Estamos
sendo explorados até a morte pelo capital
Recentemente,
me deparei com um pôster com um nome difícil de lidar. Ele está listado na
Amazon e no Etsy como “Hustle Weekly Schedule Canvas Print Motivational Wall
Office Decor Modern Art Entrepreneur Inspirational Rise Grind Entrepreneurship
Success” [Pôster Cronograma Semanal de Trabalho Motivacional, Decoração Moderna
para Escritório, Inspiração para Empreendedores, Acordar e Trabalhar Duro,
Mentalidade de Sucesso].
O nome
SEO não é fácil de pronunciar, mas transmite a essência do objeto. É uma
impressão retangular — uma versão de 36 x 24 polegadas custa US$ 120 na Amazon
— com texto preto sobre fundo branco. “CRONOGRAMA SEMANAL” está escrito na
parte superior. “Levante-se e trabalhe 24 horas por dia, 7 dias por semana” vem
em letras menores abaixo, seguido de “Nova semana, novas metas!”. Abaixo, vem o
cronograma, que diz o seguinte:
Segunda-feira:
TRABALHO INTENSO
Terça-feira:
TRABALHO INTENSO
Quarta-feira:
TRABALHO INTENSO
Quinta-feira:
TRABALHO INTENSO
Sexta-feira:
TRABALHO INTENSO
Sábado:
TRABALHO INTENSO
Domingo:
TRABALHO INTENSO
Na
parte inferior, há uma linha em letras miúdas: “Você não pode ter o sonho de um
milhão de dólares com uma ética de trabalho de salário mínimo”.
Me
deparei com esta decoração enquanto fazia uma das minhas frequentes pesquisas
na internet sobre a cultura do trabalho intenso, um mundo de pessoas se
convencendo a trabalhar mais e por mais tempo. A rotina semanal de trabalho
intenso pode ser cômica em sua aceitação sorridente da autoexploração, e muitas
pessoas a achariam ridícula, mas também é um reflexo de como as demandas do
trabalho são vivenciadas por um número cada vez maior de pessoas: constantes,
com fins de semana inexistentes e um segundo e terceiro empregos sendo uma
necessidade.
O tempo
de trabalho está se expandindo para todos os cantos da vida das pessoas e está
matando centenas de milhares delas a cada ano.
Essa é
a conclusão de um novo relatório da Organização
Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que
analisa os índices de saúde de pessoas que trabalham cinquenta e cinco horas ou
mais por semana. As organizações analisaram dados de todo o mundo e descobriram
que, em 2016, trabalhar cinquenta e cinco horas ou mais por semana resultou em
745.194 mortes, acima das aproximadamente 590.000 em 2000. Dessas mortes,
398.441 são atribuíveis a derrames e 346.753 a doenças cardíacas. Isso coloca
aqueles que trabalham essas horas em um risco estimado de 35% maior de derrame
e 17% maior de doenças cardíacas em comparação com pessoas que trabalham de
trinta e cinco a quarenta horas por semana. Homens e adultos de meia-idade são
particularmente expostos, e o problema é mais prevalente no Sudeste Asiático.
Quanto
aos efeitos nocivos do excesso de trabalho sobre nós, o relatório identifica
dois caminhos. Para alguns, o estresse do excesso de trabalho pode fazer com
que o corpo libere hormônios do estresse em excesso, que desencadeiam problemas
cardiovasculares. Para outros, o estresse pode levar a hábitos pouco saudáveis,
como fumar, beber em excesso, má alimentação, falta de exercícios e sono ruim,
que por sua vez contribuem para o risco cardiovascular.
A
prevalência do problema torna o excesso de trabalho mais perigoso do que outros
riscos ocupacionais. A exposição a agentes cancerígenos mata menos pessoas do
que uma longa semana de trabalho. Certamente não é a única forma de o trabalho
matar — mortes no trabalho ainda ceifam muitas vidas em todo o mundo —, mas é
um problema crescente. Muitos de nós estamos expostos à exaustão: em 2016, 8,9%
da população global, cerca de 488 milhões de pessoas, trabalhavam pelo menos 55
horas por semana.
Por que
estamos trabalhando até a morte? A expansão da gig economy e o
declínio do trabalho estável — e a redução do poder dos trabalhadores que
resulta e deu origem ao chamado trabalho gig — são os
principais responsáveis.
Nas
décadas que se seguiram à Revolução Industrial, houve uma tendência de queda no
número médio de horas trabalhadas, ainda que essa tendência tenha sido
observada de forma desigual ao redor do mundo e entre segmentos da classe
trabalhadora. Grande parte disso se deve aos esforços dos próprios
trabalhadores para assumir o controle de suas vidas. “Se você ama o fim de
semana, agradeça a um sindicato”, como dizem.
O
martírio dos radicais em Haymarket, em 1886, ocorreu em um comício pela jornada de oito
horas, por exemplo, que se seguiu a décadas de esforços para impor os primeiros
limites à jornada de trabalho, bem como ao trabalho infantil. Como disse Samuel
Gompers, o primeiro presidente da AFL-CIO, durante a luta pela jornada de oito
horas: “Por mais que discordem em outros assuntos […] todos os trabalhadores
[…] podem se unir em torno disso.”
Mas,
nos últimos anos, a tendência de redução da jornada de trabalho foi
interrompida e, em alguns casos, revertida. Um relatório da OIT de 2018 constatou que houve uma
bifurcação na jornada de trabalho, “com parcelas substanciais da força de
trabalho global trabalhando jornadas excessivamente longas (mais de 48 horas
por semana), o que afeta particularmente os homens, ou jornadas curtas/de
trabalho em meio período (menos de 35 horas por semana), o que afeta
predominantemente as mulheres”.
A
ligação entre excesso de trabalho e subtrabalho, ou desemprego, não é nova.
Como Karl Marx descreve em O Capital, “o excesso de trabalho da
parcela empregada da classe trabalhadora engrossa as fileiras da reserva,
enquanto, inversamente, a maior pressão que a reserva, por sua concorrência,
exerce sobre os trabalhadores empregados os força a se submeter ao excesso de
trabalho e os submete aos ditames do capital”.
A
reserva aqui é o exército de reserva de mão de obra, as pessoas que ficam do
lado de fora dos portões da fábrica, servindo como uma ferramenta útil para o
empregador quando um trabalhador reclama (“Se você não quer esse emprego, há
muitas pessoas que alegremente o tirariam de suas mãos!”) O excesso de trabalho
se junta à falta de trabalho: no varejo, por exemplo, a maioria dos empregos
agora é de meio período, uma grande mudança em relação a algumas décadas atrás,
quando cerca de 70 a 80 por cento desses empregos eram de tempo integral.
Essas
conexões tornam a luta por jornadas de trabalho mais curtas e maior controle
sobre a escala de trabalho estrategicamente generativa: a demanda une pessoas
de diferentes posições na sociedade e, para desgosto dos chefes, pode unir os
interesses dos empregados, subempregados e desempregados.
Jon
Messenger, autor do relatório da OIT de 2018, associa o aumento da jornada de
trabalho a alguns desenvolvimentos. Houve “uma diversificação dos arranjos de
tempo de trabalho”, escreve ele, “com um afastamento da semana de trabalho
padrão, que consiste em horas de trabalho fixas por dia, durante um número fixo
de dias, e a adoção de diversas formas de arranjos de tempo de trabalho
‘flexíveis’ (por exemplo, novas formas de trabalho em turnos, média de horas,
arranjos de horário flexível, semanas de trabalho comprimidas, trabalho sob
plantão)”. Com esses arranjos, surgem as expectativas de que se esteja sempre
de plantão — Acordar e Trabalhar Duro 24/7.
Esses
novos padrões de disponibilidade estão interligados ao uso crescente de novas
tecnologias de informação e comunicação e à proliferação de smartphones,
laptops e tablets. Hoje, seja um trabalhador de colarinho branco nos Estados
Unidos ou um motorista de aplicativo na Índia, não há uma fronteira clara entre
estar quite e não estar quite. Não apenas o tempo pessoal, mas também os
espaços pessoais — pense: uma chamada de Zoom com seu chefe, que o coloca
virtualmente dentro de sua casa — são colonizados pelo trabalho.
Esta é
uma emergência para a classe trabalhadora, uma emergência que exige ação. É
preciso reduzir a jornada de trabalho para aqueles que trabalham até a morte e
garantir a jornada mínima de trabalho para aqueles que lutam para conseguir
renda suficiente para se manter. Precisamos de limites mais fortes entre o
trabalho e o resto da nossa vida, bem como leis sobre licenças remuneradas e
licenças médicas para garantir que os trabalhadores não sejam forçados a se
moldar às demandas dos empregadores. E é preciso haver uma organização de
trabalhadores forte o suficiente para fazer cumprir essas leis e normas.
O
trabalho, pelo menos como existe atualmente, é uma droga. Há um motivo para
eles terem que te pagar para fazê-lo. Com o excesso de trabalho matando quase
um milhão de pessoas por ano, agora é a hora de redobrar a luta por menos tempo
para o chefe e mais tempo para o que queremos. Nossas vidas não devem ser
centradas na produção visando o lucro. Se afrouxarmos o controle que a
disciplina do trabalho exerce sobre o nosso uso do tempo, escreveu EP Thompson,
podemos “reaprender algumas das artes da vida […] como preencher os
interstícios do dia com relações pessoais e sociais mais enriquecedoras e
tranquilas”. Ou, como disse um dos autores de um manifesto
pós-trabalho:
“É hora de começar uma vida”. É isso ou morremos. Nova semana, novas metas!
¨ A urgência de um
pacto social planetário. Por Leonardo Boff
Reinam
demasiada inconsciência e profundo negacionismo no mundo, tão graves que podem
custar nossa vida nesse planeta. O fato é que estamos numa nova fase da Terra e
da humanidade: a fase da irrupção da Casa Comum. O Covid-19 deu-nos a lição que
ainda não aprendemos: ele não respeitou os limites e as soberanias das nações.
Mostrou que há uma única Casa Comum e que pode ser toda ela afetada.
Mas não
tiramos nenhuma lição desse fato. Bem disse o italiano Antonio Gramsci, o
grande teórico da política: a história nos dá lições, mas ela quase não tem
alunos. Pouquíssimos frequentaram essa escola e os mais omissos foram e são os
poderosos deste mundo, pensando mais em suas economias do que em salvar a vida
humana e da natureza.
Viemos
de um tempo já bem passado e obsoleto aquele do Tratado de Westfália de 1648
que criou a soberania dos Estados. Depois disso, a Terra e a humanidade mudaram
consideravelmente. Os povos dispersos pelos continentes estão voltando do
milenar exílio e criando a Casa Comum, na qual todos cabem dentro (com seus
mundos culturais particulares).
Grande
parte das tensões e guerras atuais são feitas dentro deste quadro ultrapassado
das soberanias nacionais. Não despertamos para o novo tempo, da unificação do
mundo e da espécie humana, junto com a natureza, até para salvar-nos.
É
urgentíssimo fazermos um pacto social mundial planetário, como fizemos o pacto
social de nossas sociedades e aquele da Westfália: um pacto cujo fim é a
salvaguarda da vida e da biosfera, ameaçadíssimas pela razão que enlouqueceu,
pois, criou os instrumentos de sua própria auto-destruição. É imperativo um
centro plural, democrático, representando os povos da Terra para administrar os
problemas planetários e da natureza e encontrar, democraticamente, uma solução
para nós e para a natureza.
A Terra
e humanidade são parte de um vasto universo em evolução e possuem o mesmo
destino. A Terra forma com a humanidade uma única entidade complexa e sagrada,
o que se torna claro quando é vista do espaço exterior como foi testemunhado
pelos astronautas.
Além
disso, a Terra é viva e se comporta como um único sistema autorregulado formado
por componentes físicos, químicos, biológicos e humanos que a tornam propícia à
produção e reprodução da vida e que por isso é nossa Grande mãe e nosso Lar
comum.
A
ciência nos tem mostrado que a Mãe Terra é composta pelo conjunto de
ecossistemas nos quais gerou uma multiplicidade magnífica de formas de vida,
todas elas interdependentes e complementares, formando a grande comunidade da
vida. Existe um laço de parentesco entre todos os seres vivos porque todos são
portadores do mesmo código genético de base que funda a unidade complexa da
vida em suas múltiplas formas. Portanto, reina uma real irmandade entre todos
os seres especialmente entre os humanos, coisa belamente descrita pelo Papa
Francisco em sua encíclica Fratelli tutti (2025), todos,
natureza e seres humanos, como irmãos e irmãs.
A
humanidade como um todo, é parte da comunidade da vida e o momento de
consciência e de inteligência da própria Terra, fazendo com que através do ser
humano, homem e mulher, ela contempla o universo e nós sejamos a própria Terra
que fala, pensa, sente, ama, cuida e venera.
Importa,
entretanto, observar que o contrato social atual ganhou um papel inflacionado e
exclusivista. Foi ele que propiciou o antropocentrismo, denunciado pela
encíclica Laudato sí do Papa Francisco.
Ele
instaurou estratégias de apropriação e dominação da natureza e da Mãe Terra
criando imensa riqueza para poucos e humilhante pobreza para a maioria. O modo
de produção vigente nos últimos séculos, atualmente globalizado, cindiu a
humanidade entre o que têm e comem e os que não têm e não comem.
Quer
dizer, não conseguiu responder às demandas vitais dos povos dividindo em dois a
humanidade. Eis um motivo a mais para fundarmos um contrato social planetário
que englobe a todos, permitindo-lhe uma vida decente e rica em virtualidades
criativas.
A
consciência da gravidade da situação crítica da Terra e da humanidade torna
imprescindíveis mudanças nas mentes (cuidar da Terra como Gaia) e nos corações
(estabelecer um laço afetivo e cordial com todos os seres) e forjar uma
coalizão de forças em torno de valores comuns e princípios inspiradores que
sirvam de fundamento ético e de estímulo para práticas que busquem um modo
sustentável de vida.
A Carta
daTerra, sob a coordenação de Mikhail Gorbachev e um grupo de cerca de 20
pessoas de vários saberes (tive a honra de participar) fizeram durante anos uma
consulta a todos os estratos sociais para levantar tais princípios e valores.
Resultou num documento de grande beleza e profundidade que pode ser lido na
internet.
Assumida
pela UNESCO em 2003 se propõe, além de outros fins pedagógicos, criar as bases
de um contrato social planetário. Hoje é divulgada e estudada em não poucos
países, criando um novo espírito face à Terra e à vida. Chegará o dia em que
poderá ser o fundamento do que estamos procurando urgentemente: um contrato
social planetário que garanta a todos um bem viver e conviver dentro da Casa
Comum.
Fonte:
Por Alex N. Press – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil/A Terra é Redonda

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