segunda-feira, 21 de julho de 2025

Secas, ondas de calor e tempestades, os riscos da emergência climática

Nos últimos anos o Brasil assiste o acirramento das crises provocadas pelas mudanças climáticas, como as tempestades que atingiram o estado do Rio Grande do Sul, enchentes catastróficas, deslizamentos e perdas de vidas e de infraestruturas. Também são parte deste cenário os sucessivos incêndios no Pantanal, com enorme mortandade de animais e as secas severas na Amazônia em 2023 e 2024. Soma-se a isso as ondas de calor em todo o Brasil, mas em especial nas cidades da região Sudeste e Centro-Oeste.

O Instituto Trata Brasil, uma organização parceira do IDS e um dos principais think tank que estudam políticas públicas ligadas a recursos hídricos lançou no final de 2024 o estudo “As Mudanças Climáticas no Setor de Saneamento: Como tempestades, secas e ondas de calor impactam o consumo de água?”, realizado em parceria com a WayCarbon. O estudo lança um alerta sobre os riscos crescentes que o país enfrentará até 2050.

A equipe do IDS conversou com a engenheira Luana Pretto, presidente do Trata Brasil sobre os dados levantados por este estudo e como o país e em especial as prefeituras podem se preparar para o enfrentamento desses eventos climáticos extremos, que deverão sem cada vez mais frequentes. O foco principal do estudo foram as infraestruturas e serviços de água e saneamento, setores que apresentam mais fragilidades diante dos cenários de tempestades, secas e ondas de calor.

A presidente do Trata Brasil faz um alerta sobre a necessidade de uma ação coordenada sobre as infraestruturas de água e saneamento. “No caso da água, tempestades podem comprometer os mananciais e a qualidade da água com sedimentos e outros tipos de contaminação, tornando muito mais onerosa as operações para a oferta de água tratada”. E lembra que esse já é um setor que padece com falhas de infraestrutura que impõem perdas médias de 37% da água já tratada e que não chega às torneiras dos consumidores.

A oferta de água tratada ainda convive com um déficit de 34 milhões de pessoas em todo o Brasil que não têm o conforto de poder abrir uma torneira para suas necessidades dentro de casa. Pior é o cenário da coleta e tratamento de esgoto. Luana Pretto aponta que pouco mais da metade das residências não têm coleta e tratamento de esgotos e que, diariamente, mais de 5 mil piscinas olímpicas de dejetos em natura são lançadas na natureza.

Os dados apontados pela executiva são pouco promissores em relação a uma mudança de cenário em curto prazo. Segundo ela, o país investe hoje R$ 111,00 por ano por habitante para ampliar a oferta de saneamento, quando o ideal seria o investimento de R$ 231,00 por habitante. “A perspectiva de ampliar os investimentos são baixas, porque há ainda, entre governantes e políticos, a ideia atrasada de que obra enterrada não traz voto”, diz Luana Pretto.

O estudo “As Mudanças Climáticas no Setor de Saneamento: Como tempestades, secas e ondas de calor impactam o consumo de água?” é um importante instrumento para os novos prefeitos, que assumiram em janeiro deste ano, compreenderem os riscos aos quais suas cidades estão sujeitas e promoverem as ações de prevenção necessárias, a um custo muito menor do que as despesas impostas reconstrução de infraestruturas. Luana faz esse alerta e indica que o estudo traz os riscos de cada tipo de evento extremos em cada uma das regiões do Brasil. “Apontamos o que pode acontecer em cada cidade, em especial nas capitais, onde os riscos de tragédias para um grande número de pessoas são maiores”, diz.

“Uma das ações com grande potencial de redução de riscos é trabalhar para cumprir as metas de implantação de sistemas de coleta e tratamento de esgotos”, explica a executiva. Para ela, sem os contaminantes lançados na natureza, em casos de tempestades, se reduz o risco de afetar mananciais e facilita o tratamento de água e, em caso de secas, a menor disponibilidade de água nos mananciais não será de água contaminada com esgotos.

“Os eventos extremos serão cada vez mais frequentes, e devemos nos preparar para isso, para reduzir a exposição das pessoas e das cidades”, e lembra as cenas chocantes dos alagamentos que assolaram o Rio Grande do Sul e de enxurradas que carregam automóveis e pessoas em grande parte das capitais do Sudeste.

•        Restauração é chave para garantir resiliência hídrica no Pantanal

Com as chuvas cada vez mais irregulares nas Cabeceiras do Pantanal, devido aos impactos das mudanças e variabilidades climáticas, garantir a disponibilidade e a qualidade de água depende de ações imediatas. Três estudos realizados pelo WWF-Brasil em parceria com a Aegea, lançados em junho de 2025, evidenciam que ações de restauração, além de recuperarem áreas degradadas, melhoram a infiltração de água no solo, reduzem o assoreamento de rios e garantem mais água de qualidade para a população da paisagem, além de evitarem prejuízos econômicos.

O diagnóstico é importante e urgente. Até 2023, 59% da paisagem já foi modificada pelas atividades humanas e 67% das pastagens estavam degradadas.

Os estudos conduzidos abordaram três frentes principais: a primeira analisou como diferentes coberturas vegetais contribuem para a redução da erosão hídrica e aumento da infiltração da água no solo; a segunda avaliou o custo-benefício da restauração de áreas degradadas nas bacias dos rios Jauru, Taquari e Miranda; e a terceira investigou a relação entre a precipitação e a vazão dos rios dessas mesmas bacias com a perda de superfície de água no Pantanal.

<><>Benefícios econômicos

A restauração da vegetação nativa e práticas agropecuárias mais responsáveis trazem benefícios concretos. Os dados apontam que cada real investido em restauração e conservação do solo, gera até 8 vezes mais benefícios econômicos, como, por exemplo, o aumento da produtividade agrícola e diminuição dos custos de tratamento de água. Além disso, indicam que concentrar os esforços de restauração em uma mesma área ou região identificada como prioritária é mais econômico e traz mais benefícios à população.

O objetivo dos estudos é mostrar que ter vegetação no solo não representa perda da área produtiva, mas sim um investimento com retorno econômico — especialmente quando se consideram custos com adubação, tratamento de água e perda de produtividade em áreas degradadas. Áreas com vegetação nativa, assim como pastagem com boa cobertura de gramíneas e arborizadas, geram muitos benefícios para a paisagem, especialmente na proteção e manutenção dos recursos hídricos das Cabeceiras, que têm influência direta na resiliência hídrica do Pantanal.

“Os estudos mostram o que já víamos no campo. Que ter vegetação no solo é essencial para garantir água, produtividade e viabilidade para a agropecuária. Os dados deixam evidente que investir em restauração custa menos do que remediar os danos depois”, explica Veronica Maioli, especialista em Conservação do WWF-Brasil.

<><> Restauração reduz erosão e enchentes

Os resultados obtidos pelos estudos oferecem subsídios valiosos para orientar ações práticas no campo e apoiar estratégias de atuação de diferentes atores na paisagem, como proprietários rurais, empresas e a população em geral. Entre as evidências levantadas, destaca-se que a restauração da vegetação nativa reduz significativamente os riscos de erosão e enchentes, melhora a qualidade da água e gera retornos financeiros positivos, além de preservar a saúde dos corpos hídricos.

Pastagens bem manejadas e arborizadas podem reduzir em até 40% a perda de água e em até 59% a perda de solo, em comparação com áreas degradadas, como solo exposto. Além disso, o investimento em restauração e em boas práticas agropecuárias que conservem o solo mostra-se economicamente vantajoso: cada R$ 1 aplicado pode gerar até R$ 8 em retorno, tornando essa uma estratégia eficaz tanto para a resiliência ambiental quanto para o desenvolvimento sustentável da região.

A realização dos estudos contou com o apoio da Aegea, e foi fundamental para viabilizar a produção de conhecimento técnico e científico sobre a região. A iniciativa reforça o quanto é essencial que o setor privado apoie ações que geram evidências e orientam decisões mais estratégicas, sustentáveis e eficazes.

“O apoio ao WWF-Brasil reforça o compromisso da Aegea com soluções para o enfrentamento dos desafios impostos ao saneamento nas regiões onde atuamos. O restauro da paisagem na área das Cabeceiras do Pantanal é muito valioso para nós como uma empresa de saneamento, garantindo maior resiliência hídrica num cenário onde o regime de chuvas é cada vez mais incerto. Prezar pela qualidade da água, reduzindo custos no tratamento e na distribuição, e protegendo um dos maiores patrimônios naturais do país, é como gostamos de encarar a sustentabilidade nos negócios”, comenta Édison Carlos, Presidente do Instituto Aegea.

“As chuvas são influenciadas por diferentes fatores e eventos climáticos. Os estudos mostram que, frente às variações do clima e à crescente transformação da paisagem, a tendência é de diminuição das chuvas e, consequentemente, das vazões dos rios. Nesse cenário, as Soluções Baseadas na Natureza, como a restauração da vegetação nativa e a conservação do solo, desempenham um papel fundamental para amortecer e minimizar os impactos de eventos extremos, promovendo a infiltração da água, a redução da erosão e a manutenção (ou aumento) da recarga de água subterrânea, que mantêm o fluxo dos rios na época de estiagem.”, comenta Maria Eduarda Coelho, analista de Conservação no WWF-Brasil.

 

Fonte: IDS/Envolverde

 

Nenhum comentário: