terça-feira, 22 de julho de 2025

Israel destroi milhares de edifícios civis em Gaza em demolições controladas

Israel demoliu milhares de edifícios em Gaza desde que rompeu o cessar-fogo com o Hamas em março, com cidades e subúrbios inteiros — que antes eram o lar de dezenas de milhares de pessoas — arrasados nas últimas semanas.

Imagens de satélite mostram uma vasta quantidade de destruição em várias áreas que o comando militar de Israel afirma ter sob "controle operacional".

Grande parte foi causada por demolições planejadas, tanto de prédios já danificados quanto de prédios que pareciam estar praticamente intactos.

Imagens de vídeo verificadas mostram grandes explosões que liberam nuvens de poeira e detritos, enquanto as forças israelenses realizam demolições controladas em edifícios, escolas e outras infraestruturas. Vários especialistas jurídicos disseram à BBC Verify que Israel pode ter cometido crimes de guerra sob a Convenção de Genebra, que proíbe amplamente a destruição de infraestrutura por uma potência ocupante.

Um porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmou que a organização opera de acordo com o Direito Internacional; que o Hamas escondeu "ativos militares" em áreas civis, e que a "destruição de propriedades só é realizada quando uma necessidade militar imperativa é exigida".

A dimensão da destruição pode ser vista claramente na cidade de Rafah, perto da fronteira com o Egito.

Nas últimas semanas, as forças israelenses e empreiteiros arrasaram grandes áreas de Rafah.

Uma análise dos danos feita pelos acadêmicos Corey Scher e Jamon Van Den Hoek constatou que a destruição em Gaza desde abril foi mais concentrada na região.

Explosões controladas, escavadeiras e tratores destruíram áreas inteiras.

Em julho, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, traçou planos para estabelecer o que ele chamou de "cidade humanitária" sobre as ruínas de Rafah, com 600 mil palestinos sendo confinados lá inicialmente.

O plano foi amplamente condenado. O ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert disse à BBC que a proposta seria "interpretada como algo semelhante a um campo de concentração".

Israel alega que seus militares têm "controle operacional" sobre grandes áreas da Faixa de Gaza que agora são zonas militarizadas ou estão sob ordens de evacuação .

A BBC Verify identificou imagens em vídeo de infraestrutura sendo demolida em 40 locais desde o fim do cessar-fogo em março.

Tel al-Sultan era um dos bairros mais vibrantes da cidade de Rafah. Suas ruas densamente povoadas abrigavam a única maternidade especializada de Rafah e um centro que cuidava de crianças órfãs e abandonadas.

Imagens de satélite mostraram que grande parte da área já havia sido muito danificada pelos bombardeios e pela artilharia israelense, mas dezenas de edifícios haviam resistido aos ataques.

No entanto, em 13 de julho, a destruição havia aumentado, com até mesmo as carcaças dos prédios danificados sendo demolidas e quarteirões inteiros arrasados. A maternidade é um dos poucos edifícios que permanecem de pé.Da mesma forma, demolições agora estão em andamento no bairro adjacente de Saudi, que já abrigou a maior mesquita da cidade e várias escolas.

Um vídeo verificado mostrou um tanque se deslocando ao longo de uma rua em Rafah enquanto uma escavadeira trabalhava à beira da estrada.

As demolições israelenses também são visíveis em outras partes da faixa que parecem ter evitado danos significativos durante bombardeios anteriores.

A cidade agrícola de Khuza'a está localizada a cerca de 1,5 quilômetros da fronteira israelense. Antes da guerra, a cidade tinha uma população de 11 mil habitantes, e era conhecida por suas terras férteis e plantações de tomates, trigo e azeitonas.

Imagens de satélite de maio mostram que muitos edifícios da cidade permanecem de pé.

Em meados de junho, Khuza'a foi amplamente arrasada pelas forças israelenses.

As FDI afirmam ter demolido 1,2 mil prédios em Khuza'a, que fariam parte, segundo elas, de "infraestruturas terroristas" administradas pelo Hamas.

Uma história semelhante surge na cidade vizinha de Abasan al-Kabira, onde cerca de 27 mil pessoas viviam antes da guerra. Fotos tiradas em 31 de maio e 8 de julho indicam que uma extensa área foi arrasada em apenas 38 dias.

Israel criou extensas "zonas de segurança" e corredores separando partes de Gaza, e destruiu um grande número de edifícios ao longo e próximo a essas rotas. Seu corredor mais recente separa o oeste do leste de Khan Younis, incluindo Khuza'a e Abasan al-Kabira.

Além disso, desde o início da guerra, analistas sugeriram que Israel tem tentado criar "zonas tampão" profundas, destruindo prédios próximos à fronteira, mas algumas das áreas arrasadas recentemente estão bem no interior de Gaza.

Em Qizan Abu Rashwan — um assentamento agrícola a cerca de sete quilômetros da fronteira israelense —, praticamente todas as estruturas que ficaram de pé foram demolidas desde 17 de maio. Um vídeo que verificamos mostrou uma explosão controlada demolindo um complexo de edifícios.

A BBC Verify apresentou às FDI uma lista de locais onde documentamos demolições, e pediu que que fornecessem justificativas militares específicas. Elas não fizeram isso.

"Como já foi amplamente documentado, o Hamas e outras organizações terroristas escondem recursos militares em áreas civis densamente povoadas", declarou um porta-voz das FDI. "As FDI identificam e destroem a infraestrutura terrorista localizada, entre outros lugares, dentro de edifícios nessas áreas."

Vários advogados de direitos humanos que conversaram com a BBC Verify sugeriram que a campanha poderia ser considerada um crime de guerra.

Eitan Diamond — especialista jurídico do Centro de Direito Humanitário Internacional Diakonia, em Jerusalém — disse que havia pouca justificativa sob a Quarta Convenção de Genebra, o documento que geralmente abrange a proteção de civis em tempos de guerra.

"O direito humanitário internacional proíbe essa destruição controlada de propriedade civil durante conflitos armados, exceto sob condições restritas de absoluta necessidade operacional militar", explicou Diamond.

"A destruição de propriedade devido a preocupações ou especulações sobre seu possível uso futuro (por exemplo, que será usada para lançar ataques no futuro) não se enquadra nessa exceção."

A professora Janina Dill, codiretora do Instituto de Ética, Direito e Conflitos Armados de Oxford, afirmou que uma potência ocupante deve administrar uma região para o benefício da população — o que, segundo ela, é "incompatível com uma abordagem militar que simplesmente torna o território inabitável, e não deixa nada de pé".

Mas alguns analistas tentaram defender a campanha das FDI.

Muitos dos edifícios demolidos pelas FDI já estavam em ruínas devido a bombardeios e ataques aéreos, observou o professor Eitan Shamir, diretor do Centro de Estudos Estratégicos BESA em Israel, e ex-funcionário do Ministério de Assuntos Estratégicos. Ele disse à BBC Verify que esses edifícios representavam um risco de segurança para os civis que retornavam, especialmente "durante as chuvas de inverno, quando há mais chance de desabarem".

Shamir também aludiu a preocupações táticas.

"A área é uma zona de combate", ele disse. "Mesmo quando um prédio é invadido e liberado pelas FDI, uma vez que os israelenses saem, os terroristas frequentemente retornam para plantar bombas ou se esconder lá dentro para atirar neles."

Não há sinais de redução no ritmo das demolições. A mídia israelense informou em julho que as FDI haviam recebido dezenas de escavadeiras D9 dos EUA, que haviam sido suspensas durante o governo Biden.

E a BBC Verify identificou dezenas de anúncios publicados em grupos israelenses do Facebook que ofereciam trabalho em Gaza para empreiteiros de demolição. A maioria das postagens foi compartilhada por recrutadores desde maio.

Muitos dos anúncios especificam áreas de Gaza onde o trabalho será realizado, como "o Corredor Filadélfia" e "o Eixo Morag" — ambas as áreas são controladas pelas FDI.

Quando procurado para comentar o assunto pela BBC Verify, um empreiteiro respondeu: "Vá se [palavrão], você e Gaza".

Um analista — Adil Haque, da Rutgers Law School — sugeriu que as demolições das FDI poderiam estar tentando criar uma "zona de segurança" que poderia ser "permanentemente controlada".

Outros analistas dizem que as demolições podem estar limpando o terreno para o desenvolvimento da "cidade humanitária" proposta em Rafah. Efraim Inbar, presidente do Instituto de Estratégia e Segurança de Jerusalém, sugeriu, por sua vez, que poderiam estar tentando encorajar os palestinos a deixar completamente a Faixa de Gaza, aumentando "o forte desejo de emigrar".

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse anteriormente a um grupo de parlamentares, em uma reunião a portas fechadas amplamente noticiada pela mídia israelense, que as FDI estavam "destruindo cada vez mais casas", deixando os palestinos "sem ter para onde voltar".

Para os habitantes de Gaza, a devastação tem sido intensa.

Moataz Yousef Ahmed Al-Absi, de Tel al-Sultan, disse que sua casa foi varrida do mapa.

"Eu tinha acabado de me mudar para minha casa um ano antes do início da guerra, e estava incrivelmente feliz lá, nutrindo grandes esperanças para o meu futuro. Agora, ela foi completamente destruída," ele contou.

"Depois de perder tudo, não tenho mais um lar nem abrigo."

¨      Israel lança ofensiva aérea e terrestre em Deir al-Balah, no centro de Gaza

Israel lançou ataques aéreos substanciais e uma operação terrestre em Gaza, visando Deir al-Balah, o principal centro de esforços humanitários no devastado território palestino, em meio a crescentes alertas de aumento da fome na faixa costeira.

O último ataque ocorreu um dia após o maior número de mortes em 21 meses infligido pelo exército israelense a palestinos desesperados que buscavam ajuda alimentar , com pelo menos 85 mortos no domingo, no que se tornou um massacre cruel e quase diário.

