quarta-feira, 2 de julho de 2025

The Economist está muito abaixo de Lula, afirma Marcelo Zero

A marca essencial da atual política externa da maioria dos países ocidentais é a da incoerência e da hipocrisia.

A The Economist deveria se olhar no espelho quebrado da geopolítica do Ocidente, em vez de criticar o Brasil de Lula.

Numa matéria inacreditável, a The Economist, refletindo o crescente isolamento planetário e a óbvia divisão do chamado Ocidente, criticou Lula, afirmando que o presidente brasileiro perdeu sua influência (clout) no exterior.

De onde a The Economist tirou esse dado tão imparcial e objetivo é um mistério. Provavelmente fez uma pesquisa entre seus editores reacionários, sempre dispostos a criticar quaisquer dissidências dos cânones ocidentais mais primários e ideológicos.

De imediato, pode-se perceber que a vetusta publicação ficou irritada com o fato de que o presidente Lula condenou o ataque norte-estadunidense ao Irã, ao dizer que tal ataque era uma violação da lei internacional.

O ataque estadunidense, foi, de fato, uma violação grave da Carta da Nações Unidas, que condena quisquer ataques desse tipo. Nesse sentido, o governo brasileiro apenas reafirmou o que deveria ser óbvio até para The Economist:

“Qualquer ataque armado a instalações nucleares representa flagrante transgressão da Carta das Nações Unidas e de normas da Agência Internacional de Energia Atômica. Ações armadas contra instalações nucleares representam uma grave ameaça à vida e à saúde de populações civis, ao expô-las ao risco de contaminação radioativa e a desastres ambientais de larga escala”.

O que há de incoerente ou dúbio nessa declaração?

Mas a The Economist afirma que o Brasil, acompanhando algumas democracias do Ocidente, deveria ter apoiado a loucura ou apenas ter “demonstrado preocupação”.

Ora, a Nota do Brasil sobre o assunto começa justamente afirmando que:

“O governo brasileiro expressa grave preocupação com a escalada militar no Oriente Médio e condena com veemência, nesse contexto, ataques militares de Israel e, mais recentemente, dos Estados Unidos, contra instalações nucleares, em violação da soberania do Irã e do direito internacional.”

Aparentemente, a The Economist viu, com inquietante naturalidade, a escalada de violência no Oriente Médio, a violação da Carta das Nações Unidas e o bombardeio a instalações nucleares.

Para ela, tudo está certo.

De fato, as “democracias ocidentais” são muito coerentes, nesse aspecto. Manifestam, sistematicamente, fidelidade canina às agressões do Império e às seguidas agressões ao Direito Internacional.

Foi assim na guerra no Iraque, na Líbia, no Afeganistão etc. Por que haveria de ser diferente, no caso do Irã? A diplomacia e o direito que se danem. O importante, o “coerente”, o “democrático” é impor violência à vontade. É usar, com desenvoltura, o Big Stick. Esse seria o termômetro da “democracia”.

Provavelmente, a The Economist vê também com naturalidade o massacre em Gaza. Tudo muito coerente e democrático.

O interessante é que as Nações Unidas, afirmaram, mediante seus especialistas, que:

“Esses ataques (contra o Irã) violam as regras mais fundamentais da ordem mundial desde 1945 – a proibição do uso agressivo da força militar e os deveres de respeitar a soberania e não intervir coercitivamente em outro país”, disseram os especialistas. “Os líderes políticos e militares americanos responsáveis ​​também podem ser responsabilizados pelo crime internacional de agressão.”

“Os ataques também ameaçaram seriamente os direitos humanos, incluindo os direitos à vida, à segurança pessoal, à saúde, a um meio ambiente limpo e à autodeterminação do povo do Irã”, disseram.

Aparentemente, as Nações Unidas também não estão adaptadas, como o Brasil, ao mundo de hoje, à nova distopia mundial hobbesiana criada pelo muito democrático e coerente Donald Trump.

A maior parte dos países do mundo, frise-se, também condenou o ataque. Assim, para a The Economist, a maior parte do mundo é incoerente e dúbia.

A revista também condena Lula por não ter se reunido com Trump, “ter se afastado dos EUA” e ter se aproximado da China.

Ora, ao que se saiba, Trump não convidou (ainda) Lula para comparecer à já famosa arapuca geopolítica da Casa Branca, na qual caíram Zelensky e Cyril Ramaphosa. Um show humilhante de horrores.

O Brasil não está se afastando dos EUA. Na realidade, Lula sempre manteve excelentes relações com os presidentes dos EUA, de Bush Junior a Biden. Somente a The Economist desconhece esse fato amplamente conhecido.

A bem da verdade, é Donald Trump quem está se afastando do mundo, das regras internacionais e da democracia. Com ele, vai junto a The Economist.

Todo o planeta sabe, menos a The Economist, que Trump está agredindo o mundo inteiro, mesmo seus aliados ocidentais e democráticos mais tradicionais.

Ameaçar o Canadá de anexação é algo democrático e coerente? Ameaçar a Groenlândia e a Dinamarca de agressão militar é algo coerente e democrático? Massacrar, às dezenas de milhares, bebês e mulheres palestinos é algo coerente e democrático? Genocídios e crimes de guerra devem ser normalizados?

É assim que o apoio aos direitos humanos e à democracia da The Economist se manifesta? Dessa forma, assim digamos, um tanto dúbia?

Impor, pela força, barreiras alfandegárias unilaterais os borbotões, contrariando os princípios da OMC e todas as regras multilaterais, é algo normal e democrático? É assim que a adesão da The Economist ao livre comércio se manifesta?

Lula e o Brasil têm de se adaptar a esse circo monumental atemorizante de violência e unilateralismo? A esse Brave New World do “Ocidente”. Isso é que é ser moderno?

Afinal, o que a The Economist entende por democracia e direito internacional?

Afinal quem é mais democrático no campo internacional? Trump e Netanyahu, que ameaçam, agridem e massacram seus rivais e mesmo antigos aliados, ou a China, que busca dialogar e comerciar com todo o mundo?

Neste momento, Lula está fazendo um grande esforço para fechar um acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul, contrapondo-se à loucura protecionista de Trump. Mas quem estão resistindo são as “democracias ocidentais coerentes”, como França, Áustria etc. Muito coerente. Protecionismo pouco dúbio.

Como todo o mundo sabe, menos a The Economist, a política externa do Brasil é multilateralista, multipolar, pacífica e procura manter relações profícuas e respeitosas com todos os países do mundo, sem discriminações.

O que a The Economist não consegue perceber, por ser tão preconceituosa, obtusa e reacionária, é que o mundo mudou.

A antiga ordem internacional sustentada pelo EUA e seus aliados não existe mais.

A geoeconomia mudou e a geopolítica também. O BRICS, goste ou não a The Economist, é hoje grupo fulcral para se entender o a nova ordem planetária, muito mais desconcentrada.

O mundo caminha em direção ao Sul Global, algo que deverá ser acerelado pela insanidade trumpista, que vai tentar transformar os EUA numa autêntica autocracia e o mundo numa terra sem regras.

O BRICS e o Sul Global são solução para uma ordem global distópica e unilateralista, que não responde mais aos desafios ambientais, econômicos e sociais do planeta.

Lula e o Brasil fazem parte dessa solução. Eles não se alinham e não se submetem a ninguém, muito menos aos parvos decadentes da The Economist, que apenas está cumprindo seu triste papel de ajudar a promover uma guerra híbrida contra o governo independente do Brasil.

O Brasil perdeu muita influência mundial, sim, na época de Bolsonaro, aquele que batia continência para a bandeira estadunidense, e que, nos foros mundiais, conversava com assombrados garçons.

Lula recuperou o protagonismo brasileiro e recolocou nossa diplomacia, no rumo correto do multilateralismo, da multipolaridade, da diversificação diplomática, do ambientalismo e da paz.

Lula e o Brasil estão do lado certo da História. Ao lado da maioria do planeta. Ao lado do multilateralismo, tão ameaçado pelo Ocidente trumpista e violento.

Já a The Economist, coitada, estacionou na década de 90 do século passado.

Não está entendendo nada. Foi atropelada pelo novo cenário mundial e está perdida, agredindo, por encomenda, quem tem a dignidade e a coerência de defender a humanidade e seus valores maiores.

The Economist manifesta muita pobreza intelectual e grande viés geopolítico. Podiam, ao menos terem recorrido a chats de inteligência artificial. Teriam se saído melhor.

A The Economist está muito abaixo de Lula.

¨      O Brasil não perdeu influência com Lula — está pagando a conta do bolsonarismo, diz Maria Luiza Falcão Silva

A recente matéria da revista The Economist sobre a suposta “perda de relevância internacional” do Brasil sob Lula é mais uma evidência de como parte da imprensa internacional tem analisado a política externa brasileira com lentes míopes e, por vezes, mal-intencionadas. É irônico que se critique Lula por uma influência que ainda não se consolidou plenamente, ignorando que foi sob Jair Bolsonaro que o Brasil sofreu seu maior isolamento diplomático desde a redemocratização.

