segunda-feira, 7 de julho de 2025

O desafio das igrejas evangélicas tradicionais no Brasil diante do crescimento das comunidades inclusivas

A crescente inclusão de LGBT+ nas igrejas evangélicas e a expansão de igrejas denominadas inclusivas/afirmativas têm desafiado o tradicionalismo das igrejas no Brasil. Com uma teologia que acolhe os homoafetivos e propõe uma nova leitura da Bíblia, que valoriza a diversidade sexual e evita a demonização de LGBTs, essas novas congregações têm conquistado uma parcela significativa da população historicamente marginalizada, frequentemente forçada a passar por terapias de “reorientação sexual”.

Esse cenário está se consolidando com a rápida ascensão de igrejas inclusivas, especialmente em um país onde o número de evangélicos tem crescido de forma significativa. Não muito tempo atrás, quem pertencia à população LGBT+ precisava negar sua identidade ou reprimir seus desejos por meio de orações, jejuns e até “exorcismos” para serem aceito/a em igrejas tradicionais. Hoje, esta realidade está bem transformada, principalmente com o expressivo número de igrejas lideradas por homossexuais, que mantêm os dogmas cristãos tradicionais, mas com um foco inclusivo.

<><> O acolhimento da diversidade

O número crescente de igrejas inclusivas no Brasil tem tensionado lideranças das igrejas tradicionais e gerado um movimento de reavaliação. De acordo com a jornalista Carla Nunes, que organizou o “Mapeamento das Igrejas Inclusivas no Brasil” (2023), o número de igrejas neste formato gira em torno de 105 no Brasil. Este fenômeno tem levado a uma migração significativa de membros, principalmente de identidade LGBT+, que antes estavam ausentes ou marginalizados dos espaços religiosos tradicionais.

O impacto é notável, com uma diminuição na arrecadação de dízimos e ofertas nas igrejas convencionais, já que a membresia LGBT+ tem se transferido para esses novos templos.

Exemplo disso é a Igreja Cidade de Refúgio Church, em São Paulo, uma das maiores igrejas voltadas para a comunidade LGBT+ no Brasil, liderada pelas pastoras lésbicas Lanna Holder e Rosania Rocha. Com mais de mil membros em sua sede, dezesseis filiais pelo país e uma em Lisboa, a igreja oferece uma infraestrutura moderna, que inclui um templo de dois andares e equipamentos de som e luz de ponta, atraindo um público sofisticado e crescente. “A Cidade de Refúgio Church vai na contramão do sistema religioso estabelecido no país, nós somos resistência”, comenta Lanna Holder.

Este movimento de inclusão também está influenciando denominações tradicionais. A Igreja Betesda, por exemplo, que durante anos se manteve firme em postura de condenação à identidade LGBT+, iniciou, há alguns anos, um processo de acolhimento de pessoas homoafetivas. O processo foi liderado pelo pastor heterossexual, que preside a igreja, Ricardo Gondim, que reavaliou aquela posição e decidiu abraçar LGBT+ na igreja-sede, que fica na capital paulista.

<><> Mudança de protagonismo

Se antes, líderes como Silas Malafaia e Edir Macedo eram conhecidos por suas declarações públicas contra as pessoas LGBT+, hoje suas palavras perdem força diante das crescentes aceitação e visibilidade do movimento evangélico inclusivo. O impacto não se limita apenas às igrejas e tem também afetado a música gospel, com a crescente entrada de artistas LGBT+ no cenário musical religioso.

Plataformas como Spotify, por exemplo, já têm playlists dedicadas ao público cristão inclusivo, ampliando o alcance de cantores religiosos independentes, como Jean Leão, um cantor carioca que agora tem a oportunidade de apresentar sua música fora do contexto tradicional. Leão, que hoje faz parte da playlist “Gospel LGBTQIAPN+”, conta: “Fiquei anos em conflitos e reprimindo meu talento musical; apenas pelo fato de ser gay, era impedido de exercer minha arte dentro da igreja tradicional”.

<><> A política e a fé

Paralelamente à mudança nas práticas religiosas, na política, a Bancada Evangélica no Congresso Nacional, de viés conservador, tem se mobilizado para tentar reverter os avanços em direitos conquistados pela população LGBT+. Com o discurso baseado na defesa da “família tradicional”, muitos parlamentares desta ala têm atuado ativamente contra projetos que buscam garantir a igualdade de direitos e combater a discriminação.

Nos últimos cinco anos, 39,6% dos Projetos de Lei anti-LGBTQIA+ apresentados no Legislativo brasileiro tiveram como foco principal a população trans. As propostas abordam restrições relacionadas ao uso de banheiros, a participação de atletas em competições, o acesso ao processo de transição e discussões sobre a definição de gênero.

Os dados são da Observatória, uma plataforma da Agência Diadorim que acompanha as ações legislativas contrárias aos direitos LGBT+. A pesquisa analisou os PLs apresentados entre janeiro de 2019 e outubro de 2024 nas esferas estadual, na Câmara dos Deputados e no Senado. No total, foram levantadas 1.012 propostas – 575 delas em apoio à população LGBT+ e 437 contrárias aos seus direitos.

O paradoxo é evidente: muitos líderes religiosos, que deveriam pregar o amor ao próximo, acabam sendo protagonistas de discursos e atitudes que promovem a segregação e a violência contra pessoas LGBT+.

Por outro lado, lideranças progressistas de identidade evangélica têm ganhado espaço, como o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) e o pastor da Comuna do Reino, de Belo Horizonte, Fillipe Gibran. Este, em particular, tem se destacado ao acolher homoafetivos e transsexuais em seu púlpito e ao se posicionar contra os discursos homofóbicos, sexistas e machistas de lideranças tradicionais. “A igreja evangélica brasileira trocou Jesus pelo poder e pelo dinheiro”, Gibran.

A crescente visibilidade de vozes progressistas evangélicas e o fortalecimento de igrejas inclusivas são indicativos de uma transformação necessária e urgente no cenári religioso brasileiro, onde a luta pela aceitação e pelo respeito à diversidade tem ganhado força. Eles desafiam as velhas estruturas e trazem à tona um debate cada vez mais relevante sobre fé, identidade e direitos humanos.

•        Desinformação sobre religiões é recorrente nos perfis de mídias sociais mais diversos

Recebemos no Coletivo Bereia conteúdo publicado em newsletter e em mídias sociais de uma empresa de pesquisa, marketing e consultoria para o mercado de nome Casa Mundo, em 15 de maio de 2025. Sob o título “Deus já é filho do algoritmo. A religião e seu rebranding. A fé virou palco — e o púlpito, ring light”, o texto defende o fenômeno da “convivência do sagrado com a estética do marketing digital”, com “a religião” assumindo “novas roupagens”. Com título tão chamativo e imagem impactante, a publicação se mostra com amplo alcance.

Nada do que é indicado aí em termos de novas tendências religiosas na relação da fé com o mercado é falso: igrejas que adotam rebranding, cultos-show, intenso consumo digital de conteúdo religioso, viralização de casos como o do “pastor-mirim”, o mercado e o consumo evangélico, o movimento evangélico Legendários como produto, a estética de startup de igrejas, a fé como autoajuda via coaches evangélicos, lives e outros produtos digitais evangélicos para consumo de público amplo.

Temos, de fato, um fenômeno religioso aí identificado! Como quem leu até aqui este texto deve ter visto, os termos “igrejas” e “evangélicos” dominam o objeto de análise da pesquisa. Porém, o que este material comunica? É uma avaliação generalizada, a partir do que é listado, da fé, da espiritualidade e da “religião”, para tratar de um fenômeno específico que envolve, na realidade, uma parcela de evangélicos, seja das chamadas “igrejas descoladas/cool”, do coaching religioso, dos profetas pentecostais, da reação às pautas identitárias, ou do mercado da religião.

Porém, longe de especificar o fenômeno, como é feito aqui (e vale repetir, que é fato e pode ser comprovado em pesquisas científicas), a publicação generaliza os casos levantados como se pertencessem a todas as religiões, fés, espiritualidades.

Sobre a fé, de forma genérica, a mensagem faz uso da expressão: “A fé já não habita apenas os templos. Ela migrou para os palcos, para os stories, para os feeds”.

Sobre religião, como um termo amplo, é dito: “No Brasil contemporâneo, onde o sagrado convive com a estética do marketing digital, vemos a religião assumir novas roupagens — mais performáticas, mais rentáveis, mais instagramáveis”.

Sobre a espiritualidade, no singular, se afirma “que um dia foi território de silêncio e interioridade, hoje disputa atenção com outras ofertas da economia da experiência. E para se manter relevante, ela também aprendeu a se vender”.

Sobre as igrejas, descartadas as particularidades do mosaico que compõem, a publicação diz que “deixaram de ser apenas comunidades de fé e passaram a operar como startups do espírito: com lançamentos, eventos imersivos, planos de engajamento e produtos exclusivos que prometem uma conexão premium com o divino”.

Além de compreender as religiões e as igrejas como elementos homogêneos, desconsiderando a diversidade que as caracteriza internamente e entre elas, o texto expõe uma noção equivocada da fé e da espiritualidade como elementos interiorizados e estáticos (“dentro dos templos”, “silêncio” e “interioridade”). Nesse sentido, na pesquisa da Casa Mundo não há pluralidade de experiências religiosas, não há fé e espiritualidade dinâmica, ativa, para fora, relacional, nas ações múltiplas, como qualquer observação para além dos perfis de mídias sociais é capaz de revelar. O destaque da midiatização mercantilizada da fé por uma parcela de evangélicos é apresentada como um todo para se estimular o consumo de bens e serviços de etiqueta religiosa.

Eis como se constrói nas mídias digitais desinformação sobre religiões e suas dinâmicas. E assim a instrumentalização política e mercadológica da religião, com estímulo a intolerâncias, vai se aprofundando.

•        Diversidade religiosa apontada no censo do IBGE merece reflexão, diz editora-geral do Bereia

A diversidade religiosa no país vem se consolidando a cada década de acordo com os censos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e isso merece reflexão sobre o universo religioso no país e os desdobramentos que esse cenário indica. A opinião é da editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha, que participou do Programa CBN Rio, da Rádio CBN, em 6 de junho, para falar dos dados preliminares do Censo de 2022..

Apesar de a entrevista focar os dados referentes ao Estado do Rio de Janeiro e à capital fluminense, Magali Cunha lembrou que as tendências observadas ali acompanham o que acontece no país. “Há um decréscimo de católicos e um aumento de evangélicos, mas chama atenção o crescimento da pluralidade religiosa”.

A pesquisadora usou o termo “mosaico religioso” para lembrar que essa pluralidade vem se fortalecendo, com a presença de novos atores. Os dados do Censo de 2022 revelaram “uma presença mais significativa das populações de matriz africana, espíritas, que também querem garantir seu direito à religião, seu espaço religioso, e isso também vai ser amplificado nos números”, destacou Magali Cunha.

<><> Sem religião

A editora-geral do Bereia salientou que outro grupo que vem se consolidando é o dos sem religião. Os dados preliminares coletados pelo IBGE apontam que esse segmento está em segundo lugar no cenário do Rio de Janeiro, à frente dos espíritas e atrás apenas dos evangélicos. “Os sem religião estão em um crescendo, e o Rio de Janeiro se revela com os maiores números”, afirmou a pesquisadora.

O Rio de Janeiro vem se mostrando uma cidade mais evangélica e com menos católicos, conforme os últimos três levantamentos. Segundo Magali Cunha, entre as explicações está o fato de que a cidade é sede de importantes grupos evangélicos, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Além disso, acrescenta, os evangélicos vêm marcando presença na cena pública, como na cultura e na política, cenário que durante muito tempo foi marcado pela preponderância católica.

•        Como os cristãos devem agir nas redes sociais?

Como cristãos, devemos ser coerentes na vida on-line, agindo de acordo com os valores da fé que professamos. Compartilhar conteúdo edificante, combater a desinformação e promover a justiça e o amor são ações que refletem a pessoa de Cristo no mundo digital. Essa foi a conclusão apresentada pela professora de Teologia e integrante da equipe de jornalistas do Coletivo Bereia no trabalho de checagem de conteúdos Rafaely Camilo. Ela dirigiu um estudo voltado a adolescentes e jovens durante a Escola Bíblica Dominical da Igreja Batista Pentecostal Mundial, no Rio de Janeiro, em 22 de junho.

Sob o tema “Sendo cristão nas redes sociais”, Rafaely Camilo, que é doutoranda em Sociologia, tratou a respeito das mídias sociais e igreja, e alertou sobre as fake news. Segundo destacou, é muito importante estar atento ao que elas significam e as consequências que provocam, como pânico, medo, divisão e xenofobia. “Mentira não se propaga”, reforçou.

A professora também chamou a atenção para alguns aspectos que devem fazer parte da postura cristã, como coerência em todos os ambientes e domínio para se expressar e discernir sobre o que é correto. “Temos que lembrar também dos papéis do cristão na sociedade, e entre eles estão o de refletir a pessoa de Jesus Cristo e o de servir”.

 

Fonte: Bereia

 

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