Garimpo
feriu corpo e espírito das mulheres Yanomami, que temem novo ataque
“A
PALAVRA GARIMPO, GARIMPEIRO, é que nem um vírus de Covid. Nós sabemos quais as
consequências de um garimpo”, me conta Carlinha Lins Santos, coordenadora e uma
das fundadoras da AMYK, a Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma.
Criada
em 2015, a AMYK é a primeira organização de mulheres Yanomami. “Nós fundamos a
associação para defender os direitos da mulher Yanomami. Culturalmente, as
mulheres não tinham espaço para nada — nem para ouvir, muito menos para
opinar”, explica Carlinha, que mora em Maturacá, no Amazonas, dentro da Terra
Indígena Yanomami, a maior do Brasil, que abrange também o estado de Roraima.
Passados
dois anos após o governo Lula decretar emergência em saúde pública no
território, por conta dos impactos do garimpo ilegal, busquei conversar com
lideranças Yanomami para entender a situação desse povo — em especial das
mulheres — mediante o cenário preocupante em que foi colocado.
O
território Yanomami foi totalmente desconfigurado por conta do garimpo, e isso
afetou diretamente a organização social de muitas aldeias e mesmo sua
alimentação. Para as mulheres a situação foi ainda pior, como conta a líder
indígena, artista, escritora e pesquisadora Ehuana Yaira Yanomami.
Ehuana
vem ecoando sua voz, seja por meio de sua arte ou sua fala, em defesa do seu
povo. Em 2024 ela viajou para a Espanha, tornando-se a primeira mulher Yanomami
a falar sobre a situação dos Yanomami na Europa.
Ela
mora no Demini, em Roraima — no mesmo local onde mora o xamã e líder Davi
Kopenawa. A conversa com Ehuana foi atravessada por inúmeras dificuldades, como
falhas na internet para fazer contato, e também a língua, pelas dificuldades
criadas pelo português. Mesmo com as barreiras encontradas, a importância de
ouvi-la foi maior e persistimos.
Era
manhã de sábado quando Ehuana respondeu ao convite pelo WhatsApp. A conversa é
direta com a líder, desta vez sem ajuda de sua amiga que sempre contribui na
tradução — a antropóloga Ana Maria Machado, que estava em outras atividades.
Mesmo
com a dificuldade, ela conseguiu se comunicar na língua dos napëpë (branco, não
indígena, na língua Yanomami). Com minha experiência de ser uma repórter
indígena, consegui identificar mesmo as palavras que não estavam tão claras.
Não há
muitas mulheres Yanomami que falem sobre seu povo para fora do território. A
dificuldade linguística é um dos pontos. E ser liderança é ainda uma caminhada
que se está construindo.
Ehuana
relata que, após a ação do governo, a situação tem melhorado. Mas as mulheres
ainda sentem muito medo caso os garimpeiros voltem. Chegam notícias de que
algumas mulheres estão doentes, pois apesar de os garimpeiros terem sido
retirados do território, eles ainda estão por perto, ocasionando muita tensão.
“Eu
ouvi assim, elas estão preocupadas porque as mulheres são as mais afetadas pelo
garimpo, porque a destruidora (os garimpeiros) pega (estupra) as mulheres,
engravida e muitos filhos nascem doentes. E se eles voltam para o território,
isso pode continuar acontecendo, e eles não estão longe. Eu ouvi isso e fiquei
com muita raiva, raiva. Eu já contei tudo isso fora do país, porque isso pode
voltar”, destacou Ehuana.
As
meninas mais jovens são as mais cobiçadas pelos homens no garimpo. Ehuana conta
que eles primeiro chegam perto das casas Yanomami, e aí oferecem bebidas
alcoólicas e embebedam essas meninas. E quando elas já estão bêbadas, as
violentam.
Em
fevereiro de 2023, o CIR (Conselho Indígena de Roraima) apresentou uma denúncia
de que pelo menos 30 meninas Yanomami estariam grávidas, vítimas de estupros de
garimpeiros. Ainda no mesmo ano, o caso foi encaminhado à Polícia Civil, à
Polícia Federal e ao Ministério Público Federal em Roraima. De acordo com o
CIR, após dois anos, não houve retorno de nenhum dos órgãos.
Entrei
em contato com o MPF e a PF e perguntei sobre o caso, mas também não tive
resposta.
Além da
violência, Ehuana cita também as doenças como herança da relação do território
com o garimpo. “Os garimpeiros são homens maus, eles deixaram as meninas
doentes e aí elas têm que ir para a Casa de Saúde Indígena. Eu vi que muitas
estão fraquinhas, estão com diarreia, malária e doença do útero” disse Ehuana.
A
malária e a desnutrição são problemas conhecidos desde a retirada dos
garimpeiros da Terra Indígena Yanomami. Mas a “doença de útero” me chamou a
atenção e me levou a buscar mais informações.
Por
meio da Lei de Acesso à Informação, a Repórter Brasil solicitou dados ao
Ministério da Saúde sobre câncer de colo de útero. Após seis anos sem qualquer
registro, foi constatado um caso em 2018, e depois novos registros em 2021,
2022, 2023 e 2024. Ano passado foi recorde, com três notificações.
E é
possível que haja mais doenças que não estão no radar das autoridades, e que os
números sejam ainda mais alto do que os registrados, pois quando se trata dos
povos indígenas, muitos dados são subnotificados — como ficou evidente durante
a pandemia, quando as próprias organizações indígenas começaram a fazer as
notificações dos infectados pela Covid-19.
• As mulheres na defesa do território
Yanomami
Os
“destruidores”, como denomina Ehuana, não deixaram marcas apenas na terra, mas
também nas mulheres, que estão carregando as cicatrizes em seus corpos. E a
cura vai para além do físico. É também espiritual.
O
alerta das mulheres Yanomami surge em meio a esse cenário. Ehuana é uma das
poucas que leva os relatos das mulheres ao mundo, para que não esqueçam a
violência cometida sobre as Yanomami.
Ela
pontua a importância de ter lideranças mulheres. Elas também querem estar junto
dos líderes, como o seu tio Davi Kopenawa, para lutar em defesa do seu povo,
mas relata as dificuldades enfrentadas por elas — especialmente a falta de
documentos, como RG, CPF, além da barreira da língua portuguesa.
“As
mulheres são muito importantes. Elas cuidam dos filhos, fazem a comida, tiram a
mandioca da terra. Elas não param, mulheres trabalham muito. Somos fortes e
somos lideranças no território, mas elas (outras mulheres Yanomami) não têm
documento, nem falam português para sair do território. Elas não têm
[documentos de] identidade, elas não sabem viajar [para fora]. Só sabem viajar
a pé, dentro da terra Yanomami”, ressalta Ehuana.
Ela
quer que os mais jovens estudem, aprendam a escrever e a falar o português para
ser liderança junto com os outros líderes homens. E para lutar também pelo
território, saúde e educação.
Apesar
da distância, o desafio de Carlinha, no Amazonas, é o mesmo. Ela relata que a
maior dificuldade das mulheres é ter o documento. No dia em que conversamos,
ela estava no município de São Gabriel da Cachoeira (AM) para registrar a ata
da associação. No entanto, o cartório não aceitou.
Ela
conta que os órgãos públicos ainda não sabem como tratar os povos indígenas —
principalmente os de recente contato, como é o caso do povo Yanomami, que têm
dificuldade com a fala e a escrita na língua portuguesa.
“Você
sabe, muitas mulheres não sabem, não têm como assinar. E as pessoas não
indígenas são muito ignorantes. As pessoas não sabem que somos povos de recente
contato. Aí exigem tanta coisa. Eles falaram: ‘Não, tem que ter assinatura, o
sistema não vai reconhecer que você está liderando esse grupo’. Então, eu
respirei e saí”, disse Lins.
“As
mulheres estão preocupadas com o garimpo. Isso é um pavor para nós. Traz
doenças, contamina nossos rios, nossos peixes, acaba com a nossa floresta. Para
o nosso povo, para as mulheres, é um transtorno total”, afirma Carlinha Lins
Santos
A luta
junto às mulheres é diária. Ela menciona que existe um medo muito grande quando
se fala em garimpo.
Um dia
antes da nossa conversa — que ocorreu em março —, chegou notícia, pelos
caçadores Yanomami, de que garimpeiros estavam nas proximidades da região de
Maturacá.
Carlinha,
assim como Ehuana, se vê em um papel importante junto das mulheres, pois elas
são essenciais na defesa do território. Mas destaca que precisam de apoio.
“A
minha perspectiva como liderança é trazer para o território projetos de geração
de renda e sustentabilidade, porque as mulheres trabalham na roça e estão
envolvidas na cestaria. E a gente está buscando projetos que possam apoiar nós,
mulheres”, disse Lins.
As
mulheres Yanomami estão em um movimento para fortalecerem seu território, para
que as marcas do garimpo e de outras violências não repassem para outras
gerações — da mesma forma que foram repassadas por suas mães e avós.
Ao
ouvi-las, é notório o desejo de serem também lideranças. Uma voz que ecoa para
que o mundo saiba de suas existências e reconheçam seus trabalhos como guardiãs
da terra. E também para que os violadores dos corpos das mulheres Yanomami
paguem por seus crimes.
• Garimpeiros ilegais têm expectativa de
vida de 55 anos, 21 a menos que média nacional
A
expectativa de vida para quem trabalha com o garimpo ilegal na região amazônica
é de 55 anos. O número, revelado pelo estudo “Impactos da Mineração Ilegal na
Amazônia”, feito pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil) e o Instituto
Conviva, é 28% menor que o da média nacional. De acordo com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a população brasileira vive, em
média, até os 76,4 anos.
As
principais causas de morte destes garimpeiros, referidos pela pesquisa como
“proletários da lama”, são acidentes de trabalho, conflitos armados e falta de
atendimento médico. Afogamento, soterramento, ataques de animais, picadas de
cobras, ferroadas de insetos e picadas de aranha são listados, nesta ordem.
“As
causas dessas mortes estão muito relacionadas à violência”, salienta Marcia
Oliveira, doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal
do Amazonas (UFAM), integrante da REPAM-Brasil e uma das organizadoras do
levantamento.
“Nós
entendemos, por exemplo, que ao ser picado por uma cobra, não receber
tratamento e vir a óbito é uma violência institucional. Morrer de fome ou de
acidente no trabalho sem receber nenhum tipo de assistência também é uma
violência institucionalizada nos garimpos. Ou seja, o modo de vida no garimpo
não permite um aumento da expectativa de vida dos trabalhadores”, argumenta
Oliveira. “A possibilidade de morte de alguém que está há mais de 10 anos
trabalhando no garimpo é altíssima”, resume.
De
acordo com a pesquisa, o impacto do garimpo ilegal na Amazônia — que cresceu
cerca de 650%, entre 2016 e 2022 — vai, portanto, além da destruição ambiental.
“Está no centro de uma cadeia de violações de direitos humanos, exploração
sexual, tráfico de pessoas, trabalho análogo ao escravo e violência sistemática
contra povos indígenas e trabalhadores migrantes”, assinala a Repam.
Os
“proletários da lama” trabalham “em condições precárias, descartáveis, sem
direitos trabalhistas e frequentemente submetidos a jornadas exaustivas, riscos
de morte e doenças graves”, aponta o estudo, feito por uma equipe de
sociólogos, comunicadores e antropólogos. Foram feitas entrevistas com 389
pessoas em Manaus (AM), Altamira (PA), Porto Velho (RO) e Boa Vista (RR).
Os
pesquisadores encontraram um padrão, entre os garimpeiros, de doenças crônicas,
muitas das quais resultantes da exposição ao mercúrio. Em 2024, as enfermidades
mais frequentes foram gota (24%),
malária (19%), tuberculose (14%), bronquite (13%), pneumonia (11%) e
reumatismo (10%).
“Muitos
reclamam de doenças relacionadas à artrite, desgastes ósseos, questões
vinculadas também ao modo de trabalho: trabalhar no barro, molhado o tempo
todo, sem nenhum equipamento de segurança: tudo isso contribui para que a
expectativa de vida seja muito abaixo da média nacional”, avalia Márcia
Oliveira.
“Se
amanhecer vivo, já está no lucro”
“No
garimpo, a gente aprende a não esperar nada da vida. Se amanhecer vivo, já está
no lucro”, relata Adriano*, um dos entrevistados da pesquisa. Ele saiu de casa
no Mato Grosso aos 14 anos, depois de uma briga com os pais. Sem muitas
alternativas de sustento, foi apresentado aos serviços ilegais do garimpo e a
isso se dedicou quase toda a vida. Hoje, aos 66 anos, abandonou o trabalho e
vive há oito anos nas ruas de Manaus.
“O
garimpo faz a gente se perder da vida. Um dia a gente ganha, no outro a gente
perde tudo. Um dia a gente bamburra, no outro a balsa é destruída. E assim a
gente se acostuma a correr de um canto a outro. Assim, sem paradeiro”, afirmou.
Rosa,
outra entrevistada e também moradora de Manaus, dedica 18 dos seus 54 anos de
vida na busca pelo filho, Israel. Aos 16, ele foi levado pelo pai para
trabalhar no garimpo. “Aquele inferno”, descreve ela. Ali, o menino sumiu,
nunca mais voltou.
“Meu
coração de mãe sente que ele já está com nosso Pai Redentor. Mas nunca parei de
procurar por ele. É muito difícil, sabe. Não tem nenhuma pessoa que seja
responsável por ninguém no garimpo. Você não sabe para quem perguntar. Eu nunca
consegui perdoar o meu ex-marido por ele ter perdido nosso menino. Ele também
se embrenhou por esse mundo afora e nunca mais retornou. A gente não sabe o que
aconteceu. Não tem nem como denunciar na polícia, porque eles não podem entrar
nos garimpos. É terra de ninguém, sabe?”, relatou Rosa.
Quando
estamos trabalhando dentro da área, só podemos sair se não estivermos devendo
nada”, explica Vicente*, garimpeiro cuja entrevista coletada pelo sociólogo
Francisco Silva é citada no estudo.
“Eles
impedem a saída daqueles que estão devendo e só os deixam sair por motivo de
doença. Isso inclui a todos trabalhadores braçais e as meninas que estão na
corrutela [no contexto de garimpo, são locais de prostituição]. Mesmo assim, a
pessoa fica devendo”, descreve Vicente. “Nos últimos anos, está ocorrendo muita
leishmaniose e muitos tumores cutâneos. Tem muito mosquito e nenhum remédio, e
a gente toma água de grota, aparentemente limpa, mas toda contaminada com as
fezes dos garimpeiros e com o mercúrio”, conta.
Mulheres
no garimpo
A
pesquisa identificou, ainda, 309 casos de pessoas em situação de tráfico
humano. Entre elas, 57% mulheres migrantes e 78% de brasileiras.
“Há
muitos anos pesquisamos a mineração na Amazônia e, neste último mapeamento, o
que nos chamou mais atenção é o crescimento da presença das mulheres nas áreas
de garimpo, o aumento da violência em todos os sentidos, tanto na exploração do
trabalho análogo à escravidão, como nas relações de dominação muito fortes, de
modo especial contra as mulheres e os povos indígenas, que vivem nos arredores,
e o recrutamento de crianças indígenas para trabalho nos garimpos”, destaca
Márcia Oliveira.
De
acordo com a pesquisadora, outro ponto de atenção é o “aumento da cumplicidade
do Estado”. “Políticos locais e em nível nacional estabelecem apoio. Não só com
a omissão da fiscalização, mas também com financiamento: muitos políticos da
região estão tremendamente envolvidos com o garimpo”.
*Nomes
usados são fictícios para proteção das pessoas mencionadas
Fonte:
Repórter Brasil/Brasil de Fato

Nenhum comentário:
Postar um comentário