segunda-feira, 21 de julho de 2025

Denize Bacoccina: A decepção da imprensa paulista com Tarcísio e a volta do “e o Lula?”

Das fábricas e fazendas paulistas (aviões, máquinas, café, laranja, carne) do Estado de São Paulo saem um terço das exportações brasileiras com destino aos Estados Unidos. Seria natural, portanto, que a imposição de uma sobretaxa de 50% às exportações brasileiras, anunciada pelo presidente Donald Trump no dia 9 de julho, mobilizasse a imprensa paulista.

Ouvir empresários que serão prejudicados com essa barreira tarifária, empresas que estão perdendo contratos, como estão se preparando para buscar novos mercado para compensar e especialistas do tema são pautas obrigatórias para ajudar o leitor a entender o impacto da medida e os efeitos na economia, nos empregos.

Mas não foi isso o que se viu na imprensa nos dias seguintes. Algumas matérias trouxeram sim o impacto esperado na economia. Mas os editoriais dos dois maiores jornais do estado, Estadão e Folha de S. Paulo, colocam o foco sobre o governador Tarcísio de Freitas. Não exatamente sobre suas decisões ou mesmo declarações. Mas sobre as consequências para sua possível candidatura a presidente, no próximo ano. De quebra, ressuscitaram o velho “e o Lula, hein?”, muito utilizado por bolsonaristas quando querem desviar o assunto do ex-presidente, que nesta semana teve a condenação pedida pela PGR pela trama golpista e pode ser condenado a qualquer momento pelo STF.

A falta de cobertura sobre o governo estadual já é uma prática antiga da imprensa. Pouco sabemos sobre votações na Assembleia Legislativa, os serviços de saúde e a educação no estado e até mesmo a venda de empresas importantes passa longe das pautas. Os jornais cobrem o governo estadual não pelas políticas públicas ou mesmo pela gestão. Cobrem apenas a política partidária.

E, desde que Tarcísio foi ungido como o candidato preferido pelo “mercado”, pela “Faria Lima” e considerado “direita moderada”, não se cobre o seu governo, mas as suas chances de derrotar Lula. Praticamente toda semana ganha destaque uma pesquisa sobre as eleições do ano que vem, embora o cenário mude muito pouco.

E foi essa lógica que pautou os editoriais na última semana. Já na noite do dia 9, o Estadão publicou “Coisa de Mafiosos”, um editorial dizendo que “a reação inicial de Lula foi correta”, e condenando a reação de Tarcísio, que no dia anterior havia endossado uma crítica de Trump ao Brasil. “É absolutamente deplorável que ainda haja no Brasil quem defenda Trump, como recentemente fez o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que vestiu o boné do movimento de Trump, o Maga (Make America Great Again). Vestir o boné de Trump, hoje, significa alinhar-se a um troglodita que pode causar imensos danos à economia brasileira.”

Foi tão fora da curva que no dia seguinte o texto circulava intensamente nos grupos de Whatsapp com comentários surpresos.

No dia 13, o jornal voltou ao assunto no texto “Aprendizes de Bolsonaro”. Dizia que o ex-presidente não virá a público condenar a sobretaxa de Trump e que “é ultrajante a complacência de governadores como Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO) diante dos ataques promovidos pelo presidente dos EUA ao Brasil” e ainda que “Tarcísio, Zema e Caiado, todos aspirantes ao cargo de presidente da República, usaram suas redes sociais para tentar impingir a Lula, cada um a seu modo, a responsabilidade pelo “tarifaço” de Trump contra as exportações brasileiras”.

Dois dias depois, o Estadão voltou ao assunto, no editorial “Bolsonaro, o patriota fajuto”. “Passou da hora de as lideranças políticas conservadoras, entre as quais se destaca o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, escolherem de que lado estão, afinal: do Brasil ou de Bolsonaro. São dois caminhos absolutamente antitéticos.”

No dia 16, novo texto, “O Teorema de Tarcísio”, o jornal afirma que “Tarcísio de Freitas se encardiu de bolsonarismo e, em troca, recebeu dos Bolsonaros o mais absoluto desprezo”, sobre a briga pública do governador com o deputado Eduardo Bolsonaro, que o criticou por suas declarações contra a sobretaxa de Trump. O jornal criticou, mas não desistiu de seu candidato. “A boa notícia, para Tarcísio, é que ainda há uma porta de saída honrosa aberta diante do governador paulista: esconjurar Bolsonaro, pública e peremptoriamente.”

E de certa maneira pede que ele desista de buscar a benção bolsonarista para a próxima eleição. “Se Tarcísio de Freitas é um genuíno democrata, e não temos razões para duvidar disso, então ele não se importará de perder a próxima eleição se esse for o preço a pagar pela reafirmação dos mais caros valores da democracia brasileira”.

A Folha ignorou o assunto no primeiro dia, mas no dia seguinte também se aliou às críticas a Trump com o texto “Chantagem rasteira de Trump não passará”. Começa elogiando o sangue frio de Lula. “Nesse quesito, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem se portado bem, o que ficou mais uma vez atestado na reação sóbria do Planalto ao anúncio do tarifaço” e cobra uma posição do governador Tarcísio de Freitas. “Chegou a hora de lideranças como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) escolherem de que lado estão. Ou bem Tarcísio defende os exportadores paulistas e a soberania brasileira ou continua posando de joguete de boné de um agressor estrangeiro e da família Bolsonaro, cujo patriotismo de fancaria se dissolve e se transforma em colaboracionismo diante da perspectiva da cadeia.”

No dia seguinte, com o texto “Agressão de Trump dificulta equilibrismo na direita”, concede que “a truculência ignara do republicano deu de imediato a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o papel de defensor dos interesses nacionais ante a chantagem de uma potência estrangeira”, mas volta a se preocupar com a atuação de Tarcísio, que juntamente com outros postulantes à presidência de direita, Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO), “corre o risco de não parecer confiável a ninguém”.

A inversão de valores e a torcida por Tarcísio ficam mais evidentes no texto publicado no dia 14, “Tarcísio se queima no tiroteio entre Trump e Lula”, afirmando que a crise provocada pelo presidente americano deixou como vítima o governador de São Paulo. “Sua inabilidade no manejo do episódio causou espanto mesmo entre aqueles que acreditam em suas juras de moderação, que vinham dando a ele a posição de principal alternativa na direita para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano que vem”, afirma o editorial.

O jornal também relembra a postura errática do governador, e demonstra seu descontentamento com esse fato, que pode ter consequências eleitorais. “Até aqui o governador colhe o pior de dois mundos, além de presenciar Lula ganhar um ativo político em momento de desgaste”, diz. E já muda de tom em relação ao presidente. “Por óbvio, envergar a armadura de defensor da pátria não retira responsabilidades do petista. O atraso do Brasil na integração ao mundo, marca dos governos Lula, resulta em vulnerabilidade e dependência maior dos EUA.”

Para os jornais paulistas, o prejuízo às empresas brasileiras, diretamente afetadas, é tema secundário: o que importa mesmo é o quanto a guerra comercial declarada por Trump prejudica a candidatura de Tarcísio de Freitas. Acima de tudo, para eles, é preciso evitar a reeleição do presidente Lula.

¨      É sobre a extrema direita, mas é ainda mais sobre nós. Por Ivan Moraes

O termo técnico-científico para descrever o ato convocado por Jair Bolsonaro com o objetivo de pedir arrego e anistia no processo em que responde por diversos crimes é: “flopada”. Pois é. Aparentemente, salvo um ou outro dodói que resolveu passar o domingo em companhia de gente fascista e despirocada, o público esperado pelos organizadores simplesmente achou algo melhor para fazer no final de semana.

Não me cabe (nem desejo) analisar os motivos pelos quais os apoiadores ignoraram o chamado do ex-presidente (preguiça, cansaço, desilusão?). Mas começo a semana com outra convocatória, esta encabeçada pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. A turma está convidando todo mundo às ruas no próximo dia 30 de março justamente para se manifestar contra qualquer anistia a quem arvorou-se contra a democracia no fatídico 8 de janeiro de 2023 — inclusive seu destrambelhado líder.

Enquanto escrevo ainda não há informações públicas sobre os detalhes do ato no Recife. Não sei se vamos nos concentrar no Derby, na Praça Osvaldo Cruz ou no Parque Treze de Maio, para seguir a tradição da esquerda. Ou será que, dessa vez, vamos ousar tirar nossa onda na orla de Boa Viagem, para irritar os poucos extremistas que sobraram no Recife? Não sei.

Mas sei que já está na agenda. Porque eu quero que Bolsonaro se arrombe, porque eu quero ver golpista responsabilizado, porque eu não resisto a um bom convite para ir às ruas. Mais do que tudo: quero reencontrar minha turma, dar um abraço apertado, olhar no olho e falar das tarefas que temos pela frente – e não são poucas.

Se é certo que o maior nome da extrema direita nacional está abalado, descompensado e choroso, com medo de ir em cana, também é verdade que não faltam candidatos ávidos e dispostos a tomar o seu lugar.

Entre politicões, ex-coaches, pseudo-artistas, mercadores da fé e aproveitadores de toda sorte, não faltam rostos para carregar o andor protofascista que ganhou peso no mundo inteiro nos últimos anos. Se botar o nome dessas almas sebosas todas num globo de bingo, aposto que o que sair já começa uma campanha presidencial com 20% dos votos.

Faltando menos de dois anos para uma disputa eleitoral perigosíssima, o que nós temos neste amplo, múltiplo e complexo campo progressista? Uma fé inabalável de que Lula segue sendo nossa única esperança — não para avançar com as políticas públicas que o país precisa para universalizar os Direitos Humanos, mas simplesmente para barrar a sanha reacionária que saliva ouriçada a cada tropeço do atual governo.

Verdade seja dita: em março de 2025, ninguém mais nas esquerdas, independentemente de experiência ou competência, parece ter votos para disputar o cargo mais importante da democracia formal brasileira no ano que vem.

Mesmo se a gente esticar a corda para o que temos chamado de “campo democrático”, que vai até a centro-direita, é difícil enxergar outro nome com capacidade eleitoral (hoje) de barrar o avanço daqueles que torcem pelo “quanto pior, melhor”.

E eles já não escondem o objetivo nítido de retroceder na garantia de Direitos Humanos, celebrando como um gol cada passo da barbárie que Donald Trump anda promovendo nos Estados Unidos.

Sim, responsabilizar Bolsonaro é para ontem. Não é nem escolha. Anistiar quem nos fez tão mal abre um precedente absurdo e perigoso. Só não podemos perder de vista o dever histórico de seguir adiante.

Conversar com mais gente, participar mais, cobrar muito e cobrar sempre. Formar novas lideranças e ocupar a política, partidos e mandatos, assembleias e conferências.

Se em 2022 o objetivo era “apenas” barrar o processo autoritário que se avizinhava, em 2026 precisamos querer mais. Democracia é bom, mas dá um trabalho danado.

¨      PGR confirma uso da Abin como aparelho clandestino a serviço de Bolsonaro

As alegações finais apresentadas pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal nesta semana escancaram o que o Jornal GGN revelou ainda em 2022: a existência de uma estrutura clandestina de espionagem montada no coração da Abin, a serviço direto dos interesses políticos do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em 517 páginas, o procurador-geral Paulo Gonet pede a condenação de Bolsonaro, de ex-ministros e de militares por envolvimento na trama golpista, e antecipa qual será sua posição no inquérito da chamada “Abin Paralela”.

Segundo Gonet, o uso da agência de inteligência para espionar adversários, interferir em investigações e disseminar fake news eleitorais configura um “gravíssimo desvio de finalidade institucional”.

O nome da agência aparece nada menos que 209 vezes no documento. Um dos principais alvos é o general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Parte superior do formulário

Parte inferior do formulário

De acordo com o procurador-geral, Heleno atuou diretamente na construção da narrativa conspiratória de Bolsonaro e autorizou a infiltração ilegal de agentes da Abin em campanhas de candidatos adversários.

“Augusto Heleno preparou a narrativa difundida pelo então presidente da República em diversos pronunciamentos públicos e anuiu com espionagens ilegais, baseadas em interesses particulares de Jair Bolsonaro”, afirmou Gonet.

A avaliação dentro do próprio STF é de que as alegações da PGR são tão robustas que bastaria um “Ctrl C + Ctrl V” para transformar o texto em denúncia formal, de acordo com informação da CNN. A expectativa é que isso ocorra em breve.

O Jornal GGN foi o primeiro veículo a denunciar, em 2022, o uso ilegal da Abin para fins de perseguição política. Os detalhes estão expostos no livro de Luis Nassif, “A Conspiração Lava Jato”.

<><> GGN foi o primeiro a revelar a espionagem ilegal dentro da Abin

Em maio de 2022, artigo de Luis Nassif trouxe à tona diversos sistemas de tecnologia adquiridos pela Abin e pelo Comando de Defesa Cibernética do Exército (ComDCiber), à serviço do governo Bolsonaro, que poderiam ser usados para monitorar pessoas.

O esquema envolvia servidores da Abin com acesso privilegiado à ferramenta, sem qualquer autorização judicial, em franca violação à Constituição e à Lei das Interceptações. O uso do sistema era orientado por interesses políticos e pessoais, com ramificações no entorno do chamado “gabinete do ódio”.

O desvio de finalidade da Abin contava com conivência de altos escalões do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), então comandado pelo general Augusto Heleno. O caso foi ignorado pelos grandes veículos de imprensa, mas causou um grande escândalo à época com a cobertura do GGN, e apenas agora, mais de dois anos depois, começa a ser tratado com a gravidade que exige, à medida que as investigações da PGR e do STF avançam sobre o chamado “núcleo de inteligência paralela”.

 

Fonte: Observatório da Imprensa/Jornal GGN

 

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