‘Prisão
política’, diz defesa de casal de ativistas da BA preso em férias no Rio
DOIS
TRABALHADORES RURAIS de Correntina, no Oeste Baiano, estão presos desde 16 de
maio no Rio de Janeiro (RJ). Solange Moreira e Vanderlei Silva foram detidos
pela Polícia Federal quando aterrissaram no aeroporto Santos Dumont durante uma
viagem de férias, alvos de um mandado de prisão preventiva expedido pela
Justiça Estadual da Bahia.
“Trata-se
de uma prisão política e de criminalização das comunidades que lutam contra a
grilagem de terras e expropriação dos territórios”, afirmou, em nota, o MAB
(Movimento dos Atingidos por Barragens). O casal é acusado, juntamente com
outros dez agricultores, de ter invadido uma fazenda em Correntina e agredido o
suposto proprietário, Florindo Fachini, e seus funcionários.
A
defesa dos camponeses alega que foram cometidas irregularidades no processo.
Além disso, alegam que o território do conflito é de uso da comunidade
tradicional de Brejo Verde, da qual faz parte o casal.
Ainda
de acordo com as advogadas, não há provas sequer de que houve a agressão, uma
vez que os laudos periciais apresentados são inconclusivos. A Repórter Brasil
falou com o advogado de Fachini, que não quis se pronunciar.
O
promotor Rogério Barra Marinho, do Ministério Público da Bahia, posicionou-se
contra o pedido de liberdade do casal. Marinho se baseou nos depoimentos do
fazendeiro, da esposa e dos trabalhadores. Segundo esses relatos, os acusados
participaram de um ataque violento e premeditado, com agressões físicas graves,
ameaças de morte, destruição de bens e furto de uma arma registrada.
Contudo,
o defensor público estadual Paulo Henrique Malagutti argumentou que o único
laudo de corpo de delito presente nos autos não identificou qualquer lesão na
vítima examinada, o que contradiz os relatos de agressões graves. Além disso,
ele apontou a ausência de exames nas demais supostas vítimas, o que compromete
a comprovação das agressões. Para Malagutti, a fragilidade nas provas técnicas
reforça que a prisão foi decretada com base apenas em testemunhos.
Para
Juliana Athayde, advogada do casal, não há elementos para manter a prisão.
“Você não pode simplesmente pegar a palavra do fazendeiro e tomar como verdade,
sem sequer ouvir as pessoas que estão sendo acusadas de ter cometido crimes”,
entende a defensora, integrante da Associação dos Advogados de Trabalhadores
Rurais.
A
advogada, assim como o MAB, defende a tese de que está em curso uma perseguição
política. “A Solange e o Vanderlei foram presos sem qualquer conhecimento das
acusações e sem terem sido ouvidos pela polícia ou pelo juiz que decretou a
prisão, uma violação do direito ao contraditório e à ampla defesa, que
permanece até hoje”, afirma Athayde.
A
comunidade de Brejo Verde fica entre os municípios de Correntina e Jaborandi
(BA), e integra um grupo de povos tradicionais conhecido como de fundo e fecho
de pasto, presente há séculos na região. Os rebanhos dos moradores pastam em
áreas coletivas de vegetação preservada do sertão.
Trata-se
de uma pecuária de baixíssimo impacto ambiental, cujo direito à posse destas
terras é assegurado pela Constituição do Estado da Bahia. O processo de
certificação dos territórios, no entanto, é lento, e muitas vezes fazendeiros
registram propriedades de forma irregular em territórios reivindicados pelas
comunidades.
O
governo baiano certificou a área da Brejo Verde, em 2021, mas ela ainda não foi
demarcada ou regularizada, deixando os agricultores e sua terra sujeitos ao
assédio de grandes proprietários e do agronegócio, e também sujeitos à
violência agrária.
Recentemente,
a Procuradoria Geral do Estado da Bahia conseguiu bloquear as matrículas de 19
propriedades rurais que incidiam sobre a área de outra comunidade de fundo e
fecho de pasto, a Capão do Modesto, também em Correntina.
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Defesa aguarda decisão de Habeas Corpus
A
defesa dos agricultores protocolou um pedido de habeas corpus, para que eles
possam responder ao processo em liberdade, uma vez que são réus primários e
possuem residência fixa, mas a Justiça ainda não analisou a solicitação.
Além de
serem agricultores, Solange e Vanderlei são militantes do MAB respeitados pela
comunidade de Brejo Verde. Ela é agente comunitária de saúde, catequista e
coordenadora de culto dominical. Ele é o motorista responsável pelo ônibus que
transporta os moradores da comunidade para a sede do município.
“Eles
estão detidos em condições inadequadas, em meio a pessoas perigosas, causando
temor a eles e às suas famílias”, afirmou, em nota, a advogada Ana Paula
Moreira Caitano.
O
fazendeiro Fachini relatou para a polícia, no boletim de ocorrência, que foi
surpreendido por pessoas armadas com espingardas e facões, enquanto estava
junto com a esposa e um grupo de trabalhadores na fazenda Vira Saia. Ele alega
ter sido retirado de seu veículo e agredido junto com seus funcionários. Além
disso, afirma que seu carro foi danificado durante a ação e anexou à ocorrência
fotos de uma picape com vidros quebrados e porta amassada.
A
defesa do casal preso diz que o depoimento do fazendeiro está repleto de contradições e, mesmo assim, embasou o pedido
de prisão. Uma das contradições apontadas é que Fachini disse que os agressores
estavam “camuflados” e com “panos amarrados” no rosto, o que impossibilitaria a
identificação. No entanto, ele alega ter reconhecido 12 agricultores da
comunidade Brejo Verde.
Outra
contradição, segundo a defesa dos camponeses, é que Fachini afirmou a presença
de quatro funcionários no momento do ocorrido, mas estes informaram às
autoridades estarem apenas em dois. Além das contradições, os advogados dos
agricultores questionam a propriedade da área por Fachini, e afirmam que o
local é de uso coletivo da comunidade Brejo Verde há séculos.
“A
documentação apresentada por Florindo Fachini [para alegar a propriedade da
fazenda] consiste apenas em declarações negativas de débito e Cadastros
Ambientais Rurais autodeclaratórios, além de contrato particular de usucapião
caracterizado como grilagem, sem nenhum documento que comprove a propriedade”,
afirmou a defesa no pedido de Habeas Corpus.
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Comunidade lamenta a prisão do casal
A
prisão de Solange e Vanderlei afetou os moradores de Brejo Verde. “O clima está
bastante tenso, as pessoas estão com medo e, ao mesmo tempo, tristes”, relata
Vanessa, filha do casal. Com a prisão de Vanderlei a comunidade ficou isolada.
“Meu pai é motorista de ônibus, era quem levava as pessoas para fazer compras e
resolver problemas na cidade”, explica.
O uso
tradicional do pasto coletivo, mantido há séculos, está agora sob ameaça.
Vanessa diz que cercas estão sendo instaladas e que, com a prisão dos pais, os
fazendeiros “ganharam mais autonomia”. Ela acredita na luta dos pais e da
comunidade, mas desabafa: “Sabemos que, neste momento, a justiça não está do
nosso lado”.
A
Repórter Brasil visitou quatro comunidades de fundo e fecho de pasto, em 2023,
na região de Correntina, onde encontrou um cenário de violência, assédio e
intimidação contra agricultores por fazendeiros e policiais. Naquele ano, ao
menos seis geraizeiros foram baleados e dois tiveram suas casas destruídas por
grileiros nestes locais.
Povos
tradicionais desempenham papel fundamental na conservação do Cerrado, cada vez
mais ameaçado pelo avanço do agronegócio. “As comunidades não desmatam grandes
extensões e abrem apenas pequenas roças”, explica o professor de direito da
Universidade Estadual da Bahia, Cloves dos Santos Araújo. “As áreas de pastagem
de fundo e fecho de pasto são largas extensões de cerrado praticamente
intocadas e preservadas”, complementa.
• Com menos chuva e avanço da soja, rios
do Cerrado perdem 27% das águas
OS RIOS
do Cerrado transportam um volume de água 27% menor hoje do que na década de
1970. Essa perda equivale a 30 piscinas olímpicas por minuto, o suficiente para
abastecer o Brasil inteiro por três dias e meio.
As
conclusões são da análise “Cerrado – O Elo Sagrado das Águas do Brasil”,
divulgada nesta segunda-feira (23) pela Ambiental Media, organização de
jornalismo científico e de dados. O estudo foi coordenado pelo geógrafo Yuri
Salmona, doutor em Ciências Florestais pela UnB (Universidade de Brasília) e
diretor-executivo do Instituto Cerrados.
Com
base em informações da ANA (Agência Nacional de Águas), o levantamento comparou
dados de chuvas, evapotranspiração (umidade evaporada do solo e da vegetação) e
vazão de seis bacias hidrográficas do Cerrado (Araguaia, Paraná, Parnaíba, São
Francisco, Taquari e Tocantins), entre as décadas de 1970 (1970–1979) e 2010
(2012–2021).
O
relatório aponta para queda de 21% das chuvas desde a década de 1970 (de 680
para 539 mm/ano), além de alta de 8% da evaporação nas seis regiões
hidrográficas, culminando com a perda de 27% na vazão de segurança dos rios. “O
Cerrado está deixando de pulsar 1.300 m³ de água por segundo”, diz o relatório.
O
documento destaca que o bioma ocupa um quarto do território nacional e é
responsável pelo abastecimento de 8 das 12 bacias hidrográficas brasileiras. “O
relevo do Cerrado permite à sua rede de rios e lençóis freáticos abastecer
bacias em todas as regiões do país, inclusive gigantes da Amazônia, como os
rios Tapajós e Xingu. Mais de 90% das águas que correm pelo São Francisco vêm
do Cerrado, assim como praticamente toda a água do Pantanal. O bioma abastece
quase 50% da bacia do Paraná, estratégica para a geração de energia elétrica”,
diz o texto.
A perda
de vegetação nativa é um dos motivos por trás dos impactos no Cerrado, segundo
Salmona, o que está diretamente vinculada à expansão da soja no bioma. Dados do
MapBiomas mostram que a região perdeu 22% de sua vegetação nativa entre 1985 e
2022, passando de 107 milhões para 83 milhões de hectares. No mesmo período, a
área destinada à produção de soja cresceu quase 20 vezes, passando de 620 mil
para mais de 12 milhões de hectares.
“É
comum encontrar pessoas indignadas com a falta de água nas torneiras ou
preocupadas com a queda de safra devido à irregularidade climática, sem
perceberem que esses problemas estão diretamente ligados ao desmatamento do
Cerrado”, diz Salmona. “Quando o Cerrado é devastado, estamos colocando em
risco os recursos hídricos do Brasil, afetando a todos nós”, alerta.
“A
irrigação intensiva e o desmatamento perturbam o ciclo hidrológico, reduzindo a
capacidade do solo de armazenar e liberar água nos períodos secos. Esse
fenômeno retroalimenta a crise climática, encurtando os períodos de chuva,
aumentando a temperatura e intensificando a instabilidade climática”, destaca o
documento.
Fonte:
Repórter Brasil

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