Miguel
do Rosário: Conselho Popular dos Brics - entre desafios, críticas e esperanças!
A
revista britânica The Economist, em reportagem de 30 de junho de 2025,
classificou o presidente Lula como “incoerente no exterior” e afirmou que o
Brasil “parece cada vez mais hostil ao Ocidente” devido à participação em “um
BRICS dominado pelas agendas de China e Rússia”.
A
Gazeta do Povo, em 2 de julho de 2025, publicou artigo intitulado “Projeto de
protagonismo internacional de Lula afunda após série de fracassos”, criticando
o “distanciamento dos Estados Unidos e aproximação crescente de regimes
autoritários”. Essas críticas da mídia tradicional e da direita brasileira
tentam transformar uma política externa soberana em problema para o governo.
No
entanto, os cães ladram, a caravana passa.
Enquanto
a mídia tradicional pressiona o governo a se submeter aos caprichos de um
ocidente em franca decadência moral, os movimentos sociais do Brasil e dos
países dos BRICS vêm se aproximando para encontrar estratégias convergentes em
prol da multipolaridade.
Nesta
sexta-feira, 4 de julho, às vésperas do encontro oficial de chefes de estado
dos países membros dos BRICS, o dia amanheceu chuvoso e frio no Rio de Janeiro,
mas logo o sol começou a brilhar sobre a Praça Tiradentes, no coração do centro
histórico da cidade.
No
Teatro Carlos Gomes, situado nas adjacências, começou um dos eventos mais
interessantes relacionados ao encontro dos BRICS que se realiza na cidade nos
próximos dias.
<><>
A opinião russa
Dr.
Victoria Panova, vice-reitora da HSE (Higher School of Economics) e chefe do
Conselho de Especialistas BRICS da Federação Russa, enfatizou que existe uma
falta real de desejo por parte de algumas potências em estabelecer um diálogo
equânime e justo com os BRICS. “A postura de não subordinação é vista como uma
ameaça. BRICS não é anti-Ocidente. BRICS
é apenas não ocidental. Mas é a favor do diálogo”, afirmou.
Panova
destacou a longevidade e resistência do agrupamento, lembrando que desde 2009,
quando foi realizada a primeira cúpula, já se passaram 17 encontros no mais
alto nível, contrariando as previsões constantes de que o bloco seria efêmero.
A especialista russa explicou que a razão para essa durabilidade está na
cultura dos BRICS de reconhecer que são muito diferentes, mas isso não os
impede de ter um diálogo construtivo.
Para
Panova, o diferencial dos BRICS está no respeito mútuo e na ausência de
hierarquia. “Se é um clube hierárquico como o G7, você se subordina ao país
mais forte ou não funciona. Aqui [nos Brics] funciona apenas quando você
respeita as limitações e interesses dos outros países e trata todos como
iguais.”
<><>
O contexto do encontro
A
reunião do Conselho Popular dos BRICS reuniu cerca de 200 pessoas no Teatro
Carlos Gomes nesta sexta-feira, 5 de julho de 2025. O evento congregou
movimentos sociais, intelectuais, organizações da sociedade civil e membros de
governos de vários países dos BRICS. Trata-se de uma iniciativa criada
recentemente com um propósito específico: conduzir um debate sobre os BRICS por
fora dos mecanismos burocráticos institucionais, que muitas vezes pecam pela
falta de inovação, originalidade e ausência de autocrítica.
A
abertura contou com a presença do ministro Márcio Costa Macêdo, da
Secretaria-Geral da Presidência, Antonio Cottas de Jesus Freitas, subsecretário
de Finanças Internacionais do Ministério da Fazenda, a deputada estadual Marina
do Amaral, Maíra do MST, vereadora do Rio de Janeiro, e Paulo Nogueira Batista
Jr., ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS.
<><>
Críticas brasileiras: o papel do Itamaraty em questão
Elias
Jabbour, presidente do Instituto Pereira Passos e autor de livros sobre China e
socialismo, trouxe uma perspectiva crítica sobre o papel do Brasil nos BRICS.
Em sua fala, não poupou críticas ao Itamaraty, especialmente em relação à
Venezuela. “Eu me senti envergonhado, enquanto brasileiro, do papel que o
Itamaraty cumpriu no processo de ter barrado a entrada da Venezuela nos BRICS”,
declarou.
