O
que é a "dieta Mind" e por que ela está associada a um cérebro 7 anos
mais jovem? A ciência explica
Muitas
pessoas se preocupam com o fato de perder a agilidade e o brilhantismo mental à
medida que envelhecem. Isso não é surpreendente, já que estamos todos ouvindo
sobre o aumento das taxas de demência à medida que a população mundial
envelhece.
Um
estudo publicado na edição de janeiro da revista científica Nature Medicine
sugeriu que, até o ano de 2060, o número de adultos nos Estados Unidos que
desenvolverão algum tipo de demência provavelmente dobrará para 1 milhão de
pessoas.
Esse é
um clube do qual ninguém quer fazer parte. Felizmente, a ciência está mostrando
que hábitos alimentares saudáveis podem ter um impacto poderoso na proteção da
função cognitiva e da memória.
Desenvolvida
em 2015 por pesquisadores que estudaram os efeitos de uma dieta sobre a função
cerebral e o declínio cognitivo, chamada
como dieta “Mind” (que significa “mente”, em tradução livre em português. Essa
dieta combina a dieta mediterrânea – com seu foco em grãos integrais, frutas,
verduras, legumes e azeite de oliva – e a “dieta Dash”, rica em frutas e
vegetais (criada para prevenir ou tratar a hipertensão).
De
fato, a dieta Mind (abreviação de Mediterranean-Dash Intervention for
Neurodegenerative Delay) se resume a
consumir mais alimentos ricos em nutrientes, como verduras e frutas silvestres,
e também evitar alimentos ultraprocessados e alimentos ricos em gordura
saturada.
Estudos
mostram que a dieta Mind está associada a uma melhor função cerebral e pode até
ajudar a retardar o declínio cognitivo relacionado à idade. As pessoas com a
maior adesão à dieta Mind apresentaram um envelhecimento mais lento do cérebro,
o que equivale a ser 7,5 anos “mais jovem” do que aquelas com a menor adesão.
A dieta
Mind também pode desempenhar um papel na proteção contra a doença de Alzheimer
e a demência. Em um estudo que acompanhou adultos de meia-idade e idosos por
uma média de quatro anos e meio, aqueles que seguiram mais rigorosamente a
dieta Mind durante esse período apresentaram taxas mais baixas de doença de
Alzheimer.
Mesmo
aqueles que aderiram moderadamente à dieta Mind observaram uma redução no risco
de Alzheimer, mais do que aqueles que seguiram moderadamente as dietas
mediterrânea ou Dash isoladamente.
Repetidamente,
em outros estudos que envolveram adultos porto-riquenhos que viviam na área de
Boston (Estados Unidos) e adultos de meia-idade e idosos na China, as pesquisas
mostram que a adesão rigorosa à dieta Mind está associada a uma melhor função
cognitiva global e a um menor declínio ao longo do tempo.
Mesmo
quando é iniciada mais tarde ao longo da vida, a dieta Mind está associada a
uma redução consistente no risco de demência, de acordo com uma nova pesquisa
apresentada na reunião anual da American Society for Nutrition, em 2025.
Aqueles que aderiram à dieta Mind em um período de dez anos tiveram um risco
25% menor de sofrer demência.
As
descobertas são promissoras não apenas para adultos mais velhos, mas também
para pessoas mais jovens. Mulheres de meia-idade com obesidade que seguiram
rigorosamente a dieta Mind por três meses apresentaram melhorias maiores em sua
memória de trabalho, memória de reconhecimento verbal e atenção, em comparação
com mulheres que seguiram uma dieta com restrição de calorias.
E um
estudo publicado na edição de abril de 2025 da revista Child Neuropsychology
descobriu que crianças de sete a 13 anos cuja ingestão de alimentos mais se
assemelhava à dieta Mind tinham “chances significativamente menores de TDAH” em
comparação com crianças cuja dieta menos se assemelhava a ela.
Quais
são os segredos de seus poderes protetores? Os alimentos da dieta Mind reduzem
a inflamação e o estresse oxidativo, ambos ruins para o cérebro.
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A alimentação correta para seu cérebro
A dieta
Mind não é uma dieta rígida. É mais um estilo de vida e uma estrutura para
pensar sobre os alimentos que são melhores para seu cérebro e corpo. Ela se
baseia em um sistema de pontuação para avaliar as pessoas quanto ao grau de
cumprimento da dieta: quanto mais alguém aderir aos princípios da abordagem
Mind - consumindo principalmente alimentos à base de vegetais, gorduras
saudáveis e proteínas magras e evitando alimentos altamente processados,
gorduras saturadas e similares – maior será sua “pontuação”.
“Uma
das belezas da dieta Mind é o fato de que você não precisa ser perfeito nela e
ainda assim verá os benefícios”, diz Christy Tangney, professora de nutrição
clínica e medicina familiar e preventiva no Rush University Medical Center, em
Chicago, Estados Unidos, e desenvolvedora da dieta Mind. “Essa dieta oferece
mais flexibilidade do que as dietas mediterrânea ou Dash.”
Os
principais componentes da dieta Mind são vegetais de folhas verde-escuras
(espinafre, couve, acelga, agrião, rúcula); outros vegetais coloridos, como
aspargos, brócolis, couve-de-bruxelas, cenoura e pimentão; frutas vermelhas (de
todos os tipos); azeite de oliva extra-virgem; e todos os tipos de castanhas,
como amêndoas, nozes e pistache.
Também
são importantes os grãos integrais, como arroz integral e selvagem, quinoa,
cevada, farro, aveia e pães integrais; os feijões e legumes; e peixes e aves
(carne branca, sem a pele). E, sim, o vinho é permitido com moderação.
A dieta
também incentiva as pessoas a evitar (ou, pelo menos, limitar) o consumo de
carne vermelha e carnes processadas, manteiga e margarina, queijos integrais,
bolos e outros doces, fast foods e frituras. “Um de nossos grandes objetivos é
reduzir a ingestão de gordura saturada e açúcar adicionado”, afirma Tangney,
porque eles promovem a inflamação.
A
verdade é que a dieta Mind, a dieta mediterrânea e a dieta Dash têm muito em
comum: especialmente a ênfase em frutas, legumes e grãos integrais, além de
evitar gorduras saturadas, carnes vermelhas e processadas, frituras, fast food
e doces.
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Como essa dieta combate a inflamação
Muitos
dos alimentos enfatizados na dieta Mind – como vegetais de folhas verdes e
frutas vermelhas – são ricos em compostos de origem vegetal chamados
flavonóides, que têm fortes efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios, observa
Natalia Palacios, epidemiologista e professora associada de saúde pública da
Universidade de Massachusetts Lowell, nos Estados Unidos. “O estresse oxidativo
e a inflamação são muito ruins para o cérebro. E os antioxidantes,
especialmente os flavonóides, ajudam a reduzir a inflamação no corpo.”
Enquanto
isso, “o peixe, que é enfatizado na dieta Mind, há muito tempo é considerado um
dos alimentos mais saudáveis para o cérebro porque é rico em ácidos graxos
ômega-3, que ajudam a proteger os neurônios contra danos”, afirma Palacios.
“Quanto
mais velhos ficamos, mais inflamação ocorre no cérebro e no corpo”, explica
Rudy Tanzi, neurocientista e diretor do McCance Center for Brain Health do
Massachusetts General Hospital, nos Estados Unidos. "A neuroinflamação é o
que leva à disfunção no cérebro, bem como a danos e morte de células nervosas.
“Uma
vez que a inflamação desencadeia a morte celular, há mais inflamação, [e] isso
se torna um ciclo vicioso”, acrescenta Tanzi. “O maior benefício da dieta MIND
é que ela combate a inflamação e os danos causados pela inflamação.”
Como
vantagem adicional, o teor de fibras da dieta e a diversidade de nutrientes de
origem vegetal alimentam o microbioma intestinal de forma positiva, de modo que
“ele tenha mais bactérias protetoras e menos bactérias nocivas”, observa Tanzi.
Isso, por sua vez, tem um efeito positivo na saúde do cérebro.
A dieta
Mind pode até influenciar o volume total do cérebro, além de aumentar as
funções cognitivas gerais, como memória verbal, memória visual, velocidade de
processamento e compreensão e raciocínio verbal, conforme relatado em um
estudo.
“Em
termos de integridade do cérebro, os polifenóis e outros antioxidantes
preservam o volume do hipocampo e a integridade da massa branca”, explica Uma
Naidoo, diretora de psiquiatria nutricional e de estilo de vida do
Massachusetts General Hospital em Boston e autora do livro “This Is Your Brain
on Food”.
De
fato, um estudo de 2023 publicado na revista Alzheimer's & Dementia
descobriu que as pessoas que aderiram mais à dieta Mind tinham volumes maiores
do hipocampo, tálamo e outras áreas críticas do cérebro – que desempenham
papéis fundamentais na memória, aprendizado, controle motor, atenção e
regulação emocional – e menos hiperintensidades da substância branca (que
indicam danos aos tecidos), conforme observado em exames de ressonância
magnética.
Em
última análise, a dieta Mind nos lembra que o que comemos tem um efeito tão
grande em nosso cérebro quanto em nosso corpo. “O que mais importa para a saúde
do cérebro é a qualidade e a consistência geral da dieta, dia após dia, ano
após ano”, diz Palacios.
“Não se
trata de uma questão relacionada à idade”, acrescenta Naidoo. "Minha
opinião é que deveríamos estar sempre comendo dessa forma. Queremos que as
pessoas pensem na saúde do cérebro o tempo todo."
Fonte: National Geographic Brasil

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