Gaza:
Os negociantes do extermínio
O cerco
de Israel contra os palestinos está deixando a população faminta, e Albanese
critica outras nações por não cumprirem suas obrigações sob a lei
internacional. “[Os países] têm a obrigação de não ajudar, não cooperar, não
comercializar com Israel, não enviar armas, não comprar armas, não fornecer
tecnologia militar, não adquirir tecnologia militar. Isso não é um ato de
caridade que estou pedindo. É sua obrigação”, explica ela. Albanese compara
Gaza e o cerco de Israel a um campo de concentração, afirmando que é
insustentável, mas também permite ao mundo testemunhar como uma entidade colonialista
ocidental funciona. “Há uma conscientização global sobre algo que, por muito
tempo, foi uma prerrogativa dolorosa da maioria global, o Sul Global: a
percepção da dor e das feridas do colonialismo”, diz Albanese. Em seu próximo
relatório, Albanese detalhará como a Palestina foi explorada pelo sistema
capitalista global e destacará o papel de certas corporações no genocídio.
“[Há] entidades corporativas, inclusive de Estados amigos da Palestina, que há
décadas lucram com a economia da ocupação, porque Israel sempre explorou a
terra, os recursos e a vida dos palestinos”, afirma ela. “Os lucros continuaram
e até aumentaram à medida que a economia da ocupação se transformou em uma
economia de genocídio.” Quando a história do genocídio em Gaza for escrita, uma
das vozes mais corajosas e incisivas pela justiça e pelo cumprimento da lei
internacional será Francesca Albanese, relatora especial sobre direitos humanos
nos territórios palestinos. Albanese, uma jurista italiana, ocupa o cargo de
relatora da ONU desde 2022. Sua função é monitorar e denunciar “violações de
direitos humanos” cometidas por Israel contra palestinos na Cisjordânia e em
Gaza. Albanese, que recebe ameaças de morte e enfrenta campanhas de difamação
orquestradas por Israel e seus aliados, busca corajosamente responsabilizar
aqueles que apoiam e sustentam o genocídio. Ela denuncia o que chama de
“corrupção moral e política do mundo” pelo genocídio. Seu escritório emitiu
relatórios detalhados documentando crimes de guerra cometidos por Israel em
Gaza e na Cisjordânia, um dos quais, Genocídio como Apagamento Colonial,
reproduzi como apêndice em meu último livro, Um Genocídio Anunciado.
Ela está preparando um novo relatório que expõe bancos, fundos de pensão,
empresas de tecnologia e universidades que auxiliam e incentivam as violações
de Israel à lei internacional, aos direitos humanos e aos crimes de guerra. Ela
apontou organizações privadas que são “criminalmente responsáveis” por ajudar
Israel a cometer o “genocídio” em Gaza. Ela afirmou que, se o ex-chanceler
britânico David Cameron ameaçou retirar financiamento e sair do Tribunal Penal
Internacional (TPI) caso este emitisse ordens de prisão contra o
primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Yoav
Gallant, Cameron e o ex-premiê Rishi Sunak poderiam ser acusados de crimes sob
o Estatuto de Roma, que criminaliza quem impede a persecução de crimes de
guerra. Ela também pediu que altos funcionários da UE sejam acusados de
cumplicidade ou crimes de guerra por apoiarem o genocídio, afirmando que suas
ações não podem ficar impunes. Ela apoiou a flotilha Madleen, que tentou romper
o bloqueio a Gaza para levar ajuda humanitária, escrevendo que o barco,
interceptado por Israel, carregava não apenas suprimentos, mas uma mensagem de
humanidade. Juntando-se a mim para discutir o genocídio em Gaza e a falha dos
governos ocidentais em intervir ou cumprir a lei internacional está Francesca
Albanese. Vamos esclarecer a situação em Gaza. É muito sombria. Não podemos
amenizá-la, especialmente desde 2 de março.
