Lula
e Milei no Mercosul: uma história de discórdia e farpas em 4 pontos
O
presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT) participou
nesta quinta-feira (3/7) da Cúpula de presidentes do Mercosul, em Buenos Aires.
Lula receberá a presidência do bloco econômico, sucedendo o presidente
argentino, Javier Milei.
Esta é
a primeira vez que o petista visita o país vizinho, maior parceiro comercial na
América Latina, desde que Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023.
A
visita ocorre enquanto os dois presidentes vivem momentos diferentes da sua
popularidade.
Lula
passa por desgastes que refletem em um alto índice de desaprovação de seu
governo — 40%, segundo levantamento do Datafolha de junho — enquanto é mal
avaliado também no exterior — "incoerente no exterior" e
"impopular no Brasil", segundo a revista liberal The Economist.
A mesma
publicação avaliou Milei, em novembro do ano passado, como alguém que estava
fazendo um "experimento extraordinário".
Lula e
Milei se antagonizam muito antes da avaliação da revista liberal. O economista
argentino, que se autodefine como "anarcocapitalista", endereça
provocações ao presidente brasileiro desde as eleições na Argentina, em 2023.
Ainda
quando era candidato, Milei disse que Lula era um "comunista
nervoso". O acusou, sem apresentar provas, de financiar a campanha de seu
adversário, Sergio Massa, recebido por Lula no Planalto durante a campanha
argentina.
Dias
antes do segundo turno, Lula afirmou que a Argentina precisava de um presidente
de "gostasse de democracia".
Passadas
as eleições, as rusgas continuaram. O petista não foi à cerimônia de posse de
Milei, enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não só compareceu, como se
sentou ao lado dos demais chefes de Estado.
A
animosidade entre os dois amargou a relação diplomática entre os países: Lula
nunca esteve na Argentina sob o comando de Milei até agora.
Já seu
homólogo já esteve no Brasil em dois momentos. Mas ao menos um deles não foi
nada protocolar.
A
primeira visita foi durante a 64ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, em
julho do ano passado, mas ele não compareceu. Ao invés disso, viajou para
Balneário Camboriú (SC) onde participou da Conferência de Ação Política
Conservadora (CAPC), um
fórum da direita brasileira, organizado pelo deputado federal licenciado
Eduardo Bolsonaro (PL-SP) .
Na
segunda vez, esteve no encontro do G20, grupo das maiores economias do mundo,
em novembro do ano passado. Na ocasião, ficou frente a frente Lula pela
primeira vez. Sem sorrisos, ambos se cumprimentaram e tiraram uma foto
protocolar.
A
agenda oficial de Lula na Argentina ainda não foi divulgada, segundo a
Secretaria de Comunicação do Planalto. Ainda não é possível saber se, além do
encontro do Mercosul, haverá uma reunião bilateral entre Lula e Milei, algo
considerado no momento pouco provável, no entanto.
Também
não está confirmada uma possível visita à ex-presidente Cristina Kirchner,
adversária política de Milei. Ela está em prisão domiciliar, após ser condenada a seis anos de
reclusão por administração fraudulenta em detrimento do Estado.
A
informação sobre a possível visita de Lula a Cristina Kirchner foi dada pelo
deputado e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social, Paulo Pimenta (PT),
à rádio argentina AM 750.
Enquanto
esteve preso, entre 2018 e 2019, Lula recebeu a visita de Alberto Fernández, na
época candidato peronista e de quem Cristina viria a ser vice-presidente.
Para
Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal
de São Paulo (Unifesp), essa visita seria um "constrangimento".
"É
uma forma de agradecer todo o apoio que ele recebeu quando preso. Mas, acho que
se ele fizer isso, vai ser com grande discrição."
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1. Jogo para a plateia
Apesar
das rusgas entre Lula e Milei no campo ideológico, que, na maior parte das
vezes, não passa de publicações nas redes sociais ou fotos pouco calorosas, os
interesses convergem em muitos outros temas, defende Oliver Stuenkel, professor
de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
"Os
dois chefes de Estado têm uma visão de mundo diferente, mas é evidente que
continua havendo muitos interesses em comum, envolvendo a negociação com a
União Europeia, o combate ao narcotráfico e a redução de barreiras que existe
entre os dois países no comércio."
Stuenkel
diz que ambos os presidentes sabem que precisam preservar a relação mútua.
"Essa
viagem mostra o quão importante é ter uma cooperação institucionalizada entre
Brasil e Argentina", diz.
Para
isso, diz Bressan, eles devem evitar "falar de pontos polêmicos".
Em
entrevista ao jornal O Globo na terça-feira (1/7), o ministro das Relações
Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o foco do encontro será a agenda do bloco
e não questões políticas.
"Há
duas cúpulas [do Mercosul] por ano. Há momentos em que é especificamente [a
agenda do] Mercosul e há momentos em que há espaço para coisas políticas",
disse Vieira.
"Desta
vez, da própria forma como foi organizado pela presidência argentina, vai ser
um período muito curto", afirmou ministro, acrescentando que Lula
participará da reunião com os presidentes do bloco na quinta-feira pela manhã e
voltará em seguida ao Brasil.
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2. Cúpula do Mercosul
Criado
em 1991, o Mercosul é formado por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e,
agora, também pela Bolívia, que está em processo de adesão. A Venezuela está
suspensa desde 2017, devido à "ruptura da ordem democrática".
A
presidência do bloco é rotativa, a cada seis meses, e é por ordem alfabética
dos países.
"Nesses
seis meses, a Argentina apresentou poucos avanços, tendo um empenho modesto, e
o Brasil continuou liderando o acordo entre o Mercosul e a União
Europeia", afirma Bressan.
Um
acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE) visa estabelecer uma área de
livre comércio entre as duas regiões e vem sendo negociado há mais de duas
décadas. Foi finalmente anunciado em dezembro, mas ainda precisa
ser ratificado por cada um dos parlamentos dos países-membro da União Europeia.
A França é a principal opositora à ideia, devido
à forte recusa de produtores agrícolas do país. O setor alega que a entrada em
vigor do tratado colocaria em risco milhares de empregos ao abrir as portas do
mercado francês a produtos agrícolas produzidos sem os mesmos padrões de qualidade
ambiental e sanitários exigidos dos fazendeiros franceses.
Para
Bressan, quando o Brasil assumir a presidência do Mercosul, as negociações
devem avançar. "E isso é bom para o Milei", diz a professora da
Unifesp.
"As
políticas econômicas que sustentam Milei, as bases de apoio, são favoráveis ao
acordo com a União Europeia."
Stuenkel
ressalta que, se o acordo com a UE for ratificado, isso vai fortalecer muito o
Mercosul.
"É
um passo gigantesco, seria o maior acordo na história do Mercosul e da União
Europeia, e, portanto, da relação entre o Brasil e Argentina. Milei e Lula
nesse quesito estão alinhados."
Embora
Milei estivesse oficialmente no comando do Mercosul, ele sempre defendeu, desde
antes mesmo de ser eleito, a saída da Argentina do bloco.
O
Mercosul, segundo afirmou em agosto de 2023, logo após as primárias na
Argentina que o apontaram como favorito para a eleição, "cria distorções
comerciais e prejudica seus membros", conforme disse à Bloomberg Línea.
De lá
para cá, Milei seguiu ameaçando sair do bloco, caso isso seja condição para
selar um eventual acordo de livre comércio com os Estados Unidos.
"O
primeiro passo nesta trilha é a oportunidade histórica que temos de entrar em
um acordo comercial com os EUA", afirmou Milei, durante um discurso na
abertura do Congresso argentino, em março.
"Para
aproveitar esta oportunidade histórica que nos é apresentada novamente, é
necessário estar disposto a flexibilizar ou mesmo se for o caso sair do
Mercosul, que a única coisa que conseguiu desde a sua criação é enriquecer os
grandes industriais brasileiros às custas do empobrecimento dos
argentinos."
Para
Bressan, esse acordo com os Estados Unidos são "um grande devaneio"
de Milei.
"Os
Estados Unidos têm um olhar muito pragmático para a América Latina", diz a
professora.
"Eles
não vão fazer parceria com um país quebrado. Milei usa isso na sua retórica,
tentando encontrar nela um apoio da extrema-direita, mas acho pouquíssimo
factível, muito improvável."
Para
Stuenkel, a pior das hipóteses em relação à cúpula de agora seria se houvesse
poucos avanços na agenda do bloco. "Mas não há risco de um retrocesso
enorme", diz o professor.
"As
divergências são estruturais. A Argentina tem um certo receio que o Brasil
adote uma postura regional mais assertiva, e esse é um temor que já ocorria com
[o ex-presidente argentino] Néstor Kirchner. Mesmo com alinhamento ideológico
entre os dois países, eles não resolveram muitas das barreiras que ainda
existem em alguns setores."
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3. G20
Os
interesses em comum de Brasil e Argentina devem prevalecer em relação às
diferenças ideológicas, conforme os especialistas apontaram.
No
primeiro encontro entre os presidentes, ocorrido no fim do ano passado durante
a cúpula do G20 no Brasil, Lula recepcionou Milei de maneira protocolar, algo
recíproco.
A foto
dos chefes de Estado sérios e distantes circulou pelas redes sociais, sendo
comparada aos sorrisos de Lula ao lado de outros líderes, como os presidentes
da França, Emmanuel Macron, e do Chile, Gabriel Boric.
No documento final do encontro, que
reúne as 19 maiores economias do mundo além da União Europeia e União Africana,
Milei se opôs a menções a termos como a taxação de super-ricos e temas como a
igualdade de gênero e empoderamento das mulheres.
Ainda
assim, acabou cedendo diante do consenso do grupo, e assinou o documento que
menciona uma taxação inédita aos super-ricos para o combate à pobreza.
"Milei
faz críticas bem duras ao Mercosul, mas veio ao Brasil na cúpula do G20",
pondera Bressan.
"Isso
é um ponto importante, porque a diplomacia brasileira conseguiu acolher ele,
permitindo que ele falasse, expusesse todas as insatisfações e fazendo com
que ele assinasse o documento da aliança mundial contra a fome, o que foi muito
bom para a diplomacia brasileira."
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4. Trump e o bolsonarismo
Desde
que assumiu a Presidência da Argentina, o farol ideológico de Milei é Donald
Trump. O presidente americano o convidou para a cerimônia de posse quando
assumiu a Casa Branca em janeiro, mas não fez o mesmo com Lula.
Diante
do impedimento que o Supremo Tribunal Federal impôs à ida de Bolsonaro ao
evento, Milei lamentou, atribuindo a ausência ao "regime de Lula".
A
agenda do argentino segue a cartilha de Trump, como a negação da emergência
climática, os ataques nas redes sociais, a restrição aos imigrantes e o apoio a
Israel.
O país
comandado por Benjamin Netanyahu foi a segunda nação visitada por Milei após a
posse. A primeira viagem internacional foi à Suíça, em janeiro de 2024, onde
participou do Fórum Econômico Mundial, em Davos.
Lá, ele
afirmou que o Ocidente está em perigo por causa de "ideias
socialistas".
Mais
tarde, em abril deste ano, Milei insinuou que o Brasil deveria agradecê-lo,
porque, segundo ele, a tarifa imposta por Trump em seu tarifaço ao Brasil, de
10%, teria ocorrido graças à boa relação que ele tem com o presidente
americano.
A
afirmação foi questionada por Mauro Vieira. "Há dados que comprovem essa
fala?", questionou o ministro à CNN.
¨ Milei ameaça
abandonar o Mercosul
A 66ª Cúpula de Chefes de Estado do
Mercosul,
realizada nesta quinta-feira (03/07), em Buenos Aires, teve como destaque os
discursos dos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina,
Javier Milei, mandatário anfitrião do evento.
Em sua
intervenção, Lula destacou o fato de que o Brasil
assumiu neste mês a
presidência pró tempore do bloco, que será exercida durante o segundo semestre
de 2025 – em janeiro de 2026, a liderança passará às mãos da Bolívia.
O
presidente brasileiro afirmou que a prioridade do bloco neste semestre serão os
esforços para a conclusão do acordo comercial com a União Europeia.
“Estou
confiante de que, até o fim deste ano, assinaremos os acordos com a União
Europeia e com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA, por sua sigla em
inglês), criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo”, ressaltou
Lula.
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Ásia e ‘novo tabuleiro global’
Em
outro momento, o mandatário brasileiro enfatizou que “e hora de o Mercosul
olhar para a Ásia, centro dinâmico da economia mundial”.
“Nossa
participação nas cadeias globais de valor se beneficiará de maior aproximação
com Japão, China, Coreia, Índia, Vietnã e Indonésia”, acrescentou.
Lula
completou seu discurso dizendo que “a presidência brasileira representará uma
oportunidade para refletir sobre o lugar que almejamos ocupar no novo tabuleiro
global”.
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Milei ameaça com saída da Argentina
Por sua
parte, o presidente anfitrião do evento, o argentino Javier Milei, defendeu uma
maior flexibilidade comercial, especialmente para que os países do bloco possam
fazer acordos separados dos demais membros – algo que é proibido, segundo as
regras atuais do bloco.
Segundo
Milei, a Argentina “embarcou no navio que nos leva à liberdade, e avançará por
ele junto (com o Mercosul) ou sozinho”.
“A
barreira que erguemos para nos proteger comercialmente acabou nos excluindo do
resto do mundo. Temos que insistir em flexibilizar as condições sociais que nos
unem e evoluir para derrubar essa cortina de ferro e estabelecer um marco no
qual cada país possa desfrutar de maior autonomia para aproveitar suas
vantagens comparativas e potencial exportador”, declarou o mandatário
argentino.
Em sua
conclusão, Milei disse que “o Mercosul se tornou cada vez menos mercadológico e
compartilhado, mas nós (Argentina) buscamos colocar fim ao que consideramos uma
inércia destrutiva”.
Fonte:
BBC News Brasil/Diálogo Sul

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