Lula
conclama países emergentes a resistirem ao protecionismo global
Durante
sua participação no fórum empresarial da cúpula do BRICS, realizado neste
sábado (5) no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez
um apelo às nações em desenvolvimento para que assumam papel central na defesa
do comércio internacional diante do avanço de políticas protecionistas.
“Diante
do ressurgimento do protecionismo, cabe às nações emergentes defender o regime
multilateral de comércio e reformar a arquitetura financeira internacional. O
BRICS segue como fiador de um futuro promissor. Durante a presidência
brasileira demos um passo importante ao apoiar coletivamente a Convenção da ONU
para Cooperação Tributária e a Visão de Reforma do FMI. O combate às
desigualdades fortalece mercados consumidores, impulsiona o comércio e alavanca
investimentos”, destacou Lula.
Outro
ponto de destaque foi a defesa de uma regulação internacional para o uso e
desenvolvimento da inteligência artificial. Segundo Lula, o avanço da IA exige
uma resposta coletiva. “A revolução tecnológica permeia todos os setores das
nossas economias. Infraestruturas públicas digitais viabilizam inovações e
criam oportunidades para “startups” e pequenas e médias empresas.A inteligência
artificial traz possibilidades que, há poucos anos, sequer imaginávamos. Na
ausência de diretrizes claras coletivamente acordadas, modelos gerados apenas
com base na experiência de grandes empresas de tecnologia vão se impor. Os
riscos e efeitos colaterais da inteligência artificial demandam uma governança
multilateral”, ressaltou Lula.
>>>>
Leia a íntegra do discurso
“Agradeço
ao Conselho Empresarial e à Aliança Empresarial de Mulheres pela organização
deste Fórum.
Aproximar
nossos setores produtivos é um pilar fundamental do BRICS.
Os
empreendedores aqui reunidos compõem o eixo dinâmico da economia internacional.
Os onze
membros plenos do BRICS já superam 40% do PIB global em paridade de poder de
compra.
Em
2024, enquanto o mundo cresceu 3,3%, registramos uma expansão média de 4% nos
países do BRICS.
Este
ano seguiremos em ritmo superior.
Com o
crescimento de países parceiros e convidados, consolidamos o grupo como um polo
aglutinador de economias prósperas e dinâmicas.
A
presença neste Fórum do Primeiro-Ministro da Malásia, Anwar Bin Ibrahim,
presidente de turno da ASEAN, é um reflexo disso.
Temos
muito a aprender com a sinergia permanente entre países em desenvolvimento.
Isso
nos permitiu enfrentar juntos os efeitos da crise financeira de 2008 e a
pandemia de Covid-19.
Diante
do ressurgimento do protecionismo, cabe às nações emergentes defender o regime
multilateral de comércio e reformar a arquitetura financeira internacional.
O BRICS
segue como fiador de um futuro promissor.
Durante
a presidência brasileira demos um passo importante ao apoiar coletivamente a
Convenção da ONU para Cooperação Tributária e a Visão de Reforma do FMI.
O
combate às desigualdades fortalece mercados consumidores, impulsiona o comércio
e alavanca investimentos.
Possuímos
inúmeras complementaridades econômicas.
O
intercâmbio comercial do Brasil com o BRICS foi de 210 bilhões de dólares no
ano passado, mais que o dobro do fluxo com a União Europeia.
Só em
produtos do agronegócio brasileiro, exportamos 71 bilhões de dólares.
Nossos
países podem liderar um novo modelo de desenvolvimento pautado em agricultura
sustentável, indústria verde, infraestrutura resiliente e bioeconomia.
Reunimos
33% das terras agricultáveis e respondem por 42% da produção agropecuária
global.
Crédito
rural, fomento à agricultura de baixo carbono e restauração de terras
degradadas potencializam nossa capacidade de produzir alimentos para o mundo.
O BRICS
foi essencial para a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.
Fortalecer
o complexo industrial da saúde amplia o acesso a medicamentos e é fundamental
para superar doenças socialmente determinadas que afligem os mais vulneráveis.
A
revolução tecnológica permeia todos os setores das nossas economias.
Infraestruturas
públicas digitais viabilizam inovações e criam oportunidades para “startups” e
pequenas e médias empresas.
A
inteligência artificial traz possibilidades que, há poucos anos, sequer
imaginávamos.
Na
ausência de diretrizes claras coletivamente acordadas, modelos gerados apenas
com base na experiência de grandes empresas de tecnologia vão se impor.
Os
riscos e efeitos colaterais da inteligência artificial demandam uma governança
multilateral.
A
descarbonização de nossas economias é um processo irreversível.
A
poucos meses da COP 30, reforçamos nossa responsabilidade com a promoção de uma
transição ecológica justa e inclusiva.
O
Brasil apresentou as suas NDC, que preveem redução entre 59 e 67% das emissões
de gases de efeito estufa.
Nossos
países já estão entre os maiores investidores em energia renovável do
planeta.
Há
imenso potencial para ampliar a produção de biocombustíveis, baterias, placas
solares e turbinas eólicas.
Possuímos
minerais estratégicos essenciais para a transição energética.
O BRICS
concentra 84% das reservas de terras raras, 66% do manganês e 63% do grafite do
mundo.
De
acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda por minérios críticos
deve triplicar até 2040.
Queremos
ir além da extração dessas riquezas.
Em
parceria com o setor privado, vamos qualificar nossa participação em todas as
etapas das cadeias de suprimento.
O
Brasil está bem-posicionado para esse salto. Contamos com marcos regulatórios
estáveis, mão de obra qualificada e energia limpa para processamento mineral
eficiente e sustentável.
Consolidar
tantas frentes requer a mobilização de recursos.
Ontem
participei da 10ª Reunião Anual de Governadores do Novo Banco de
Desenvolvimento.
Desde a
criação do Banco, 40 bilhões de dólares foram aprovados em 120 projetos de
transportes, saneamento básico e energia limpa.
Ao
impulsionar o uso de moedas locais, o NDB também tem contribuído para reduzir
custos de transação e facilitar operações financeiras.
Com o
objetivo de simplificar o comércio e os investimentos, os bancos centrais do
BRICS estão trabalhando para desenvolver meios de pagamento transfronteiriços
instantâneos e seguros.
Os
bancos nacionais de desenvolvimento também são aliados importantes.
No
Brasil, o BNDES, o nosso banco de desenvolvimento, vem batendo recordes. A
partir de 2023, foram destinados mais de 50 bilhões de dólares para projetos de
transformação produtiva sustentável.
Queridas
amigas e queridos amigos,
Agradeço
mais uma vez ao Conselho Empresarial pelo papel central que tem exercido na
promoção comercial e na melhoria do ambiente de negócios do BRICS.
Parabenizo
a Aliança Empresarial de Mulheres pela fundamental atuação em prol do
empreendedorismo feminino e da igualdade de gênero.
Ampliar
e qualificar a participação de mulheres no mercado de trabalho traz ganhos de
produtividade e acelera o crescimento econômico.
Tenho a
convicção de que cabe aos governos abrir portas e aos empresários fazer
negócios.
O
vínculo entre paz e desenvolvimento é evidente.
Não
haverá prosperidade em um mundo conflagrado.
O fim
das guerras e dos conflitos que se acumulam é uma das responsabilidades de
chefes de Estado e de governo.
É
patente que o vácuo de liderança agrava as múltiplas crises enfrentadas por
nossas sociedades.
Estou
certo de que este Fórum e a Cúpula do BRICS que se inicia amanhã aportarão
soluções.
Ao
invés de barreiras, promovemos integração.
Contra
a indiferença, construímos solidariedade.
Por
isso, meus amigos e minhas amigas, boa sorte nesse encontro empresarial.
Muito
obrigado".
• "O modelo da austeridade não deu
certo em nenhum lugar do mundo", diz Lula no fórum do NDB
Durante
a abertura do encontro anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas ao modelo de
austeridade imposto por instituições financeiras internacionais e defendeu a
construção de uma nova arquitetura de financiamento global. O discurso, marcado
por firmeza e apelos à equidade, reforçou o papel do banco dos BRICS como
alternativa concreta às estruturas tradicionais.
Segundo
Lula, o atual sistema, fundado nos acordos de Bretton Woods após a Segunda
Guerra Mundial, não responde mais às realidades do século XXI. "É preciso
que a gente reeduque as instituições de Bretton Woods. Não é possível
continuar, com todas as mudanças geopolíticas e climáticas, tratando o
financiamento do mesmo jeito", afirmou.
<><>
Dívida impagável e falta de perspectiva para o Sul Global
O
presidente criticou o peso das dívidas sobre os países mais pobres, citando o
continente africano como exemplo. "Não é possível que o continente
africano deva US$ 900 bilhões e que o pagamento de juros seja muito maior do
que qualquer dinheiro que eles têm para fazer investimento", disse.
Ele
alertou que, sem uma transformação no sistema de crédito internacional, os
países em desenvolvimento permanecerão aprisionados na pobreza. "Ou
discutiremos uma nova forma de financiamento para ajudar os países em vias de
desenvolvimento e os países mais pobres, ou esses países vão continuar
pobres."
Lula
mencionou ainda o caso do Haiti, que, segundo ele, ilustra o colapso de um
Estado abandonado à própria sorte. "Não é possível que um país como o
Haiti continue sendo um país semidestruído, em que você não pode nem eleger um
presidente porque as gangues tomaram conta do país", afirmou.
<><>
Crítica ao dogma da austeridade
Sem
meias palavras, Lula responsabilizou as exigências de austeridade fiscal pelas
crises sociais em diversas partes do mundo. "O modelo da austeridade não
deu certo em nenhum país do mundo", declarou. Para ele, as
condicionalidades impostas por instituições financeiras internacionais
aprofundam desigualdades. "Toda vez que se fala em austeridade, o pobre
fica mais pobre e o rico fica mais rico."
O
presidente reconheceu que o tema poderia parecer deslocado em um fórum voltado
ao desenvolvimento, mas argumentou que era preciso falar diretamente aos que
têm poder de decisão. "Eu sei que esse assunto não era para discutir aqui.
Mas se eu não discutir com as pessoas com o dinheiro do mundo, eu vou discutir
com quem? Com quem não tem dinheiro?"
<><>
Papel do NDB na mudança estrutural
Em sua
fala, Lula destacou que o NDB — criado pelos países do BRICS como alternativa
aos organismos tradicionais — tem potencial para liderar essa transformação.
"Acho que vocês podem e devem mostrar ao mundo que é possível criar um
novo modelo de financiamento, sem condicionalidades", disse.
Para
ele, o NDB deve consolidar um novo paradigma, centrado em justiça,
desenvolvimento sustentável e respeito à soberania das nações. A crítica às
práticas tradicionais se somou a um apelo por coragem e criatividade:
"Está dado o recado", concluiu.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário