sábado, 12 de julho de 2025

Brics, Bolsonaro, ONU: Tarifas de Trump ampliam longa hostilidade dos EUA ao Brasil

O recente anúncio do presidente estadunidense, Donald Trump, de penalizar o Brasil com tarifas de 50% sobre suas exportações para os EUA, marca um novo capítulo de uma tensão prolongada entre Washington e Brasília.

Em contraste com o primeiro mandato de Trump, quando abundaram as coincidências com seu então homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, a relação com o atual líder do gigante sul-americano, Luiz Inácio Lula da Silva, tem sido marcada por numerosos questionamentos, tanto diretos quanto pelas redes sociais.

<><> Tarifas e acusações contra o Brasil

Assim, em uma carta enviada ao seu homólogo brasileiro, o republicano – além de notificar a imposição de novos encargos alfandegários, que entrarão em vigor em 1º de agosto – reiterou seu repúdio à investigação judicial que está em curso contra Bolsonaro por sua suposta relação com a tentativa de golpe de Estado no Brasil. Do mesmo modo, protestou contra “centenas de ordens secretas e ilegais de censura” contra redes sociais estadunidenses, o que incluiria multas de milhões de dólares.

Além disso, acusou Brasília de manter uma “relação comercial muito injusta” com Washington, qualificando-a como “longe de ser recíproca”.

“Essas tarifas são necessárias para corrigir os muitos anos de políticas tarifárias e não tarifárias e barreiras comerciais impostas pelo Brasil, que têm causado esses déficits comerciais insustentáveis com os EUA”, escreveu na carta. E advertiu Lula de que “se por alguma razão decidir aumentar suas tarifas, o valor que escolher será adicionado” aos 50% que o país estadunidense pretende cobrar.

<><> Brasil “não aceitará ser tutelado por ninguém”

Por sua vez, o presidente brasileiro destacou nesta quarta-feira (9) que “o Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém”, em referência tanto às tarifas quanto aos processos judiciais e à liberdade de expressão.

Lula também qualificou como “falsa” a afirmação de Trump sobre o déficit na relação comercial entre as duas nações, alegando que as próprias estatísticas dos EUA mostram que o país estadunidense tem no comércio de bens e serviços com o Brasil um superávit de 410 bilhões de dólares nos últimos 15 anos.

Lula enfatizou que “qualquer medida de elevação unilateral de tarifas será respondida à luz da lei brasileira de reciprocidade econômica”. “A soberania, o respeito e a defesa intransigente dos interesses do povo brasileiro são os valores que orientam nossa relação com o mundo”, acrescentou.

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Quanto aos processos judiciais, declarou que é competência da Justiça brasileira lidar com aqueles que planejaram o golpe de Estado, em referência às ingerências de Trump no julgamento contra Bolsonaro. Também afirmou que “no Brasil, a liberdade de expressão não se confunde com agressão ou práticas violentas”, enfatizando que toda empresa, seja nacional ou estrangeira, deve se submeter à legislação brasileira para poder operar no país.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro convocou o encarregado de negócios dos EUA, Gabriel Escobar, para que responda pela postura da administração Trump em franco apoio a Bolsonaro.

<><> O Brics como “ameaça” para os EUA

Outro capítulo das tensões entre os EUA e o Brasil teve lugar durante a 17ª cúpula do Brics, realizada nos dias 6 e 7 de julho no Rio de Janeiro. Lá, entre outros temas, as 11 maiores economias emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Etiópia, Egito, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita – e seus parceiros discutiram a necessidade de reformar o sistema financeiro internacional, questionaram a hegemonia do dólar e criticaram a imposição de tarifas, considerando que é uma prática contrária à normativa estabelecida pela Organização Mundial do Comércio.

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Nesse contexto, Trump ameaçou impor tarifas adicionais de 10% aos países que comerciem com os membros dos Brics, a quem acusou de ter uma agenda “antiestadunidense”.

“O Brics, na minha opinião, não são uma ameaça séria, mas o que estão tentando fazer é destruir o dólar, para que outro país possa assumir e ser o padrão. E nós não vamos perder o padrão em momento algum“, afirmou nesta terça-feira (8).

A partir da administração estadunidense, também foi informado que Trump considera que a aliança do Brics tem como objetivo “minar os interesses” dos Estados Unidos, razão pela qual está disposto a tomar “todas as medidas necessárias para evitar que outros países se aproveitem dos EUA”. “Ele não vê esses países se fortalecendo. Simplesmente os percebe como países que tentam minar os interesses dos Estados Unidos, e isso não lhe parece aceitável, independentemente de quão forte ou fraco possa ser um país”, indicou a porta-voz da Casa Branca, Caroline Leavitt.

<><> “Incorreto e muito irresponsável”

Por sua vez, Lula declarou que não considera que “seja algo muito responsável ou sério que o presidente de um país do tamanho dos EUA ameace o mundo pela internet”, e destacou que “cada nação é dona de seu próprio destino”.

Além disso, sublinhou que Trump “precisa saber que o mundo mudou” e que o planeta não quer “um imperador”. “Somos países soberanos. Se ele acha que pode cobrar tarifas, os [outros] países também têm o direito de fazê-lo. Existe a lei da reciprocidade. […] É incorreto e muito irresponsável que um presidente ameace outros nas redes digitais”, disse.

Enquanto isso, o assessor especial do presidente brasileiro, Celso Amorim, apontou que os EUA “vão dar um tiro no pé” se impuserem tarifas adicionais ao Brasil. “Se continuamente se joga com a ameaça de tarifas, vai se desgastar, porque os outros países vão buscar alternativas, vão negociar entre si”, disse. “Acho que, pouco a pouco, o próprio presidente estadunidense, que tem certo pragmatismo e racionalidade, acabará compreendendo que esse não é o melhor caminho”, acrescentou.

<><> Tensões de longa data

Contudo, as tensões entre os EUA e o Brasil começaram muito antes de Trump retornar à Casa Branca, em janeiro passado. O retorno de Lula ao cenário internacional significou um reposicionamento do gigante sul-americano como potência emergente do Sul Global, algo que não foi bem recebido por Washington.

Assim, em setembro de 2024, quando o democrata Joe Biden ainda ocupava a Casa Branca, os EUA manifestaram sua oposição a que o Brasil ocupasse um assento permanente como membro do Conselho de Segurança da ONU, sem apresentar qualquer argumento a respeito. Lula tem sido um dos principais defensores da reforma do organismo internacional e tem destacado a necessidade de que países da América Latina, da África e da Ásia tenham uma representação fixa e paritária.

Do mesmo modo, a rejeição contundente de Lula aos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, ao classificá-los como “genocídio”, e as fortes críticas ao recente ataque de Tel Aviv contra o Irã, constituíram motivos de distanciamento em relação a Washington, que tem apoiado o governo de Benjamin Netanyahu.

¨      'Trump não é xerife do mundo' e 'deve estar muito mal informado'

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu longas entrevistas ao Jornal Nacional, da Globo, e ao Jornal da Record na noite de quinta-feira (10/7) nas quais comentou a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de impôr tarifas de 50% sobre produtos exportados pelo Brasil ao país.

Entre as justificativas para a medida, o presidente americano mencionou o processo judicial que investiga o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

Numa carta endereçada a Lula compartilhada nas redes sociais, Trump escreveu, em letras garrafais, que o julgamento contra seu aliado político deveria ser interrompido imediatamente.

E esse, inclusive, foi um dos primeiros pontos abordados por Lula na entrevista ao Jornal Nacional (JN).

Ele disse que "não pode admitir" a "ingerência de um país na soberania de outro".

"E mais grave: a intromissão de um presidente de um país no Poder Judiciário do meu país. É inaceitável que o presidente Trump mande uma carta pelo site dele e comece dizendo que é preciso acabar com a caça às bruxas. Isso é inadmissível", declarou Lula.

O presidente brasileiro reforçou que "quem cometeu um erro vai ser punido" e chegou a insinuar que algo similar poderia acontecer com Trump, caso a invasão do Capitólio, em Washington, nos EUA, logo após ele perder a eleição para Joe Biden, tivesse acontecido no Brasil.

"O que o presidente Trump tem que saber é que se aqui no Brasil ele tivesse feito o que ele fez nos Estados Unidos com as eleições, ele também estaria sendo processado, estaria sendo julgado. E, se fosse culpado, ele seria preso", disse Lula.

"É assim que funciona a lei para todo mundo. Ou seja, nós precisamos aprender a respeitar. Você nunca viu me meter em uma decisão de Justiça americana. Nunca viu. E o que eu espero é reciprocidade, que ele também não se meta nos problemas brasileiros."

Para Lula, Trump "não pode pensar que foi eleito para ser xerife do mundo".

"Ele foi eleito para ser presidente dos Estados Unidos. Ele pode fazer o que ele quiser dentro dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, quem manda somos nós, brasileiros", destacou ele, no Jornal da Record.

O presidente brasileiro ainda insinuou que "se Trump conhecesse um pouquinho" o Brasil, "ele teria mais respeito".

Ao ser questionado pela jornalista Delis Ortiz, da Globo, se a recente visita dele à ex-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, poderia ser interpretada como uma intervenção na soberania de outro país, Lula defendeu que trata-se de uma situação distinta.

"Eu fui visitar a presidenta Cristina com autorização da Justiça argentina. Eu só fui lá porque a Justiça argentina decidiu que eu fosse visitar, atendendo um pedido da própria Cristina. Eu fui fazer uma visita humanitária."

"Eu nunca me preocupei com que o Trump recebesse o Bolsonaro ou qualquer pessoa. É direito de cada presidente fazer o que quiser. O que não é direito é um presidente querer dar palpite na decisão de Justiça de um país. Aqui no Brasil, a nossa Justiça tem autonomia. O Poder Judiciário é um poder autônomo, como é o Legislativo. Aqui a gente obedece regras", complementou o presidente brasileiro.

<><> A carta da reciprocidade

Perguntado sobre como pretende responder às taxas anunciadas por Trump, Lula pregou calma.

"Eu não tomo decisão com 39 ºC de febre. O Brasil utilizará a Lei da Reciprocidade quando necessário e o Brasil vai tentar, junto com a OMC [Organização Mundial do Comércio] e outros países, fazer com que a OMC tome uma posição para saber quem é que está certo ou que está errado", disse ele.

"A partir daí, se não houver solução, nós vamos entrar com a reciprocidade já a partir de 1º de agosto, quando ele [Trump] começa a taxar o Brasil."

Segundo Lula, "o Brasil é um país que não quer brigar com ninguém".

"Nós queremos negociar e o que nós queremos é que sejam respeitadas as decisões brasileiras."

Para o presidente brasileiro, se Trump continuar a "brincar" com taxação, isso se tornará algo "infinito".

"Se ele vai cobrar 50 de nós, nós vamos cobrar 50 deles", ameaçou ele no Jornal da Record.

"Nós vamos chegar a milhões e milhões de milhões de por cento de taxa. O que o Brasil não aceita é intromissão nas coisas do Brasil."

No JN, Lula também pontuou que o argumento de que a relação comercial de Brasil e EUA é prejudicial para os americanos não corresponde à realidade.

"O presidente Trump deve estar muito mal informado [...] Não existe explicação a não ser uma falta de informação e depois uma tentativa de atrapalhar uma relação muito virtuosa que o Brasil tem com os Estados Unidos há 200 anos."

"Ele tem o direito de tomar decisão em defesa do país dele, mas com base na verdade. Se alguém orientou ele com uma mentira de que os Estados Unidos é deficitário com o país, mentiu", apontou Lula.

Ao Jornal da Record, o presidente detalhou os números da relação comercial entre os dois países.

"Ele alega que os Estados Unidos têm déficit com o Brasil, mas isso não é verdade. Em 2023, exportamos US$ 40 bilhões e importamos US$ 47 bilhões dos EUA. Tivemos um déficit de US$ 7 bilhões. E, se somarmos os últimos 15 anos, o Brasil acumulou um déficit de US$ 410 bilhões com os americanos."

"Será que ninguém do Tesouro explicou isso para ele antes de ele escrever aquela carta absurda?", questionou ele.

<><> Brics influenciou na decisão de Trump?

O Brics é o bloco inicialmente formado pelas economias emergentes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que foi ampliado a partir de 2024, com a entrada de seis países — Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.

O grupo, que acaba de realizar uma cúpula no Rio de Janeiro, foi alvo de muitas críticas recentes de Trump.

O presidente americano chegou a ameaçar as nações que negociassem com os Brics com uma sobretaxa de 10%.

Questionado se o tom crítico adotado contra os EUA durante a cúpula do Rio de Janeiro pode ter influenciado a decisão de Trump sobre o Brasil, Lula mais uma vez descartou essa possibilidade.

"Primeiro, o Brics é um fórum que representa hoje metade da população mundial e quase 30% do PIB mundial. E dentro do Brics há países que participam do G20 [o fórum das 20 maiores economias do planeta]", disse o presidente ao JN.

"Nós cansamos de ser subordinados ao norte. Nós queremos ter independência nas nossas políticas, queremos fazer comércio mais livre. E as coisas estão acontecendo de forma maravilhosa", avaliou Lula.

Ele ainda declarou que há discussões sobre uma moeda própria para o Brics, ou ao menos a possibilidade de fazer transações sem a necessidade de usar o dólar americano.

"Nós não temos a máquina de rodar dólar, só os Estados Unidos que têm. Nós não precisamos disso para fazer comércio exterior", defendeu ele.

"Achar que os Brics é a razão para o Trump ficar nervoso? O Brasil nunca ficou nervoso com a participação do G7, o Brasil nunca ficou nervoso com as coisas que os Estados Unidos fazem. Cada país tem a soberania de fazer aquilo que quer", disse Lula.

"Então eu penso que o presidente Trump precisa se cercar de pessoas que o informem corretamente sobre como é virtuosa a relação Brasil-Estados Unidos", complementou ele.

<><> Próximos passos de Lula

Por fim, Lula prometeu se reunir com todos os empresários que têm exportações para os EUA, especialmente aqueles com maior volume, como representantes dos setores do agro, do aço e da aviação.

Segundo o presidente, a ideia é entender "qual é a situação deles".

"Nós vamos tentar fazer todo o processo de negociação que for possível fazer. O Brasil gosta de negociar, o Brasil não gosta de contencioso."

Depois que se esgotarem as negociações, Lula indica que o Brasil vai mesmo aplicar a Lei da Reciprocidade, aprovada recentemente por unanimidade pelo Congresso Nacional.

"E espero que os empresários estejam aliados ao governo brasileiro", sugeriu Lula.

"Porque se existe algum empresário que acha que o governo brasileiro tem que ceder e fazer tudo que o presidente do outro país quer, sinceramente, esse cidadão não tem nenhum orgulho de ser brasileiro."

"Essa é a hora de a gente mostrar que o Brasil quer ser respeitado no mundo, que o Brasil é um país que não tem contencioso com nenhum país do mundo e que, portanto, a gente não aceita desaforos contra o Brasil", conclui ele no JN.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/BBC News Brasil

 

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