Massacre
do Sarampo: um crime sem punição na Bahia
No dia
2 de julho de 1985, mesma data em que se comemora a Independência do Brasil na
Bahia, nove posseiros, cansados por manter vigilância por três semanas em um
barracão improvisado, na localidade Campo do Sarampo, em Canavieiras, no sul da
Bahia, foram surpreendidos com tiros disparados por um bando de jagunços.
Às 5
horas da manhã, apenas Jorge Mota de Souza, José Cardoso dos Santos, o
Zequinha, e João Batista Cardoso dos Santos, o Batista, estavam acordados,
preparando café para os demais companheiros que levantariam em breve.
O
intenso tiroteio deflagrado, sob o comando dos pistoleiros Bigode, Vicente e
Pinheiro, ex- soldado da PM, acompanhados de pelo menos mais sete capangas,
causou a morte de quatro trabalhadores rurais e ferimentos em um. Dois jagunços
tombaram no confronto e um terceiro foi atingido na cabeça, mas sobreviveu. No
dia seguinte, em confronto com a polícia, mais um dos assassinos morreu.
A
“Chacina do Sarampo”, como o episódio ficou conhecido ocorreu em um contexto de
luta pela terra e reforma agrária em uma região historicamente marcada por
casos de violência envolvendo supostos proprietários de terra, pistoleiros e
posseiros. A matança teve repercussão nacional e aconteceu dois meses e 18 dias
após José Sarney tomar posse na presidência da República em substituição a
Tancredo Neves, que morreu antes de assumir o cargo.
A
sequência de atos violentos contra trabalhadores rurais resultou nas primeiras
ações de desapropriação de terras para fins de reforma agrária no governo
Sarney. O foco na Bahia, entre os municípios de Canavieiras e Santa Luzia,
resultou na expropriação das fazendas Poxim e Sarampo, assim como no
engajamento das Comunidades Eclesiais de Base e da Comissão Pastoral da Terra
na organização social da luta pela terra.
Em 21
de agosto de 2009, o juiz Daniel Álvaro Ramos, do Tribunal de Justiça da Bahia,
decretou a prescrição do processo. Portanto, apesar de denunciados e incursos
por homicídio qualificado, com agravante de terem cometido o crime mediante
pagamento e de emboscada, o mandante e os assassinos nunca foram punidos.
OS
POSSEIROS
José
Armando Miranda de Oliveira, um dos sobreviventes do Sarampo, contou em
depoimento, colhido no dia 8/7/1985 pelo delegado especial Gilberto Souza
Mouzinho, que despertou com os estampidos dos tiros deflagrados pelos
agressores. Ele acrescentou que Zequinha e Batista retornaram ao barraco
fechando a porta. Enquanto isso, Jorge Mota de Souza fugiu, sob uma saraivada
de tiros, pulando um monte de terra e correndo pela capoeira.
Ainda
segundo o trabalhador rural, os pistoleiros teriam sido contratados por Dely
Dias Santos, o Dely Ruim, interessado em extrair madeira da Fazenda Sarampo.
Ele também aventou a possibilidade do fazendeiro João Nascimento estar por trás
da contratação dos assassinos.
No
depoimento, o trabalhador rural revelou que os atiradores se identificaram como
policiais federais, gritando para todas as pessoas do barraco se entregassem.
Caso contrário, ateariam fogo no casebre onde a maioria dormia. Teria sido
nessa hora que os posseiros iniciaram o revide.
Outro
testemunho é de Gilberto Araújo Cardoso, filho de Zequinha, na época com 20
anos, que estava no barraco na véspera da chacina. Segundo o depoente, o pai
recebeu um bilhete anunciando que os pistoleiros contratados por Dely estavam
prestes a atacar. Os jagunços foram recrutados em Teixeira de Freitas, a 307
quilômetros de Canavieiras, por Domingos Dias dos Santos como consta nos
depoimentos de alguns dos assassinos.
Gilberto
disse que na madrugada do dia 2 acordou com o barulho dos tiros. Conforme ele,
João Mineiro foi o primeiro a ser assassinado. A seguir, o jovem viu o pai ser
morto com um tiro na cabeça. Antes de fugir, atendendo João Armando, o rapaz
ainda se deparou com o corpo do tio, João Batista, estirado no chão, com as
mãos acima da barriga. Na fuga, o rapaz, só de cuecas, levou um tiro na perna
direita.
O
quarto posseiro executado, Raimundo Osmar Alves, o Raimundão, morreu com um
tiro nas costas ao tentar escapar.
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OS PISTOLEIROS
No
inquérito policial consta ainda o depoimento do jagunço Edvaldo Bispo dos
Santos, o Baixinho, à época residente em Eunápolis. Ele contou que estava em
companhia de mais nove pistoleiros a serviço de Dely Dias dos Santos, na
Fazenda Sarampo, quando foi convidado a participar de um tiroteio para expulsar
os posseiros.
Baixinho
falou que Valdevino José dos Santos, o Bigode, Wilson Conceição Pinheiro e
Vicente Dias Cedraz, os líderes do grupo, chegaram atirando nas três pessoas
que estavam do lado de fora do barraco, diante de uma fogueira. Ele informou
ainda que Pinheiro foi morto ao chegar na porta do casebre onde estavam os
posseiros. Em seguida, outro capanga, Gil, foi atingido e morreu.
O
pistoleiro, que portava uma espingarda calibre 36 fornecida por Vicente,
acrescentou que levou um tiro na cabeça e ficou com a visão turva. Lembrou, no
entanto, que dois irmãos de Gil receberam ordens para atear fogo no barraco
depois de retirarem os corpos dos trabalhadores rurais. O casebre ficou
totalmente destruído.
Ele
detalhou que Bigode usava uma espingarda calibre 20 de dois canos; Vicente, uma
carabina nova; Pinheiro, uma arma parecida com um fuzil; os irmãos Gildeon,
Gildásio e Josuel Matos dos Santos portavam espingardas de cartucho; Dil
carregava outra espingarda calibre 20; e Domingos, um revólver calibre 38.
No dia
seguinte a matança, houve um novo confronto com quatro dos pistoleiros, próximo
à Fazenda Piatã. Dessa vez, policiais que voltavam do Sarampo com os corpos dos
trabalhadores rurais se depararam com o grupo. Vicente Dias Cedraz, um dos
líderes do bando de pistoleiros, morreu. Domingos Dias dos Santos e Gildeon
Matos dos Santos foram presos. Dil fugiu.
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GOVERNO SARNEY
O
governo (1985-1989), José Sarney, o primeiro após a ditadura militar, foi o
período com o maior número de conflitos (3.489) e assassinatos (705) no campo.
O litoral Sul da Bahia se destacava como uma das áreas mais violentas.
O
Boletim Informativo da Regional Nordeste III da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), publicado dois anos antes de Sarney tomar posse, relatou seis
assassinatos até junho. Um deles se referia ao desaparecimento, na região do
Sarampo, de um trabalhador rural, cujo corpo foi encontrado 52 dias depois.
Em
1984, o mesmo informativo coletou informações sobre cinco mortes, incluindo o
assassinato de João Celestino, Maria José e Adaílton, todos da mesma família, a
golpes de facão. Esse evento ficou conhecido como a Chacina da Serra da Onça,
em Santa Luiza (BA)
Na
esteira da Chacina do Sarampo, ocorrida dois meses antes, famílias de
trabalhadores rurais tiveram acesso ao Primeiro Plano Nacional de Reforma
Agrária, visando promover desapropriações nas regiões com mais conflitos. As
pastorais sociais da Igreja Católica participaram da iniciativa, fazendo
denúncias e cobrando apuração rigorosa para os crimes.
A
atuação do então bispo da Diocese de Itabuna, dom Paulo Lopes de Farias, e de
representantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Indigenista
Missionário (Cimi), Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e Centro de Estudos e Ação
Social (Ceas), ligado a Igreja Católica, foram fundamentais para as decisões
tomadas pelo governo federal. Além destas entidades os posseiros da região
também contavam com o apoio direto do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
O então
presidente da República equilibrava-se para atender os interesses do
agronegócio ao mesmo tempo que buscava diminuir os confrontos gerados a partir
da expansão dos latifúndios nas regiões Nordeste e Norte.
Em
setembro de 1986, o governo federal assentou 66 famílias em 1.514 hectares das
fazendas Poxim e Sarampo, onde ficou caracterizado alta concentração de
posseiros e de terras sem função social.
Os
conflitos na região, porém, não terminaram. Além de Canavieiras, vários outros
foram e são registrados até hoje em Una, Itacaré, Wenceslau Guimarães, Santa
Cruz de Cabrália e Porto Seguro.
Já o
processo judicial sobre as mortes no Sarampo prescreveu em 31 de agosto de
2009, segundo decisão do juiz Daniel Álvaro Ramos. Com isso, o mandante Dely
Dias dos Santos e os pistoleiros Valdevino Jose dos Santos, o Bigode, Domingos
Dias dos Santos, Edvaldo Bispo dos Santos, Gildeon Matos dos Santos, Josuel
Matos dos Santos e Seu João continuaram em liberdade.
Fonte:
Por Thomas Bauer (CPT-BA/ H3000) e Paulo Oliveira (Meus Sertões), em CPT

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