Que
países têm armas nucleares (e como desenvolveram suas bombas)?
Oitenta
anos após os Estados Unidos detonarem
a primeira bomba atômica, o programa nuclear
do Irã está no centro de uma grande
escalada de hostilidades no Oriente Médio. Em 2 de julho, o
presidente iraniano assinou uma lei suspendendo a cooperação com a Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão de vigilância nuclear da ONU,
depois que Israel e os EUA
atacaram suas instalações nucleares em junho. Os dois países disseram que os
ataques foram necessários para impedir que o Irã desenvolva armas nucleares. Ainda não se sabe
exatamente o tamanho do dano causado pelos ataques, nem quais poderiam ser as
consequências para a região e para o Tratado de Não Proliferação (TNP) da ONU,
que entrou em vigor há 55 anos e ajudou a limitar a disseminação de armas nucleares.
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Quem tem armas nucleares?
Sabe-se
que os EUA, a Rússia, o Reino Unido, a China, a França, a Índia, o Paquistão,
Israel e a Coreia do Norte possuem armas nucleares, embora Israel seja o único
destes países que nunca confirmou isso oficialmente. Os EUA se tornaram a
primeira potência nuclear depois de desenvolver secretamente as armas como
parte do Projeto Manhattan durante a Segunda Guerra Mundial. E usaram as armas
com efeito devastador em 1945, lançando bombas atômicas em Hiroshima e
Nagasaki, no Japão, que era uma das potências do Eixo — a coalizão militar que
também incluía a Alemanha nazista e a Itália, com as quais as forças Aliadas
estavam em guerra. Estima-se que as explosões tenham matado pelo menos 200 mil
pessoas. Esta continua sendo a única vez que armas nucleares foram usadas em um
conflito.
Patricia
Lewis, especialista em controle de armas, diz que esta foi "a verdadeira
largada da corrida armamentista nuclear", levando outros países,
principalmente a União Soviética, a buscar desenvolver com urgência suas
próprias armas nucleares, tanto para dissuadir ataques quanto para projetar
poder a nível regional e global. Menos de dois anos após o término da Segunda
Guerra Mundial, teve início a Guerra Fria, uma disputa pelo
poder global entre os EUA e a União Soviética, além dos aliados de ambos os
lados, que durou mais de 40 anos e, por vezes, ameaçou se transformar em um
conflito nuclear.
Os
soviéticos haviam começado a tentar construir uma bomba atômica durante a
Segunda Guerra Mundial, e obtiveram sucesso em 1949, quando realizaram um teste
bem-sucedido, acabando com o monopólio dos EUA sobre armas nucleares. Depois
disso, ambos os lados procuraram desenvolver armas nucleares ainda mais
destrutivas. Nos 15 anos seguintes, mais três países se tornaram potências
nucleares. Em 1952, o Reino Unido, que havia colaborado com os EUA no
desenvolvimento de armas nucleares durante a Segunda Guerra Mundial, se tornou
o terceiro, seguido pela França em 1960, e pela China em 1964.
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Quando outros países adquiriram armas nucleares?
Na
década de 1960, as cinco potências nucleares — EUA, União Soviética, Reino
Unido, França e China — estavam firmemente estabelecidas. Mas crescia o temor
de que o número de Estados com armas nucleares pudesse aumentar
significativamente. Em resposta, as Nações Unidas apresentaram o Tratado de Não
Proliferação (TNP), criado para evitar a disseminação de armas nucleares,
promover o desarmamento e facilitar o uso pacífico da energia nuclear. O
tratado entrou em vigor em 1970, mas nem todos os países assinaram, e as armas
nucleares se espalharam.
A Índia
se tornou uma potência nuclear em 1974, e o Paquistão em 1998. Nenhum dos dois
países assinou o tratado, em parte devido a preocupações de segurança que cada
um tinha em relação ao outro. Israel também nunca assinou o tratado. As
autoridades israelenses sempre apontaram as ameaças e tensões regionais, além
da hostilidade por parte de muitos dos seus vizinhos, como motivos para não
assinar o tratado. O país tem mantido uma política de ambiguidade nuclear — ou
seja, não confirma nem nega a posse de armas nucleares.
Inicialmente,
a Coreia do Norte assinou o acordo, mas se retirou em 2003, culpando os
exercícios militares conjuntos dos EUA e da Coreia do Sul. Em 2006, detonou uma
arma nuclear em um teste. O Sudão do Sul, fundado em 2011, é o único outro
Estado membro da ONU que não é signatário do tratado.
