sábado, 12 de julho de 2025

Carlos Ferreira Martins: Lula encontrou o seu Rubicão?

É lugar comum dizer que a história às vezes acelera e comprime séculos em décadas ou anos em semanas. Também o é repetir a velha imagem da política como nuvem, que muda de uma hora para a outra.

Não sei se estamos num turning point.  Mas há um sintoma: a sensação de que qualquer coisa que se escreva agora poderá estar desmentida amanhã.

Os acontecimentos políticos da última quinzena me davam a sensação de que o tema (recorrente) de minhas últimas colunas poderia estar superado.

De fato, tudo parecia indicar que a soberba do aprendiz de feiticeiro que, como se viu agora, apenas formalmente responde pela presidência da Câmara, provocou uma reação, na política e nas redes sociais, que poderia, finalmente, selar a aliança entre o governo Lula e os setores esquerdistas que vinham exigindo seu rompimento com a maioria do Congresso e com o grande capital.

Afinal, assistimos o segundo momento em que a reação da militância digital progressista emparedou a maioria retrógrada, ou simplesmente corrupta, do Congresso, passando a dominar amplamente as redes sociais.

O primeiro, como sabemos, foi a da insurgência orgânica contra o chamado PL do Estuprador, que obrigou a um histórico recuo da maioria do Congresso, quando ela ainda acreditava que a pauta de costumes poderia ser o fator estratégico para derrotar Lula.

Na medida em que o presidente soube, apesar de vários percalços, se livrar da armadilha da pauta de costumes, e conseguiu transformar seu mote de campanha na tão reclamada marca de governo, a plutocracia compreendeu que o caminho para evitar sua reeleição e colocar Tarcísio na marca do pênalti passará, quem diria, pela economia.

Colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda era (e parece que ainda será) mais do que promessa de campanha ou marca de governo, mas a possibilidade concreta de se manter vivo na disputa por setores majoritários da população que o governo não ganhará no campo dos costumes, mas em que pode (digo que pode e não que fará) crescer oferecendo um mínimo de avanço de bem-estar econômico em oposição a uma teologia da prosperidade que, para além de um sentimento concreto de acolhimento, permanece no horizonte das promessas imateriais.

A grande questão é saber se ainda vale o mote do “É a economia, estúpido!”.

Aparentemente, a nata da plutocracia nacional, em princípio composta por gente canalha, mas competente, acredita que sim, e deu o apito de cachorro para a asfixia do governo Lula via boicote às ações econômicas. Trata-se de gente capaz de avaliar os impactos possíveis dos eventuais desdobramentos dos bons resultados macroeconômicos (crescimento, PIB, desemprego, etc.) em políticas públicas que apresentem uma melhoria perceptível no bem-estar econômico das famílias. E que não quer perder a eleição presidencial pela sexta vez.

Hugo Motta, que dias depois seria apresentado por Dória como “herói do Brasil”, deve ter sonhado previamente com uma vaga no grupo da Marvel e decidiu jogar para o ar um acordo construído em sua própria casa, que representava o terceiro recuo do governo na questão do IOF.

O que o aprendiz de feiticeiro não imaginava é que a direita que representa levaria a maior surra nas redes sociais de todo o governo Lula, a partir de um grupo de peças produzidas por IA, inicialmente pelo PT e depois por outros grupos ou entidades.

Da campanha inicial destinada a explicar que os BBB (bilionários, bancos e bets) devem pagar imposto para compensar a isenção do IR até 5.000 reais, o episódio do IOF deslocou para o terreno em que as hashtags “Congresso da Mamata”, “Congresso Inimigo do Povo” e “Hugo Motta Traidor” dominaram amplamente a batalha das redes.

Isso estimulou, ou foi articulado a uma nova e combativa posição do governo que parece ter entendido que a eleição de 2026 já começou e que a maioria do Congresso pode estar dividida entre o sonho da anistia a Bolsonaro e a aceitação de que o big money já escolheu Tarcísio, mas definiu que a reeleição de Lula não está mais no horizonte do aceitável.

Quem acreditou que, a partir daí, aquela esquerda que vinha exigindo combatividade e apelo à mobilização deveria se alinhar ao governo pode se preparar para a decepção. Conhecida acadêmica da ciência política mineira já se insurgiu contra a hashtag Congresso Inimigo do Povo porque isso “levaria à ideia de fechar o Congresso”.

Coisa pequena diante de um economista que recentemente aumentou sua notoriedade ao ser demitido da assessoria parlamentar do PSOL e que resolveu seguir em sua campanha de ataques à política econômica de Haddad mostrando que tivemos, na história recente do país, uma proposta de reforma tributária mais corajosa, vinda de… Paulo Guedes!

Mas o estrago que pode vir desse lado do espectro político vai muito além de provocações nas redes. Manifestações de protesto em agências bancárias ou em frente ao gabinete de Hugo Motta (com a presença e estímulo de Glauber Braga) trazem de volta o fantasma de 2013. Uma quebra de vidraças e uma bandeira ou camiseta do PT é tudo que a direita, bolsonarista ou não, adoraria.

Na fronteira institucional, a resposta de Alexandre de Moraes ao questionamento da AGU sobre a inconstitucionalidade do decreto parlamentar, certamente elaborada na cozinha do Gilmarpalooza e criticada por todos os juristas progressistas, teve um duplo condão.

Primeiro, o de tirar os holofotes do aprendiz de feiticeiro e devolvê-los a seu mestre e mentor. É o agora redivivo Artur Lira que retoma a veste de pacificador e se propõe a “superar” o impasse do IOF via a sua relatoria da proposta do IR.

O segundo é que Xandão, que nunca se esquece de onde veio, deslegitimou tacitamente toda e qualquer atuação do governo via decreto presidencial. Na prática, invertendo a demanda da AGU.

Já não se trata de tentar avaliar o que acontecerá até a eleição de 26, mas quais reviravoltas as nuvens da política podem ter até este texto chegar ao eventual leitor.

P.S: Este texto estava pronto quando chegou a notícia da estapafúrdia carta de Trump. Parece que já não se trata de saber se Lula decidirá ou não atravessar o Rubicão. Seus inimigos já o fizeram. Agora a questão é se Roma conseguirá defender-se.

•        Trump joga o luminol da hipocrisia. Por Ricardo Queiroz Pinheiro

A decisão de Trump de impor 50% de tarifa sobre produtos brasileiros expõe, de uma vez, a farsa de várias narrativas. A extrema direita brasileira, que vive repetindo slogans sobre patriotismo e soberania, aplaude o líder estrangeiro que ataca diretamente a economia nacional.

O agronegócio — que posou de aliado estratégico de Trump e Bolsonaro — agora sente no bolso o custo de ter confundido afinidade ideológica com vantagem comercial. Patriotismo de joelhos tem prazo de validade. Trump jogou o luminol que não revela marcas de sangue, mas da hipocrisia dessa gente.

O mercado, por sua vez, que enche a boca para defender “abertura”, “competitividade” e “livre comércio”, revela mais uma vez que seus princípios só valem para os outros. Os Estados Unidos sempre foram seletivamente protecionistas — Trump apenas leva isso ao paroxismo, sem disfarce. Na prática, mostra que o capitalismo real não é uma disputa de iguais em campo neutro, mas uma engrenagem de força, pressão e privilégios. A “mão invisível” só opera quando favorece os mais fortes.

Basta lembrar o que sempre dizem: que o Estado deve ser mínimo, que o Brasil precisa parar de proteger sua indústria, que subsídios são distorções, que o mundo valoriza acordos multilaterais e estabilidade institucional. Pois bem: Trump desmonta tudo isso com uma canetada — e ninguém chama de intervencionismo, de populismo ou de ameaça à ordem global. Quando a cartilha liberal é rasgada em inglês, parece que vira geopolítica madura. Já quando o Brasil ensaia qualquer movimento de defesa econômica, logo surge o coro acusando chavismo, atraso e “fuga de investidores”.

No fundo, os liberais que juram fidelidade ao mercado vivem de benesses do Estado brasileiro: crédito barato, isenções, incentivos, blindagens. E a extrema direita, que posa de nacionalista, sempre se curvou aos interesses de fora quando vieram embalados com o selo de Washington.

A tarifa de Trump não contradiz esse sistema — apenas o revela. Expõe a hipocrisia de quem nunca defendeu soberania, só defendia seus próprios privilégios e um discurso farsesco para enganar incautos.

O viralatismo vai culpar Lula, Alexandre de Moraes, o Foro de São Paulo, a gastança, a mamadeira de pipoca, o diabo. Mas nós temos que estar preparados para responder à altura — nas ruas e nas redes. Porque a tarifa é só a isca. O que está em jogo é se o Brasil cederá ajoelhado ou se levantará.

•        Por Bolsonaro, Trump ataca o Brasil. Por Valério Arcary

A carta de Trump em que anuncia uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras para os EUA é o ataque imperialista mais grave contra o Brasil desde a cumplicidade norte-americana com o golpe militar de 1964. O Brasil passa a ser o país com as tarifas mais altas entre todas as nações do mundo, o que significa fechar o mercado norte-americano para as exportações brasileiras. Esta é a dimensão da agressão. Não tem precedentes desde o fim da ditadura militar. Nem Nixon, nem Reagan, Bush, Clinton, Obama, Biden, ou qualquer outro presidente dos EUA fez nada parecido. Quem subestimar a violência do ataque perdeu o juízo. Alguns podem interpretar como sendo somente uma declaração de “guerra econômica”. Mas não é. Não se trata de busca de nivelação da balança comercial. Aliás, ela é desfavorável para o Brasil. Este pretexto é uma dissimulação grotesca. A avaliação da ofensiva só pode ser explicada se compreendermos qual é o seu alvo. Que fim persegue? Ela responde a uma estratégia, eminentemente política. Trump quer desestabilizar o governo Lula. Mas trata-se de um ataque contra a nação.

Washington não pode aceitar, indefinidamente, a ambiguidade ou ambivalência da política externa brasileira. O Brasil condenou a invasão da Rússia contra a Ucrânia, mas não se alinhou com Zelensky. Lula exigiu a apresentação das atas eleitorais do processo que culminou com a reeleição de Maduro na Venezuela, mas não denunciou o regime como uma ditadura. Lula condenou a ação militar do Hamas, mas criticou o contra-ataque de Israel como um genocídio. Mas Trump não consegue manter “neutralidade” diante da disputa de poder que se anuncia com a possibilidade da reeleição de Lula. Lideranças do governo Trump, como o vice-presidente, já tinham manifestado apoio a candidaturas da extrema-direita, como a AfD na Alemanha.

Donald Trump

O objetivo político do documento é claro quando inicia o primeiro parágrafo defendendo Bolsonaro. Não se trata, portanto, de um conflito econômico-comercial. Reduzir a investida à defesa de interesses econômicos das Big Techs ameaçadas de regulação pelo STF tampouco faz sentido. A importância econômica das Big Techs é, evidentemente, gigante. São hoje as maiores empresas capitalistas do mundo. As mídias norte-americanas são armas estratégicas na luta política- ideológica. São a “força aérea” da disputa de Washington pela defesa de sua supremacia no sistema internacional. A questão central é o lugar do Brasil no mundo.

A centelha para a insolência de Trump parece ter sido a necessidade de resposta à recente reunião dos Brics no Rio de Janeiro, à defesa feita por Dilma Rousseff da necessidade de desdolarização, à presença de Lula em Moscou, quando dos oitenta anos da derrota do nazifascismo, e às críticas ao genocídio sionista na Faixa de Gaza. Mas o gatilho deve ter sido a fala de Lula contra o “imperador”. Trata-se de abuso de poder da maior potência imperialista. Mas o alinhamento de Trump com Bolsonaro não é lateral na carta. Mudou de qualidade, e é uma sinalização da Casa Branca de que não aceita que o capitão seja preso. Anuncia, preventivamente, que a provável condenação dos bolsonaristas, e eventual prisão será denunciada como perseguição política. Trump abraça Bolsonaro diante do mundo.      

No terreno da tática, ou na escala dos tempos mais breves da luta política, a carta de Trump é uma forma de pressão sobre o julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal. Mas é também um posicionamento mais claro diante do governo Lula. Não é irrelevante que desde a posse de Trump, os EUA não tenham um embaixador em Brasília. Não é, também, desimportante que Trump tenha se pronunciado, desaforadamente, no calor do dia da posse, dizendo que o Brasil precisa mais dos EUA que o contrário. Na dimensão estratégica a carta de Trump é um primeiro movimento no curso de hostilidades que vão escalar. A resposta do governo foi indicar a disposição de aplicar o princípio da reciprocidade, apresentada em um post de Lula na internet. Não é o bastante. A gravidade máxima do episódio exige que Lula faça um pronunciamento público em rede de TV aberta e rádio. Não se trata somente de defesa da nação com altivez. O que está em disputa é a conscientização do povo de que o mundo ficou mais perigoso. Cláudia Sheinbaum, por muito menos, conclamou à mobilização de massas no Zocalo, a praça central da cidade do México. A governabilidade “a frio” pela via de sucessivas conciliações e recuos já tinha colapsado diante dos conflitos internos. Agora é a ambiguidade da política externa que está ruindo. Ainda há tempo, mas não muito, de inverter o curso.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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