Como
é a taxação dos mais ricos no Brasil e pelo mundo?
O
Brasil e boa parte do mundo vêm debatendo
formas de fazer os super-ricos pagarem
mais tributos, já que essa pequena parcela de pessoas está cada vez mais rica, mas paga
proporcionalmente muito menos tributos do que o resto da população.
Por
exemplo, segundo um estudo divulgado em julho pela Oxfam Brasil, os 10% de
brasileiros mais pobres pagam, em proporção da sua renda, três vezes mais
tributos do que 0,1% mais rico da população. A pesquisa aponta que os mais
pobres comprometem 32% da sua renda com tributos, contra 10% dos mais ricos.
Não é
tarefa fácil mudar esse panorama. Os super-ricos são em geral bem conectados
com a classe política e os tomadores de decisão. Além disso, junto com a
globalização, veio a maior facilidade de mover dinheiro de um país para outro,
e o enfraquecimento das instituições multilaterais torna mais difícil a adoção de
iniciativas globais.
Os
defensores de cobrar mais impostos sobre os super-ricos, entre os quais estão alguns
bilionários, afirmam
que a medida seria importante para aumentar a justiça tributária e usar os
recursos extras para enfrentar problemas como a pobreza e o aquecimento global. Já seus críticos
argumentam que a medida poderia reduzir os incentivos ao empreendedorismo e à
inovação.
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As propostas sobre como cobrar mais tributos dos indivíduos super-ricos se
dividem em dois grandes grupos:
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Aumentar o imposto sobre a renda
Essa é
a forma tradicional que países vêm adotando para cobrar mais impostos dos mais
ricos, por meio da progressividade das alíquotas do imposto de renda
– quanto maior a renda, maior a alíquota de imposto devido.
A maior
faixa do Imposto sobre Renda de Pessoas Físicas no Brasil (IRPF) é hoje de
27,5%. Em outros países, a alíquota máxima atual é a seguinte, segundo um
relatório da consultoria PwC:
- Alemanha: 45%
- Argentina: 35%
- Chile: 40%
- China: 45%
- Colômbia: 39%
- França: 45%
- India: 39%
- Indonésia: 35%
- Itália: 43%
- Japão: 45%
- México:
35%
- Noruega: 39,7%
No
entanto, apenas cobrar uma alíquota maior de quem ganha mais não funciona
perfeitamente, pois muitos super-ricos não recebem salários, e sim lucros e
dividendos de empresas que podem estar sujeitos a um regime de tributação
distinto.
Eles
também costumam ter à disposição consultores que os orientam como organizar
seus investimentos de modo a pagar menos impostos – por exemplo, aplicando o
dinheiro em fundos específicos ou abrindo empresas em paraísos fiscais.
Uma das
formas que os governos têm para tentar corrigir essa distorção é cobrar uma
alíquota mínima de imposto de renda dos super-ricos, independentemente da fonte
da renda.
Esse
mecanismo está em um projeto de lei enviado pelo
governo Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso,
aprovado nesta quarta-feira (16/07) pela comissão especial da Câmara
encarregada de analisá-lo.
O texto
estabelece que as pessoas que recebem mais de R$ 50 mil por mês, incluindo
dividendos e juros, terão que pagar uma alíquota mínima de imposto de renda,
que será progressiva e de até 10%.
Se uma
pessoa na faixa superior, com renda anual superior a R$ 1,2 milhão, já pagou
mais do que 10%, não precisa pagar nada mais. Porém, se pagou 8%, terá que
pagar mais 2% ao fazer sua declaração à Receita, segundo a proposta.
Outras
formas indiretas de aumentar o pagamento de imposto sobre a renda é apertar a
cobrança sobre alguns instrumentos usados pelos super-ricos.
Em
dezembro de 2023, por exemplo, o Brasil sancionou uma lei para cobrar imposto
de renda sobre o rendimento anual de fundos exclusivos
e offshores – antes, o tributo era cobrado somente quando e se
o recurso fosse resgatado.
Quando
a lei foi aprovada, apenas 2,5 mil brasileiros aplicavam em fundos exclusivos,
que somavam R$ 756 bilhões em patrimônio e respondiam, sozinhos, por 12,3% da
indústria de fundos do Brasil.
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Criar um imposto sobre o patrimônio
Além de
cobrar imposto sobre a renda, alguns poucos países também cobram um imposto
anual sobre o patrimônio dos super-ricos.
Entre
os países da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas quatro cobram imposto sobre o
patrimônio:
- Colômbia:
alíquota progressiva de 0,5% a 1,5% para patrimônio acima de 3,6
bilhões de pesos colombianos (R$ 5 milhões)
- Espanha:
alíquota progressiva de 0,2% a 3,5% para patrimônio acima de 167 mil
euros (R$ 1 milhão)
- Noruega:
alíquota de 1% para patrimônios superiores a 1,7 milhão de coroas
norueguesas (R$ 950 mil).
- Suíça: alíquota
de 0,02% a 1,02%, dependendo do cantão e do patrimônio
Outros
quatro países da OCDE cobram taxas sobre alguns tipos de patrimônio, mas não
sobre a fortuna total de uma pessoa: França, Itália, Bélgica e Holanda.
Cobrar
um imposto sobre o patrimônio é o cerne de uma proposta do Brasil feita no ano
passado no âmbito do G20, quando o país exercia a presidência rotativa do grupo,
que reúne tanto potências industrializadas do Ocidente como países do Sul
Global, além da União Europeia e da União Africana.
A
proposta é cobrar uma taxa anual de 2% sobre o patrimônio das pessoas que têm
mais de 1 bilhão de dólares (R$ 5,59 bilhões) em ativos. Esse grupo reúne cerca
de 3 mil pessoas em todo o mundo, que pagam hoje tributos equivalentes a 0,3%
de seu patrimônio por ano.
Segundo
o economista francês Gabriel Zucman, que elaborou a proposta a pedido do
governo brasileiro, a medida geraria receitas adicionais de 200 bilhões a 250
bilhões de dólares por ano.
A declaração final da cúpula do G20 em novembro de
2024, no Rio de Janeiro, expressou apoio à ideia de buscar formas para que os
super-ricos sejam taxados de forma eficaz, mas não houve acordo sobre uma
proposta concreta de como fazer isso.
Cobrar
imposto sobre grandes patrimônios é um assunto mais controverso do que aumentar
o imposto sobre a renda. Críticos afirmam que essa medida, se adotada por
países individualmente, provocaria fuga de capitais para outras nações e, na
prática, poderia anular os rendimentos obtidos de investimentos.
A
Constituição brasileira prevê a existência de um imposto sobre grandes fortunas, mas ele nunca foi
criado, apesar de diversos projetos de lei apresentados nesse sentido.
Uma
dessas tentativas ocorreu no ano passado, quando o Congresso discutia a reforma
tributária. O PSB e as federações PT-PCdoB-PV e PSOL/Rede propuseram uma emenda
para criar um imposto anual sobre fortunas acima de R$ 10 milhões.
A
alíquota seria de 0,5% para fortunas de R$ 10 milhões a R$ 40 milhões, de 1%
para aquelas de R$ 40 milhões a R$ 80 milhões, e de 1,5% sobre as fortunas
acima de R$ 80 milhões – e foi rejeitada pela Câmara, por 262 votos a 136.
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Quem são os super-ricos que podem ter que pagar mais
imposto
A forma
como o Imposto sobre a Renda de Pessoa
Física (IRPF)
é cobrado dos brasileiros deve mudar a partir do ano que vem, a depender da
vontade do atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Um projeto de lei enviado pelo Palácio do Planalto
ao Congresso e aprovado em
comissão especial da Câmara nesta quarta-feira (16/07) estabelece que as
pessoas que ganham até R$ 5 mil por mês ficarão isentas do tributo, e as que
recebem de R$ 5 mil a R$ 7,35 mil terão um desconto parcial.
Hoje,
estão isentas do IRPF pessoas que recebem até dois salários mínimos, o
equivalente a R$ 3.036.
Para
compensar a perda de arrecadação, quem ganha mais de R$ 50 mil por mês terá que
pagar uma alíquota mínima de imposto de renda, que será de até 10%.
O
governo espera que a renda extra na mão das pessoas beneficiadas pela isenção
total ou parcial acabe voltando para a economia na forma de gastos e
investimentos, contribuindo para o crescimento.
Ao
mesmo tempo, seria reduzida a desigualdade do sistema tributário brasileiro, no qual os
super-ricos pagam proporcionalmente muito menos tributos sobre seus rendimentos
do que o resto da população brasileira.
Segundo
um estudo divulgado em julho da
Oxfam Brasil,
organização britânica que atua no combate à desigualdade, os 10% de brasileiros
mais pobres pagam, em proporção da sua renda, três vezes mais tributos do que
0,1% mais rico da população.
A
pesquisa aponta que os mais pobres comprometem 32% da sua renda com tributos,
contra 10% dos mais ricos.
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Quem precisará pagar mais imposto
O
governo estima que a nova alíquota mínima de imposto de renda atingirá 141,4
mil brasileiros – que são 0,13% do total de contribuintes e 0,06% da
população do país.
Esse
universo abrange pessoas que ganham mais de R$ 600 mil por ano (R$ 50 mil por
mês), incluindo lucros e dividendos – como no caso de empreendedores
individuais, proprietários ou acionistas de empresas.
Segundo
o governo, essas pessoas pagam hoje uma alíquota efetiva média de imposto de
renda de 2,54%.
Com a
reforma, quem recebe a partir de R$ 600 mil por ano terá que pagar uma alíquota
mínima de imposto de renda, que subirá linearmente até alcançar 10% para quem
ganha a partir de R$ 1,2 milhão por ano.
Para
quem ganha R$ 750 mil, por exemplo, a alíquota mínima será de 2,5%. Para quem
recebe R$ 900 mil, de 5%. Para os que ganham R$ 1,05 milhão, de 7,5%. E para
quem ganha a partir de 1,2 milhão, de 10%.
Essa
alíquota será chamada de Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas Mínimo
(IRPFM). Para quem é contratado via CLT e tem salários altos, não haverá
mudança, pois essas pessoas já são tributadas na fonte.
A
medida considera o quanto a pessoa já recolheu de imposto de renda para definir
o valor devido. Se um contribuinte que recebeu R$ 1,2 milhão em um ano já pagou
8% de imposto de renda, ele terá que pagar mais 2%. Se, por outro lado, ele já pagou
12% de imposto de renda, não precisará pagar mais.
Um dos
super-ricos que poderá ter que pagar mais imposto de renda – e se destacou por
vir a público defender a reforma – é o cineasta Walter Salles, herdeiro do Itaú
Unibanco e da mineradora CBMM. Ele tem uma fortuna estimada em R$ 26 bilhões,
segundo o ranking de bilionários brasileiros da revista Forbes.
"Temos
a chance de construir um país mais justo e igualitário, corrigindo as
distorções de um sistema que, como a gente sabe, cobra mais de quem tem
menos", afirmou ele em 8 de julho durante a cerimônia do prêmio Faz
Diferença 2024, promovido pelo jornal O Globo. "Quero deixar
todo o meu apoio à tributação progressiva, à taxação das grandes fortunas e à
democracia com justiça tributária."
Outro
afetado que defendeu o projeto foi o acionista controlador da Porto Seguro,
Jayme Garfinkel. "É correto e precisamos aumentar o imposto [de quem ganha
mais] porque há uma distribuição de renda totalmente absurda e incrivelmente
injusta no Brasil", afirmou ao site Reset, do portal UOL. "Eu recebo
dividendos e rendimentos de investimento, que são isentos. Na hora H, não pago
imposto de renda efetivo. Então, eu, que sou privilegiado, tento cumprir a
minha parte com filantropia – que, aliás, não tem benefício fiscal."
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Quem vai ficar isento ou pagar menos imposto
Os
recursos extras arrecadados com o imposto de renda mínimo dos super-ricos,
segundo a proposta do governo, seriam usados para isentar de imposto de renda
as pessoas que ganham até R$ 5 mil por mês, e dar um desconto parcial a quem
ganha entre R$ 5 mil e R$ 7 mil.
O
governo afirma que 10 milhões de pessoas seriam beneficiadas pela isenção total
ou parcial, equivalente a 90% do atual universo de declarantes do imposto de
renda.
Para
quem ganha de R$ 5 mil a R$ 7 mil, haverá um desconto linear. Segundo a regra,
quem ganha R$ 5,5 mil terá um desconto de 75%, quem ganha R$ 6 mil, de 50%, e
quem ganha R$ 6.500, de 25%. A partir de R$ 7 mil, vale a tabela normal do
imposto de renda.
O
governo espera que o dinheiro extra na mão para quem for beneficiado com a isenção
ou ou desconto será utilizado em consumo. Em seu material de divulgação da
proposta, há algumas simulações.
Por
exemplo, um motorista que ganha R$ 3.650,66 por mês terá, no final do ano, R$
1.058,71 a mais na conta, o que poderia "ajudar na compra do material
escolar do filho, pagar a revisão do carro ou garantir as compras do
supermercado".
Alguns
economistas, porém, projetam que essa renda extra na mão das pessoas, além de
estimular o crescimento, irá também pressionar a inflação.
O
economista José Alfaix, da gestora Rio Branco, afirmou à revista Veja que
a medida teria um impacto positivo no PIB de 0,2% em 2026 e de 0,1% em 2027, e
um impacto ainda maior na inflação, com acréscimo anual de 0,4% em 2026 e de
0,6% em 2027.
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Como está a tramitação no Congresso
O
relator do projeto na Câmara é o deputado federal Arthur Lira (PP-AL),
ex-presidente da Casa.
Durante
a análise do tema, ele cogitou reduzir a alíquota mínima do imposto de renda
para os super-ricos para 9%, devido ao fato de o ganho de arrecadação previsto
com a alíquota mínima ser superior à renúncia com a isenção e o desconto
parcial.
Segundo
o governo, a queda de arrecadação prevista com a isenção e o desconto parcial
seria de R$ 25,84 bilhões em 2026, enquanto a alta de arrecadação com a
alíquota mínima seria de R$ 34,12 bilhões.
Depois,
Lira voltou atrás e manteve a alíquota de 10% em seu relatório. Mas ele
aumentou a faixa das pessoas que receberiam um desconto parcial de R$ 7 mil
para até R$ 7,35 mil por mês. A faixa de isenção total segue a mesma, até R$ 5
mil.
O
relatório de Lira foi aprovado nesta quarta-feira (16/07) na comissão especial
da Câmara que analisa o projeto, e agora a proposta segue para análise do
plenário. A expectativa é de que seja votado após o recesso parlamentar, em
agosto.
O texto
de Lira mantém a cobrança de imposto de renda sobre lucros e dividendos acima
de R$ 50 mil mensais, retido na fonte, e a tributação de 10% dos rendimentos de
estrangeiros ou no caso de envio dos valores ao exterior.
Após
passar pela Câmara, o texto segue para o Senado. Se for aprovado neste ano, as
medidas valeriam a partir de 2026.
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Maioria dos brasileiros aprova ideia
Uma
pesquisa Datafolha divulgada em 9 de abril apontou que 76% dos brasileiros são
favoráveis à proposta de cobrar mais imposto de renda de quem ganha mais de R$
50 mil por mês, enquanto 20% são contra.
A
pesquisa também perguntou o que os entrevistados achavam da isenção de imposto
de renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês – nesse caso, 70% foram a favor e
26%, contra.
A
proposta de criar uma alíquota mínima de imposto de renda para os super-ricos
enfrenta menos resistência do que a ideia de criar um imposto sobre grandes fortunas, proposta no ano
passado pelo PSB e as federações PT-PCdoB-PV e PSOL/Rede durante a tramitação
da reforma tributária.
Essa
medida previa cobrar alíquota anual de 0,5% a 1,5% sobre patrimônios a partir
de R$ 10 milhões, e foi rejeitada pela Câmara em outubro passado.
A
proposta de criar um imposto global sobre grandes fortunas também foi uma
das apostas do Brasil durante o
exercício da presidência rotativa do G20, mas não prosperou até o momento.
Fonte:
DW Brasil

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