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O Irã tem armas nucleares?
"Até
onde sabemos", o Irã ainda não construiu uma bomba", diz Andrew
Futter, professor de política internacional da Universidade de Leicester, no
Reino Unido. "Mas, tecnicamente ou tecnologicamente, não há nenhuma razão
real para que eles não consigam fazer isso." O Irã, signatário do Tratado
de Não Proliferação, sempre afirmou que seu programa nuclear é pacífico, e que
nunca procurou desenvolver uma arma nuclear. No entanto, uma investigação de
uma década realizada pelo órgão de vigilância nuclear da ONU, a Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA), encontrou evidências de que o Irã
realizou "uma série de atividades relevantes para o desenvolvimento de um
dispositivo explosivo nuclear" do fim da década de 1980 até 2003, quando
os empreendimentos do que ficou conhecido como "Projeto Amad" foram
interrompidos.
Em
2015, o Irã fechou um acordo com seis potências mundiais, sob o qual aceitou
restrições às suas atividades nucleares, e permitiu o monitoramento pelos
inspetores da AIEA, em troca do alívio das devastadoras sanções internacionais.
Mas o presidente dos EUA, Donald Trump, abandonou o acordo
durante seu primeiro mandato em 2018, dizendo que ele fazia muito pouco para
impedir que o Irã desenvolvesse armas nucleares, e restabeleceu as sanções. O
Irã retaliou violando repetidamente as restrições da AIEA, sobretudo as relacionadas
ao enriquecimento de urânio. Em 12 de junho de 2025, o conselho de governadores
da AIEA, composto por 35 países, declarou que o Irã estava, pela primeira vez
em 20 anos, violando suas obrigações de não proliferação. No dia seguinte,
Israel lançou uma série de ataques contra alvos nucleares e militares
iranianos. Posteriormente, os EUA, seu aliado próximo, atacaram três
instalações nucleares iranianas, incluindo o complexo subterrâneo de Fordo.
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Israel tem armas nucleares?
Israel
nunca confirmou oficialmente que possui armas nucleares, mas acredita-se que
tenha um arsenal significativo. Em outubro de 1986, um técnico nuclear israelense, Mordechai
Vanunu,
contou ao jornal britânico Sunday Times que Israel possuía um programa de armas
nucleares muito maior e mais avançado do que se pensava anteriormente. Por esse
motivo, ele ficou preso em Israel por 18 anos, sendo libertado em 2004.
De
acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo
(Sipri, na sigla em inglês), um think tank, Israel está
modernizando seu arsenal. Em 2024, Israel realizou um teste de um sistema de
propulsão de mísseis "que poderia estar relacionado à sua família de
mísseis balísticos com capacidade nuclear Jericó", e parece estar
modernizando sua unidade de produção de plutônio em Dimona, diz o Sipri. Israel
tem agido militarmente para impedir que adversários regionais adquiram
capacidade nuclear. Além dos ataques ao Irã, bombardeou um reator nuclear no
Iraque em 1981, e uma suposta instalação nuclear na Síria em 2007.
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Que países abandonaram programas nucleares?
Outros
países, como a Suécia e a Suíça, começaram a trabalhar no desenvolvimento de
armas nucleares, mas depois abandonaram seus programas, voluntariamente ou
devido a pressões externas. A África do Sul é o único país do mundo que
desenvolveu armas nucleares com sucesso, e depois as desarmou e desmantelou seu
programa nuclear. "Isso ainda se destaca como um caso atípico bastante
significativo na era nuclear — de um Estado que construiu suas próprias armas
nucleares e depois decidiu desarmá-las", diz Futter. A decisão foi
motivada por uma combinação de fatores, incluindo o fim do regime do apartheid,
a diminuição dos conflitos regionais e a mudança da dinâmica política global.
Após
o colapso da União Soviética em 1991, três
Estados recém independentes — Ucrânia, Belarus e Cazaquistão — herdaram armas
nucleares, mas desistiram delas. A Ucrânia abriu mão de suas armas em troca de
garantias de segurança dos EUA, do Reino Unido e da Rússia, de acordo com o Memorando
de Budapeste de 1994. Mas o atual presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky,
argumentou várias vezes que seu país — que está em conflito com as forças
russas há mais de uma década — ganhou pouco ao abrir mão das armas.
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Quantas armas nucleares existem?
Como os
governos raramente divulgam todos os detalhes de seus arsenais nucleares, é
difícil saber exatamente quantas armas cada país possui. Mas, de acordo com o
Sipri, as potências nucleares do mundo possuíam um total estimado de 12.241
ogivas em janeiro de 2025, sendo que a Rússia e os EUA detinham cerca de 90% do
estoque global. Embora o desmantelamento de ogivas aposentadas tenha, em geral,
superado a implantação de novas ogivas, essa tendência provavelmente vai se
reverter "nos próximos anos", afirma o think tank.
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Mais países poderiam desenvolver armas nucleares?
O que
acontecer com o programa nuclear do Irã provavelmente vai influenciar se outros
países vão considerar desenvolver armas nucleares, segundo especialistas. Após
os ataques israelenses e americanos às instalações nucleares iranianas em
junho, Donald Trump declarou que o programa nuclear do Irã havia sido atrasado
em "décadas". Em julho, o Pentágono disse que os ataques dos EUA
haviam adiado o programa nuclear do Irã em até dois anos.
Se o
Irã acabar desenvolvendo uma arma nuclear, outros países do Oriente Médio,
principalmente a Arábia Saudita, podem tentar desenvolver seus próprios
armamentos, diz Futter. "Acho que a Arábia Saudita tem deixado bem claro
que não quer ter capacidade nuclear, mas um Irã com armas nucleares mudaria
completamente o jogo", ele explica. "O quão rápido ou fácil seria
fazer isso, é outra questão."
Lewis
afirma que há um "alto risco" de o Irã se retirar do Tratado de Não
Proliferação, o que, por sua vez, aumentaria a probabilidade de outros saírem.
Isso seria um "golpe duro" para o tratado, mas não necessariamente
fatal, diz ela. No entanto, mesmo que outros países decidam tentar desenvolver
armas nucleares, Lewis lembra que há desafios significativos a serem superados,
sobretudo a aquisição de urânio enriquecido ou plutônio com grau necessário
para fabricação de armamentos, ambos rigorosamente controlados. Ela também
destaca o ônus financeiro. "É caro e leva anos — especialmente se for
feito em segredo. Mas isso não impediu países mais pobres, como a Coreia do
Norte e o Paquistão."
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Por que o Brasil não tem bomba atômica?
Em toda
a história da humanidade, o mundo nunca esteve tão perto da
destruição — nem mesmo no auge da Guerra Fria. O alerta foi feito no final do mês
passado pelo Boletim de Cientistas Atômicos (BAS), uma entidade fundada nos
anos 1940 por Albert Einstein e outros acadêmicos preocupados com o avanço dos armamentos nucleares. Uma guerra nuclear
entre potências é uma ameaça antiga que nunca se consolidou.
Durante
a Guerra Fria, surgiram doutrinas militares — como a dissuasão nuclear e a
destruição mútua assegurada — que explicam por que o mundo não caminhou para
uma guerra nuclear. A ideia é de que o mero fato de um país ter armas nucleares
serve para intimidar outra potência nuclear rival — evitando assim uma escalada
de tensões que poderia levar, em última instância, à destruição do planeta. A
Guerra Fria acabou e o mundo viu o estoque de armas nucleares cair de 60
mil para 13 mil.
Ainda
assim, a ameaça de um conflito nuclear nunca desapareceu por completo. No ano
passado, a China interrompeu um diálogo com os Estados Unidos sobre
proliferação nuclear, em resposta à ajuda americana a Taiwan. Em novembro,
a Rússia atualizou seu protocolo para
uso de armas nucleares, dizendo que o país poderia vir a usar esse tipo de
armamento em caso de ameaça à sua soberania e território.
Por
que, afinal, o Brasil nunca desenvolveu armas
nucleares —
tido como instrumento importante de poder e dissuasão? Em 1998, o Brasil
assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, no qual assumiu o compromisso
com o resto do mundo de não desenvolver armas do tipo.
A BBC
News Brasil conversou com especialistas que explicam que a falta de consenso na
sociedade e a ausência de uma ameaça exterior clara desestimularam o país a
perseguir esse caminho. "O Brasil não tem arma nuclear porque não
precisa", resume Carlo Patti, historiador da Universidade de Pádova, na
Itália, e que pesquisou extensamente o programa nuclear brasileiro. "O
Brasil nunca precisou de armas nucleares para ações de defesa estratégica. Ele
nunca teve uma ameaça real por parte de outros países, como uma ameaça da
Argentina, ou da União Soviética durante a crise dos mísseis em Cuba. E são as
ameaças externas que justificam a existência de um arsenal nuclear, e no Brasil
essa ameaça nunca foi séria."
Mas
apesar da ausência de ameaças concretas, a ideia de um arsenal nuclear
brasileiro sempre existiu — seja em discussões na sociedade ou dentro de
gabinetes.
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Vozes na sociedade
"Sou
o único candidato a presidente que tem coragem de dizer que o Brasil precisa
construir a bomba atômica. Só cinco países no mundo têm o monopólio do poder
nuclear, impondo aos outros a humilhação de assinar tratados de não
proliferação de armas nucleares. É preciso construir a bomba não para jogar a
bomba em ninguém, mas sim para evitar que alguém jogue a bomba aqui, como os
EUA fizeram com o Japão em 1945. Se o Japão tivesse a bomba, ninguém se
atreveria a ter destruído Hiroshima e Nagasaki. Meu nome é Enéas."
O
trecho acima é parte da curta e folclórica propaganda eleitoral de 1994 de
Enéas Carneiro, médico que fundou nos anos 80 o partido nacionalista e
conservador Prona e concorreu diversas vezes à Presidência. Enéas foi o
deputado federal mais votado do Brasil em 2002 — mas o Prona nunca se
estabeleceu como uma força de expressão no debate nacional. Enéas é um raro
exemplo de um político brasileiro que defendeu abertamente a bomba atômica.
Historiadores
dizem que nunca houve no Brasil um político ou qualquer outra voz de grande
relevância no debate nacional que defendesse que o país tivesse armas
nucleares. "Quando se criou o programa de energia nuclear brasileiro,
sempre se usou o eufemismo 'segurança nacional'", diz a historiadora Ana
Maria Ribeiro de Andrade, pesquisadora aposentada do Museu de Astronomia e
Ciências Afins (Mast), autora do livro A Opção Nuclear: 50 Anos Rumo à
Autonomia.
Ela
conta que nos anos 1950, quando o Brasil começou seu programa de
desenvolvimento de energia nuclear, as discussões eram lideradas dentro do
governo tanto por físicos brasileiros e militares. Andrade leu as atas das
reuniões da época em que foi criado o Conselho Nacional de Pesquisas (o CNPq,
hoje conhecido como Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico), onde se discutiu também qual política o Brasil deveria adotar em
relação a pesquisa de energia nuclear, que era uma tecnologia nova na época. Ela
conta que as atas possuem carimbos de "secreto" e com várias
advertências de militares ao longo das reuniões que era preciso manter
sigilosas as discussões em torno do assunto. Para ela, havia muito cuidado dos
militares brasileiros em tratar abertamente sobre a possibilidade de
desenvolver armas nucleares. Além disso, havia pressão internacional para que o
Brasil não tivesse um programa bélico. "Houve pressão dos EUA para que o
Brasil não entrasse no seleto clube de fabricantes de armamentos
militares", diz Andrade.
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Ditadura militar e projetos secretos
Ao
longo da ditadura militar brasileira, a questão sempre foi discutida
internamente — dentro dos gabinetes de Brasília —, mas segundo a historiadora
com pouca transparência ou debate público. Mas o Brasil deu sinais ao mundo de
que estaria aberto, em tese, a desenvolver suas próprias armas nucleares ao não
aderir, no final dos anos 1960, ao recém-criado Tratado de Não-Proliferação de
Armas Nucleares. O país só veio a aderir ao tratado em 1998. Mas essa intenção
nunca foi expressa abertamente pelo governo. Ao invés disso, o Brasil perseguiu
— pelo menos oficialmente — um programa pacífico de energia nuclear, que
começou, segundo Andrade, com diversos intercâmbios científicos do Brasil com a
França e Alemanha.
Nos
anos 1970, esse programa nuclear pacífico brasileiro deu um salto com a
assinatura de um acordo com a Alemanha, com transferência de nove centrais
atômicas para o Brasil e todo o ciclo de produção do combustível nuclear.
Andrade conta que foi considerado o "acordo do século" do Brasil, e
custou bilhões ao país. "Havia a
expectativa dos militares brasileiros que o Brasil de fato iria absorver a
tecnologia nuclear da Alemanha. Mas se constatou que isso não era real",
afirma Andrade.
O
acordo aumentou muito o conhecimento científico brasileiro sobre energia
nuclear. Mas não permitia o país dominar completamente o ciclo do
enriquecimento do urânio. Além disso essa capacidade sempre esteve limitada a
fins pacíficos. "Esse acordo [com a Alemanha] tinha salvaguardas
internacionais, com fiscalização da Agência de Energia Atômica", diz Carlo
Patti, da Universidade de Pádova. Tudo que o Brasil desenvolvia dentro dessa
parceria com a Alemanha precisava ser transparente, com acesso de inspetores
internacionais às instalações nucleares brasileiras.
Para
perseguir programas que não estivessem sob fiscalização internacional, e
permitisse que o país pesquisasse mais livremente a energia nuclear — desde o
domínio do ciclo do enriquecimento de urânio à capacidade de dispositivos
explosivos —, o Brasil desenvolveu projetos secretos no final dos anos 1970. "Quando
se viu o fracasso do acordo com a Alemanha, que dali não sairia nada, as três
armas das Forças Armadas passaram a desenvolver seus projetos paralelos",
afirma Andrade. Ela ressalta que esses programas foram feitos sem repercussão
na sociedade e no meio científico e tecnológico. A forma que as Forças Armadas
encontraram de evitar fiscalização internacional foi firmando parcerias com
centros de pesquisas civis autônomos em universidades brasileiras — que não
estariam sujeitos à ingerência internacional.
Em
1979, os cientistas das Forças Armadas começaram a cooperar com centros de
pesquisa civis, como o Instituto de Engenharia Nuclear do Rio de Janeiro e o
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) da Universidade de São
Paulo (USP).
Essa
cooperação tinha vários objetivos específicos para o Brasil desenvolver
diferentes aspectos do desenvolvimento da energia nuclear. O Exército tentou
construir um reator para produção de plutônio. A Aeronáutica buscou usar o
método laser para enriquecer urânio. E a Marinha perseguiu um submarino
nuclear.
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Bomba atômica brasileira
Mas
houve intenção dos projetos paralelos da ditadura militar de construir uma
bomba atômica brasileira?
Carlo
Patti fala sobre um dos projetos secretos da Aeronáutica para desenvolver
artefatos nucleares para uso pacífico — explosivos usados para abrir poços de
petróleo ou desviar rios, por exemplo. EUA e União Soviética também tinham
projetos pacíficos semelhantes na época. Um dos problemas dos programas de
dispositivos explosivos nucleares pacíficos é que eles podem também ser usados
para fins de guerra. "Não existe diferença entre artefatos para uso
pacífico e para fins militares. A tecnologia é a mesma", diz Patti. Nos
anos 1970, a Índia tinha um programa semelhante — que foi usado no fim para dar
a capacidade nuclear bélica ao país.
Uma das
evidências da existência desse programa especial secreto eram túneis
construídos na Serra do Cachimbo, no Sul do Pará.
Nunca
ficou claro sobre o quão sério os militares brasileiros estavam empenhados em
construir uma bomba atômica brasileira como parte desse projeto. "Há
controvérsias se aqueles poços teriam profundidade suficiente para esses testes
de armamento bélico de origem nuclear", afirma o historiador.
A
existência dos poços de testes da Serra do Cachimbo era desconhecida do público
e foi revelada pela Folha de São Paulo em 1986, já após o fim da ditadura,
durante o governo do presidente José Sarney.
Com o
fim da ditadura militar e a redemocratização, o Brasil procurou mostrar ao
mundo que não tinha intenção de desenvolver armas nucleares. Em 1990, o então
presidente Fernando Collor foi à Serra do Cachimbo e enterrou os poços
construídos pela Aeronáutica. Em uma imagem simbólica, Collor apareceu
colocando uma pá de cal nos poços. Dias depois, ele viajou para a Assembleia
Geral da ONU e fez um discurso ressaltando as ambições pacíficas do projeto
nuclear brasileiro. Outra evidência que historiadores encontraram de uma
intenção de militares brasileiros de construir uma bomba atômica foi em uma
reunião a portas fechadas em Brasília no final do último governo da ditadura,
do presidente João Batista Figueiredo.
Patti
conta que um diplomata que participou de uma reunião em Brasília em 1984
relatou que o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, teria proposto
ao presidente Figueiredo que o Brasil desenvolvesse e testasse um artefato
nuclear.
Mas a
ideia, que parece ter sido levantada informalmente, foi prontamente descartada.
"Imediatamente o presidente Figueiredo considerou isso uma maluquice. Eu
li também um documento do Itamaraty que dizia que se nós explodirmos uma arma
nuclear, teremos imediatamente um regime de sanções enormes, o Brasil vai ser
isolado pela comunidade internacional e destruiremos a nossa relação com a
Argentina", conta Patti.