Jabbour
argumentou que os BRICS carregam responsabilidades históricas fundamentais. A
primeira seria a defesa e proteção da paz mundial. “Os BRICS têm que ser
capazes de se coordenarem entre si com o intuito de jogar papel, de fato, e não
somente na retórica, para a preservação da paz mundial”, afirmou. Ele
considerou que a reação dos BRICS ao ataque estadunidense e israelense ao Irã
foi “muito tímida, muito diplomática”.
O
especialista também enfatizou a necessidade de os BRICS entregarem novas formas
de financiamento ao desenvolvimento e soluções concretas para as dívidas
internas e externas dos países do Sul Global. “Hoje 3 bilhões de pessoas vivem
com seus países entregando mais recursos para dívida interna e dívida externa
do que para educação e saúde”, destacou.
Jabbour
fez uma análise histórica da desordem mundial, situando seu início em 1999 com
os ataques à Iugoslávia, passando pela financeirização da economia mundial, a
invasão do Iraque em 2003, a crise financeira de 2007-2009, até chegar aos
conflitos atuais. Para ele, existe “uma guerra do norte global contra o sul
global”, e os BRICS precisam ter condições de se defender dessa investida.
<><>
Ocidente “democrático” não quer democratizar governança global
Marta
Fernandez, do Policy Center, apontou uma contradição fundamental nas críticas
direcionadas aos BRICS: “falam que democracia é problema nos BRICS, mas é o
BRICS que pede democratização da governança global”.
Esta
observação vai ao cerne de uma das principais tensões no debate internacional
contemporâneo. Enquanto os países ocidentais frequentemente criticam os BRICS
por supostas deficiências democráticas internas de alguns de seus membros, são
justamente os BRICS que lideram as demandas por uma democratização efetiva das
instituições de governança global. O agrupamento tem consistentemente defendido
reformas no Conselho de Segurança da ONU, maior representatividade no FMI e no
Banco Mundial, e a criação de mecanismos mais inclusivos de tomada de decisão
internacional.
<><>
Salvando o humanismo do Ocidente
O
Professor Fabiano Mielniczuk ofereceu uma análise acadêmica estruturada,
definindo os BRICS como “o agrupamento geopolítico, geoeconômico, de política
internacional mais importante do pós-Guerra Fria, sem dúvida”. Para ele,
trata-se de “um dos mais importantes processos de reordenamento das ordens
internacionais que nós temos na história das relações internacionais”.
Mielniczuk
identificou quatro aspectos únicos dos BRICS. Primeiro, seu caráter
suprarregional: “Os BRICS são diferentes. Regionalmente, eles estão em todas as
regiões. E isso cria uma espécie de incentivo, estímulo, para que os países
dessas regiões entrem no BRICS”. Segundo, as diferenças de desenvolvimento como
vantagem: “Esses diferentes níveis de desenvolvimento que nós temos são um
potencial para cooperação econômica”.
O
terceiro aspecto seria a agenda normativa baseada no respeito às diferenças.
“Há por trás dos BRICS uma agenda normativa baseada em respeito à diferença.
Baseada em respeito à diferença cultural, baseada em respeito à diferença
religiosa, baseada em respeito à diferença econômica”, explicou. O quarto
aspecto é o caráter não-ocidental sem ser anti-ocidental.
Mielniczuk
fez uma reflexão profunda inspirada em Frantz Fanon: “Nós não temos que
abandonar o humanismo, nós temos é que salvar o humanismo dos europeus”. Esta
frase sintetiza uma perspectiva fundamental: não se trata de rejeitar valores
humanistas, mas de salvá-los da hipocrisia e duplicidade de padrões.
O
professor também alertou sobre dois cuidados importantes: não reproduzir
estruturas hierárquicas dentro do agrupamento e manter a informalidade como
proteção para os países mais fracos, permitindo avanços sem que sofram pressões
do norte global.
<><>
Amandla Awethu: representante da África do Sul defende comércio em moedas
locais
Raymond
Matlala, fundador e presidente da Associação Sul-Africana de Jovens BRICS
(SABYA), trouxe uma perspectiva prática sobre os desafios dos BRICS. Ele
destacou questões concretas como a troca de moedas sem usar o SWIFT e o
comércio em moedas locais. “Eles podem comercializar em moedas locais. Mas
agora em torno das pessoas, porque são as pessoas que vão visitar a Rússia que
vão ser atingidas pelo custo das trocas”, observou.
Matlala
enfatizou a importância de um conselho que se reúna com os líderes pelo menos
uma vez por ano, mostrando a preocupação com a participação popular nas
decisões dos BRICS. Ao final de sua intervenção, ergueu o punho e bradou o
histórico slogan da luta anti-apartheid: “Amandla Awethu!” (Poder ao povo!).
Sob orientação de Marco Fernandes, que moderava o debate, toda a plateia se
levantou e gritou junto com ele o mesmo slogan, ecoando pelas paredes do Teatro
Carlos Gomes.
<><>
Os dilemas do Itamaraty
As
críticas de Elias Jabbour à política externa do Brasil são válidas, embora seja
difícil enxergar a possibilidade do Itamaraty radicalizar à esquerda em favor
dos BRICS. A política externa brasileira atual já é vista como radical pela
direita e pelos grandes meios de comunicação, que fazem oposição ao governo
Lula por sua resistência ao discurso anti-Rússia, anti-China e anti-BRICS.
A
pressão conservadora se intensificou após a nota do Itamaraty condenando
duramente os ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã em junho de 2025.
A
oposição criticou o posicionamento brasileiro, com Jair Bolsonaro apoiando
publicamente os ataques americanos ao Irã em contraste direto com a posição do
governo Lula.
A
Gazeta do Povo, em 23 de junho de 2025, publicou artigo intitulado “Apoio
histórico de Lula ao Irã enfraquece política externa do Brasil”, acusando a
política externa de “proteger o Irã e atacar Israel”. Vale lembrar que não se
trata apenas de um setor minoritário de direita ou da mídia que faz essas
críticas, mas de praticamente metade do país, sendo que possivelmente a maioria
do Congresso tende mais a concordar com elas do que a discordar. Essas críticas
revelam como setores conservadores tentam pintar qualquer posição soberana do
Brasil como uma espécie de radicalização anti-Ocidental, muitas vezes com apoio
não apenas da mídia mais bolsonarista (como a Gazeta do Povo), mas também de
seus setores mainstream.
O
presidente Lula caminha por uma corda bamba, obrigado a fazer um jogo sutil
entre manter boas relações com Europa e Estados Unidos – importantes para a
economia brasileira – e defender posições soberanas e apoiar a construção de um
novo polo de poder geopolítico no sul global, com o Brasil e os BRICS como
protagonistas. O governo Lula não possui o controle político centralizado da
Rússia ou da China, operando em um ambiente doméstico muito mais delicado.
Mas é
essencial que alguém faça essa crítica e tente tensionar o governo a produzir a
inteligência necessária para a transformação e aprimoramento na correlação de
forças.
Não se
trata, afinal, apenas de “empurrar” o governo para a esquerda, até porque boa
parte da própria esquerda brasileira ainda é pouco alfabetizada em geopolítica
e não raro emula o mesmo comportamento preconceitoso da esquerda
norte-americana e europeia a outros países do Sul Global.
O
desafio também é, portanto, fazer com que a própria esquerda se torne mais
aberta, lúcida, consequente e eficaz, e entenda a conjuntura geopolítica como
uma grande oportunidade para driblar a polarização doméstica e emplacar
projetos de desenvolvimento apoiados pelas grandes massas populares.
• Dilma e Lula constroem o mundo
multipolar, silenciado pela mídia hegemônica. Por Leonardo Attuch
Na
manhã desta sexta-feira 4, no primeiro dia do décimo Encontro Anual do Novo
Banco de Desenvolvimento, um pesquisador da Universidade de Tsinghua, que eu eu
havia conhecido dois dias antes num jantar promovido por um think-tank chinês,
me questionou por que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, presente no hotel
Fairmont, local da conferência, estava sendo cercado pela imprensa brasileira
num dos coffee-breaks.
