Conheça
condição rara que muda a posição dos órgãos do corpo
Nas
aulas de ciência, aprendemos: o coração e o estômago ficam do lado esquerdo do
corpo, fígado do direito.
Entretanto,
algumas pessoas nascem com uma condição rara chamada situs inversus, que leva
ao espelhamento da posição de órgãos do tórax e abdômen.
• O que causa a inversão dos órgãos?
Os
primeiros relatos de animais com situs inversus foram feitos por Aristóteles
(384 a.C. – 322 a.C). Em humanos, por outro lado, a primeira observação de
órgãos invertidos foi feita no século XVII, de acordo com artigo publicado no
International Journal of General Medicine, quando um caso de fígado e de baço
foram posicionados em lados opostos ao esperado.
“O
situs inversus totalis diz respeito ao quadro em que todos os órgãos internos
do tórax e do abdômen estão completamente invertidos. Já o situs inversus
parcial acontece quando alguns órgãos estão em locais trocados”, explica Ana
Eduarda Saraiva Pereira Campos, médica assessora científica e analista de
genética molecular do Laboratório DLE, do Grupo Fleury.
Ainda
de acordo com a médica, a anomalia ocorre tanto por motivos genéticos ou por
pequenas falhas nos sinais biológicos que guiam o processo de formação dos
órgãos internos do corpo (ainda nas primeiras semanas de crescimento do
embrião).
A
formação do eixo esquerda-direita do corpo humano, que define, por exemplo, se
o coração ficará no lado esquerdo e o fígado no direito, depende de uma série
de mecanismos genéticos altamente coordenados durante o desenvolvimento
embrionário.
Segundo
o mesmo estudo do International Journal of General Medicine, mais de 100 genes
estão envolvidos na determinação da lateralidade. Entre os mais estudados
estão:
• DNAH5 e DNAI1: codificam proteínas
essenciais para o funcionamento dos cílios móveis no embrião, responsáveis por
gerar o fluxo de sinais que orientam a simetria corporal. Mutação nesses genes
está frequentemente associada à síndrome de Kartagener (caracterizada pela
tríade de inversão da posição dos órgãos, sinusite crônica e bronquiectasia);
• ZIC3: ligado à forma sindrômica do situs
inversus, principalmente em casos de heterotaxia (distribuição anômala dos
órgãos) com malformações cardíacas. Esse gene está localizado no cromossomo X
e, por isso, afeta mais frequentemente os indivíduos do sexo masculino;
• NODAL, LEFTY1, LEFTY2, e PITX2: formam
um caminho de sinalização crítica (pathway) que orienta o desenvolvimento
assimétrico dos órgãos. Alterações nesses genes desorganizam esse sinal e podem
resultar em situs inversus total ou parcial;
• CCDC40, CCDC39, LRRC6 e RSPH4A: também
relacionados ao movimento ciliar e, consequentemente, à formação do eixo
esquerda-direita. Mutação nesses genes pode causar disfunções nos cílios
embrionários, contribuindo para defeitos de lateralidade.
Além da
base genética, fatores ambientais e condições parentais podem influenciar o
aparecimento da condição.
Segundo
estudo publicado no International Journal of General Medicine, os principais
são: histórico familiar de malformações cardíacas ou outras anomalias, diabetes
materna e uso de determinados medicamentos na gravidez (como os
antitussígenos), tabagismo paterno e baixo nível socioeconômico. Esses
elementos podem interferir na expressão genética ou amplificar efeitos de
mutações já presentes.
• Ter órgãos invertidos afeta as funções
vitais?
Segundo
Ana Eduarda, a posição invertida de órgãos do corpo não impacta, na maioria das
vezes, a digestão, a respiração ou o funcionamento do organismo.
“Isso
porque os órgãos, embora invertidos, funcionam normalmente. O sistema
digestivo, por exemplo, continua processando os alimentos do mesmo jeito”,
comenta a médica.
Em
alguns casos, pode haver a malformação de órgãos. “O coração, por exemplo,
passa por um processo muito delicado de formação e rotação ainda nas primeiras
semanas de vida intrauterina. Por isso, em alguns indivíduos com órgãos
invertidos, ele pode apresentar anomalias estruturais, como câmaras
malformadas, conexões incorretas entre vasos ou dificuldades no bombeamento do
sangue”, indica Ana Eduarda.
• Atrapalha o diagnóstico de doenças?
Pessoas
com situs inversus têm os mesmos riscos de doenças que todo mundo. O risco,
porém, está em confusões médicas em emergências, o que pode atrasar o
tratamento e causar complicações.
Por ser
uma condição rara (cerca de 1 em cada 10 mil a 20 mil pessoas são afetadas pela
situs inversus no mundo), profissionais da saúde não têm muita experiência com
esse tipo de quadro clínico.
A
apendicite é um exemplo. Normalmente, a inflamação tem como sintoma clássico a
dor do lado direito do abdômen (bem na parte de baixo).
Entretanto,
se o apêndice estiver invertido, a dor, consequentemente, também será do lado
oposto. Se o médico responsável pelo caso não considerar essa possibilidade ou
se o paciente não souber e não informar que tem situs inversus, há o risco de
complicações.
“No
caso da apendicite, um diagnóstico tardio pode levar a: perfuração do apêndice,
peritonite (infecção generalizada no abdômen) e sepse, que é uma condição
potencialmente letal. Mas não é algo comum! Existem casos na literatura de
óbito ou complicações graves em zonas remotas, por exemplo, com menos acesso a
exames”, diz Ana Eduarda.
Nesse
sentido, a médica salienta a importância dos profissionais de saúde estarem
atentos à possibilidade de situs inversus, especialmente em situações de
emergência.
“Isso
inclui observarem com atenção exames de imagem e estarem prontos para ajustar
diagnósticos e procedimentos. Em situações urgentes, como infarto ou
apendicite, o reconhecimento correto do lado dos sintomas é essencial para
evitar erros.”
• Há risco maior em cirurgias ou
procedimentos médicos?
Sim,
existe um risco potencialmente maior, especialmente se a equipe médica não
souber da condição.
“Por
isso, é fundamental que a inversão dos órgãos seja identificada antes de
qualquer procedimento invasivo, para que os cirurgiões adaptem o planejamento
cirúrgico.”
• Se não há sintomas, como descobrir que
tenho órgãos invertidos?
Clinicamente,
a situs inversus é assintomática. Caso haja suspeita a oposição dessa
estruturas, a realização de exames de imagens (raio-X, ultrassonografia e
tomografia) e programas de triagem de rotina tornam possível confirmar os
achados e procurar mais detalhes e patologias.
Ainda
assim, a condição pode passar despercebida por toda a vida. “Muitas pessoas
vivem normalmente sem nunca descobrir que têm os órgãos invertidos”, diz Ana
Eduarda.
• É possível viver normalmente?
Na
maioria dos casos, sim. “A pessoa pode levar uma vida absolutamente normal. Se
não houver outras condições associadas, não há necessidade de restrições
específicas no dia a dia, nem mudanças no estilo de vida.”
• Quais são os cuidados para se ter ao
longo da vida?
A
principal recomendação é que, a partir do diagnóstico de situs inversus (seja
ele total ou parcial), a pessoa informe sempre a sua condição em ambientes de
saúde — especialmente em hospitais e prontos-socorros.
“Pode
ser útil carregar essa informação em documentos médicos ou em pulseiras de
identificação. Fora isso, manter o acompanhamento médico regular é suficiente
na maioria dos casos.”
Fonte:
CNN Brasil

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