segunda-feira, 7 de julho de 2025

Miguel do Rosário: Conselho Popular dos Brics - entre desafios, críticas e esperanças!

A revista britânica The Economist, em reportagem de 30 de junho de 2025, classificou o presidente Lula como “incoerente no exterior” e afirmou que o Brasil “parece cada vez mais hostil ao Ocidente” devido à participação em “um BRICS dominado pelas agendas de China e Rússia”.

A Gazeta do Povo, em 2 de julho de 2025, publicou artigo intitulado “Projeto de protagonismo internacional de Lula afunda após série de fracassos”, criticando o “distanciamento dos Estados Unidos e aproximação crescente de regimes autoritários”. Essas críticas da mídia tradicional e da direita brasileira tentam transformar uma política externa soberana em problema para o governo.

No entanto, os cães ladram, a caravana passa.

Enquanto a mídia tradicional pressiona o governo a se submeter aos caprichos de um ocidente em franca decadência moral, os movimentos sociais do Brasil e dos países dos BRICS vêm se aproximando para encontrar estratégias convergentes em prol da multipolaridade.

Nesta sexta-feira, 4 de julho, às vésperas do encontro oficial de chefes de estado dos países membros dos BRICS, o dia amanheceu chuvoso e frio no Rio de Janeiro, mas logo o sol começou a brilhar sobre a Praça Tiradentes, no coração do centro histórico da cidade.

No Teatro Carlos Gomes, situado nas adjacências, começou um dos eventos mais interessantes relacionados ao encontro dos BRICS que se realiza na cidade nos próximos dias.

<><> A opinião russa

Dr. Victoria Panova, vice-reitora da HSE (Higher School of Economics) e chefe do Conselho de Especialistas BRICS da Federação Russa, enfatizou que existe uma falta real de desejo por parte de algumas potências em estabelecer um diálogo equânime e justo com os BRICS. “A postura de não subordinação é vista como uma ameaça. BRICS não é  anti-Ocidente. BRICS é apenas não ocidental. Mas é a favor do diálogo”, afirmou.

Panova destacou a longevidade e resistência do agrupamento, lembrando que desde 2009, quando foi realizada a primeira cúpula, já se passaram 17 encontros no mais alto nível, contrariando as previsões constantes de que o bloco seria efêmero. A especialista russa explicou que a razão para essa durabilidade está na cultura dos BRICS de reconhecer que são muito diferentes, mas isso não os impede de ter um diálogo construtivo.

Para Panova, o diferencial dos BRICS está no respeito mútuo e na ausência de hierarquia. “Se é um clube hierárquico como o G7, você se subordina ao país mais forte ou não funciona. Aqui [nos Brics] funciona apenas quando você respeita as limitações e interesses dos outros países e trata todos como iguais.”

<><> O contexto do encontro

A reunião do Conselho Popular dos BRICS reuniu cerca de 200 pessoas no Teatro Carlos Gomes nesta sexta-feira, 5 de julho de 2025. O evento congregou movimentos sociais, intelectuais, organizações da sociedade civil e membros de governos de vários países dos BRICS. Trata-se de uma iniciativa criada recentemente com um propósito específico: conduzir um debate sobre os BRICS por fora dos mecanismos burocráticos institucionais, que muitas vezes pecam pela falta de inovação, originalidade e ausência de autocrítica.

A abertura contou com a presença do ministro Márcio Costa Macêdo, da Secretaria-Geral da Presidência, Antonio Cottas de Jesus Freitas, subsecretário de Finanças Internacionais do Ministério da Fazenda, a deputada estadual Marina do Amaral, Maíra do MST, vereadora do Rio de Janeiro, e Paulo Nogueira Batista Jr., ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS.

<><> Críticas brasileiras: o papel do Itamaraty em questão

Elias Jabbour, presidente do Instituto Pereira Passos e autor de livros sobre China e socialismo, trouxe uma perspectiva crítica sobre o papel do Brasil nos BRICS. Em sua fala, não poupou críticas ao Itamaraty, especialmente em relação à Venezuela. “Eu me senti envergonhado, enquanto brasileiro, do papel que o Itamaraty cumpriu no processo de ter barrado a entrada da Venezuela nos BRICS”, declarou.

Jabbour argumentou que os BRICS carregam responsabilidades históricas fundamentais. A primeira seria a defesa e proteção da paz mundial. “Os BRICS têm que ser capazes de se coordenarem entre si com o intuito de jogar papel, de fato, e não somente na retórica, para a preservação da paz mundial”, afirmou. Ele considerou que a reação dos BRICS ao ataque estadunidense e israelense ao Irã foi “muito tímida, muito diplomática”.

O especialista também enfatizou a necessidade de os BRICS entregarem novas formas de financiamento ao desenvolvimento e soluções concretas para as dívidas internas e externas dos países do Sul Global. “Hoje 3 bilhões de pessoas vivem com seus países entregando mais recursos para dívida interna e dívida externa do que para educação e saúde”, destacou.

Jabbour fez uma análise histórica da desordem mundial, situando seu início em 1999 com os ataques à Iugoslávia, passando pela financeirização da economia mundial, a invasão do Iraque em 2003, a crise financeira de 2007-2009, até chegar aos conflitos atuais. Para ele, existe “uma guerra do norte global contra o sul global”, e os BRICS precisam ter condições de se defender dessa investida.

<><> Ocidente “democrático” não quer democratizar governança global

Marta Fernandez, do Policy Center, apontou uma contradição fundamental nas críticas direcionadas aos BRICS: “falam que democracia é problema nos BRICS, mas é o BRICS que pede democratização da governança global”.

Esta observação vai ao cerne de uma das principais tensões no debate internacional contemporâneo. Enquanto os países ocidentais frequentemente criticam os BRICS por supostas deficiências democráticas internas de alguns de seus membros, são justamente os BRICS que lideram as demandas por uma democratização efetiva das instituições de governança global. O agrupamento tem consistentemente defendido reformas no Conselho de Segurança da ONU, maior representatividade no FMI e no Banco Mundial, e a criação de mecanismos mais inclusivos de tomada de decisão internacional.

<><> Salvando o humanismo do Ocidente

O Professor Fabiano Mielniczuk ofereceu uma análise acadêmica estruturada, definindo os BRICS como “o agrupamento geopolítico, geoeconômico, de política internacional mais importante do pós-Guerra Fria, sem dúvida”. Para ele, trata-se de “um dos mais importantes processos de reordenamento das ordens internacionais que nós temos na história das relações internacionais”.

Mielniczuk identificou quatro aspectos únicos dos BRICS. Primeiro, seu caráter suprarregional: “Os BRICS são diferentes. Regionalmente, eles estão em todas as regiões. E isso cria uma espécie de incentivo, estímulo, para que os países dessas regiões entrem no BRICS”. Segundo, as diferenças de desenvolvimento como vantagem: “Esses diferentes níveis de desenvolvimento que nós temos são um potencial para cooperação econômica”.

O terceiro aspecto seria a agenda normativa baseada no respeito às diferenças. “Há por trás dos BRICS uma agenda normativa baseada em respeito à diferença. Baseada em respeito à diferença cultural, baseada em respeito à diferença religiosa, baseada em respeito à diferença econômica”, explicou. O quarto aspecto é o caráter não-ocidental sem ser anti-ocidental.

Mielniczuk fez uma reflexão profunda inspirada em Frantz Fanon: “Nós não temos que abandonar o humanismo, nós temos é que salvar o humanismo dos europeus”. Esta frase sintetiza uma perspectiva fundamental: não se trata de rejeitar valores humanistas, mas de salvá-los da hipocrisia e duplicidade de padrões.

O professor também alertou sobre dois cuidados importantes: não reproduzir estruturas hierárquicas dentro do agrupamento e manter a informalidade como proteção para os países mais fracos, permitindo avanços sem que sofram pressões do norte global.

<><> Amandla Awethu: representante da África do Sul defende comércio em moedas locais

Raymond Matlala, fundador e presidente da Associação Sul-Africana de Jovens BRICS (SABYA), trouxe uma perspectiva prática sobre os desafios dos BRICS. Ele destacou questões concretas como a troca de moedas sem usar o SWIFT e o comércio em moedas locais. “Eles podem comercializar em moedas locais. Mas agora em torno das pessoas, porque são as pessoas que vão visitar a Rússia que vão ser atingidas pelo custo das trocas”, observou.

Matlala enfatizou a importância de um conselho que se reúna com os líderes pelo menos uma vez por ano, mostrando a preocupação com a participação popular nas decisões dos BRICS. Ao final de sua intervenção, ergueu o punho e bradou o histórico slogan da luta anti-apartheid: “Amandla Awethu!” (Poder ao povo!). Sob orientação de Marco Fernandes, que moderava o debate, toda a plateia se levantou e gritou junto com ele o mesmo slogan, ecoando pelas paredes do Teatro Carlos Gomes.

<><> Os dilemas do Itamaraty

As críticas de Elias Jabbour à política externa do Brasil são válidas, embora seja difícil enxergar a possibilidade do Itamaraty radicalizar à esquerda em favor dos BRICS. A política externa brasileira atual já é vista como radical pela direita e pelos grandes meios de comunicação, que fazem oposição ao governo Lula por sua resistência ao discurso anti-Rússia, anti-China e anti-BRICS.

A pressão conservadora se intensificou após a nota do Itamaraty condenando duramente os ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã em junho de 2025.

A oposição criticou o posicionamento brasileiro, com Jair Bolsonaro apoiando publicamente os ataques americanos ao Irã em contraste direto com a posição do governo Lula.

A Gazeta do Povo, em 23 de junho de 2025, publicou artigo intitulado “Apoio histórico de Lula ao Irã enfraquece política externa do Brasil”, acusando a política externa de “proteger o Irã e atacar Israel”. Vale lembrar que não se trata apenas de um setor minoritário de direita ou da mídia que faz essas críticas, mas de praticamente metade do país, sendo que possivelmente a maioria do Congresso tende mais a concordar com elas do que a discordar. Essas críticas revelam como setores conservadores tentam pintar qualquer posição soberana do Brasil como uma espécie de radicalização anti-Ocidental, muitas vezes com apoio não apenas da mídia mais bolsonarista (como a Gazeta do Povo), mas também de seus setores mainstream.

O presidente Lula caminha por uma corda bamba, obrigado a fazer um jogo sutil entre manter boas relações com Europa e Estados Unidos – importantes para a economia brasileira – e defender posições soberanas e apoiar a construção de um novo polo de poder geopolítico no sul global, com o Brasil e os BRICS como protagonistas. O governo Lula não possui o controle político centralizado da Rússia ou da China, operando em um ambiente doméstico muito mais delicado.

Mas é essencial que alguém faça essa crítica e tente tensionar o governo a produzir a inteligência necessária para a transformação e aprimoramento na correlação de forças.

Não se trata, afinal, apenas de “empurrar” o governo para a esquerda, até porque boa parte da própria esquerda brasileira ainda é pouco alfabetizada em geopolítica e não raro emula o mesmo comportamento preconceitoso da esquerda norte-americana e europeia a outros países do Sul Global.

O desafio também é, portanto, fazer com que a própria esquerda se torne mais aberta, lúcida, consequente e eficaz, e entenda a conjuntura geopolítica como uma grande oportunidade para driblar a polarização doméstica e emplacar projetos de desenvolvimento apoiados pelas grandes massas populares.

•        Dilma e Lula constroem o mundo multipolar, silenciado pela mídia hegemônica. Por Leonardo Attuch

Na manhã desta sexta-feira 4, no primeiro dia do décimo Encontro Anual do Novo Banco de Desenvolvimento, um pesquisador da Universidade de Tsinghua, que eu eu havia conhecido dois dias antes num jantar promovido por um think-tank chinês, me questionou por que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, presente no hotel Fairmont, local da conferência, estava sendo cercado pela imprensa brasileira num dos coffee-breaks.

Mesmo sem falar português, ele intuiu que a imprensa brasileira parecia mais interessada na agenda doméstica do que nos temas discutidos no encontro, como a construção de uma nova ordem financeira internacional e de novos mecanismos de cooperação entre as nações do Sul Global

E foi exatamente isso que eu respondi a ele: controlada pelo capital financeiro, a mídia brasileira é regida pela lógica da austeridade fiscal e do neoliberalismo – que é política econômica determinada pelo Norte Global aos países do Sul Global.

É uma lógica totalmente diferente do ecossistema midiático da China, em que predomina a comunicação pública. No Brasil, onde bilionários e financistas controlam os meios de informação, temas como BRICS, ascensão do Sul Global, Novo Banco de Desenvolvimento e multipolaridade são silenciados, mesmo quando uma cúpula tão importante ocorre no Rio de Janeiro.

Enquanto a cobertura da mídia brasileira se voltava para o tema da austeridade e pautas paroquiais, a presidenta do NDB, Dilma Rousseff, fazia um discurso extremamente relevante. Logo no início de sua fala, ela deixou claro o significado político da criação do banco há uma década: “Foi uma declaração política de intenções e de práticas. Uma afirmação de que os países do Sul Global deixariam de ser receptores passivos de modelos de crescimento impostos e passariam a ser arquitetos do seu próprio futuro.”

Dilma apontou a originalidade do NDB, com sua governança horizontal e modelo inclusivo: “Nenhuma voz é silenciada, nenhum país domina.” E prosseguiu: “O desenvolvimento deve ser sustentável, inclusivo, justo, resiliente e soberano.” Ou seja, uma ruptura com as condicionalidades impostas por instituições como o FMI e o Banco Mundial, verdadeiras correias de transmissão do imperialismo financeiro.

Ela foi ainda mais longe ao denunciar o cenário global: “Tarifas, sanções e restrições financeiras estão sendo usadas como ferramentas de subordinação política.” Em contraste, propôs que o NDB atue como plataforma de cooperação, investimento em infraestrutura e transição energética, fortalecendo moedas locais, ampliando parcerias e apoiando países com baixa capacidade institucional.

Logo em seguida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escancarou o fracasso da ordem econômica estabelecida após a Segunda Guerra Mundial  e fez uma crítica contundente ao dogma neoliberal: “O modelo da austeridade não deu certo em nenhum país do mundo. Toda vez que se fala em austeridade, o pobre fica mais pobre e o rico mais rico.” Ao destacar o potencial do NDB como alternativa real, Lula foi incisivo: “Vocês podem e devem mostrar ao mundo que é possível criar um novo modelo de financiamento, sem condicionalidades.”

Os discursos de Dilma e Lula, que ressoam globalmente como a defesa de uma ordem multipolar justa, seguem invisibilizados na mídia corporativa brasileira – e o silêncio é deliberado. Os grupos de comunicação que pretendem moldar a opinião pública no país pertencem a famílias e fundos alinhados ao capital financeiro internacional. Eles têm lado — e, definitivamente, não é o lado do Sul Global.

Curiosamente, a história narrada neste artigo ocorre num momento em que há uma tomada de consciência, pela esquerda brasileira, sobre o papel nefasto exercido pelos meios de comunicação privados, que saíram em defesa da política de austeridade, quando o governo Lula decidiu abraçar a causa da taxação dos super-ricos – o que, por sinal, foi o tema central da fala do ministro Haddad no encontro do Novo Banco de Desenvolvimento.

Neste caso, a tentativa de silenciamento não foi bem-sucedida. Segundo levantamento da Quaest, a esquerda não apenas venceu o debate político nas redes sociais, como também derrotou o discurso dos meios de comunicação hegemônicos sobre a questão fiscal.

No encontro do Novo Banco de Desenvolvimento, Dilma e Lula apontaram um caminho possível: o de um mundo com múltiplos centros de poder, menos submetido à lógica do capital financeiro e mais atento à justiça social, à soberania e à sustentabilidade. Um projeto que avança de forma consistente, ainda que seja silenciado pelos meios de comunicação de um passado decadente.

Neste novo mundo em construção, cabe aos movimentos sociais, aos veículos independentes e às redes digitais assumir a missão de mostrar que outra ordem global é possível – e já está sendo construída

 

Fonte: O Cafezinho/Brasil 247

 

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