segunda-feira, 7 de julho de 2025

Garimpo feriu corpo e espírito das mulheres Yanomami, que temem novo ataque

“A PALAVRA GARIMPO, GARIMPEIRO, é que nem um vírus de Covid. Nós sabemos quais as consequências de um garimpo”, me conta Carlinha Lins Santos, coordenadora e uma das fundadoras da AMYK, a Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma.

Criada em 2015, a AMYK é a primeira organização de mulheres Yanomami. “Nós fundamos a associação para defender os direitos da mulher Yanomami. Culturalmente, as mulheres não tinham espaço para nada — nem para ouvir, muito menos para opinar”, explica Carlinha, que mora em Maturacá, no Amazonas, dentro da Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil, que abrange também o estado de Roraima.

Passados dois anos após o governo Lula decretar emergência em saúde pública no território, por conta dos impactos do garimpo ilegal, busquei conversar com lideranças Yanomami para entender a situação desse povo — em especial das mulheres — mediante o cenário preocupante em que foi colocado.

O território Yanomami foi totalmente desconfigurado por conta do garimpo, e isso afetou diretamente a organização social de muitas aldeias e mesmo sua alimentação. Para as mulheres a situação foi ainda pior, como conta a líder indígena, artista, escritora e pesquisadora Ehuana Yaira Yanomami.

Ehuana vem ecoando sua voz, seja por meio de sua arte ou sua fala, em defesa do seu povo. Em 2024 ela viajou para a Espanha, tornando-se a primeira mulher Yanomami a falar sobre a situação dos Yanomami na Europa.

Ela mora no Demini, em Roraima — no mesmo local onde mora o xamã e líder Davi Kopenawa. A conversa com Ehuana foi atravessada por inúmeras dificuldades, como falhas na internet para fazer contato, e também a língua, pelas dificuldades criadas pelo português. Mesmo com as barreiras encontradas, a importância de ouvi-la foi maior e persistimos.

Era manhã de sábado quando Ehuana respondeu ao convite pelo WhatsApp. A conversa é direta com a líder, desta vez sem ajuda de sua amiga que sempre contribui na tradução — a antropóloga Ana Maria Machado, que estava em outras atividades.

Mesmo com a dificuldade, ela conseguiu se comunicar na língua dos napëpë (branco, não indígena, na língua Yanomami). Com minha experiência de ser uma repórter indígena, consegui identificar mesmo as palavras que não estavam tão claras.

Não há muitas mulheres Yanomami que falem sobre seu povo para fora do território. A dificuldade linguística é um dos pontos. E ser liderança é ainda uma caminhada que se está construindo.

Ehuana relata que, após a ação do governo, a situação tem melhorado. Mas as mulheres ainda sentem muito medo caso os garimpeiros voltem. Chegam notícias de que algumas mulheres estão doentes, pois apesar de os garimpeiros terem sido retirados do território, eles ainda estão por perto, ocasionando muita tensão.

“Eu ouvi assim, elas estão preocupadas porque as mulheres são as mais afetadas pelo garimpo, porque a destruidora (os garimpeiros) pega (estupra) as mulheres, engravida e muitos filhos nascem doentes. E se eles voltam para o território, isso pode continuar acontecendo, e eles não estão longe. Eu ouvi isso e fiquei com muita raiva, raiva. Eu já contei tudo isso fora do país, porque isso pode voltar”, destacou Ehuana.

As meninas mais jovens são as mais cobiçadas pelos homens no garimpo. Ehuana conta que eles primeiro chegam perto das casas Yanomami, e aí oferecem bebidas alcoólicas e embebedam essas meninas. E quando elas já estão bêbadas, as violentam.

Em fevereiro de 2023, o CIR (Conselho Indígena de Roraima) apresentou uma denúncia de que pelo menos 30 meninas Yanomami estariam grávidas, vítimas de estupros de garimpeiros. Ainda no mesmo ano, o caso foi encaminhado à Polícia Civil, à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal em Roraima. De acordo com o CIR, após dois anos, não houve retorno de nenhum dos órgãos.