O governo Lula III não herdou um Brasil neutro, prestigiado e pronto para retomar sua liderança natural nos foros internacionais. Herdou um país desprestigiado, desconectado dos grandes debates globais, desacreditado como interlocutor confiável e ambientalmente classificado como pária.

Jair Bolsonaro desmontou a política externa brasileira, esvaziou o Itamaraty, agiu com hostilidade diante do multilateralismo e associou o Brasil às figuras mais controversas do cenário internacional — Donald Trump, Viktor Orbán, Benjamin Netanyahu. E quando o mundo enfrentava a maior crise sanitária do século, Bolsonaro zombava da ciência, sabotava a vacinação e colocava o país sob suspeita de genocídio e de forma mais dramática de genocídio indígena. Foi ali, e não agora, que o Brasil perdeu sua relevância.

É verdade que Lula ainda não recuperou totalmente o protagonismo de seus dois primeiros mandatos. Mas essa recuperação exige tempo e condições políticas internacionais que hoje são radicalmente diferentes. A ordem liberal internacional está fragmentada. O multilateralismo vive sua maior crise desde a fundação da ONU. A guerra na Ucrânia criou novas divisões. A ascensão da extrema direita, inclusive dentro do próprio “Ocidente”, deslegitima discursos de superioridade moral que sustentavam as velhas alianças atlânticas. O massacre de Israel à população civil indefesa de Gaza, com apoio de Washington, mancha ainda mais a autoridade ética das democracias ocidentais. Nesse mundo dilacerado, esperar de Lula uma diplomacia universalmente admirada em menos de dois anos é pura má-fé.

Mais ainda: o artigo da The Economist reproduz uma lógica binária entre “Ocidente democrático” e “autocracias do Sul”, esquecendo que potências como Índia e Israel, hoje tratadas como democracias funcionais, também flertam com o autoritarismo e o ultranacionalismo.

A crítica ao suposto alinhamento do Brasil com China, Rússia ou Irã parece ignorar que esses países fazem parte dos BRICS desde antes, que o Brasil sempre buscou autonomia diplomática — e que o princípio do não alinhamento, tão caro à nossa tradição, é justamente o que impede o país de se tornar satélite dos interesses americanos ou chineses.

Lula pode ser criticado por algumas ambiguidades, mas não por ser incoerente com a política externa brasileira de longa data.

Ao contrário do que afirma a revista, o Brasil voltou a ocupar espaços importantes na cena internacional. Na presidência rotativa do G20, ano passado, em novembro, trouxe para reunião no Brasil 18 chefes de Estado, incluindo os presidentes da China, Xi Jinping; e dos Estados Unidos, Joe Biden; a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen; e o presidente da União Africana, Mohamed Cheick El Ghasouani.

No mês de julho, que começa amanhã, na presidência do BRICS em 2025, o Brasil sediará, no Rio de Janeiro, a cúpula de chefes de Estado e, em novembro, hospedará a COP30 em Belém do Pará.

Lula retomou o protagonismo na pauta climática, reaproximou-se da África e ampliou sua presença nos fóruns do Sul Global. Foi aclamado em Davos,  na ONU e na União Africana. Foi recebido na França por Macron, com pompas e circunstâncias, pavimentando o caminho para a assinatura do acordo de comércio entre União Europeia e o Mercosul.

Em junho, assumiu, também, a presidência do Mercosul, com o objetivo de fortalecer a integração regional, destravar o acordo com a União Europeia e articular posições comuns na transição ecológica. Coube a Lula redinamizar a CELAC, conferindo nova energia à articulação política latino-americana, que havia sido esvaziada e desvalorizada sob Bolsonaro. Isso não é retração. É reconstrução.

Não se trata de endeusar Lula nem de ignorar os desafios. A política externa brasileira precisa, sim, de mais firmeza diante de violações de direitos humanos, venha de onde vierem. O Brasil não pode ser omisso frente às guerras, nem evitar o debate sobre democracia no Sul Global. Mas tampouco pode aceitar que as velhas potências ditas liberais exijam uma lealdade que elas mesmas não praticam. 

O mundo exige uma nova postura: crítica, plural, pragmática e baseada em princípios. Lula está tentando construir esse caminho, com todas as contradições que isso implica. Em vez de reconhecer esse esforço de reconstrução, a The Economist escolheu desmerecer o trabalho de reposicionamento de um país que foi empurrado ao abismo diplomático por um governo antiglobalista, integracionista e reacionário.

A perda de influência não está no Planalto. Está na visão superficial de quem ainda espera um Brasil submisso, alinhado sem voz própria, desprovido de ambição global. Esse Brasil, sim, perdeu a relevância. E Lula está tentando resgatá-lo. 

 

 

Fonte: Brasil 247

 

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