O
que a futura liderança indígena deseja para o Brasil?
Um
grupo de jovens indígenas está sendo treinado pelo governo brasileiro para
atuar diretamente nas decisões climáticas da Conferência das Nações Unidas
sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP 30, em Belém. Por meio do programa
Kuntari Katu – Líderes Indígenas na Política Global, esses jovens unem saberes
ancestrais e formação diplomática com o objetivo de ocupar, pela primeira vez,
as mesas formais de negociação da ONU.
"Kuntari
Katu vem das línguas Nheengatu e Tupi, e significa aquele que fala bem",
explica a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. "Por mais que a
gente tenha aumentado a delegação indígena no âmbito das COPs, ela ainda se
restringe a eventos paralelos. Isso me levou a pensar em uma formação para um
grupo de indígenas que fosse focar somente nos espaços das negociações."
Fruto
de uma parceria entre o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o Itamaraty e o
Instituto Rio Branco, o programa selecionou 31 jovens de todos os biomas
brasileiros. Desde agosto de 2024, eles participam de uma rotina intensa de
aulas online e presenciais em Brasília, mentorias individuais e cursos de
inglês – idioma oficial das negociações climáticas.
Além da
formação teórica, os jovens têm participado ativamente de eventos
internacionais. Já estiveram na COP da Biodiversidade, em Cali, na Colômbia,
naCOP29, em Baku, no Azerbaijão, e em junho acompanharam areunião preparatória
da COP30 em Bonn, na Alemanha, onde se envolveram em debates sobre mitigação,
adaptação, financiamento, transição justa, créditos de carbono, entre outros
temas.
"O
Acordo de Paris, em 2015, já reconheceu o saber indígena como um conhecimento
científico", diz a ministra. "Então, termos indígenas indígenas
preparados nesses diversos temas, qualificados para fazer essa incidência é
muito importante para que, de fato, essa participação seja efetiva e não
somente apareça nos tratados."
Para
muitos participantes, ingressar no programa significou deixar a aldeia, a
família e trabalho para mergulhar em uma rotina intensa de estudos e
compromissos. Em entrevista à DW, eles compartilharam suas histórias e desejos
para o futuro.
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Um Brasil que reconheça a importância dos indígenas
Para
Aylla Monteiro de Oliveira, do povo Kapinawá, o Brasil e o mundo precisam
reconhecer a importância dos povos indígenas para caminhar não só na pauta
ambiental, mas em tudo que está acontecendo nos espaços de decisão atualmente.
"Falta
levar em consideração hoje que a gente já faz as nossas políticas internas, os
nossos modos de cuidar e de cultivo", afirma Aylla. "Nesses espaços
de negociação, o maior desafio é justamente o sentimento de não pertencimento,
porque realmente não foi nada construída para nós ou pensado em nós."
Vinda
do interior de Pernambuco, a trajetória de Aylla mostra importância de ocupar
historicamente espaços negados aos povos indígenas. Aos 25 anos, além de ser
primeira de seu povo a se graduar em direito, ela é a primeira indígena da
Universidade de Pernambuco e a primeira indígena no mestrado que está cursando
atualmente.
"A
entrada no direito foi uma necessidade que o meu povo percebeu", conta
Aylla. "O meu território foi demarcado na década de 1980, mas não foi
demarcado completo. Então, até hoje temos muitos conflitos nessa área que ficou
de fora."
Foi
durante o primeiro ano da graduação que ela descobriu um projeto para
instalação de 70 torres eólicas dentro do seu território – sem consulta prévia
à comunidade.A partir daí, mergulhou na pauta da transição energética justa e
travou uma batalha judicial de três anos, que resultou, no início de 2025, na
suspensão das licenças para o empreendimento.
"Se
eu não tivesse na universidade e se eu não tivesse na área de direito não sei
como teríamos saído dessa", conta Aylla. "A pauta da transição, a
pauta ambiental não foi uma questão que eu escolhi, foi uma questão de
necessidade, porque se não estamos lá, tem alguém que está decidindo pela
gente."
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Um país preparado para a adaptação
Durante
o programa, cada participante escolheu um tema das negociações para se
aprofundar – entre eles, perdas e danos, mitigação, financiamento, gênero e
transição justa. Para Bekwikako Paiakan Oliveira Kaiapó, de 21 anos, a escolha
foi pela adaptação às mudanças climáticas, com base nos impactos que já afetam
diretamente seu povo.
"Eu
achava que o que era discutido nesses eventos era muito distante, mas não. São
coisas que a gente realmente sofre todo o ano”, afirma Bekwikako, do povo
Kayapó, no Pará. "A cada temporada de verão no meu território, o rio seca
absurdamente, todos os peixes morrem e isso afeta todo nosso meio de
vida."
Vinda
de uma família de lideranças, ela sempre esteve engajada nas questões de seu
território e consequentemente nas discussões climáticas. A jovem vê o curso
como uma oportunidade de se especializar e ajudar o seu território, assim como
outros povos, a enfrentar as crises climáticas.
"A
adaptação é uma pauta totalmente necessária hoje no Brasil", diz
Bekwikako. "A gente sabe que o mundo vai continuar esquentando, então
precisamos nos adaptar da melhor forma para enfrentar essa crise
climática."
Estudante
de gestões de políticas públicas em Brasília, ela conta que está sendo um
desafio conciliar a graduação com as aulas do curso. Já nas atividades
práticas, como em Bonn, a principal dificuldade é a barreia linguística, pois
nem todos os paneis dispõem de tradução simultânea. "O idioma é o
principal desafio para nós", diz a jovem. "Eu pessoalmente consigo
ter um entendimento muito bom, mas às vezes os diplomatas falam de uma forma
muito técnica e um pouco distante."
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Financiamento para quem protege o meio ambiente
Quando
Lucas Ycard Marubo, do povo Marubo, no Vale do Javari, decidiu se candidatar
para o processo seletivo do Kuntari Katu, ele já atuava ativamente com as
questões indígenas no âmbito nacional, trabalhando como assessor indígena no
Congresso Nacional.
"Entrei
no Congresso Nacional na época do governo Bolsonaro, e minha função era
fiscalizar a Funai através da liderança do Psol", conta Lucas. "Com a
mudança de governo, a atuação muda e ao invés de só reagir, a gente começa a
propor. Então o que é ruim a gente fiscaliza e o que é bom a gente luta a favor
para tentar aprovar dentro do Congresso."
Agora,
aos 25 anos, seu objetivo no curso é levar seu conhecimento na política
nacionalpara o cenário internacional – e vice-versa. Nesse processo, ele
percebeu que um dos principais avanços necessários é garantir financiamento
climático direto para as organizações indígenas. "Se conseguirmos esse
financiamento direto, permitiremos que quem sempre cuidou das florestas
continue a cuidar com mais qualidade, e com mais responsabilidade", diz
Lucas.
Segundo
a ONU, os indígenas representam 6% da população mundial e são responsáveis por
proteger 80% da biodiversidade do planeta. Ainda assim, eles recebem menos de
1% do financiamento internacional para o clima.
"Não
há como fazer uma proteção efetiva dos territórios do meio ambiente se não
temos recursos para fazer esse trabalho", afirma Sonia Guajajara.
"Todo esse trabalho já é feito gratuitamente, mas é importante reconhecer
o que os povos indígenas fazem."
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De lideranças locais a negociadores globais
Já
atuando como lideranças em seus territórios, esses jovens agora entram na reta
final para se tornarem negociadores indígenas no âmbito internacional. Até a
COP30 a expectativa é que eles estejam preparados para participar ativamente
das conversas em Belém.
"Na
COP 30 realmente é onde a gente vai estar nas negociações, ali com os
diplomatas, auxiliando, achando o que é melhor, tanto para nós como indígenas,
como para outras pessoas, de outros povos, de outras regiões”, diz Bekwikako.
Com
duração de 18 meses, o programa concluiu em maio os quatro módulos presenciais
realizados no Instituto Rio Branco. A formação segue com aprofundamento
individual nos temas escolhidos, apoio de mentores, e um quinto módulo virtual
como preparação final para COP30. Há ainda a possibilidade de um módulo de
avaliação após a conferência.
"Estamos
em uma formação, mas que vai continuar", afirma a participantes Maisangela
da Silva Oliveira, do povo Sateré-Mawé. "A primeira turma do programa
Kontari Katu vai abrir portas para futuras lideranças, futuros jovens que vão
estar nesses espaços também. Que futuramente possamos ser também jovens
diplomatas, comandando as discussões, as negociações."
• Territórios Indígenas são essenciais
para mitigação climática
Em um
estudo na PLOS ONE, pesquisadores, de 6 países diferentes, examinaram a
importância dos Territórios Indígenas na mitigação das mudanças climáticas no
Panamá e na Bacia Amazônica.
Eles
descobriram que os Territórios Indígenas representam soluções naturais eficazes
para cumprir o Acordo de Paris, protegendo as florestas e armazenando carbono.
Dado o
papel que desempenham, os pesquisadores dizem que os povos indígenas devem se
beneficiar dos pagamentos que os países recebem pelas emissões evitadas de
efeito estufa.
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Perguntas e Respostas com Camilo Alejo
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Que pergunta você se propôs a responder?
Ambientes
naturais como florestas absorvem dióxido de carbono da atmosfera e armazenam
esse carbono no ecossistema florestal, principalmente na biomassa viva e no
solo. As florestas do mundo armazenam aproximadamente 861 gigatoneladas de
carbono. Os estoques de carbono referem-se à quantidade de carbono armazenado
dessa forma.
A
proteção e o manejo das florestas são formas econômicas de mitigar as mudanças
climáticas, aumentando os estoques de carbono e reduzindo as emissões do uso da
terra de atividades como silvicultura ou agricultura. Territórios Indígenas,
terras consuetudinárias de sociedades tradicionais que habitavam países antes
da colonização e Áreas Protegidas, cujo objetivo principal é a conservação da
natureza, podem ser considerados parte dessas soluções climáticas naturais.
Nosso
estudo teve como objetivo estimar o efeito real dos Territórios Indígenas e
Áreas Protegidas na florestas e estoques de carbono, considerando a influência
de sua localização no Panamá e nas porções da bacia amazônica da Colômbia,
Equador, Peru e Brasil.
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O que você achou?
Descobrimos
que os Territórios Indígenas são tão eficazes quanto as Áreas Protegidas na
preservação dos estoques de carbono da floresta.
Por
exemplo, Territórios Indígenas e Áreas Protegidas no Brasil tinham cerca de 6%
a mais de estoques de carbono do que terras privadas e não protegidas em 2003.
Esse efeito aumentou para 10% e 8,5% em 2016, respectivamente. Ambos amortecem
as perdas e trazem estabilidade aos estoques de carbono da floresta. Também
descobrimos que os limites dos Territórios Indígenas garantem estoques de
carbono mais extensos do que seus arredores, e essa diferença tende a aumentar
em direção às áreas menos acessíveis ou mais remotas. Por exemplo, os
Territórios Indígenas do Panamá tinham estoques de carbono 9% maiores do que
seus arredores a 1 km de seus limites, e essa quantidade dobrou com 15 km.
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Por que os resultados são importantes?
Nossas
descobertas mostram que tanto os Territórios Indígenas quanto as Áreas
Protegidas são maneiras eficazes de proteger as florestas, armazenar carbono e
evitar as emissões do uso da terra por desmatamento e degradação.
Além
disso, nossas descobertas estão entre as primeiras a estabelecer que o uso de
terras indígenas em florestas neotropicais pode ter um impacto estável nos
estoques de carbono, indicando que a governança florestal indígena complementa
a governança florestal centralizada em áreas protegidas. A governança florestal
é definida como a maneira pela qual os atores públicos e privados tomam e
executam decisões vinculativas sobre o manejo, uso e conservação dos recursos
florestais.
Portanto,
os Territórios Indígenas no Panamá e na Bacia Amazônica, embora proporcionem
benefícios materiais e culturais a seus habitantes, podem ter um papel
fundamental na mitigação das mudanças climáticas.
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Quem ou o que será afetado pelo que você descobriu?
De
acordo com o acordo de Paris, os países podem contar com a conservação,
restauração e gerenciamento aprimorado das florestas para evitar as emissões de
gases de efeito estufa. Nossos resultados indicam que os Territórios Indígenas
apoiam Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) sob o Acordo de Paris.
Os NDCs
incorporam os esforços de cada país para reduzir as emissões nacionais e se
adaptar aos impactos das mudanças climáticas. Sugerimos que garantir títulos de
terra para Territórios Indígenas e formalizar a co-governança florestal quando
Territórios Indígenas se sobrepõem a Áreas Protegidas pode trazer vários
benefícios. Por um lado, os povos indígenas podem garantir seus meios de
subsistência e cultura. Por outro lado, os governos nacionais podem alcançar
seus objetivos climáticos.
Finalmente,
dado o papel dos Territórios Indígenas na mitigação das mudanças climáticas,
ressaltamos que os países que recebem pagamentos por emissões evitadas de
efeito estufa devem considerar os povos indígenas como destinatários de tais
benefícios.
Os
povos indígenas devem se tornar destinatários dos pagamentos dos países
baseados em resultados.
Fonte:
DW Brasil/EcoDebate

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