Mesmo
sem falar português, ele intuiu que a imprensa brasileira parecia mais
interessada na agenda doméstica do que nos temas discutidos no encontro, como a
construção de uma nova ordem financeira internacional e de novos mecanismos de
cooperação entre as nações do Sul Global
E foi
exatamente isso que eu respondi a ele: controlada pelo capital financeiro, a
mídia brasileira é regida pela lógica da austeridade fiscal e do neoliberalismo
– que é política econômica determinada pelo Norte Global aos países do Sul
Global.
É uma
lógica totalmente diferente do ecossistema midiático da China, em que predomina
a comunicação pública. No Brasil, onde bilionários e financistas controlam os
meios de informação, temas como BRICS, ascensão do Sul Global, Novo Banco de
Desenvolvimento e multipolaridade são silenciados, mesmo quando uma cúpula tão
importante ocorre no Rio de Janeiro.
Enquanto
a cobertura da mídia brasileira se voltava para o tema da austeridade e pautas
paroquiais, a presidenta do NDB, Dilma Rousseff, fazia um discurso extremamente
relevante. Logo no início de sua fala, ela deixou claro o significado político
da criação do banco há uma década: “Foi uma declaração política de intenções e
de práticas. Uma afirmação de que os países do Sul Global deixariam de ser
receptores passivos de modelos de crescimento impostos e passariam a ser
arquitetos do seu próprio futuro.”
Dilma
apontou a originalidade do NDB, com sua governança horizontal e modelo
inclusivo: “Nenhuma voz é silenciada, nenhum país domina.” E prosseguiu: “O
desenvolvimento deve ser sustentável, inclusivo, justo, resiliente e soberano.”
Ou seja, uma ruptura com as condicionalidades impostas por instituições como o
FMI e o Banco Mundial, verdadeiras correias de transmissão do imperialismo
financeiro.
Ela foi
ainda mais longe ao denunciar o cenário global: “Tarifas, sanções e restrições
financeiras estão sendo usadas como ferramentas de subordinação política.” Em
contraste, propôs que o NDB atue como plataforma de cooperação, investimento em
infraestrutura e transição energética, fortalecendo moedas locais, ampliando
parcerias e apoiando países com baixa capacidade institucional.
Logo em
seguida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escancarou o fracasso da ordem
econômica estabelecida após a Segunda Guerra Mundial e fez uma crítica contundente ao dogma
neoliberal: “O modelo da austeridade não deu certo em nenhum país do mundo.
Toda vez que se fala em austeridade, o pobre fica mais pobre e o rico mais
rico.” Ao destacar o potencial do NDB como alternativa real, Lula foi incisivo:
“Vocês podem e devem mostrar ao mundo que é possível criar um novo modelo de
financiamento, sem condicionalidades.”
Os
discursos de Dilma e Lula, que ressoam globalmente como a defesa de uma ordem
multipolar justa, seguem invisibilizados na mídia corporativa brasileira – e o
silêncio é deliberado. Os grupos de comunicação que pretendem moldar a opinião
pública no país pertencem a famílias e fundos alinhados ao capital financeiro
internacional. Eles têm lado — e, definitivamente, não é o lado do Sul Global.
Curiosamente,
a história narrada neste artigo ocorre num momento em que há uma tomada de
consciência, pela esquerda brasileira, sobre o papel nefasto exercido pelos
meios de comunicação privados, que saíram em defesa da política de austeridade,
quando o governo Lula decidiu abraçar a causa da taxação dos super-ricos – o
que, por sinal, foi o tema central da fala do ministro Haddad no encontro do
Novo Banco de Desenvolvimento.
Neste
caso, a tentativa de silenciamento não foi bem-sucedida. Segundo levantamento
da Quaest, a esquerda não apenas venceu o debate político nas redes sociais,
como também derrotou o discurso dos meios de comunicação hegemônicos sobre a
questão fiscal.
No
encontro do Novo Banco de Desenvolvimento, Dilma e Lula apontaram um caminho
possível: o de um mundo com múltiplos centros de poder, menos submetido à
lógica do capital financeiro e mais atento à justiça social, à soberania e à
sustentabilidade. Um projeto que avança de forma consistente, ainda que seja
silenciado pelos meios de comunicação de um passado decadente.
Neste
novo mundo em construção, cabe aos movimentos sociais, aos veículos
independentes e às redes digitais assumir a missão de mostrar que outra ordem
global é possível – e já está sendo construída
Fonte:
O Cafezinho/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário