Tarifaço
de Trump: Bolsonaro jogou alto e arrisca perder o pouco que ainda tinha
Duas
semanas atrás, a oposição comemorou uma vitória na Câmara dos Deputados na
questão do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Dormiu celebrando,
tomando uísque no gargalo, e acordou com a ressaca de ver o governo tomar as
rédeas do debate político no dia seguinte. Como escrevi aqui, estava jogando
alto e arriscando perder tudo.
Seria
ingenuidade achar que os Estados Unidos arriscam perder tudo jogando contra o
Brasil. A disparidade de forças é grande o suficiente para não haver risco de
perder tudo – pelo menos no curto e médio prazo, ainda que a ação possa vir a
alimentar um avanço na aliança do Brasil com China e Rússia.
Mas o
gesto de Trump, que pode ter consequências significativas para a economia
brasileira, mostrou que Jair Bolsonaro jogou mais alto que a oposição e ele,
sim, arrisca perder tudo.
Bolsonaro
e sua família pediram a intervenção do governo dos EUA, na tentativa de barrar
o processo que deve levá-lo à cadeia pelas tentativas de golpe de Estado no
final de 2022 e início de 2023. Conseguiu: a carta de Trump é inequívoca, pois
atende a essa reivindicação.
Ou
seja, os Bolsonaros jogaram alto e receberam o que pediram. Se os EUA têm pouco
a perder, o tremor de terra atinge o Brasil em cheio. Não se trata de uma carta
contra Lula e o PT, mas de um ataque frontal, pesado e inequívoco ao Brasil.
Ao se
posicionar ao lado da extrema-direita brasileira, Trump reage às articulações
da política externa brasileira, sobretudo ao resultado da cúpula dos Brics –
que, de algum modo, apontou um avanço na consolidação do bloco, apesar das
ausências de Vladimir Putin e Xi Jinping.
Para os
EUA e seu tacão imperialista, o recado está dado, e o Brasil precisará
demonstrar alguma unidade para, como se diz no boxe, “encaixar o golpe”. A
reação pronta de Lula, dizendo que o Brasil reproduzirá a alíquota absurda, é
mais do que adequada: é a única politicamente aceitável de um presidente de uma
República minimamente autônoma.
O ônus
da confusão, no entanto, deve cair sobre Jair Bolsonaro. Uma coisa é trair a
democracia – algo grave, mas que, infelizmente, tem seu apelo popular. Outra é
pedir sanções contra o próprio país e conseguir.
Bolsonaro
já é o maior traidor do povo brasileiro no século XXI. Mas se candidata a
garantir a medalha de ouro na história do país desde sua independência.
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Trump põe fogo na política brasileira e sai rindo à toa
Enquanto
isso, Trump, como todo bilionário, representando um país triliardário, ri à
toa. Põe fogo na política brasileira, atrapalha a política externa brasileira e
ainda conta com um laranja para assumir a culpa tanto no cenário nacional
quanto internacional.
Lula,
por sua vez, tem um problema complexo para resolver, que é reduzir os danos
econômicos (com ou sem a efetiva implementação do tarifaço, prevista para 1º de
agosto) e manter a cabeça erguida. Se assim se mantiver, ganhará apoio popular
mesmo que nem tudo dê certo.
Até o
momento em que escrevo este texto, mesmo a mídia tradicional parece mais
alinhada com a defesa do Brasil do que preocupada em culpar Lula.
É certo
que não faltará, sobretudo nos setores dependentes dos Estados Unidos (agro e
capital financeiro), quem queira culpar o presidente da República Lula e
Alexandre de Moraes pelos arroubos de Trump e pelos apelos de Bolsonaro para
que os norte-americanos prejudiquem o país.
Nas
ruas, no entanto, o provável é que Lula conquiste admiradores entre muitos que
estavam jogando pedras em seu governo.
E, na
seara da economia internacional, uma palavra basta para dizer quem vai
trabalhar forte para que se encontre uma saída para o caso: China.
• 'Trump se identifica com Bolsonaro,
ambos se veem como vítimas de progressistas'
Nos
últimos dias, Donald Trump havia dado uma série de declarações de apoio ao
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e sinalizava o anúncio de uma taxa contra
produtos exportados pelo Brasil.
Embora
especialistas nas relações Brasil-Estados Unidos já esperassem que as tarifas prometidas
de fato viriam, muitos deles não imaginavam que a medida anunciada pelo
presidente dos Estados Unidos na quarta-feira (9/7), que estipulou uma taxação
de 50% sobre bens de nosso país, tivesse essa magnitude.
O valor
definido por Trump contra o Brasil é o maior entre todas as taxas anunciadas
nesta segunda leva do "tarifaço".
Desde a
segunda-feira (7/7), o presidente americano tem enviado cartas a países
anunciando as novas tarifas que entram em vigor em agosto. Tirando a taxa
aplicada ao Brasil, os valores variam de 20% (para as Filipinas) a 40% (Laos e
Mianmar).
Um dos
analistas que se surpreendeu foi Christopher Garman, diretor-geral de Américas
do Eurasia Group, uma consultoria e empresa de risco político.
"A
intensidade da tarifa causou surpresa", admite ele, em entrevista à BBC
News Brasil.
"Embora
o presidente Trump já estivesse ameaçando os membros do Brics com tarifas
adicionais, o Brasil inicialmente estava na lista das nações que tiveram a taxa
mínima, de 10%, e é um país que tem déficit na balança comercial com os Estados
Unidos", lembra o pesquisador, que é um dos principais especialistas sobre
os impactos políticos das decisões macroeconômicas.
O Brics
é o bloco inicialmente formado pelas economias emergentes de Brasil, Rússia,
Índia, China e África do Sul e que foi ampliado a partir de 2024, com a entrada
de seis países — Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia,
Indonésia e Irã — e que acaba de realizar uma cúpula no Rio de Janeiro.
Mas o
que explica este anúncio de Trump?
Para
Garman, a grande motivação do presidente americano é política e ideológica.
"A
política brasileira é um espelho da política americana. Me parece que Trump se
identifica com os desafios que Bolsonaro enfrenta no Brasil", avalia ele.
"Ambos
se veem como vítimas de um establishment progressista, que supostamente
caminharia para um regime de censura por meio de ataques aos seus oponentes
pelas vias judiciais."
Seguindo
esse raciocínio, Trump avaliaria que Bolsonaro passa por algo similar ao que
ele próprio viveu após perder as eleições de 2020, em que a Presidência dos EUA
foi conquistada por Joe Biden.
"Trump
parece querer dar um sinal claro contra países que ele acredita não respeitarem
a ordem democrática", avalia Garman.
Para o
analista, as taxas de 50% sobre o Brasil não têm qualquer justificativa
comercial ou econômica.
"Não
se trata de um mecanismo para ajustar a relação bilateral, para barrar a
entrada de produtos chineses ou para controlar a entrada de imigrantes nos EUA.
É um instrumento político e ideológico."
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O que os EUA e o Brasil podem ganhar (e perder)
Do
ponto de vista de Garman, o anúncio de Trump "enfraquece um governo que
está no espectro ideológico oposto".
"Essa
também é uma maneira de tentar enfraquecer o próprio Brics, que o presidente
dos EUA acredita ser um grupo que se opõe aos interesses americanos", diz
ele.
Do
ponto de vista econômico, o diretor do Eurasia Group não vê ganhos claros para
os Estados Unidos.
"Existem
alguns setores no qual a economia americana depende mais de produtos
brasileiros. Mas o Brasil representa uma porcentagem pequena do total das
importações americanas", pondera ele.
Já para
o Brasil, Garman entende que "vários setores serão negativamente
impactados".
"É
o caso da mineração, da produção de aeronaves e do agro, especialmente os
produtores de suco de laranja, café, madeira e celulose", lista ele.
Mas o
especialista entende que parte dessas exportações brasileiras que tinham os EUA
como destino podem ser vendidas para outros mercados.
"A
tendência é que a taxação tenha um impacto modesto no crescimento do Brasil,
mas, ainda assim, haverá um impacto", projeta ele.
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Desdobramentos para Lula e Bolsonaro
Na
avaliação de Garman, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
pode enxergar na taxação "uma grande oportunidade para as eleições de
2026".
"O
Palácio do Planalto pode entrar num embate com Trump, e passar a mensagem de
que a família Bolsonaro faz alianças com um governo estrangeiro, que tira
empregos dos brasileiros", antevê o especialista.
"O
presidente Lula pode se beneficiar de uma onda nacionalista, criada a partir de
uma espécie de bullying internacional feito pelos Estados Unidos."
Diante
desse cenário, Garman entende que o presidente Lula tende a "inflar a
retórica" contra a taxação — o que dificulta um caminho de negociação e
acomodação dos interesses.
"Pode
até haver uma negociação específica entre algumas empresas e setores, com
trocas e exceções às tarifas", acredita ele.
Já para
o ex-presidente Jair Bolsonaro, Garman avalia que será necessário observar se a
taxação de Trump representa um fortalecimento do nome de Lula nas urnas.
"Se
isso se concretizar, ele pode tentar de alguma maneira pedir uma redução das
tarifas americanas diretamente a Trump, para fazer um papel de
intermediação", diz ele.
Para
Garman, a situação brasileira se difere um pouco do que aconteceu com Canadá,
México e outros países, nos quais houve uma acomodação de interesses após o
anúncio de tarifas por Trump.
"O
Brasil não tem uma economia tão integrada com os EUA, como Canadá e México.
Além disso, não há um compartilhamento de raízes ou tradições, como acontece
entre esses países", observa ele.
"Embora
o Brasil seja um país dividido e polarizado, acho razoável pressupor que Lula
pode se beneficiar parcialmente dessa taxação", acredita o analista.
Por
fim, o diretor do Eurasia Group projeta que as tarifas de Trump podem
enfraquecer os laços de Brasil e EUA, mas fortalecer a relação com outros
atores internacionais.
"Pode
haver um fortalecimento da relação do Brasil com China, União Europeia e
Oriente Médio", cita ele.
"O
Brasil vai buscar outros mercados e a tendência é que os laços institucionais
com os Estados Unidos fiquem enfraquecidos."
"Mesmo
que um acordo parcial seja feito, ainda assim esse relacionamento vai sair
arranhado", conclui ele.
• Para o STF, situação jurídica de Eduardo
Bolsonaro se agravou após ele agradecer Trump pelo tarifaço ao Brasil
Ministros
do Supremo Tribunal Federal avaliam que a situação jurídica do deputado federal
licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) se agravou significativamente no contexto
da investigação aberta pela Corte por tentativa de coação da Justiça.
O
parlamentar também é investigado por obstrução de investigação de infração
penal que envolva organização criminosa e por possível envolvimento em
tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Licenciado
do mandato, Eduardo está atualmente nos Estados Unidos. A Justiça apura se ele
atua para influenciar o governo de Donald Trump com o objetivo de atrapalhar
processos que investigam seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e aliados,
por tentativa de golpe de Estado.
Ministros
do STF destacaram que Eduardo produziu provas contra si ao publicar, na noite
de quarta-feira (10), uma mensagem em rede social assumindo a articulação que
resultou na decisão de Trump de impor tarifas de 50% sobre produtos
brasileiros.
Somam-se
a esse post a carta do próprio Donald Trump, na qual o ex-presidente americano
justifica o tarifaço como uma reação à “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro.
Para integrantes do Supremo, esse conjunto de novos elementos fortalece a linha
de investigação da Corte.
Nesse
cenário, interlocutores do tribunal afirmam que Eduardo Bolsonaro pode
enfrentar um julgamento ainda antes das eleições de 2026. Se houver denúncia da
Procuradoria-Geral da República (PGR) e posterior condenação por um colegiado
como o STF, o deputado poderá ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa e ficar
inelegível.
• Tarifaço de Trump enterra planos da
oposição de votar texto da Anistia antes do recesso
A
decisão de Trump vai dificultar os planos da oposição de votar o chamado o
projeto da Anistia. Havia uma expectativa da Câmara analisar um texto
alternativo da proposta antes do recesso de meio de ano. Agora se tornou
inviável.
O
polêmico projeto previa originalmente livrar das condenações quem tivesse sido
enquadrado pela Justiça por ataques à democracia. A versão suavizada, pensada
para facilitar a aprovação, contemplaria presos que já cumpriram um sexto de
pena. Pela lei, eles já teriam direito a liberdade. A anistia serviria para
limpar a ficha deles e, ao mesmo tempo, evitar embates com o Judiciário.
A
Câmara se prepara para votar mais de 30 propostas na semana que vem, em uma
semana de esforço concentrado antes do recesso de meio de ano. Como a votação
da Lei de Diretrizes Orçamentárias ficará para agosto, a paralisação será
informal.
Nenhum
delas é o requerimento de urgência do projeto de lei (PL)da Anistia.
“O
presidente Hugo [Motta] prefere esperar o desenrolar dos esclarecimentos para
decidir sobre esse projeto”, disse o líder do PL na Câmara, deputado Sostenes
Cavalcante (Pl-RJ) nesta quinta (10) depois da reunião do Colégio de Líderes.
“A
decisão do Trump inviabilizou o PL da anistia. Você viu a carta do Eduardo
(Bolsonaro). É uma questão de soberania. Eles estão atrapalhando o Brasil por
causa disso”, afirmou o líder do PT, Lindbergh Farias (PT-RJ).
Em
farta, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu que a
decisão de Trump possa ser revertida com uma “anistia ampla, geral e
irrestrita”.
Nesta
quinta (10), Hugo Motta e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP),
divulgaram uma nota conjunta afirmando que o Congresso vai monitorar os
desdobramentos do tarifaço e atuar em sintonia com o Executivo para mitigar
seus efeitos.
“Estaremos
prontos para agir com equilíbrio e firmeza em defesa da nossa economia, do
nosso setor produtivo e da proteção dos empregos dos brasileiros”, diz o texto.
Fonte:
Opera Mundi/BBC News Brasil/g1

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