Soberania
digital, questão (também) de diplomacia altiva
Em maio
de 2024, o promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan,
teve seu e-mail institucional subitamente bloqueado. O serviço era hospedado
pela Microsoft e a interrupção ocorreu após o governo dos Estados Unidos impor
sanções ao promotor por ter emitido mandados de prisão contra autoridades
israelenses.
Embora
a empresa não tenha confirmado publicamente o motivo da suspensão, o episódio
acendeu um alerta global: em um mundo onde até tribunais internacionais confiam
seus ativos para infraestruturas privadas e estrangeiras para operar, basta uma
decisão política ou uma sanção econômica para silenciar instituições inteiras.
O
e-mail, ferramenta aparentemente banal, revelou-se um elo crítico na cadeia de
funcionamento da justiça internacional — e, ao mesmo tempo, um ponto de
vulnerabilidade.
Do
outro lado do espectro geopolítico, o caso do Irã revela como a internet também
pode ser lentamente sufocada, não com um botão de desligar, mas por meio da
erosão constante de acessos e capacidades. Medidas internacionais,
especialmente as impostas pelos Estados Unidos, restringem o acesso de milhões
de iranianos a serviços quase fundamentais, como AWS, Azure e Google Cloud e
até GitHub ou Adobe.
Se
trata essencialmente de inviabilizar o uso de ferramentas essenciais para
desenvolver, proteger e escalar soluções e produtos tecnológicos. O impacto vai
além da infraestrutura: desenvolvedores, pequenos empreendedores, estudantes e
usuários comuns são forçados a recorrer a servidores locais inseguros, VPNs
muitas vezes frágeis e alternativas limitadas. A sanção, nesse contexto, age
como uma cerca invisível, redefinindo os limites do que uma população pode
criar, acessar e compartilhar no espaço digital.
O
retorno de Donald Trump à Presidência
dos Estados Unidos acentuou essa realidade, de que a infraestrutura da internet
pode ser restringida ou condicionada a injuções geopolíticas, como sanções
econômicas ou decisões unilaterais de grandes potências. Especialmente quando os
serviços essenciais estão majoritariamente concentrados em provedores privados
sob jurisdição estrangeira (principalmente dos EUA).
O
simples fato de analistas políticos e lideranças europeias considerarem
plausível a hipótese de um “desligamento” da nuvem para países aliados, como
publicado recentemente pelo Politico Europe, revela o grau de
dependência estrutural que as nações criaram em torno de corporações privadas,
na maior parte das vezes ainda sob jurisdição norte-americana. Esta reação é
acrescida de um movimento do setor privado e da sociedade civil conhecido como EuroStack[1],
que trouxe o debate da política industrial para a agenda digital do bloco.
Com a
multiplicação de episódios como estes, governos do mundo todo passaram a adotar
o conceito de soberania digital como um princípio inegociável na defesa contra
tais riscos. Mas essa é uma expressão que muda radicalmente de significado
conforme o interlocutor. É a partir dessas realidades que utilizamos a seguinte
definição para soberania digital: a capacidade de estados nacionais entenderem
o funcionamento das tecnologias digitais, conseguir desenvolvê-las e regulá-las
efetivamente, exercendo, portanto, autodeterminação, poder e controle sobre
ativos digitais tais como dados, softwares, hardwares, infraestruturas de
armazenamento e processamento e redes de telecomunicações.
Essa
concepção, alinhada com a formulação do professor Luca Belli, da Fundação
Getulio Vargas, destaca que soberania não se resume à adoção ou ao uso de
tecnologia — ela exige também compreensão, domínio regulatório e capacidade
autônoma de decisão. Nos casos do TPI e do Irã, o que está em jogo não é apenas
a estabilidade de sistemas digitais, mas a própria possibilidade de exercer
direitos, governar instituições e garantir liberdade em um mundo cada vez mais
mediado por plataformas privadas e interesses geopolíticos.
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Um pouco de história
Durante
suas primeiras décadas, a internet cresceu construindo a imagem de espaço de
liberdade informacional, inovação, participação e democratização do
conhecimento. Essa narrativa, difundida sobretudo entre países do Sul Global e
do Ocidente, sustentava-se na promessa de uma governança aberta e plural,
baseada em princípios democráticos e um arranjo multissetorial.
A
internet não pertenceria a um único país ou grupos econômicos. Ela supostamente
seria um novo ambiente de troca e de integração entre todas as comunidades e
países. Na prática, de forma mais acentuada nos últimos 20 anos, essa visão
revelou-se uma construção frágil, muitas vezes
cínica.
Passados
30 anos, as camadas menos visíveis do ambiente digital global continuam sob o
controle direto ou indireto de empresas majoritariamente sediadas nos EUA e dos
fundos privados que as controlam — e esse domínio tem sido cada vez mais
instrumentalizado como ferramenta de influência política e econômica.
O
alinhamento de Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai
(Google), Sam Altman (Open AI), Larry Elison (Oracle) e a integração de Elon
Musk à máquina pública nos primeiros meses de governo Trump são símbolos dessa
relação entre o poder econômico de empresas que atuam na arena digital com o
poder político. Algo que sempre existiu, mas agora com nuances.
Estes
grupos econômicos e suas relações com o governo poderiam ser, de maneira geral,
divididos em três: os que aderiram plenamente ao governo por precauções
regulatórias e contratos com o Departamento de Defesa (caso de Palantir e
Anduril); o capital financeiro, que ligado ao segmento de criptomoedas e às
chamadas small techs, buscam ganhos de curto prazo e controle nas
decisões estratégicas; e empresas mais tradicionais, como Microsoft e IBM, que
estão se mantendo mais equidistantes deste alinhamento por interesses
geoeconômicos, que visam defender sua versão de soberania digital para garantir
contratos em diversos países.
O que
mudou nas últimas décadas, e o que torna este arranjo ainda mais estratégico,
foi que os conglomerados que hoje conhecidos como big techs ultrapassaram sua
vocação inicial, que era oferecer aplicações como redes sociais, comércio
eletrônico ou mecanismos de busca e publicidade digital. Eles passaram a
controlar a rede em um sentido amplo. Atualmente, além dos monopólios virtuais
sobre conteúdo, essas empresas dominam cerca de 50% dos cabos submarinos do
planeta e dois terços da oferta de serviços de nuvem – o
verdadeiro coração do mundo digital.
Portanto,
os riscos não estão apenas na nuvem, mas em todas as camadas da vida digital:
nos servidores DNS, nos certificados de segurança, nos sistemas operacionais,
nas redes de distribuição de conteúdo, nos provedores de inteligência
artificial, nas plataformas digitais, e até nos dados e algoritmos que definem
a tomada de decisão pública e privada. Um país que depende dessas estruturas
sem qualquer controle efetivo está sempre a uma crise diplomática de perder sua
autonomia funcional.
A
soberania digital de grande parte do mundo está sequestrada e os mecanismos
internacionais que deveriam garantir equilíbrio e participação não apenas
falharam, como foram cooptados por interesses hegemônicos. No caso do Brasil, a
situação é ainda mais delicada. Há debate público e escassa consciência social
sobre essa dependência.
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A armadilha do consenso
É nesse
contexto que a disputa entre o WSIS+20 e o Pacto Digital Global da ONU, em
curso há mais de quatro anos, se revela. Não como oposição de modelos, mas como
reflexo das limitações políticas atuais. O modelo multissetorial, antes visto
como antídoto contra a centralização estatal e a politização do ambiente
digital, tem se mostrado cada vez mais vulnerável à captura por grandes atores
econômicos e geopolíticos.
A
promessa de pluralismo dissolveu-se em estruturas de decisórias dominadas por
representantes de empresas transnacionais, think tanks financiados
por grandes corporações e governos que falam em nome da “comunidade global”,
mas legislam em benefício próprio.
Nesse
formato, o multissetorialismo não fortalece a democracia. Ao contrário,
enfraquece a capacidade de países em desenvolvimento de influenciarem os rumos
da internet, ao diluir sua voz em fóruns onde o poder não se mede por votos,
mas por lobby e presença institucional.
Por
outro lado, o Pacto Digital Global — iniciativa que busca reposicionar a ONU
como centro da governança digital — corre o risco de substituir um problema por
outro: o controle da governança digital por um pequeno grupo de Estados. Se o
multissetorialismo sofre com a captura privada, a governança puramente
intergovernamental corre o risco de ser instrumentalizada por potências que
controlam a infraestrutura digital e têm poder de veto dentro do sistema ONU,
novamente favorecendo os Estados Unidos, e aprofundando os desequilíbrios de
poder já existentes.
Nenhum
desses modelos, como estão hoje, resolve o problema central: a ausência de
soberania real dos países periféricos sobre seus ecossistemas digitais. Ambos
ignoram a captura efetiva da governança da internet, que ocorre dentro das
entidades que definem padrões e protocolos da rede e da web.
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Neblina na nuvem
No caso
do Brasil, a soberania digital deveria ser tratada como tema estratégico de
Estado, sob pena de seguirmos sob como reféns. A dependência de serviços em
nuvem de empresas como Amazon, Microsoft, Google e Oracle não é uma questão
técnica ou econômica. Trata-se de um vetor de vulnerabilidade institucional.
Quando
dados de órgãos públicos, sistemas de saúde, educação ou segurança estão
hospedados em infraestruturas sujeitas a decisões judiciais ou executivas
estrangeiras, o país perde o controle sobre sua própria funcionalidade. E tudo
isso sob a falsa promessa de “nuvens soberanas”, expressão cooptada pelo
marketing corporativo e vendida como autonomia, criando um mercado de uma
suposta soberania comercializável.
E essa
intervenção não é hipótese distante. Ficou evidente no caso de espionagem
promovida pelos EUA e pelas big techs em 2013 e permanece atual. O caso recente
do Tribunal Penal Internacional, que teve seus serviços de e-mail suspensos
após uma sanção dos EUA, é um lembrete direto: a infraestrutura digital está
geopolítica e juridicamente condicionada.
Depois
disso, países como Alemanha, França, Holanda e Dinamarca estão revendo seus
contratos com big techs ou substituindo seus serviços digitais por aqueles
desenvolvidos na Europa ou pela comunidade de software livre. Por prevenção
também, a própria Câmara dos Deputados dos EUA baniu o WhatsApp como serviço
padrão para comunicações interpessoais ou de grupos por riscos à segurança.
Essa
vulnerabilidade também está presente no plano técnico. O Brasil continua
dependente de redes de distribuição de conteúdo e de provedores de DNS
localizados em território estrangeiro. Das 1.530 locações que armazenam a lista
telefônica global da Internet, os chamados 13 servidores-raiz, 84% (1.282) são
operados por entidades dos EUA ou com sede naquele país. Os certificados de
segurança utilizados em sites públicos muitas vezes são emitidos por
autoridades certificadoras sujeitas à legislação norte-americana.
Em uma
situação de tensão geopolítica, o país pode simplesmente se ver digitalmente
paralisado, não por uma guerra cibernética, mas por decisões administrativas ou
judiciais tomadas em Washington, Nova Iorque ou Sacramento.
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Soberania à brasileira
A nova
camada dessa dependência é a inteligência artificial – setor no qual
o sequestro também já tem nome: IA soberana. É o que prega a principal fornecedora destes chips
quando dialoga com mandatários. O Brasil utiliza modelos de linguagem e
soluções algorítmicas produzidas majoritariamente no exterior, em sua maioria
desenvolvidos sem transparência, sem acesso ao código-fonte e sem soberania
sobre os dados.
Mais
grave: esses sistemas são empregados em áreas sensíveis do governo, como
educação, saúde, segurança pública e documentação oficial. Sem qualquer
controle sobre vieses, lógicas internas ou critérios de decisão. A colonização
digital brasileira já se converte em colonização cognitiva: um processo em que
o país terceiriza não apenas sua infraestrutura, mas sua capacidade de
interpretar e agir sobre o mundo.
A isso
soma-se a fragilidade política interna. O Brasil ainda não trata a soberania
digital como questão de Estado. A ausência histórica de uma política industrial
robusta no setor de tecnologias emergentes, a desarticulação entre os poderes
públicos e a hesitação diante de acordos internacionais que comprometem a
autonomia tecnológica nacional evidenciam uma postura ainda subalterna.
Algumas
boas notícias vieram com a Nova Indústria Brasil (NIB), o Plano Brasileiro de
Inteligência Artificial (PBIA), a Infraestrutura Nacional de Dados (IND) e a
retomada do Comitê Interministerial de Transformação Digital (CIT-Digital) no
ano passado – iniciativas que podem servir como base de
coordenação, se houver continuidade política e fortalecimento institucional.
No
plano internacional, o país continua preso à retórica da neutralidade, tentando
agradar a todos, quando deveria estar construindo alianças estratégicas com
países do Sul Global para reivindicar o fim do controle unilateral da internet,
proteção às suas infraestruturas críticas e prioridade ao desenvolvimento
tecnológico local e à soberania de dados. O alinhamento passivo às grandes
potências digitais, sob a lógica do “consenso”, tem custado caro à nossa
capacidade de autodeterminação.
Afirmar
isso é dizer que uma organização social e uma big tech possuem o mesmo poder de
barganha em uma mesa de negociações ou a mesma influência sobre os rumos
regulatórios de um setor. E promover uma alteração estrutural nessa realidade
se torna quase impossível uma vez que qualquer decisão só é aprovada por
consenso e entre os votantes estão os próprios agentes que criaram as
distorções que se pretende sanar.
A
soberania digital não é uma abstração. É a base sobre a qual repousa a
possibilidade de um país definir suas próprias prioridades, proteger seus
cidadãos, promover justiça social e garantir sua autonomia política. Enquanto o
Brasil continuar dependente de plataformas, servidores, algoritmos e normas que
não controla — e que sequer compreende plenamente — estará permanentemente
exposto à instabilidade, à coerção e à obsolescência estratégica.
O
sequestro da soberania digital é real, contínuo e estruturado em escala global.
Romper com ele exige muito mais do que boas intenções. Exige ação conjunta,
investimento público, visão geopolítica e, sobretudo, coragem para contrariar
os discursos dominantes que mascaram dependência com o nome de
interdependência. Se não formos capazes de reconhecer isso agora, talvez não
tenhamos tempo, ou meios, para reagir depois.
Sair
desse imbróglio não será simples, mas é possível. Isso passa, em primeiro
lugar, por reconhecer a soberania digital como tema central de Estado e,
consequentemente, articular uma política industrial e tecnológica que vá além
da retórica da inovação. É preciso investir na construção de infraestruturas,
fomentar bases locais de produção de software e hardware e fortalecer alianças
estratégicas com países do Sul Global em torno de padrões abertos,
interoperáveis e com governança verdadeiramente compartilhada.
No
plano normativo, o Brasil ainda precisa proteger juridicamente suas
infraestruturas críticas, regular os algoritmos, portabilidade de contas e
dados e conteúdos entre serviços digitais, definir a regulação econômica das
plataformas e criar dispositivos legais que impeçam capturas de dados
sensíveis. E, sobretudo, abandonar a neutralidade diplomática quando ela serve
apenas para preservar desequilíbrios históricos. O futuro digital não será
soberano por inércia. Ele será soberano por decisão e ação.
Fonte:
Por Germano Johansson e James Görgen, na JOTA

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