Entrei em contato com o MPF e a PF e perguntei sobre o caso, mas também não tive resposta.

Além da violência, Ehuana cita também as doenças como herança da relação do território com o garimpo. “Os garimpeiros são homens maus, eles deixaram as meninas doentes e aí elas têm que ir para a Casa de Saúde Indígena. Eu vi que muitas estão fraquinhas, estão com diarreia, malária e doença do útero” disse Ehuana.

A malária e a desnutrição são problemas conhecidos desde a retirada dos garimpeiros da Terra Indígena Yanomami. Mas a “doença de útero” me chamou a atenção e me levou a buscar mais informações.

Por meio da Lei de Acesso à Informação, a Repórter Brasil solicitou dados ao Ministério da Saúde sobre câncer de colo de útero. Após seis anos sem qualquer registro, foi constatado um caso em 2018, e depois novos registros em 2021, 2022, 2023 e 2024. Ano passado foi recorde, com três notificações.

E é possível que haja mais doenças que não estão no radar das autoridades, e que os números sejam ainda mais alto do que os registrados, pois quando se trata dos povos indígenas, muitos dados são subnotificados — como ficou evidente durante a pandemia, quando as próprias organizações indígenas começaram a fazer as notificações dos infectados pela Covid-19.

•        As mulheres na defesa do território Yanomami

Os “destruidores”, como denomina Ehuana, não deixaram marcas apenas na terra, mas também nas mulheres, que estão carregando as cicatrizes em seus corpos. E a cura vai para além do físico. É também espiritual.

O alerta das mulheres Yanomami surge em meio a esse cenário. Ehuana é uma das poucas que leva os relatos das mulheres ao mundo, para que não esqueçam a violência cometida sobre as Yanomami.

Ela pontua a importância de ter lideranças mulheres. Elas também querem estar junto dos líderes, como o seu tio Davi Kopenawa, para lutar em defesa do seu povo, mas relata as dificuldades enfrentadas por elas — especialmente a falta de documentos, como RG, CPF, além da barreira da língua portuguesa.

“As mulheres são muito importantes. Elas cuidam dos filhos, fazem a comida, tiram a mandioca da terra. Elas não param, mulheres trabalham muito. Somos fortes e somos lideranças no território, mas elas (outras mulheres Yanomami) não têm documento, nem falam português para sair do território. Elas não têm [documentos de] identidade, elas não sabem viajar [para fora]. Só sabem viajar a pé, dentro da terra Yanomami”, ressalta Ehuana.

Ela quer que os mais jovens estudem, aprendam a escrever e a falar o português para ser liderança junto com os outros líderes homens. E para lutar também pelo território, saúde e educação.

Apesar da distância, o desafio de Carlinha, no Amazonas, é o mesmo. Ela relata que a maior dificuldade das mulheres é ter o documento. No dia em que conversamos, ela estava no município de São Gabriel da Cachoeira (AM) para registrar a ata da associação. No entanto, o cartório não aceitou.

Ela conta que os órgãos públicos ainda não sabem como tratar os povos indígenas — principalmente os de recente contato, como é o caso do povo Yanomami, que têm dificuldade com a fala e a escrita na língua portuguesa.

“Você sabe, muitas mulheres não sabem, não têm como assinar. E as pessoas não indígenas são muito ignorantes. As pessoas não sabem que somos povos de recente contato. Aí exigem tanta coisa. Eles falaram: ‘Não, tem que ter assinatura, o sistema não vai reconhecer que você está liderando esse grupo’. Então, eu respirei e saí”, disse Lins.

“As mulheres estão preocupadas com o garimpo. Isso é um pavor para nós. Traz doenças, contamina nossos rios, nossos peixes, acaba com a nossa floresta. Para o nosso povo, para as mulheres, é um transtorno total”, afirma Carlinha Lins Santos

A luta junto às mulheres é diária. Ela menciona que existe um medo muito grande quando se fala em garimpo.

Um dia antes da nossa conversa — que ocorreu em março —, chegou notícia, pelos caçadores Yanomami, de que garimpeiros estavam nas proximidades da região de Maturacá.

Carlinha, assim como Ehuana, se vê em um papel importante junto das mulheres, pois elas são essenciais na defesa do território. Mas destaca que precisam de apoio.

“A minha perspectiva como liderança é trazer para o território projetos de geração de renda e sustentabilidade, porque as mulheres trabalham na roça e estão envolvidas na cestaria. E a gente está buscando projetos que possam apoiar nós, mulheres”, disse Lins.

As mulheres Yanomami estão em um movimento para fortalecerem seu território, para que as marcas do garimpo e de outras violências não repassem para outras gerações — da mesma forma que foram repassadas por suas mães e avós.

Ao ouvi-las, é notório o desejo de serem também lideranças. Uma voz que ecoa para que o mundo saiba de suas existências e reconheçam seus trabalhos como guardiãs da terra. E também para que os violadores dos corpos das mulheres Yanomami paguem por seus crimes.

•        Garimpeiros ilegais têm expectativa de vida de 55 anos, 21 a menos que média nacional

A expectativa de vida para quem trabalha com o garimpo ilegal na região amazônica é de 55 anos. O número, revelado pelo estudo “Impactos da Mineração Ilegal na Amazônia”, feito pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil) e o Instituto Conviva, é 28% menor que o da média nacional. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a população brasileira vive, em média, até os 76,4 anos.

As principais causas de morte destes garimpeiros, referidos pela pesquisa como “proletários da lama”, são acidentes de trabalho, conflitos armados e falta de atendimento médico. Afogamento, soterramento, ataques de animais, picadas de cobras, ferroadas de insetos e picadas de aranha são listados, nesta ordem.

“As causas dessas mortes estão muito relacionadas à violência”, salienta Marcia Oliveira, doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), integrante da REPAM-Brasil e uma das organizadoras do levantamento.

“Nós entendemos, por exemplo, que ao ser picado por uma cobra, não receber tratamento e vir a óbito é uma violência institucional. Morrer de fome ou de acidente no trabalho sem receber nenhum tipo de assistência também é uma violência institucionalizada nos garimpos. Ou seja, o modo de vida no garimpo não permite um aumento da expectativa de vida dos trabalhadores”, argumenta Oliveira. “A possibilidade de morte de alguém que está há mais de 10 anos trabalhando no garimpo é altíssima”, resume.

De acordo com a pesquisa, o impacto do garimpo ilegal na Amazônia — que cresceu cerca de 650%, entre 2016 e 2022 — vai, portanto, além da destruição ambiental. “Está no centro de uma cadeia de violações de direitos humanos, exploração sexual, tráfico de pessoas, trabalho análogo ao escravo e violência sistemática contra povos indígenas e trabalhadores migrantes”, assinala a Repam.

Os “proletários da lama” trabalham “em condições precárias, descartáveis, sem direitos trabalhistas e frequentemente submetidos a jornadas exaustivas, riscos de morte e doenças graves”, aponta o estudo, feito por uma equipe de sociólogos, comunicadores e antropólogos. Foram feitas entrevistas com 389 pessoas em Manaus (AM), Altamira (PA), Porto Velho (RO) e Boa Vista (RR).

Os pesquisadores encontraram um padrão, entre os garimpeiros, de doenças crônicas, muitas das quais resultantes da exposição ao mercúrio. Em 2024, as enfermidades mais frequentes foram gota (24%),  malária (19%), tuberculose (14%), bronquite (13%), pneumonia (11%) e reumatismo (10%).

“Muitos reclamam de doenças relacionadas à artrite, desgastes ósseos, questões vinculadas também ao modo de trabalho: trabalhar no barro, molhado o tempo todo, sem nenhum equipamento de segurança: tudo isso contribui para que a expectativa de vida seja muito abaixo da média nacional”, avalia Márcia Oliveira.

“Se amanhecer vivo, já está no lucro”

“No garimpo, a gente aprende a não esperar nada da vida. Se amanhecer vivo, já está no lucro”, relata Adriano*, um dos entrevistados da pesquisa. Ele saiu de casa no Mato Grosso aos 14 anos, depois de uma briga com os pais. Sem muitas alternativas de sustento, foi apresentado aos serviços ilegais do garimpo e a isso se dedicou quase toda a vida. Hoje, aos 66 anos, abandonou o trabalho e vive há oito anos nas ruas de Manaus.

“O garimpo faz a gente se perder da vida. Um dia a gente ganha, no outro a gente perde tudo. Um dia a gente bamburra, no outro a balsa é destruída. E assim a gente se acostuma a correr de um canto a outro. Assim, sem paradeiro”, afirmou.

Rosa, outra entrevistada e também moradora de Manaus, dedica 18 dos seus 54 anos de vida na busca pelo filho, Israel. Aos 16, ele foi levado pelo pai para trabalhar no garimpo. “Aquele inferno”, descreve ela. Ali, o menino sumiu, nunca mais voltou.

“Meu coração de mãe sente que ele já está com nosso Pai Redentor. Mas nunca parei de procurar por ele. É muito difícil, sabe. Não tem nenhuma pessoa que seja responsável por ninguém no garimpo. Você não sabe para quem perguntar. Eu nunca consegui perdoar o meu ex-marido por ele ter perdido nosso menino. Ele também se embrenhou por esse mundo afora e nunca mais retornou. A gente não sabe o que aconteceu. Não tem nem como denunciar na polícia, porque eles não podem entrar nos garimpos. É terra de ninguém, sabe?”, relatou Rosa.

Quando estamos trabalhando dentro da área, só podemos sair se não estivermos devendo nada”, explica Vicente*, garimpeiro cuja entrevista coletada pelo sociólogo Francisco Silva é citada no estudo.

“Eles impedem a saída daqueles que estão devendo e só os deixam sair por motivo de doença. Isso inclui a todos trabalhadores braçais e as meninas que estão na corrutela [no contexto de garimpo, são locais de prostituição]. Mesmo assim, a pessoa fica devendo”, descreve Vicente. “Nos últimos anos, está ocorrendo muita leishmaniose e muitos tumores cutâneos. Tem muito mosquito e nenhum remédio, e a gente toma água de grota, aparentemente limpa, mas toda contaminada com as fezes dos garimpeiros e com o mercúrio”, conta.

Mulheres no garimpo

A pesquisa identificou, ainda, 309 casos de pessoas em situação de tráfico humano. Entre elas, 57% mulheres migrantes e 78% de brasileiras.

“Há muitos anos pesquisamos a mineração na Amazônia e, neste último mapeamento, o que nos chamou mais atenção é o crescimento da presença das mulheres nas áreas de garimpo, o aumento da violência em todos os sentidos, tanto na exploração do trabalho análogo à escravidão, como nas relações de dominação muito fortes, de modo especial contra as mulheres e os povos indígenas, que vivem nos arredores, e o recrutamento de crianças indígenas para trabalho nos garimpos”, destaca Márcia Oliveira.

De acordo com a pesquisadora, outro ponto de atenção é o “aumento da cumplicidade do Estado”. “Políticos locais e em nível nacional estabelecem apoio. Não só com a omissão da fiscalização, mas também com financiamento: muitos políticos da região estão tremendamente envolvidos com o garimpo”.

*Nomes usados são fictícios para proteção das pessoas mencionadas

 

Fonte: Repórter Brasil/Brasil de Fato

 

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