Homem
com H: Ney Matogrosso e o mundo militar
No
interior do país, ou no Brasil profundo – como diz o Exército –, um Santo
específico entre os três homenageados nas festas juninas faz muito sucesso
entre solteiras e solteiros: é Santo Antônio, famoso como casamenteiro. Na
minha terra, para ser honesta, se diz que é melhor rezar pra São José, que ele
traz os “moço bão, sério”. Como já perdi as duas datas, melhor apelar pro Santo
que aniversariou faz pouco tempo.
Como
“sou mais macho que muito homem”, já escutei muitas vezes que “tá te faltando
homem com H”. Mescla de machismo, homofobia, e saudosismo de um passado
idealizado, ela costuma vir acompanhada de outras, como “foi no quartel que meu
filho virou homem”. Associa-se à passagem pelo mundo militar, notadamente
durante o recrutamento obrigatório aos 18 anos, o momento em que o jovem
adquire características atribuídas ao gênero masculino como vigor físico,
seriedade, compromisso, camaradagem, respeito aos horários, rusticidade (seja
lá o que for isso), etc. Não deixa de ser curioso notar que, junto à hierarquia
e disciplina, características atribuídas ao gênero feminino também são
incutidas, como asseio, cuidado com o ambiente em que vive e com a própria
apresentação.
Mas não
é que eu pedi um Homem com H pra Santo Antônio, e ganhei? Quem ainda não
assistiu ao filme Homem com H, sobre a vida do maravilhoso cantor brasileiro,
Ney Matogrosso, corra para ver! Muito se comentará sobre as mudanças artísticas
ao longo da carreira do Ney, ou sobre a sua badalada vida sexual. Neste texto,
comentaremos um aspecto pouco conhecido da vida do artista: sua passagem pelos
quartéis.
Ney
cresce como parte da família militar em tempos fervilhantes. É filho de Antônio
Mattogrosso Pereira, um pracinha do Exército, apelido que ganharam os
brasileiros que enfrentaram o fascismo no teatro italiano durante a 2ª Guerra
Mundial. Antônio alistou-se em 1944, e em abril de 1945 foi, como 2º sargento,
exercer a função de escrevente no setor administrativo das tropas que lutaram
na Itália. Ao regressar ao Brasil, permaneceu na Força Aérea Brasileira, então
recém-criada. Foi promovido a suboficial em 1948, e foi para a reserva como 2º
tenente, em 1963. Durante a carreira, recebeu três condecorações: a Medalha da
Campanha da Itália, a Medalha da Campanha do Atlântico Sul, e a Presidential
Unit Citation (EUA).
No
filme, não é feita nenhuma menção às constantes mudanças de estado que fizeram
parte da infância de Ney Matogrosso, acompanhando as transferências do pai,
algo pouco comum atualmente no caso de suboficiais. A casa da infância do
cantor também aparenta ter sido a mesma. Entretanto, segundo entrevistas, a
família teria acompanhado o pai em transferências e morado em vilas militares,
antes de se estabelecer de maneira definitiva no Mato Grosso.
Existe
uma área dentro dos estudos de defesa que se dedica ao estudo da família
militar. Nela, predominam as análises sobre as esposas de militares, seu peso
na ascensão da carreira do marido, as dificuldades profissionais inerentes às
constantes mudanças geográficas acompanhando os parceiros, e a distância das
famílias em que se nasce, com a consequente adoção de novas famílias nos
quartéis. Entretanto, mesmo em trabalhos de antropólogos oriundos da família
militar, como é o caso de Celso Castro, a voz dos filhos e filhas de militares
é bastante ausente.
O filme
enfatiza o rigor com que o pai tratou Ney durante a maior parte da vida, e a
posterior reconciliação. O cantor relata ter apanhado do pai muitas vezes, com
quem estabeleceu uma relação de medo, e não de respeito, durante boa parte da
vida. Entretanto, o quartel foi também uma fonte de autoafirmação para o jovem
Matogrosso diante da autoridade paterna, tendo ele mesmo servido à Aeronáutica,
no Rio de Janeiro, em 1959. No filme, o cantor é apresentado como um bom
militar, sem dificuldades de adaptação, inclusive em função da hierarquia e
disciplina que já eram regra no ambiente familiar. Pelo contrário, se em casa
ele só contava com a proteção da mãe diante de um autoritário, na caserna, ele
encontrava solidariedade junto aos recrutas que passavam pelos mesmos percalços
que ele diante de comandantes mais ou menos autoritários que eram, eles
próprios, também sujeitos à autoridade de outrem.
É óbvio
que a sexualidade de Ney era um motivo de angústia. E é incrível que ele tenha
decidido romper com a violência dentro de casa em função da orientação sexual e
opção profissional exatamente buscando um quartel. O filme, assim como os
relatos do cantor, retrata um ambiente surpreendentemente oxigenado, incluindo
um romance clandestino com um colega. Jovens com os hormônios em ebulição,
juntos, fazem experimentações individuais e coletivas. No relato de Ney, o
quartel não foi um espaço de repressão, mas de libertação (inclusive sexual,
embora sob vigilância).
Haja
dialética para compreender tudo isso. Possivelmente, o tema ainda não era
considerado uma questão a ser objeto de tipificação. Em 1969, o Código Penal
Militar tratava do “homossexualismo” e da “pederastia”, prevendo pena para o
militar “que praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso,
homossexual ou não, em lugar sujeito à administração militar”. A norma foi
modificada em 2015, pelo Supremo Tribunal Federal, que retirou os termos
pederastia e homossexual, considerados discriminatórios.
Atualmente,
não existem normas que proíbam o alistamento ou determinem a expulsão de gays,
lésbicas ou transexuais das forças armadas brasileiras. Entretanto, em função
da cultura dos quartéis e da alta autonomia dos comandantes de unidades,
abundam relatos de constrangimentos, pressões para que abandonem a carreira, ou
atribuição compulsória de atividades que dificultam a manutenção de
relacionamentos a depender da identidade de gênero ou orientação sexual, sem
falar em ridicularizações e piadas que não são crimes, mas nem por isso são
menos violentos. Algumas dessas questões veem sendo judicializadas, como a luta
pelo acesso a direitos previdenciários militares por casais formados por
pessoas do mesmo sexo.
Nesse
sentido, a reivindicação atual é a mesma que Ney logrou obter segundo o filme:
a orientação sexual não compromete a capacidade individual no desempenho das
atividades militares, não impacta no poder combatente das forças armadas, e não
deveria alterar em nada a credibilidade institucional junto à população.
Por
fim, o filme revela, e os relatos do nosso homem com H confirmam, que a
principal característica aprendida por ele durante o período que serviu foi o
manejo da própria imagem. Tomar banho junto, dormir junto, fazer exercícios
junto, e um conjunto de outras atividades, sempre feitas de maneira controlada
e em coletivo, desenvolveram no artista uma capacidade de renunciar à própria
privacidade que, segundo o cantor, foi muito útil posteriormente nos palcos,
especialmente durante os Secos e Molhados, quando ele ficou quase nu repetidas
vezes. Desenvolveram também a necessidade de impor, se necessário à força,
limites aos outros, estabelecendo a fronteira entre o “eu” e o camarada.
Sabe
uma característica fundamental do Homem com H? Responsabilidade. Ney Matogrosso
mostrou enorme responsabilidade afetiva com seu companheiro e amigos até o fim
da vida; o mais conhecido deles o também cantor Cazuza. Se pensarmos na
emergência do HIV nos anos 1990, o H de Ney não deixa de ter um componente de
Heroísmo, tão presente no cotidiano na vida de tanta gente, mas pouco
glamourizado no cinema. O herói nas grandes telas é, em geral, um vitorioso em
ações militares. Contribui para o status das forças armadas junto à população a
associação (na maioria das vezes apenas mística, e não histórica), entre os
atuais militares e os heróis.
Talvez
homens com H estejam mesmo em falta. Antes fossem “heróis morrendo de
overdose”. Faltam homens com H que prefiram amar homens ou mulheres, que se
recusem a matar. Meus inimigos, e os do pai do Ney Matogrosso, os fascistas,
estão no poder em diferentes lugares ao redor do mundo. Quem sabe o gene X nos
ajude a encontrar ideologias melhores pra viver? Garotos e garotas mudam o
mundo, não tem muro que segura.
Fonte:
Por Ana Penido, em Opera Mundi

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