Francesca
Albanese: Sim,
Chris. Antes de tudo, obrigada por me receber. É um prazer. Olha, a situação em
Gaza se tornou tão podre, tão horrível que eu realmente não tenho mais palavras
para descrevê-la. Lembro que quando recebi os primeiros relatos sobre casos de
fome foi no ano passado, principalmente no norte de Gaza, que, por sinal, está
completamente ilhado do nosso entendimento sobre o que acontece em Gaza. De
certa forma, a miséria que vemos está no sul de Gaza. O norte está
completamente obscurecido. Mas quando recebi os primeiros relatos sobre fome,
lembro de pessoas em Gaza dizendo: “Estamos nos transformando em monstros”. E
isso é algo que ouço cada vez mais. A fome é tanta, tão generalizada, tão
profunda, que está reduzindo as pessoas a um estágio de pré-humanidade. E é
isso que acontece com quem vive essa brutalidade. Elas são forçadas, empurradas
de volta a um espaço que antecede a civilização. E, novamente, pensar que isso
é estratégico, que é intencional por parte de Israel, é uma mancha para todos
nós. Como podemos permitir que isso aconteça? Por que os Estados europeus e os
árabes ainda não enviaram suas marinhas para romper o bloqueio? Isso precisa
ser feito. É uma obrigação, não um ato de caridade. Eles precisam romper o
cerco. E já é tarde demais, sabe? Essa é a situação em Gaza: devastadora.
Chris
Hedges: Essa
é a natureza da ação da flotilha com Greta Thunberg — claro que não iriam
conseguir passar, mas foi um ato de constrangimento, de certa forma, um ato de
consciência, certamente um ato de coragem. Sua voz tem sido inabalável desde o
início do genocídio. E, ainda assim, muitos de nós que denunciamos o genocídio
precisamos aceitar que não conseguimos salvar uma única vida — mas mesmo assim
devemos continuar falando.
Francesca
Albanese: Sabe,
eu sempre me pergunto: para quê? Porque, de novo, me sinto inquieta. Nunca paro
de falar sobre Gaza, a Cisjordânia, os palestinos. Porque acho que, como
muitos, carrego uma ferida agora. É algo que eu nunca quis ver acontecer de
novo. Também sou de uma geração que viu e leu sobre o genocídio em Ruanda.
Tenho memórias vívidas do genocídio na Bósnia e Herzegovina. E ver o genocídio
dos palestinos em câmera lenta, sendo a cronista disso, me fere
irreparavelmente — mas está tudo bem. Minha única forma de cura é garantir que
as pessoas acordem e percebam que isso tem as digitais de todos nós. E quando
digo isso, não é de forma retórica — é real. Porque quando se vê os lucros que
empresas registradas em países ocidentais e outros estão obtendo com o
genocídio dos palestinos… se perde a fé na humanidade de vez. E é verdade que
não conseguimos salvar vidas, mas não sabemos, pois acredito que se Israel
tivesse carta branca, já teria limpado Gaza dos palestinos. Na verdade, ao
denunciar o que Israel está fazendo, estamos contribuindo para garantir que a
Palestina não desapareça dos mapas. Dentro de mim tenho a sensação de que o
sacrifício dos palestinos em Gaza continuará a menos que haja um embargo de
armas e que o bloqueio – quero dizer, o cerco – seja rompido, e isso não pode
acontecer sem medidas coercitivas. A única maneira de proteger Israel, de
garantir que Israel esteja protegido, é parando Israel. Israel é prejudicial
aos palestinos, à região, para muitos de nós, para si mesmo e para seus
cidadãos. Isso é algo que os israelenses devem entender. Pessoalmente, sinto
muita dor pelos próprios israelenses, porque acho que eles devem estar tão
traumatizados que perderam sua humanidade. E só consigo pensar em uma grande
forma de cura tanto para palestinos quanto para israelenses. Mas, novamente,
não sei, certamente não salvamos vidas, mas contribuímos para mostrar a
verdadeira face do apartheid de Israel.
Chris
Hedges: Sobre
medidas coercitivas: eu cobri a retirada das forças iraquianas do norte do
Iraque quando estavam realizando uma campanha genocida contra os curdos. As
forças da Otan estabeleceram uma zona de exclusão aérea. As forças iraquianas
tiveram que se retirar do que estava acontecendo com os curdos. E isso nem é
comparável com o que está acontecendo com os palestinos em Gaza. Mas naquele
momento ficou claro que apenas medidas coercitivas salvaria os curdos. Você
está, é claro, apontando corretamente o ponto em que estamos agora com os
palestinos: sem medidas coercitivas, e isso tem que ser imposto de fora, a
campanha de genocídio de Israel (e provavelmente o deslocamento) não serão
interrompidos.
Francesca
Albanese: Absolutamente.
E sabe o que me choca? Quando falo com Estados-membros [da ONU], mesmo os mais
“iluminados”, do Ocidente – que eu chamo de minoria global, dada nossa
irrelevância territorial neste mundo – parece haver uma posição orientada pelos
direitos humanos sobre a Palestina. Quando faço minhas recomendações, eles
dizem: “Ah, mas você realmente espera que boicotemos Israel?” A um Estado não
cabe boicotar, mas tem a obrigação de não ajudar, não cooperar, não
comercializar com Israel, não enviar armas, não comprar armas, não fornecer
tecnologia militar, não adquirir tecnologia militar. Isso não é um ato de
caridade: é sua obrigação. Há uma grande indiferença dos Estados-membros, mesmo
os que parecem ter mais princípio, com a violação completa da lei internacional
E a única coisa que vem à mente deles é: “Você acha que vamos realmente isolar
Israel?” Sim, sim, o fato de que eles estão realmente relutantes mostra o quão
longe estamos da solução da questão.
Chris
Hedges: Há
a fome: mais de meio milhão de palestinos estão agora à beira da inanição. E
não há água limpa. Nem, claro, suprimentos médicos, ajuda humanitária ou
qualquer coisa. 90% dos palestinos estão vivendo em tendas ou ao ar livre. Onde
isso vai parar? Israel está atraindo os palestinos como ratos para uma
armadilha no sul. ninguém acha que os centros de ajuda ou a quantidade de
comida (insignificante) seja algo mais do que isca para, essencialmente,
amontoar palestinos em complexos vigiados no sul. E, claro, estão atirando em
dezenas de palestinos por dia que, em desespero, buscam algo para comer. Eles
vão empurrá-los para o Sinai? Você tem alguma ideia ou talvez Israel não saiba?
Francesca
Albanese: Não
tenho uma noção precisa, além de saber que Israel, por agora, estaria bem com
qualquer solução que tire os palestinos da Faixa de Gaza, depois da Cisjordânia
e, provavelmente, depois de Israel. São estes os três estágios da limpeza
étnica planejada da Palestina histórica; nunca deve-se esquecer que Israel é um
Estado que foi criado dentro da Palestina. Faixa de Gaza, Cisjordânia e
Jerusalém Oriental são os pequenos pedaços de terra que restam. E mesmo lá, os
palestinos não têm liberdade para desfrutar do direito à autodeterminação, de
existir como um povo. IIsrael não quer os palestinos no caminho. Essa é a
verdadeira vitória. 80% da população apoia o governo para manter esse nível de
violência contra os palestinos, especialmente aqueles em Gaza que estão
passando fome enquanto falamos, que não têm nada além de sua dignidade e as
poucas coisas e amores que restam em suas vidas. A única vitória para este
governo, que representa grande parte da sociedade israelense, é se livrar dos palestinos.
Não importa se é o Sinai ou o Congo, eles estão implorando a todos os países
que aceitem os palestinos. E o problema é que ninguém pode fazer isso a menos
que seja forçado, a menos que os palestinos peçam e implorem para serem salvos.
Isso é tão cruel e é isso que está acontecendo. Mas os palestinos ainda não
fizeram isso. Eyal Weizman, da Forensic Architecture, que tem estudado outros
genocídios como o alemão dos povos Nama e Herero na Namíbia, diz que Israel
está seguindo o caminho de confinar as pessoas em um lugar onde não podem
sobreviver por conta própria. É como um campo de concentração. É como ser
totalmente dependente de uma mão que te dá, que distribui algo, mas isso não é
sustentável e todo o resto está sendo destruído. Gaza não voltará a ser o que
era por causa dos danos ambientais, da contaminação, por tudo o que Gaza é
hoje. Mas isso não importa. Se há um lugar para onde os palestinos de Gaza se
mudarão, é Israel. Esta é a oportunidade de permitir que os palestinos retornem
à sua terra natal original. E entendo isso é um grande choque para os
israelenses, mas mais cedo ou mais tarde eles teriam que enfrentar isso. Eles
estão vivendo como muitas outras sociedades colonizadoras. Sinto muito, mas
vocês, israelenses, estão vivendo em terras roubadas. E vocês não podem, como
os estadunidenses que não são nativos americanos e como os australianos que não
são aborígenes, vocês estão vivendo em terras roubadas. E a única redenção que
vocês podem ter nesta vida é corrigir, é reparar os erros do passado. Isso é o
que os israelenses conscientes deveriam fazer.
Chris
Hedges: Vamos
falar sobre apagamento. Israel não está apenas apagando fisicamente a
Palestina, pois atacou também suas universidades, museus, centros culturais.
Apagou fisicamente ou matou através de assassinatos seletivos sua classe
intelectual, seus escritores, poetas, mais de 200 jornalistas, seus médicos. Fale
sobre as intensas campanhas que foram movidas contra você pelo AIPAC e pelo
lobby israelense — não apenas, acredito, por você ser uma voz crítica, mas
porque seus relatórios tornam difícil para Israel apagar o que fez e o que está
acontecendo, algo que todos os autores de genocídio tentam fazer.
Francesca
Albanese: Costumo
dizer que os ataques contra mim são emblemáticos de vários aspectos desta luta.
Por um lado, o que acontece comigo não é único no sentido de ser acusada de
pró-Hamas, pró-terrorismo, antissemita – é a ladainha de falsidades que todos,
do Papa ao secretário-geral, acadêmicos, ativistas, jornalistas, qualquer um
com um mínimo de decência que ousou denunciar a realidade abominável na
Palestina teve que enfrentar. Então o que aconteceu comigo novamente não é
único. O que acho único é a implacabilidade dos ataques e como eles continuam a
crescer porque eu não desisto. Acredito que é porque quanto mais me ameaçam,
mais eu digo: deixe-me ver como posso fazer melhor meu trabalho. Eu os chamo de
cães latidores. São realmente cães latindo: o objetivo é me distrair e não vão
conseguir porque eu os conheço, eu os entendo porque costumo dizer que venho de
um lugar assolado pela máfia. Você sabe quantas coisas percebi nos últimos
meses também sobre mim mesma? Por que sou assim? Por que não tenho medo deles?
Por que toda vez que ligo o carro fico com medo? Claro que há momentos em que
não abro a porta pensando: meu Deus, quem vai estar atrás dela? Mas é por isso
que vivo minha vida de uma forma cheia de significado. Amo minha família. Amo
meus filhos. Amo meu marido. Amo meus amigos. Amo meus colegas e isso é o que
valorizo e cultivo todos os dias e toda noite, quando consigo ir para a cama e
dormir, não tenho arrependimentos porque estou fazendo o que todos deveriam
fazer. Se eu fosse alguém em Gaza ou em outros lugares da Palestina, ou mesmo
um dos muitos israelenses com quem interajo constantemente e que se sentem
desesperados, devastados pelo que está sendo feito em seu nome… Se eu fosse uma
dessas pessoas, adoraria ter alguém que os entendesse, que os ouvisse e que
conectasse os pontos. Isso é o que incomoda soberbamente meus detratores. Não
conseguem me calar, pelo contrário, a cada tapa tentado há uma tempestade
contra eles. Não importa de onde venham, não importa quem sejam, sempre se
transforma em mais apoio a mim. É por isso que quando me perguntam: “Como você
se sente sendo tão odiada?” Eu pergunto: por quem?Por esse bando de capangas e
charlatães que defendem o genocídio. Quem se importa? Mas há um mundo inteiro
em turbulência e de certa forma tenho a possibilidade de ser ouvida, o que é um
enorme privilégio para mim. E porque sei quão falaz a natureza humana pode ser.
Minha âncora continua sendo a lei internacional, da melhor forma que posso
interpretá-la, porque isso é universal. Isso se aplica a todos nós. Isso é para
todos nós. Então não estou trazendo meus preceitos ou minha ideologia. Estou
trazendo algo que pertence a todos nós. E isso é o que incomoda os detratores:
que uso a solidez dos fatos e da lei para dizer quem eles são, para colocá-los
diante de um espelho, e não é que não gostem de mim, mas da imagem que através
de mim têm de si mesmos: genocidas ou apoiadores de um genocídio.
Chris
Hedges: Quanto
isso mudou a comunidade global? E estou pensando em particular, é claro, no Sul
Global, que sofreu seu próprio Holocausto. Você mencionou os Herero e os Nama,
mas os armênios, os quenianos sob o colonialismo britânico, os indianos,
especialmente a fome de Bengala em 1943, por exemplo, três milhões de indianos
morreram. E esses Holocaustos não são reconhecidos por seus perpetradores. Aimé
Césaire, em Discurso sobre o Colonialismo, diz que a razão pela
qual o Holocausto realizado pelos nazistas contra os judeus ressoou foi porque
as táticas empregadas – e estas são suas palavras – contra os coolies na Índia,
os negros na África e os argelinos pelos franceses na Argélia foram voltadas
contra outros europeus brancos. E, claro, tem sido o Sul Global, liderado pela
África do Sul, que se levantou para tentar impor o Estado de direito a Israel
sobre o genocídio. Isso está reconfigurando a comunidade global?
Francesca
Albanese: Acho
que sim. Não tão rápido quanto o fim do genocídio exigiria, mas está. Há
diferentes tendências que vejo. Primeiro, como você disse, há uma convergência
em torno de certas coisas básicas. Nunca ouvi tantas pessoas falando a
linguagem do direito internacional. Sério, como advogada de direitos humanos,
se tivesse a oportunidade de não olhar para o genocídio por um momento,
sentiria que a missão dos direitos humanos está de certa forma cumprida, porque
as pessoas estão conscientes e através de uma lente comum que permite a muitos,
da África à Ásia, à minoria global e outros lugares, olhar para a Palestina e
reconhecer isso. Há algumas coisas em comum. As pessoas falam a linguagem dos
direitos humanos. Fenomenal, não? Há também outro aspecto do despertar: nunca
antes ouvi tantas pessoas conectando os pontos entre o passado e o presente, o
passado colonial e o presente. Não sei se concorda comigo, mas pelo menos sinto
que há uma conscientização global sobre algo que, por muito tempo, foi uma
prerrogativa dolorosa da maioria global, o Sul Global: a consciência da dor e
das feridas do colonialismo. Israel, como uma fronteira colonialista ocidental
está dando a oportunidade de entender o que é o colonialismo de povoamento e o
que fez. A terceira coisa é que o despertar está vindo ao conectar os pontos. E
olha, teremos a chance de conversar quando meu relatório sair. Mas continuo
dizendo duas coisas enquanto me preparo para revelar o que descobri através dos
achados dos últimos seis meses de investigação: que o genocídio em Gaza não
parou porque é lucrativo, é rentável para muitos. É um negócio. Pessoas
exploraram – quero dizer, há entidades corporativas, inclusive de Estados
amigos da Palestina, que há décadas fizeram negócios e lucraram com a economia
da ocupação, porque Israel sempre explorou a terra, os recursos e a vida
palestina. Mas os lucros continuaram e até aumentaram quando a economia da
ocupação se transformou em uma economia de genocídio. E, novamente, as pessoas
precisam entender isso porque os palestinos têm simplesmente – e digo
simplesmente com muita dor, sem querer ser desrespeitosa – forneceram esse
campo de treinamento ilimitado para testar tecnologias, armas, técnicas de
vigilância que agora estão sendo usadas contra pessoas em todos os lugares, do
Sul ao Norte Global. Veja o que está acontecendo nos EUA ou na Alemanha. Somos
espionados. Veja o uso de drones, de biometria. Todas essas coisas foram
testadas primeiro nos palestinos. Então acho que há essa ligação: o capitalismo
desenfreado e ilimitado, que tem sido um capitalismo racial colonial também
para os palestinos, prejudicial para todos nós. Então como responder a isso?
Vejo um movimento, uma revolução em gestação, que chamo de revolução da
melancia. Há jovens, trabalhadores, judeus antissionistas ou judeus que não
se reconhecem como antissionistas, mas ainda assim não querem ter nada a ver
com os crimes de Israel e não querem que sejam cometidos em seus nomes. Então
há esse movimento e, no nível de países, vejo por exemplo o Grupo de Haia, que
é uma coalizão principalmente de países do Sul Global – e não deveria ser
assim. Apoiei, sustentei, elogiei esses países e peço que outros Estados da
Ásia à África, e especialmente o Ocidente, se juntem ao grupo, que diz: vamos
começar dando alguns passos mínimos para cumprir a lei internacional. Nada de
impunidade, nenhum porto seguro e nenhuma arma para Israel. O que é realmente
básico, mas é aqui que estamos. Passos de bebê.
Chris
Hedges: Você
pode falar sobre o que há neste relatório que está por sair: De algumas das
corporações globais que estão lucrando com o genocídio e como estão lucrando?
Francesca
Albanese:
Não poderei dizer muito porque o relatório ainda está embargado. Mas decidi
listar cerca de 50 entidades corporativas, desde fabricantes de armas até
grandes empresas de tecnologia, empresas que fornecem materiais de construção
ou extraem materiais de construção do Território Palestino Ocupado, indústria
do turismo, bens e serviços, cadeia de suprimentos. E esses são os dois
principais setores do deslocamento e substituição dos palestinos. E há uma rede
de facilitadores como seguradoras, fundos de pensão, fundos de riqueza, bancos,
universidades, instituições de caridade. É um ecossistema sustentando essa
ilegalidade. O setor privado tende a escrutínio, eles são muito espertos. E, de
fato, o setor privado historicamente tem sido um condutor do colonialismo de
ocupação. Pense nas Companhias das Índias nos anos 1600, por exemplo,. Elas
partiam dos portos holandeses para alcançar e colonizar as Índias Ocidentais ou
o Sudeste Asiático. Por que diabos? E isso aconteceu. Mas também há casos onde
empresas ou entidades privadas não foram os condutores, mas os facilitadores,
fornecendo ferramentas, fundos para empreendimentos coloniais que depois lhes
renderam lucros. E é por isso que grandes empresas e interesses corporativos
ajudaram a moldar a lei para escapar do escrutínio. Não é novo que empresas
lucrem com genocídios, mas pense no que aconteceu durante o Holocausto. Os
julgamentos dos industriais do Holocausto ajudaram a entender como empresas
fizeram negócios com a tragédia de milhões de judeus. E é chocante ver que
algumas das empresas consideradas responsáveis nos julgamentos dos industriais
do Holocausto ainda estão envolvidas no genocídio dos palestinos. E houve a
experiência da África do Sul após a Comissão de Verdade e Reparação – algumas empresas
foram condenadas a fazer reparações. Houve momentos históricos que levaram a
maior regulação para empresas. Por exemplo, os princípios orientadores da ONU
sobre due diligence para empresas são um resultado da
experiência sul-africana. E, ainda assim, não é suficiente. Definitivamente não
é suficiente, porque empresas continuam operando nas áreas cinzentas da
responsabilidade estatal. Notifiquei 48 empresas e a resposta foi: “Mas não é
nossa culpa, é Israel”. “Não cabe a você nos dizer o que fazer, são os
Estados”. Não, sinto muito. Hoje a ocupação é ilegal. Israel foi notificado,
está sendo investigado direta ou indiretamente em pelo menos três processos por
genocídio, crimes contra humanidade e crimes de guerra. Vocês não podem
continuar business as usual. E se continuarem, terão que enfrentar
a justiça. Então, provavelmente, a tempestade que ajudarei a levantar contra
eles será garantir que a sociedade civil e advogados em todos os países onde
essas empresas estão registradas atuem, e que consumidores saibam que
podem votar com seus pés, podem boicotar. Por exemplo, há empresas
de turismo que promovem propriedades em assentamentos. Ou agentes imobiliários
que vendem “bairros anglófonos agradáveis no coração de Judeia e Samaria”. Isso
é normalização da ocupação por um grupo, e essas empresas serão punidas. Talvez
não na justiça, mas certamente perderão muitos clientes quando souberem o que
elas estão fazendo.
Chris
Hedges: Para
encerrar, vamos falar sobre organismos internacionais – o TPI, a ONU. Eles
certamente se manifestaram contra o genocídio, tentaram responsabilizar Israel,
mas não têm mecanismos de execução. Como você vê essas organizações e seu papel
no genocídio?
Francesca
Albanese: Olha,
não concordo totalmente com o argumento de que não há mecanismos de execução.
Há mecanismos – os Estados-membros, que têm obrigação de executar as decisões
da CIJ. Há até o Conselho de Segurança que, no ano passado, aprovou uma
resolução ordenando cessar-fogo em Gaza, que não foi respeitada. Então não há
execução de nada concebido para limitar a impunidade de Israel. E de certa
forma, sim, concordo com você. Israel é visto como parte do colonialismo
ocidental, da confrontação do Ocidente com o resto do mundo, o que é
vergonhoso. Não deveríamos estar ainda nesta ótica racializada. Somos parte da
mesma família. Isso é humanidade. Não importa sua cor, seu deus ou falta dele,
mas o que nos faz humanos, e somos os mais cruéis entre todos os animais, com
tantas barreiras que erguemos e precisamos derrubar. Esta é a chance – não sei
se necessitará outro genocídio, mas este está desencadeando algo mais. Viu a
guerra contra o Irã? Era totalmente previsível, porque Israel semeia guerras na
região há décadas. Foi o Iraque, depois outros países, Líbia e Síria também
devastados. É verdade, não se pode culpar Israel por tudo. Mas Israel
certamente se beneficiou da aniquilação de adversários na região. E bombardear
o Irã foi alimentar um demônio. Era o objetivo de longo prazo de vários
governos israelenses, e finalmente aconteceu. O que Israel tem a ganhar com
isso? Com a morte de inocentes, iranianos ou israelenses? Por isso digo: isso
precisa parar. O mecanismo de execução existe – são os Estados. Mas eles
empurram com a barriga, esperando um deus ex machina como a UE
ou a ONU intervir. Tudo começa com os principais Estados membros e é por isso
que mais uma vez elogio muito o Grupo de Haia, porque eles estão agindo não
como uma organização regional ou trans-regional, mas como uma coalizão de
Estados com princípios e pensamentos semelhantes.
Fonte: Por
Francesca Albanese em entrevista a Chris Hedges, no Counterpunch | Tradução:
Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário