sábado, 12 de julho de 2025

Tarifaço de Trump: Bolsonaro jogou alto e arrisca perder o pouco que ainda tinha

Duas semanas atrás, a oposição comemorou uma vitória na Câmara dos Deputados na questão do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Dormiu celebrando, tomando uísque no gargalo, e acordou com a ressaca de ver o governo tomar as rédeas do debate político no dia seguinte. Como escrevi aqui, estava jogando alto e arriscando perder tudo.

Seria ingenuidade achar que os Estados Unidos arriscam perder tudo jogando contra o Brasil. A disparidade de forças é grande o suficiente para não haver risco de perder tudo – pelo menos no curto e médio prazo, ainda que a ação possa vir a alimentar um avanço na aliança do Brasil com China e Rússia.

Mas o gesto de Trump, que pode ter consequências significativas para a economia brasileira, mostrou que Jair Bolsonaro jogou mais alto que a oposição e ele, sim, arrisca perder tudo.

Bolsonaro e sua família pediram a intervenção do governo dos EUA, na tentativa de barrar o processo que deve levá-lo à cadeia pelas tentativas de golpe de Estado no final de 2022 e início de 2023. Conseguiu: a carta de Trump é inequívoca, pois atende a essa reivindicação.

Ou seja, os Bolsonaros jogaram alto e receberam o que pediram. Se os EUA têm pouco a perder, o tremor de terra atinge o Brasil em cheio. Não se trata de uma carta contra Lula e o PT, mas de um ataque frontal, pesado e inequívoco ao Brasil.

Ao se posicionar ao lado da extrema-direita brasileira, Trump reage às articulações da política externa brasileira, sobretudo ao resultado da cúpula dos Brics – que, de algum modo, apontou um avanço na consolidação do bloco, apesar das ausências de Vladimir Putin e Xi Jinping.

Para os EUA e seu tacão imperialista, o recado está dado, e o Brasil precisará demonstrar alguma unidade para, como se diz no boxe, “encaixar o golpe”. A reação pronta de Lula, dizendo que o Brasil reproduzirá a alíquota absurda, é mais do que adequada: é a única politicamente aceitável de um presidente de uma República minimamente autônoma.

O ônus da confusão, no entanto, deve cair sobre Jair Bolsonaro. Uma coisa é trair a democracia – algo grave, mas que, infelizmente, tem seu apelo popular. Outra é pedir sanções contra o próprio país e conseguir.

Bolsonaro já é o maior traidor do povo brasileiro no século XXI. Mas se candidata a garantir a medalha de ouro na história do país desde sua independência.

<><> Trump põe fogo na política brasileira e sai rindo à toa

Enquanto isso, Trump, como todo bilionário, representando um país triliardário, ri à toa. Põe fogo na política brasileira, atrapalha a política externa brasileira e ainda conta com um laranja para assumir a culpa tanto no cenário nacional quanto internacional.

Lula, por sua vez, tem um problema complexo para resolver, que é reduzir os danos econômicos (com ou sem a efetiva implementação do tarifaço, prevista para 1º de agosto) e manter a cabeça erguida. Se assim se mantiver, ganhará apoio popular mesmo que nem tudo dê certo.

Até o momento em que escrevo este texto, mesmo a mídia tradicional parece mais alinhada com a defesa do Brasil do que preocupada em culpar Lula.

É certo que não faltará, sobretudo nos setores dependentes dos Estados Unidos (agro e capital financeiro), quem queira culpar o presidente da República Lula e Alexandre de Moraes pelos arroubos de Trump e pelos apelos de Bolsonaro para que os norte-americanos prejudiquem o país.

Nas ruas, no entanto, o provável é que Lula conquiste admiradores entre muitos que estavam jogando pedras em seu governo.

E, na seara da economia internacional, uma palavra basta para dizer quem vai trabalhar forte para que se encontre uma saída para o caso: China.

•        'Trump se identifica com Bolsonaro, ambos se veem como vítimas de progressistas'

Nos últimos dias, Donald Trump havia dado uma série de declarações de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e sinalizava o anúncio de uma taxa contra produtos exportados pelo Brasil.

Embora especialistas nas relações Brasil-Estados Unidos já esperassem que as tarifas prometidas de fato viriam, muitos deles não imaginavam que a medida anunciada pelo presidente dos Estados Unidos na quarta-feira (9/7), que estipulou uma taxação de 50% sobre bens de nosso país, tivesse essa magnitude.

O valor definido por Trump contra o Brasil é o maior entre todas as taxas anunciadas nesta segunda leva do "tarifaço".

Desde a segunda-feira (7/7), o presidente americano tem enviado cartas a países anunciando as novas tarifas que entram em vigor em agosto. Tirando a taxa aplicada ao Brasil, os valores variam de 20% (para as Filipinas) a 40% (Laos e Mianmar).

Um dos analistas que se surpreendeu foi Christopher Garman, diretor-geral de Américas do Eurasia Group, uma consultoria e empresa de risco político.

"A intensidade da tarifa causou surpresa", admite ele, em entrevista à BBC News Brasil.

"Embora o presidente Trump já estivesse ameaçando os membros do Brics com tarifas adicionais, o Brasil inicialmente estava na lista das nações que tiveram a taxa mínima, de 10%, e é um país que tem déficit na balança comercial com os Estados Unidos", lembra o pesquisador, que é um dos principais especialistas sobre os impactos políticos das decisões macroeconômicas.

O Brics é o bloco inicialmente formado pelas economias emergentes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que foi ampliado a partir de 2024, com a entrada de seis países — Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã — e que acaba de realizar uma cúpula no Rio de Janeiro.

Mas o que explica este anúncio de Trump?

Para Garman, a grande motivação do presidente americano é política e ideológica.

"A política brasileira é um espelho da política americana. Me parece que Trump se identifica com os desafios que Bolsonaro enfrenta no Brasil", avalia ele.

"Ambos se veem como vítimas de um establishment progressista, que supostamente caminharia para um regime de censura por meio de ataques aos seus oponentes pelas vias judiciais."

Seguindo esse raciocínio, Trump avaliaria que Bolsonaro passa por algo similar ao que ele próprio viveu após perder as eleições de 2020, em que a Presidência dos EUA foi conquistada por Joe Biden.

"Trump parece querer dar um sinal claro contra países que ele acredita não respeitarem a ordem democrática", avalia Garman.

Para o analista, as taxas de 50% sobre o Brasil não têm qualquer justificativa comercial ou econômica.

"Não se trata de um mecanismo para ajustar a relação bilateral, para barrar a entrada de produtos chineses ou para controlar a entrada de imigrantes nos EUA. É um instrumento político e ideológico."

<><> O que os EUA e o Brasil podem ganhar (e perder)

Do ponto de vista de Garman, o anúncio de Trump "enfraquece um governo que está no espectro ideológico oposto".

"Essa também é uma maneira de tentar enfraquecer o próprio Brics, que o presidente dos EUA acredita ser um grupo que se opõe aos interesses americanos", diz ele.

Do ponto de vista econômico, o diretor do Eurasia Group não vê ganhos claros para os Estados Unidos.

"Existem alguns setores no qual a economia americana depende mais de produtos brasileiros. Mas o Brasil representa uma porcentagem pequena do total das importações americanas", pondera ele.

Já para o Brasil, Garman entende que "vários setores serão negativamente impactados".

"É o caso da mineração, da produção de aeronaves e do agro, especialmente os produtores de suco de laranja, café, madeira e celulose", lista ele.

Mas o especialista entende que parte dessas exportações brasileiras que tinham os EUA como destino podem ser vendidas para outros mercados.

"A tendência é que a taxação tenha um impacto modesto no crescimento do Brasil, mas, ainda assim, haverá um impacto", projeta ele.

<><> Desdobramentos para Lula e Bolsonaro

Na avaliação de Garman, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode enxergar na taxação "uma grande oportunidade para as eleições de 2026".

"O Palácio do Planalto pode entrar num embate com Trump, e passar a mensagem de que a família Bolsonaro faz alianças com um governo estrangeiro, que tira empregos dos brasileiros", antevê o especialista.

"O presidente Lula pode se beneficiar de uma onda nacionalista, criada a partir de uma espécie de bullying internacional feito pelos Estados Unidos."

Diante desse cenário, Garman entende que o presidente Lula tende a "inflar a retórica" contra a taxação — o que dificulta um caminho de negociação e acomodação dos interesses.

"Pode até haver uma negociação específica entre algumas empresas e setores, com trocas e exceções às tarifas", acredita ele.

Já para o ex-presidente Jair Bolsonaro, Garman avalia que será necessário observar se a taxação de Trump representa um fortalecimento do nome de Lula nas urnas.

"Se isso se concretizar, ele pode tentar de alguma maneira pedir uma redução das tarifas americanas diretamente a Trump, para fazer um papel de intermediação", diz ele.

Para Garman, a situação brasileira se difere um pouco do que aconteceu com Canadá, México e outros países, nos quais houve uma acomodação de interesses após o anúncio de tarifas por Trump.

"O Brasil não tem uma economia tão integrada com os EUA, como Canadá e México. Além disso, não há um compartilhamento de raízes ou tradições, como acontece entre esses países", observa ele.

"Embora o Brasil seja um país dividido e polarizado, acho razoável pressupor que Lula pode se beneficiar parcialmente dessa taxação", acredita o analista.

Por fim, o diretor do Eurasia Group projeta que as tarifas de Trump podem enfraquecer os laços de Brasil e EUA, mas fortalecer a relação com outros atores internacionais.

"Pode haver um fortalecimento da relação do Brasil com China, União Europeia e Oriente Médio", cita ele.

"O Brasil vai buscar outros mercados e a tendência é que os laços institucionais com os Estados Unidos fiquem enfraquecidos."

"Mesmo que um acordo parcial seja feito, ainda assim esse relacionamento vai sair arranhado", conclui ele.

•        Para o STF, situação jurídica de Eduardo Bolsonaro se agravou após ele agradecer Trump pelo tarifaço ao Brasil

Ministros do Supremo Tribunal Federal avaliam que a situação jurídica do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) se agravou significativamente no contexto da investigação aberta pela Corte por tentativa de coação da Justiça.

O parlamentar também é investigado por obstrução de investigação de infração penal que envolva organização criminosa e por possível envolvimento em tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Licenciado do mandato, Eduardo está atualmente nos Estados Unidos. A Justiça apura se ele atua para influenciar o governo de Donald Trump com o objetivo de atrapalhar processos que investigam seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e aliados, por tentativa de golpe de Estado.

Ministros do STF destacaram que Eduardo produziu provas contra si ao publicar, na noite de quarta-feira (10), uma mensagem em rede social assumindo a articulação que resultou na decisão de Trump de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.

Somam-se a esse post a carta do próprio Donald Trump, na qual o ex-presidente americano justifica o tarifaço como uma reação à “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Para integrantes do Supremo, esse conjunto de novos elementos fortalece a linha de investigação da Corte.

Nesse cenário, interlocutores do tribunal afirmam que Eduardo Bolsonaro pode enfrentar um julgamento ainda antes das eleições de 2026. Se houver denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) e posterior condenação por um colegiado como o STF, o deputado poderá ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa e ficar inelegível.

•        Tarifaço de Trump enterra planos da oposição de votar texto da Anistia antes do recesso

A decisão de Trump vai dificultar os planos da oposição de votar o chamado o projeto da Anistia. Havia uma expectativa da Câmara analisar um texto alternativo da proposta antes do recesso de meio de ano. Agora se tornou inviável.

O polêmico projeto previa originalmente livrar das condenações quem tivesse sido enquadrado pela Justiça por ataques à democracia. A versão suavizada, pensada para facilitar a aprovação, contemplaria presos que já cumpriram um sexto de pena. Pela lei, eles já teriam direito a liberdade. A anistia serviria para limpar a ficha deles e, ao mesmo tempo, evitar embates com o Judiciário.

A Câmara se prepara para votar mais de 30 propostas na semana que vem, em uma semana de esforço concentrado antes do recesso de meio de ano. Como a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias ficará para agosto, a paralisação será informal.

Nenhum delas é o requerimento de urgência do projeto de lei (PL)da Anistia.

“O presidente Hugo [Motta] prefere esperar o desenrolar dos esclarecimentos para decidir sobre esse projeto”, disse o líder do PL na Câmara, deputado Sostenes Cavalcante (Pl-RJ) nesta quinta (10) depois da reunião do Colégio de Líderes.

“A decisão do Trump inviabilizou o PL da anistia. Você viu a carta do Eduardo (Bolsonaro). É uma questão de soberania. Eles estão atrapalhando o Brasil por causa disso”, afirmou o líder do PT, Lindbergh Farias (PT-RJ).

Em farta, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu que a decisão de Trump possa ser revertida com uma “anistia ampla, geral e irrestrita”.

Nesta quinta (10), Hugo Motta e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), divulgaram uma nota conjunta afirmando que o Congresso vai monitorar os desdobramentos do tarifaço e atuar em sintonia com o Executivo para mitigar seus efeitos.

“Estaremos prontos para agir com equilíbrio e firmeza em defesa da nossa economia, do nosso setor produtivo e da proteção dos empregos dos brasileiros”, diz o texto.

 

Fonte: Opera Mundi/BBC News Brasil/g1

 

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