quarta-feira, 2 de julho de 2025

Crise climática já reduz a produção agrícola global e agrava insegurança alimentar

Pesquisas recentes expõem a “nova realidade climática” na agricultura, com perdas de safras essenciais, desafios de adaptação e a intensificação das desigualdades globais.

As mudanças climáticas não são mais uma ameaça distante para a agricultura mundial, mas uma realidade presente que já está causando perdas significativas na produção de grãos essenciais e projetando um cenário de escassez hídrica sem precedentes.

Pesquisas recentes, incluindo um estudo da Universidade de Stanford, apontam que a produtividade de safras globais de trigo, milho e cevada está entre 4% e 13% menor do que seria na ausência das tendências climáticas observadas, devido ao aquecimento e à secura do ar que afetam quase todas as principais regiões agrícolas do mundo.

<><> Impactos atuais e projeções futuras

O aumento da frequência de ondas de calor e períodos de seca tem prejudicado severamente a produção agrícola. Em algumas regiões, as temporadas de cultivo estão mais quentes do que em quase qualquer outro registro dos últimos 50 anos. Essa intensificação do aumento da temperatura e da secura do ar é um fator crucial de estresse para as lavouras.

Projeções futuras revelam mudanças ainda mais profundas e rápidas. As atuais regiões de cultivo principais verão alterações severas muito mais cedo do que o esperado, exigindo que os agricultores se adaptem agora às novas realidades climáticas.

•        Milho: É a cultura mais afetada negativamente. A previsão é de que o rendimento da safra de milho diminua em quase um quarto até o final do século. Regiões como América do Norte e Central, África Ocidental, Ásia Central e Oriental podem ver uma queda na produção de milho em mais de 20% nos próximos anos.

•        Trigo: Por outro lado, o trigo, que se adapta melhor a climas temperados, pode ter um potencial de aumento na produção global de cerca de 17%, especialmente em áreas como o norte dos Estados Unidos e Canadá, e na China.

No entanto, é crucial notar que os ganhos de trigo no Norte Global não compensam as perdas de milho no Sul Global, o que exacerba as desigualdades existentes e a segurança alimentar nos países mais pobres.

<><> A ameaça da escassez hídrica

A escassez de água é um problema crescente em todos os continentes com agricultura, representando uma grande ameaça à segurança alimentar. Um estudo da American Geophysical Union (AGU) prevê que a seca deve aumentar em mais de 80% das terras agrícolas do mundo até 2050.

Este estudo introduziu um novo índice para medir a escassez de água, considerando tanto a “água verde” (água da chuva disponível no solo) quanto a “água azul” (irrigação de rios, lagos e águas subterrâneas), algo que a maioria dos modelos anteriores não fazia de forma abrangente.

A disponibilidade de água verde, essencial para as plantas, está mudando devido a padrões de precipitação e evaporação alterados por temperaturas mais altas, impactando cerca de 16% das terras agrícolas globais.

Enquanto algumas áreas, como o nordeste da China e o Sahel africano, podem receber mais chuva, outras, como o Centro-Oeste dos EUA e o noroeste da Índia, podem sofrer redução de precipitação, levando a um aumento na necessidade de irrigação.

<><> Outras consequências interligadas

Os impactos das mudanças climáticas na agricultura vão além da simples queda de produtividade e escassez de água:

•        Emissões de Gases de Efeito Estufa: A agricultura já contribui com cerca de 30% do aquecimento global. As mudanças climáticas podem intensificar essas emissões, especialmente de óxido nitroso e metano, devido ao aumento do uso de fertilizantes e à decomposição da matéria orgânica em solos mais quentes.

•        Degradação do Solo: Temperaturas elevadas e eventos climáticos extremos aceleram a erosão, salinização e perda de nutrientes do solo, reduzindo sua produtividade e capacidade de armazenar carbono.

•        Pragas e Doenças: Condições climáticas alteradas podem favorecer a proliferação de pragas e doenças que afetam as culturas, levando a perdas significativas e maior necessidade de pesticidas, com impactos negativos na saúde humana e no meio ambiente.

•        Perda de Biodiversidade: Algumas culturas e variedades de gado podem não conseguir se adaptar às novas condições climáticas, resultando em perda de diversidade genética e tornando os sistemas agrícolas mais vulneráveis.

Esses impactos podem interagir e se amplificar, criando um ciclo de feedback negativo que, sem intervenções adequadas, pode ter consequências devastadoras para a agricultura e a segurança alimentar global.

<><> Desafios nos modelos e a necessidade de adaptação

Curiosamente, os modelos climáticos usados para prever esses impactos tiveram “surpresas”. Eles erraram ao prever o grau de secura em zonas temperadas como Europa e China, onde o aumento foi muito maior do que o esperado.

Por outro lado, lavouras nos Estados Unidos, especialmente no Meio-Oeste, sofreram menos do que os modelos indicavam. Essas falhas são cruciais porque afetam a formulação de estratégias de adaptação, como esforços anteriores para prolongar a estação de cultivo que podem ter sido mal direcionados.

Ainda assim, a ciência do clima tem sido notável em antecipar os impactos globais sobre os principais grãos. A percepção pública, que muitas vezes subestima uma perda de produtividade de 5% ou 10%, precisa ser ajustada, pois essas percentagens são suficientes para “abalar os mercados” e afetar o “alimento suficiente para centenas de milhões de pessoas”.

Diante dessa “nova realidade climática”, a urgência em desenvolver estratégias de adaptação eficazes é clara. Soluções incluem:

•        Práticas de conservação de água: Cobertura morta para reduzir a evaporação, plantio direto para estimular a infiltração de água no solo, e ajuste do tempo de plantio para alinhar o crescimento das culturas com os padrões de chuva.

•        Melhoria da infraestrutura: Aprimorar a infraestrutura de irrigação (especialmente na África) e a eficiência da irrigação a longo prazo.

•        Apoio à pesquisa e desenvolvimento: Investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento são necessários para evitar declínios na produtividade agrícola.

A ciência climática continua sendo uma bússola essencial para guiar decisões políticas e garantir a segurança alimentar global.

É imperativo que agricultores e formuladores de políticas ajam rapidamente para mitigar os efeitos já visíveis e se preparar para os desafios futuros.

•        Seca deve aumentar em mais de 80% das terras agrícolas do mundo até 2050

Estudo publicado na revista Earth’s Future da AGU, examina as necessidades de água atuais e futuras para a agricultura global e prevê se os níveis de água disponíveis, seja da chuva ou da irrigação, serão suficientes para atender a essas necessidades sob as mudanças climáticas.

Para isso, os pesquisadores desenvolveram um novo índice para medir e prever a escassez de água nas duas principais fontes da agricultura: água do solo que vem da chuva, chamada de água verde, e irrigação de rios, lagos e águas subterrâneas, chamada de água azul. É o primeiro estudo a aplicar este índice abrangente em todo o mundo e prever a escassez global de água azul e verde como resultado das mudanças climáticas.

“Como o maior usuário de recursos hídricos azuis e verdes, a produção agrícola enfrenta desafios sem precedentes”, disse Xingcai Liu, professor associado do Instituto de Ciências Geográficas e Pesquisa de Recursos Naturais da Academia Chinesa de Ciências e principal autor do novo estudo. “Este índice permite uma avaliação da escassez de água agrícola em terras de sequeiro e irrigadas de forma consistente.”

Nos últimos 100 anos, a demanda por água em todo o mundo cresceu duas vezes mais rápido que a população humana. A escassez de água já é um problema em todos os continentes com agricultura, apresentando uma grande ameaça à segurança alimentar. Apesar disso, a maioria dos modelos de escassez de água não conseguiu dar uma olhada abrangente tanto na água azul quanto na verde.

A água verde é a porção da água da chuva que está disponível para as plantas no solo. A maioria da precipitação acaba como água verde, mas muitas vezes é ignorada porque é invisível no solo e não pode ser extraída para outros usos. A quantidade de água verde disponível para as culturas depende da quantidade de chuva que uma área recebe e da quantidade de água perdida devido ao escoamento e evaporação. As práticas agrícolas, a vegetação que cobre a área, o tipo de solo e a inclinação do terreno também podem ter efeito. À medida que as temperaturas e os padrões de chuva mudam sob as mudanças climáticas, e as práticas agrícolas se intensificam para atender às necessidades da população crescente, a água verde disponível para as plantações provavelmente também mudará.

Mesfin Mekonnen, professor assistente de Engenharia Civil, Construção e Ambiental da Universidade do Alabama, que não esteve envolvido no estudo, disse que o trabalho é “muito oportuno para destacar o impacto do clima na disponibilidade de água nas áreas de cultivo”.

“O que torna o artigo interessante é desenvolver um indicador de escassez de água levando em consideração tanto a água azul quanto a água verde”, disse ele. “A maioria dos estudos se concentra apenas nos recursos de água azul, dando pouca consideração à água verde.”

Os pesquisadores descobriram que, sob as mudanças climáticas, a escassez global de água para agricultura piorará em até 84% das terras cultivadas, com uma perda de abastecimento de água levando à escassez em cerca de 60% dessas terras agrícolas.

<><> Soluções de semeadura

Mudanças na água verde disponível, devido à mudança nos padrões de precipitação e evaporação causada por temperaturas mais altas, agora devem impactar cerca de 16% das terras agrícolas globais. Adicionar essa importante dimensão à nossa compreensão da escassez de água pode ter implicações para a gestão da água na agricultura. Por exemplo, prevê-se que o nordeste da China e o Sahel, na África, recebam mais chuva, o que pode ajudar a aliviar a escassez de água agrícola. No entanto, a redução da precipitação no meio-oeste dos EUA e no noroeste da Índia pode levar a aumentos na irrigação para apoiar a agricultura intensa.

O novo índice pode ajudar os países a avaliar a ameaça e as causas da escassez de água na agricultura e desenvolver estratégias para reduzir o impacto de futuras secas.

Várias práticas ajudam a conservar a água agrícola. A cobertura morta reduz a evaporação do solo, o plantio direto estimula a infiltração da água no solo e o ajuste do tempo de plantio pode alinhar melhor o crescimento das culturas com as mudanças nos padrões de chuva. Além disso, a agricultura de contorno, onde os agricultores cultivam o solo em terrenos inclinados em fileiras com a mesma elevação, evita o escoamento da água e a erosão do solo.

“A longo prazo, melhorar a infraestrutura de irrigação, por exemplo na África, e a eficiência da irrigação seriam formas eficazes de mitigar os efeitos das futuras mudanças climáticas no contexto da crescente demanda por alimentos”, disse Liu.

 

Fonte: EcoDebate

 

Nenhum comentário: