não passará como águas de março.
Não
somos um aliado qualquer. Nossas relações com os Estados Unidos foram
cimentadas desde Rio-Branco como uma "unwritten alliance”.
Trump não é os Estados Unidos da América. Bolsonaro não é o Brasil.
Longe
de estarmos “no fim do caminho”, fomos um aliado “ombro a ombro” com as tropas
americanas. Na Itália, até hoje - sei porque tive a honra de ser Embaixador do
Brasil no país, onde minha avó materna nasceu -, os habitantes de Pistóia e
cidades adjacentes recordam o que seus pais e avós contavam dos pracinhas
brasileiros. Solidários. Capazes de dividir comida com crianças famintas. Não é
um conto de fadas. Mas é um conto muito diferente do que se pode ler no
tristíssimo livro de Curzio Malaparte, “A Pele”.
Somos,
como os Estados Unidos da América, fundadores das Nações Unidas, signatários
originais da Carta constitutiva de um novo mundo sonhado após o fim da Segunda
Guerra Mundial. Não somos membro permanente do Conselho de Segurança das Nações
Unidas por uma - sejamos suaves - visão levemente aristocrática de um dos três
grandes vitoriosos da Grande Guerra.
E -
importante lembrar - a Carta das Nações Unidas não se preocupa só com a paz
mundial, mas também com a justiça social, os direitos humanos, a soberania dos
Estados, a solução pacífica de controvérsias, a não-ingerência nos assuntos
internos dos países signatários, mas não apenas neles.
A
simples recordação destes princípios fundamentais da convivência internacional
revela a monstruosidade dos últimos ataques de Trump à Democracia brasileira,
que em muito ultrapassam as já desgastadas acusações de natureza comercial, em
si igualmente desvairadas, sem qualquer pé na realidade e em confronto com os
compromissos não só da Carta das Nações Unidas, mas também dos assumidos na OMC
e no GATT (cláusula de nação mais favorecida).
Trump
lembra o troglodita que comprou a cobertura do edifício, rasgou a Convenção do
condomínio, ocupou dez vagas na garagem, fez dos elevadores sociais privativos
da cobertura, contratou o Jararaca ratinho e sua "big band" para
animar as festas diárias no terraço de seu apartamento e entrou na delegacia do
bairro com um pedido de intervenção contra o morador do segundo andar por não
suportar-lhe seu pacífico ronco noturno.
E manda
pau e pedra como se o Brasil fosse a Geni do Chico ou o fim do caminho do Tom.
A cassação dos vistos, provavelmente diplomáticos, do Ministro Alexandre de
Moraes e seus “aliados", é inominável, além de ridícula, e nos fazer
lembrar Charlie Chaplin em seu inesquecível “o Grande ditador, em que Hitler
brincava com o mapa-mundi como se fosse uma enorme bola de futebol.
Trump
não reconhece que suas exigências são atentatórias aos princípios da Carta das
Nações Unidas. Porém, igualmente, não podemos nos tornar cúmplices de aceitar,
ainda que como vítimas, o desmoronamento da ordem internacional, da solução
pacífica das controvérsias e dos princípios elementares do Direito
Internacional Público, do “Pacta sunt Servanda” e tantos
outros instrumentos que distinguem o homem moderno do pitecantropos bestial.
Se
somos, como os Estados Unidos da América, signatários originais da Carta das
Nações Unidas, somos, igualmente, seus defensores. Justo será, portanto, que
tanto o Brasil quanto os demais signatários da Carta que o desejem busquem pela
via do esclarecimento judicial soberano o saneamento dos graves inconvenientes
para a ordem internacional que estamos a ver proliferar diariamente.
Talvez
o órgão internacional ideal para resolver esta questão seja a Corte
Internacional de Haia. Porém, como não estou certo de que os Estados Unidos da
América, por razões diversas, aceitem a competência da Corte, talvez o
arbitramento por um tribunal ad-hoc, composto por Estados
signatários da Carta das Nações Unidas, possa ser a solução.
Lanço
aqui a ideia com a esperança de que possa ser objeto de conversações entre as
partes interessadas e que, dentre outras consequências, tenha efeito suspensivo
sobre as diversas ameaças de sanções econômicas, ou não, às partes diretamente
ameaçadas.
Fonte:
JB

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