Poderia
o Brics ser uma alternativa ao capitalismo?
Depois
da queda da União Soviética e do consequente esfriamento dos ideais
socialistas, somados aos longos anos de infames políticas neoliberais que
empobreceram e debilitaram categoricamente os países já historicamente
empobrecidos, o campo popular hoje se mostra profundamente golpeado. Não se
pode dizer que isso represente uma derrota estratégica, que as lutas de classes
tenham saído da história e que o sistema capitalista se erga triunfante, sem
contradições que lhe façam sombra. Muito pelo contrário, suas insuperáveis
contradições – as irreconciliáveis lutas de classes – continuam sendo seu motor
dinamizador. Isso, e não pode ser de outra maneira, está aí, em brasa
viva. “Claro que há luta de classes! Mas, por sorte, eu pertenço à
classe que está vencendo essa guerra”, disse o multimilionário financista
Warren Buffett.
Acontece
que o aturdimento sofrido pela esquerda e por todo o campo popular foi tão
grande nestes anos, que a direita tomou a iniciativa, mostrando – como disse a
implacável neoliberal Margaret Thatcher – que “não há alternativa”.
Ou capitalismo… ou capitalismo! Chegamos até a acreditar nisso por um
momento, e os discursos pós-modernos dominaram. Mas, certamente, há
alternativas! Os ideais socialistas não estão mortos. Como exemplo,
veja-se o que está acontecendo hoje no Sahel, na África.
Diante
desse desalento que se espalhou globalmente, com projetos fondomonetaristas
cobrindo quase toda a face do planeta e com os Estados Unidos agigantados como
única voz dominante, as ideias de transformação social foram deixadas
temporariamente de lado. Diante disso, o surgimento dos tímidos “progressismos”
que emergiram na América Latina no início do século 21 abriu esperanças.
Após as sangrentas ditaduras que enlutaram dramaticamente todos os países da
região, quando parecia que falar de socialismo era coisa de milênios já
superados – foi isso que tentaram nos fazer acreditar, ao menos – o surgimento
de Hugo Chávez na Venezuela, com a Revolução Bolivariana, alentou expectativas.
Agora,
com o tempo passado, vemos que esses progressismos – governos de
centro-esquerda tíbios – não puderam (não quiseram, não souberam… mas é mais
correto dizer que “não puderam”) superar o capitalismo. Isso
demonstra de forma clara que a mudança de sistema econômico-social, e portanto
político, nunca poderá ocorrer por meio de processos eleitorais dentro dos
marcos da democracia parlamentar tradicional. Há inúmeros exemplos disso, de
mandatários excessivamente “ousados” que se aproximaram demais da linha
vermelha traçada pela classe dominante: Juan D. Perón, João Goulart, Salvador
Allende, Juan Velasco Alvarado, Jacobo Arbenz, Omar Torrijos, J.B. Aristide,
etc. Quando esses mandatários tentam ir além do que o capital tolera, são
removidos à força. Ou, hoje em dia, por meio de guerra jurídica (lawfare).
Essa forma político-administrativa dessas democracias é um
contrassenso, pois essa chamada “democracia” nada mais é do que a legitimação
legal, no âmbito político, da exploração capitalista. Desse modo, as lutas
de classes ficam mascaradas por essa aparência de “vontade popular” expressa
nas urnas, que ignora o mais importante da dinâmica social: a
exploração. Assim, todos somos “iguais” perante a lei. Sem dúvida, é uma
mentira muito bem armada.
O certo
é que, com o processo iniciado na Venezuela, somado à conjuntura de economias
fornecedoras de matérias-primas em alta (petróleo, alimentos – carnes, cereais
–, diversos minerais), impulsionada pelo portentoso despertar comprador da
China no início do século 21, todos esses países passaram por momentos de
“progressismo”: governos com viés social e cofres cheios. Estiveram aí
Venezuela, Brasil, Bolívia, Argentina, Equador, Paraguai. E depois, uma segunda
rodada de progressismos com México, Colômbia, Honduras, Chile. Nenhuma dessas
propostas mudou radicalmente a situação de exploração das grandes massas
trabalhadoras. Conseguiram, sim, algumas reformas interessantes. Em outros
termos, a riqueza nacional – que nunca mudou de mãos – foi
distribuída um pouco mais equitativamente, chegando – ainda que com políticas
clientelistas – a maiores parcelas da população.
As
esperanças de mudanças profundas não se materializaram, simplesmente porque
esses processos não podiam realizá-las. De todo modo, o fato de se
voltar a falar em “povo” – ainda que não mais em classes sociais – pareceu um
avanço fenomenal. Uma conduta humana totalmente compreensível: para alguém que
é torturado diariamente, o dia em que isso não acontece pode parecer um
paraíso. Estamos diante de um complexo mecanismo psicológico, uma espécie de
compensação ilusória, um oásis no deserto, um espelhismo. Precisamos ver e
acreditar naquilo que não existe, mas que imaginariamente está lá. Diante da
desolação, o surgimento de uma mínima dose de esperança se agiganta e pode
parecer maravilhosa – ainda que não o seja, claro.
Hoje,
passadas já duas décadas, pode-se ver claramente que esses progressismos
latino-americanos não conseguiram ir muito longe: o sistema conseguiu
diluí-los, absorvê-los, e as tímidas reformas não passaram disso: reformas
bem-intencionadas, mas não revolucionárias. Vários de seus líderes,
por meio de práticas judiciais manipuladas e perversas, terminaram na prisão –
um exemplo claro do que a direita não perdoa. Se o uruguaio Pepe Mujica foi tão
aplaudido pela imprensa capitalista, é porque sua presidência não passou de
algo “politicamente correto”, sem impacto transformador real. Se tivesse
proposto o mesmo que defendia décadas atrás, quando era militante armado do
movimento guerrilheiro Tupamaros, não teria durado mais de uma semana. Acontece
que o campo popular e as esquerdas foram tão golpeados – e continuam sendo –
que, para muitos, esses tímidos progressismos democráticos puderam parecer um
avanço. Poderá dizer-se o mesmo hoje do Brics+?
Esse
grupo heterogêneo abre expectativas. Sem dúvida, é complexo, até
enredado, se quisermos; ali convivem propostas socialistas (China, Cuba,
Vietnã) com Estados regidos pela sharia – a lei islâmica, profundamente
machista – (Egito, Emirados Árabes Unidos, Irã, alguns Estados da Índia);
economias pequenas (Malásia, Cuba, Tailândia) ao lado de gigantescas (China –
que responde por 60% de todo o bloco –, Índia, Brasil, Rússia); países
indefesos militarmente junto a grandes potências bélicas como Rússia e China. O
que são, e para onde vão hoje o Brics ampliado?
Não se
pode deixar de considerar que este bloco, atualmente formado por 21 países (os
5 originais mais outros que foram se somando), com uma lista de outros 19
interessados que poderiam se incorporar organicamente em breve (Azerbaijão,
Bahrein, Burkina Faso, Camboja, Chade, Colômbia, República do Congo, Guiné
Equatorial, Honduras, Kuwait, Laos, Marrocos, México, Mianmar, Nicarágua,
Paquistão, Palestina, Nigéria e Venezuela), representa 40,4% do PIB mundial
(medido em paridade de poder de compra) e 51% da população do planeta,
concentrando metade da produção global de petróleo. Sem dúvida, seu peso
específico está crescendo. De fato, a região do mundo que está registrando o
maior crescimento econômico é justamente a área do Brics+, com uma taxa média
em torno de 5% ao ano (a Índia liderando, com 7%), enquanto o G7 se mostra cada
vez mais estagnado, com inflação acentuada e recessão em alguns casos (Alemanha
e França já, e possivelmente os Estados Unidos até o final deste ano). O
“progresso” está deixando de ter aparência branca, loira, de olhos azuis e
falando inglês.
A
intenção declarada desse grupo emergente é econômica, buscando
substituir o dólar como principal moeda de referência internacional, trocando-o
por outras (uma cesta ampliada de divisas: yuan, rublo, rupia, etc.). Talvez
caminhe também para acordos políticos (militares, no futuro?). Por ora, está
criando um novo sistema financeiro internacional — já possui uma alternativa ao
sistema SWIFT —, tentando se desvincular dos organismos financeiros do
capitalismo ocidental: o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial
(braços operacionais da banca privada, basicamente estadunidense). Nessa linha,
insere-se o Novo Banco de Desenvolvimento — NDB, na sigla em inglês —, com sede
em Xangai (China). Diferentemente das instituições alinhadas ao G7, esse banco
“solidário” não impõe condições políticas aos seus créditos, priorizando áreas
como energias renováveis, acesso à água potável, transporte e tecnologias.
Tudo
isso, sem dúvida alguma, constitui uma tentativa de nova arquitetura
global, opondo-se à até agora esmagadora hegemonia estadunidense e,
secundariamente, europeia — agora em franca decadência, submissa vassala de
Washington. Dessa forma, busca-se abrir caminho para um mundo além do
unipolarismo dos Estados Unidos, promovendo a multipolaridade. Mas
dentro do grupo não faltam contradições: China e Índia enfrentam disputas
fronteiriças; o Brasil — por interesses econômicos de sua própria burguesia
dominante, representada no caso pelo presidente Lula — opõe-se à entrada da
Venezuela, a principal reserva de petróleo do mundo; Arábia Saudita e Argentina
— governadas por uma casa real teocrática e por um presidente de ultradireita,
respectivamente — saem do bloco e acabam se alinhando à Casa Branca.
Obviamente, não é um grupo monolítico; trata-se, em todo caso, de um bloco em
processo de consolidação, ainda com muitas incertezas e arestas não
resolvidas. Suas propostas econômicas não são socialistas. Não
se fala ali de luta de classes nem de revolução da classe
trabalhadora, com expropriações dos atuais proprietários (empresários,
banqueiros, latifundiários). Fala-se, isso sim, de mecanismos mais
solidários, de um “ganha-ganha” para todos, sem questionar a essência do
capitalismo, com foco numa integração/cooperação Sul-Sul. Fica a dúvida:
integração das elites ou dos povos? Como se faz isso concretamente, com países
que não são socialistas, nem de esquerda, com governos que governam para suas
classes dominantes, onde a população comum não decide nada? Como integrar
efetivamente os povos, os cidadãos comuns, além das declarações
bem-intencionadas?
Para
alguns analistas, como o nicaraguense Augusto Zamora, com um otimismo
transbordante (talvez ingênuo?) diante dessa nova proposta,
tratar-se-á
de um novo modelo de sociedade internacional em que a influência não será
negativa, mas assumirá a forma de cooperação e entendimento. Trata-se daquela
que ocorreria, por exemplo, entre China e Índia, ou que poderia ocorrer entre
Europa e Rússia, uma vez dissipada a pesadelo estadunidense. [Dessa forma]
poderá se desenvolver este outro mundo, já com outras regras e sem estar
propondo, como fazem os Estados Unidos, manter sua hegemonia à base de
canhonaços e sob ameaças, coações e sanções.
Para
outros, como o italiano Antonio Castronovi, falando com uma linguagem de
esquerda e desejando ver aí um possível caminho para a revolução da massa
trabalhadora: “O multipolarismo é, na verdade, a verdadeira revolução
em curso de nossa era, que marcará o destino do mundo vindouro, e de cujo
resultado dependerá a possibilidade de reabertura de uma nova perspectiva
socialista.”
Como
vemos, o surgimento do bloco não deixa de nos inquietar, de abrir
questionamentos, paixões e temores. Por sua vez, o controvertido pensador
russo Aleksandr Dugin, em determinado
momento assessor de Putin, chegou a afirmar:
O
Brics deve deixar de ser um fórum educado de declarações e tornar-se aquilo que
deveria ter sido desde o início: um eixo de correção, um escudo do sul, o
martelo do futuro, a espinha dorsal da resistência global. Se o Ocidente trava
uma guerra híbrida, a resposta deve ser uma insurreição híbrida: política,
econômica, cultural e militar.
O que é
e para onde vai, então, o Brics+? Insistimos no que já foi dito: diante da
cerração, uma mínima luz pode parecer, deformada e amplificada, o sol mais
brilhante. Sem dúvida: um efeito puramente ilusório. Em outras palavras: vemos
o que queremos ver, “inventamos” a história de que precisamos. Quando as Torres Gêmeas de Nova York
caíram em 2001 — autogolpe preparado? —, assim como quando, nestes dias, a
supostamente imbatível Cúpula de Ferro de Israel foi atravessada por mísseis
iranianos, muita gente ao redor do mundo comemorou com alegria: o Amo
invulnerável havia sido tocado em sua fibra mais íntima (“Mexeram nos ovos
do touro”, para usar uma expressão popular). Isso não significa uma mudança
real imediata, mas reforça esperanças, anseios de transformação, acende
paixões. Ou, ao menos, dá a sensação de que nem tudo está perdido, que ainda há
resistência (que é possível fazer algo contra o touro). Pois bem: o
surgimento do Brics+ e sua proposta de multipolaridade é uma novidade que, sem
dúvida, inaugura novos cenários, abre esperanças, alimenta ilusões. Esperanças
de esquerda? Essa é a pergunta que deve ser feita.
Para as
grandes maiorias populares do mundo, para quem vive como assalariado, com o
trabalho explorado pelo sistema; para quem enfrenta sérias dificuldades para
pagar as contas e chegar ao fim do mês; ou pior ainda, para quem não sabe se
poderá comer no dia seguinte (“No Primeiro Mundo discute-se a qualidade de
vida; no Terceiro Mundo, discute-se sua possibilidade”), esse novo esquema
não representa, ao menos em princípio, uma proposta superadora. Claro, diante
da complexidade do mundo atual e da marcha rumo a uma direita cada vez mais
radical, onde a guerra parece ser sempre uma via de escape frente às suas
crises, esse bloco desdolarizado convida à reflexão. Para a direita ocidental,
é um problema; por isso, desde seu início, o Brics tem sido alvo de ataques. De
fato, neste momento trava-se uma guerra tremenda contra um de seus países membros: o Irã — além da
guerra em curso contra a Rússia a partir da Ucrânia. Pode-se especular que todo
esse movimento — empantanar a Rússia com uma guerra interminável em sua
fronteira (forçando-a talvez a usar armas nucleares táticas, o que justificaria
um ataque em grande escala contra o país), golpear um país tão importante para
a Nova Rota da Seda como o Irã, tentar também envolver a China com a questão de
Taiwan num conflito que remeteria ao caso da Ucrânia como Estado-títere e
guerra por procuração — seja uma estratégia do imperialismo estadunidense, com
apoio da Otan, para não perder a hegemonia mundial, destruindo a possibilidade
de um bloco anti-dólar.
Para a
esquerda, pode ser um caminho? Para Cuba, Nicarágua ou Venezuela — se é que
conseguirá entrar, apesar do veto do Brasil — pode ser uma tábua de salvação
neste momento de suas histórias, sufocadas pelo imperialismo estadunidense.
Para pequenos e empobrecidos países como Burkina Faso, Chade, Honduras ou
Mianmar, pode representar uma oportunidade de crescimento. A questão é: quem se
beneficiará, fundamentalmente, disso — suas elites ou sua população comum? Para
a China, trata-se de uma possibilidade de continuar expandindo-se pelo mundo
como superpotência: uma forma sutil de “imperialismo”? É preciso esclarecer: a
China não é imperialista; ao menos, não na forma dos imperialismos clássicos —
não invade, não desloca forças armadas fora de seu território, não chantageia.
Obviamente, todas essas são perguntas que precisarão ser respondidas.
Com
acerto, o espanhol Manuel Medina raciocina:
Pode
ser humanamente compreensível que a barbárie provocada no planeta a partir do
desaparecimento da URSS, com agressões militares e econômicas brutais contra
países como Iraque, Líbia, Síria, Somália, Iêmen, Venezuela ou Cuba, no
curtíssimo tempo histórico de apenas três décadas, tenha conseguido infundir
tanto temor ao mundo ‘unipolar’ comandado pelos Estados Unidos e seus aliados,
que isso leve pessoas e povos inteiros a se refugiarem em espelhismos
supostamente protetores. Por outro lado, também é compreensível que os países
do chamado ‘Sul Global’ tentem aproveitar o surgimento de novas potências
mundiais para tentar aliviar o avassalador domínio — econômico, militar e
político — que até agora vinha sendo exercido sobre eles pela grande potência
do Norte. Embora, em nenhum caso, as oportunidades oferecidas por
acontecimentos circunstanciais devam nublar a visão objetiva da realidade.
Diante
do quão fechado se apresenta o mundo para o campo popular, para as
transformações necessárias aos povos subjugados, para as esquerdas, a ideia do
Brics+ pode soar bem: é um novo caminho que, em princípio, não se mostra tão
áspero quanto aquele imposto pelas potências capitalistas — colonialistas e
imperialistas. De todo modo, como tudo está confuso, vale o que disse a
argentina María Esther Vera: “Que garantia temos de que não nos
depararemos com um novo expansionismo capitalista, diferente do dos Estados
Unidos, mas expansionismo, afinal, impulsionado pela nova superpotência da
China com seu complexo socialismo de mercado, que é, na verdade, um capitalismo
de Estado?”. A pergunta é válida, pois o que este bloco inaugura ainda não
está completamente claro quanto ao rumo que pode tomar. De todo modo, não
custa recordar que o problema dos enormes sofrimentos que hoje atingem grande
parte da humanidade não se deve à “maldade congênita” do imperialismo
estadunidense, independentemente do presidente de plantão — assim como antes
foi o colonialismo europeu —, mas ao sistema que o torna possível: o capitalismo.
O que
fazer, então? Que posição tomar frente ao Brics+? Conceder o benefício da
dúvida? Talvez ainda seja muito cedo para decidir com plena segurança. Diante
do mundo atual, vê-los como “o mal menor” que pode nos ocorrer como povo comum?
De qualquer modo, o que ocorreu com os progressismos latino-americanos deve
servir-nos de referência: mudanças pela metade, no fim das contas, não são
mudanças. Encerremos com palavras de Rosa Luxemburgo, pertinentes para a
ocasião:
Não
se pode manter o ‘justo meio’ em nenhuma revolução. A lei de sua natureza exige
uma decisão rápida: ou a locomotiva avança a todo vapor até o cume da montanha
da história, ou cai, arrastada por seu próprio peso, de volta ao ponto de
partida. E arrastará em sua queda aqueles que, com suas fracas forças, tentarem
mantê-la na metade do caminho, lançando-os no abismo.
Fonte:
Por Marcelo Colussi, no Rebelión/Diálogo Sul

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