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Legados
Em
1982, o Congresso brasileiro realizou uma CPI para investigar os projetos
paralelos de energia nuclear brasileiro. Andrade conta que o clima inicial da
CPI era de crítica dos parlamentares — mas que ao longo das sessões a opinião
dos congressistas mudou, e muitos viraram entusiastas do projeto nuclear
brasileiro. O presidente da CPI era Itamar Franco, que anos depois se tornaria
presidente brasileiro. Em um livro de memórias, Franco diz que a CPI concluiu
que o programa oficial nuclear brasileiro fora um fracasso, mas que os projetos
paralelos foram bem-sucedidos em aumentar a capacidade tecnológica brasileira.
Andrade
e Patti dizem que o projeto paralelo da Marinha, conduzido pelo almirante Othon
Luiz Pinheiro da Silva, foi extremamente bem-sucedido. O objetivo inicial era
desenvolver submarinos com propulsão nuclear, mas o projeto civil militar do
Ipen e Marinha foi mais longe e levou o Brasil a dominar a capacidade de
enriquecer urânio através da tecnologia da ultracentrifugação. Em menos de oito
anos, o Brasil passou a dominar essa tecnologia, que é secreta e não pode ser
inspecionada por inspetores internacionais. Em 1987 o Brasil anunciou sua
capacidade ao mundo. "Quando a notícia vazou, os EUA ficaram
enlouquecidos", diz Andrade.
O feito
só foi feito graças à não participação do Brasil no tratado de não-proliferação
nuclear, que teria proibido qualquer iniciativa do tipo. Mesmo não fazendo
parte do restrito clube de nove países com bombas atômicas, o Brasil é hoje
parte de outro seleto grupo. "O Brasil é um dos poucos países do mundo que
tem jazidas de urânio e tem essa capacidade de produção de combustível
nuclear", afirma Patti.
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Não-proliferação
Se o
Brasil conseguiu desenvolver tantos projetos nucleares sem dar satisfações à
comunidade internacional, porque o Brasil assinou em 1998 o Tratado de
Não-Proliferação, abrindo mão dessa independência?
Segundo
Patti, o Brasil aderiu ao acordo por quatro motivos diferentes. Primeiro, a
redemocratização e um pacto nacional de apenas desenvolver energia nuclear com
fins pacíficos.
Segundo,
uma aproximação com a Argentina, com fiscalização mútua dos programas nucleares
dos dois países. Para que essas fiscalizações ocorressem, tanto Brasil como
Argentina precisaram renunciar às suas intenções de desenvolver armas
nucleares.
Terceiro,
o mundo abandonou a ideia de desenvolvimento de artefatos nucleares para fins
pacíficos — o que vinha sendo usado por outros países.
E
quarto por que o Tratado de Não-Proliferação tenha uma adesão quase universal
nos anos 1990. O custo de adesão ao tratado pelo Brasil já não era muito alto,
porque naquele momento o Brasil já tinha desenvolvido suficientemente seu
conhecimento nuclear.
Nos
últimos anos, a diplomacia brasileira vem se destacando por esforços de
desarmamento nuclear no mundo. Dentro da sociedade brasileira, o debate sobre o
desenvolvimento de armas nucleares não está sequer na pauta.
A
declaração mais recente sobre o assunto foi dada em 2019 pelo então presidente
da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o deputado federal Eduardo
Bolsonaro (PL/SP). Ele defendeu que o Brasil discutisse a saída do Tratado de
Não-Proliferação — para ter a liberdade de desenvolver programas nucleares
próprios.
"A
gente sabe que se o Brasil quiser atropelar essa convenção tem uma série de
sanções. É um tema muito complicado, mas eu acredito que um dia possa voltar ao
debate aqui", disse Eduardo Bolsonaro em uma reunião da comissão.
Em
2022, a Fundação Getúlio Vargas fez uma pesquisa de opinião com 2 mil
brasileiros sobre o apoio à uma bomba atômica do Brasil. Apenas 25% dos
entrevistados se manifestaram em favor de uma bomba brasileira. No caso de o
Brasil ser ameaçado por um país estrangeiro o apoio subia para 47%.
Caso o
Brasil decidisse hoje em dia abandonar o Tratado de Não-Proliferação, ele
estaria em condições tecnológicas de desenvolver sua bomba atômica?
Carlo
Patti diz que não há dados suficientes para se saber isso, com base nos
documentos disponíveis publicamente.
Fonte:
BBC News Mundo

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