A agência alimentar da ONU, o Programa Mundial de Alimentos, disse que a maioria dos mortos no domingo se reuniu perto da cerca da fronteira com Israel na esperança de obter farinha de um comboio de ajuda humanitária da ONU quando foram alvejados por tanques e atiradores israelenses.

Testemunhas descreveram ataques aéreos massivos durante a noite em Deir al-Balah, a última área remanescente de Gaza que não sofreu danos significativos de guerra.

Fontes israelenses disseram que o motivo pelo qual o exército permaneceu fora até agora é a suspeita de que o Hamas possa estar mantendo reféns lá. Acredita-se que pelo menos 20 dos 50 reféns restantes em cativeiro em Gaza ainda estejam vivos.

Israel lançou seu novo ataque apesar dos relatos na mídia hebraica de que autoridades israelenses acreditavam que o Hamas estava perto de concordar com um cessar-fogo.

O último ataque israelense ocorreu após ordens de evacuação forçada de 50.000 a 80.000 pessoas em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, deixando quase 87% do território sob tais ordens.

“Com esta última ordem, a área de Gaza sob ordens de deslocamento ou dentro de zonas militarizadas israelenses aumentou para 87,8%, deixando 2,1 milhões de civis espremidos em 12% da faixa fragmentada, onde serviços essenciais entraram em colapso”, disse a ONU em um comunicado divulgado por seu Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha).

Com a crescente ameaça de fome generalizada, Ocha enfatizou a importância de Deir al-Balah para o que restava do esforço de ajuda internacional, já que armazéns, clínicas de saúde e uma importante usina de dessalinização que abastece o sul de Gaza estavam localizados ali. "Qualquer dano a essa infraestrutura terá consequências fatais", acrescentou a agência.

Em meio à crescente preocupação sobre o impacto potencial dos últimos ataques, Ocha disse que o chefe local da agência em Gaza decidiu permanecer em Deir al-Balah.

“Acabei de falar com Jonathan Whittall”, escreveu Tom Fletcher, subsecretário da ONU para assuntos humanitários, no programa X, na noite de domingo. “Ele está em Deir el Balah, Gaza, com os ataques aéreos israelenses se intensificando... Eles são os melhores da ONU. E de todos nós.”

O exército israelense disse que não entrou nos distritos de Deir al-Balah sujeitos à ordem de evacuação e que continuava "a operar com grande força para destruir as capacidades inimigas e a infraestrutura terrorista na área".

A profunda preocupação com a situação humanitária em Gaza foi ressaltada pelas alegações de médicos de que mais de uma dúzia de palestinos morreram de fome nas últimas 24 horas.

"Dezenove pessoas, incluindo crianças, morreram de fome", disse Khalil al-Daqran, porta-voz do hospital al-Aqsa em Deir al-Balah, à BBC. "Os hospitais não conseguem mais fornecer comida para pacientes ou funcionários, muitos dos quais estão fisicamente impossibilitados de continuar trabalhando devido à fome extrema."

“Os hospitais não conseguem fornecer uma única mamadeira de leite para crianças que sofrem de fome, porque toda a fórmula infantil acabou no mercado.”

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, a morte de dezenas de palestinos que se reuniram para obter farinha ocorreu depois que um comboio de 25 caminhões transportando assistência alimentar cruzou a fronteira para Gaza.

“Pouco depois de passar pelo último posto de controle... o comboio encontrou grandes multidões de civis aguardando ansiosamente para ter acesso aos suprimentos de comida desesperadamente necessários”, disse a agência. “À medida que o comboio se aproximava, a multidão ao redor foi alvo de tiros de tanques israelenses, atiradores de elite e outros disparos de arma de fogo.

“Essas pessoas estavam simplesmente tentando obter alimentos para alimentar a si mesmas e suas famílias, à beira da fome”, afirmou, acrescentando que o incidente ocorreu apesar das garantias das autoridades israelenses de que a entrega de ajuda melhoraria. “Tiroteios perto de missões humanitárias, comboios e distribuições de alimentos devem cessar imediatamente.”

O Exército israelense reconheceu o tiroteio, mas afirmou ter disparado "tiros de advertência para remover uma ameaça imediata às tropas". Afirmou que as descobertas iniciais sugeriram que os números de vítimas relatados foram inflados e que "certamente não visam intencionalmente caminhões de ajuda humanitária".

O Programa Mundial de Alimentos acrescentou: “A crise de fome em Gaza atingiu novos níveis de desespero. Pessoas estão morrendo por falta de assistência humanitária. A desnutrição está aumentando, com 90.000 mulheres e crianças precisando urgentemente de tratamento. Quase uma em cada três pessoas não come há dias.”

Os últimos ataques israelenses em Gaza ocorreram quando uma autoridade de segurança do grupo Houthi do Iêmen disse que Israel havia atacado o porto de Hodeidah na segunda-feira, destruindo um cais que havia sido reconstruído após ter sido danificado em ataques anteriores.

“O bombardeio destruiu o cais do porto, que havia sido reconstruído após ataques anteriores”, disse a autoridade à Agence France-Presse, pedindo anonimato para discutir assuntos delicados.

 

Fonte: BBC News Brasil/The Guardian

 

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