segunda-feira, 7 de julho de 2025

Lula conclama países emergentes a resistirem ao protecionismo global

Durante sua participação no fórum empresarial da cúpula do BRICS, realizado neste sábado (5) no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um apelo às nações em desenvolvimento para que assumam papel central na defesa do comércio internacional diante do avanço de políticas protecionistas.

“Diante do ressurgimento do protecionismo, cabe às nações emergentes defender o regime multilateral de comércio e reformar a arquitetura financeira internacional. O BRICS segue como fiador de um futuro promissor. Durante a presidência brasileira demos um passo importante ao apoiar coletivamente a Convenção da ONU para Cooperação Tributária e a Visão de Reforma do FMI. O combate às desigualdades fortalece mercados consumidores, impulsiona o comércio e alavanca investimentos”,  destacou Lula.

Outro ponto de destaque foi a defesa de uma regulação internacional para o uso e desenvolvimento da inteligência artificial. Segundo Lula, o avanço da IA exige uma resposta coletiva. “A revolução tecnológica permeia todos os setores das nossas economias. Infraestruturas públicas digitais viabilizam inovações e criam oportunidades para “startups” e pequenas e médias empresas.A inteligência artificial traz possibilidades que, há poucos anos, sequer imaginávamos. Na ausência de diretrizes claras coletivamente acordadas, modelos gerados apenas com base na experiência de grandes empresas de tecnologia vão se impor. Os riscos e efeitos colaterais da inteligência artificial demandam uma governança multilateral”, ressaltou Lula.

>>>> Leia a íntegra do discurso

“Agradeço ao Conselho Empresarial e à Aliança Empresarial de Mulheres pela organização deste Fórum.

Aproximar nossos setores produtivos é um pilar fundamental do BRICS.

Os empreendedores aqui reunidos compõem o eixo dinâmico da economia internacional.

Os onze membros plenos do BRICS já superam 40% do PIB global em paridade de poder de compra.

Em 2024, enquanto o mundo cresceu 3,3%, registramos uma expansão média de 4% nos países do BRICS.

Este ano seguiremos em ritmo superior.

Com o crescimento de países parceiros e convidados, consolidamos o grupo como um polo aglutinador de economias prósperas e dinâmicas.

A presença neste Fórum do Primeiro-Ministro da Malásia, Anwar Bin Ibrahim, presidente de turno da ASEAN, é um reflexo disso.

Temos muito a aprender com a sinergia permanente entre países em desenvolvimento.

Isso nos permitiu enfrentar juntos os efeitos da crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19.

Diante do ressurgimento do protecionismo, cabe às nações emergentes defender o regime multilateral de comércio e reformar a arquitetura financeira internacional.

O BRICS segue como fiador de um futuro promissor.

Durante a presidência brasileira demos um passo importante ao apoiar coletivamente a Convenção da ONU para Cooperação Tributária e a Visão de Reforma do FMI.

O combate às desigualdades fortalece mercados consumidores, impulsiona o comércio e alavanca investimentos.

Possuímos inúmeras complementaridades econômicas.

O intercâmbio comercial do Brasil com o BRICS foi de 210 bilhões de dólares no ano passado, mais que o dobro do fluxo com a União Europeia.

Só em produtos do agronegócio brasileiro, exportamos 71 bilhões de dólares.

Nossos países podem liderar um novo modelo de desenvolvimento pautado em agricultura sustentável, indústria verde, infraestrutura resiliente e bioeconomia.

Reunimos 33% das terras agricultáveis e respondem por 42% da produção agropecuária global.

Crédito rural, fomento à agricultura de baixo carbono e restauração de terras degradadas potencializam nossa capacidade de produzir alimentos para o mundo.

O BRICS foi essencial para a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.

Fortalecer o complexo industrial da saúde amplia o acesso a medicamentos e é fundamental para superar doenças socialmente determinadas que afligem os mais vulneráveis.

A revolução tecnológica permeia todos os setores das nossas economias.

Infraestruturas públicas digitais viabilizam inovações e criam oportunidades para “startups” e pequenas e médias empresas.

A inteligência artificial traz possibilidades que, há poucos anos, sequer imaginávamos.

Na ausência de diretrizes claras coletivamente acordadas, modelos gerados apenas com base na experiência de grandes empresas de tecnologia vão se impor.

Os riscos e efeitos colaterais da inteligência artificial demandam uma governança multilateral.

A descarbonização de nossas economias é um processo irreversível.

A poucos meses da COP 30, reforçamos nossa responsabilidade com a promoção de uma transição ecológica justa e inclusiva.

O Brasil apresentou as suas NDC, que preveem redução entre 59 e 67% das emissões de gases de efeito estufa.

Nossos países já estão entre os maiores investidores em energia renovável do planeta.        

Há imenso potencial para ampliar a produção de biocombustíveis, baterias, placas solares e turbinas eólicas.

Possuímos minerais estratégicos essenciais para a transição energética.

O BRICS concentra 84% das reservas de terras raras, 66% do manganês e 63% do grafite do mundo.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda por minérios críticos deve triplicar até 2040.

Queremos ir além da extração dessas riquezas.

Em parceria com o setor privado, vamos qualificar nossa participação em todas as etapas das cadeias de suprimento.

O Brasil está bem-posicionado para esse salto. Contamos com marcos regulatórios estáveis, mão de obra qualificada e energia limpa para processamento mineral eficiente e sustentável.

Consolidar tantas frentes requer a mobilização de recursos.

Ontem participei da 10ª Reunião Anual de Governadores do Novo Banco de Desenvolvimento.

Desde a criação do Banco, 40 bilhões de dólares foram aprovados em 120 projetos de transportes, saneamento básico e energia limpa.

Ao impulsionar o uso de moedas locais, o NDB também tem contribuído para reduzir custos de transação e facilitar operações financeiras.

Com o objetivo de simplificar o comércio e os investimentos, os bancos centrais do BRICS estão trabalhando para desenvolver meios de pagamento transfronteiriços instantâneos e seguros.

Os bancos nacionais de desenvolvimento também são aliados importantes. 

No Brasil, o BNDES, o nosso banco de desenvolvimento, vem batendo recordes. A partir de 2023, foram destinados mais de 50 bilhões de dólares para projetos de transformação produtiva sustentável.

Queridas amigas e queridos amigos,

Agradeço mais uma vez ao Conselho Empresarial pelo papel central que tem exercido na promoção comercial e na melhoria do ambiente de negócios do BRICS.

Parabenizo a Aliança Empresarial de Mulheres pela fundamental atuação em prol do empreendedorismo feminino e da igualdade de gênero.

Ampliar e qualificar a participação de mulheres no mercado de trabalho traz ganhos de produtividade e acelera o crescimento econômico.

Tenho a convicção de que cabe aos governos abrir portas e aos empresários fazer negócios.

O vínculo entre paz e desenvolvimento é evidente.

Não haverá prosperidade em um mundo conflagrado.

O fim das guerras e dos conflitos que se acumulam é uma das responsabilidades de chefes de Estado e de governo.

É patente que o vácuo de liderança agrava as múltiplas crises enfrentadas por nossas sociedades.

Estou certo de que este Fórum e a Cúpula do BRICS que se inicia amanhã aportarão soluções.

Ao invés de barreiras, promovemos integração.

Contra a indiferença, construímos solidariedade.

Por isso, meus amigos e minhas amigas, boa sorte nesse encontro empresarial.

Muito obrigado".

•        "O modelo da austeridade não deu certo em nenhum lugar do mundo", diz Lula no fórum do NDB

Durante a abertura do encontro anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas ao modelo de austeridade imposto por instituições financeiras internacionais e defendeu a construção de uma nova arquitetura de financiamento global. O discurso, marcado por firmeza e apelos à equidade, reforçou o papel do banco dos BRICS como alternativa concreta às estruturas tradicionais.

Segundo Lula, o atual sistema, fundado nos acordos de Bretton Woods após a Segunda Guerra Mundial, não responde mais às realidades do século XXI. "É preciso que a gente reeduque as instituições de Bretton Woods. Não é possível continuar, com todas as mudanças geopolíticas e climáticas, tratando o financiamento do mesmo jeito", afirmou.

<><> Dívida impagável e falta de perspectiva para o Sul Global

O presidente criticou o peso das dívidas sobre os países mais pobres, citando o continente africano como exemplo. "Não é possível que o continente africano deva US$ 900 bilhões e que o pagamento de juros seja muito maior do que qualquer dinheiro que eles têm para fazer investimento", disse.

Ele alertou que, sem uma transformação no sistema de crédito internacional, os países em desenvolvimento permanecerão aprisionados na pobreza. "Ou discutiremos uma nova forma de financiamento para ajudar os países em vias de desenvolvimento e os países mais pobres, ou esses países vão continuar pobres."

Lula mencionou ainda o caso do Haiti, que, segundo ele, ilustra o colapso de um Estado abandonado à própria sorte. "Não é possível que um país como o Haiti continue sendo um país semidestruído, em que você não pode nem eleger um presidente porque as gangues tomaram conta do país", afirmou.

<><> Crítica ao dogma da austeridade

Sem meias palavras, Lula responsabilizou as exigências de austeridade fiscal pelas crises sociais em diversas partes do mundo. "O modelo da austeridade não deu certo em nenhum país do mundo", declarou. Para ele, as condicionalidades impostas por instituições financeiras internacionais aprofundam desigualdades. "Toda vez que se fala em austeridade, o pobre fica mais pobre e o rico fica mais rico."

O presidente reconheceu que o tema poderia parecer deslocado em um fórum voltado ao desenvolvimento, mas argumentou que era preciso falar diretamente aos que têm poder de decisão. "Eu sei que esse assunto não era para discutir aqui. Mas se eu não discutir com as pessoas com o dinheiro do mundo, eu vou discutir com quem? Com quem não tem dinheiro?"

<><> Papel do NDB na mudança estrutural

Em sua fala, Lula destacou que o NDB — criado pelos países do BRICS como alternativa aos organismos tradicionais — tem potencial para liderar essa transformação. "Acho que vocês podem e devem mostrar ao mundo que é possível criar um novo modelo de financiamento, sem condicionalidades", disse.

Para ele, o NDB deve consolidar um novo paradigma, centrado em justiça, desenvolvimento sustentável e respeito à soberania das nações. A crítica às práticas tradicionais se somou a um apelo por coragem e criatividade: "Está dado o recado", concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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