sábado, 12 de julho de 2025

Quem paga a conta da nova tarifa de Trump/Bolsonaro? Preços podem subir nos EUA

nova tarifa de 50% contra produtos brasileiros, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve afetar diretamente empresas e produtores de setores estratégicos da economia nacional, que vendem seus produtos para os norte-americanos.

É o caso dos exportadores de petróleo, de aço, café e carne bovina, por exemplo, produtos que lideram as vendas do Brasil para os EUA. As exportações de suco de laranja e de aeronaves também podem ser fortemente impactadas.

Outra preocupação no Brasil é a inflação. O mercado financeiro reagiu mal à nova taxa e o dólar subiu forte nas horas seguintes ao anúncio de Trump.

"Se o dólar permanecer alto, a inflação no Brasil persiste e o Banco Central mantém os juros altos [atualmente no patamar de 15%, o maior em quase 20 anos]. Isso desacelera a economia e pode entrar em recessão", alerta o economista Robson Gonçalves, professor de MBAs da FGV.

  • 🔎 Entre outros motivos, a alta do dólar gera inflação à medida que encarece as importações. A lógica do BC é que subir os juros desestimula o consumo pois fica mais caro fazer empréstimos ou compras a prazo. Ao reduzir o consumo, a demanda por produtos diminui, o que ajuda a controlar a inflação, que ocorre quando a oferta não acompanha a demanda.

Apesar disso, especialistas ouvidos pelo g1 explicam que os consumidores brasileiros não são os únicos que podem vir a sentir o efeito da tarifa no bolso, ainda que em menor escala. A medida também pode impactar os preços dos alimentos nos EUA, principalmente do café.

Cerca de um terço do café consumido nos EUA, o maior consumidor mundial da bebida, vem do Brasil, que é o maior produtor mundial. As exportações anuais de café brasileiro para os EUA chegam a cerca de 8 milhões de sacas, segundo grupos do setor.

"Os americanos vão procurar outros produtores globais [para substituir as importações brasileiras], mas, no caso do café, não vão encontrar no mercado externo tudo o que precisam. E o preço já está caro no nível internacional", diz Gonçalves, da FGV.

Veja abaixo mais detalhes sobre os impactos da nova tarifa para o Brasil e para os EUA.

<><> Brasil

Os EUA são o segundo principal parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) apontam que o Brasil vendeu US$ 40,33 bilhões em produtos para os americanos em 2024.

  • ⚠️ Mesmo assim, o Brasil tem déficit comercial em relação aos EUA desde 2009, ou seja, compra mais do que vende para o país. 

Dessa forma, "se as tarifas forem efetivamente aumentadas [a partir de 1º de agosto], o Brasil perde muito espaço dentro de um parceiro comercial superimportante", resumiu o economista Daniel Sousa, comentarista da GloboNews, em entrevista ao podcast O Assunto.

A Associação Brasileira das Exportadoras de Carne declarou que o aumento da tarifa atrapalha o comércio e afeta negativamente o setor produtivo.

A avaliação do setor é de que as vendas de carne de boi aos americanos vão ficar praticamente "inviáveis" se não houver negociação. E a tendência é que os frigoríficos brasileiros se direcionem para outros mercados internacionais, como o asiático.

Segundo Daniel Sousa, já existe uma tentativa de diversificar os destinos das exportações brasileiras, assim como têm feito outros parceiros americanos. Ele citou como exemplos o acordo Mercosul–EFTA e as negociações com a União Europeia.

No caso do café, o Brasil dificilmente conseguirá redirecionar para outros países todo o volume que hoje exporta aos EUA, afirma Robson Gonçalves, da FGV.

E, com o aumento da oferta no mercado interno, a consequência pode ser uma queda nos preços por aqui. Porém, "se o dólar permanecer alto, pode ofuscar os efeitos desse aumento de oferta", pondera.

A tarifa também deve afetar as vendas brasileiras de aeronaves (as ações da Embraer caíram mais de 3% nesta quinta-feira), de petróleo, de semimanufaturados de ferro ou aço, materiais de construção e engenharia, madeira, máquinas e motores, e eletrônicos.

Lembrando que, além da taxa anunciada nesta semana, produtos como o aço e o alumínio já enfrentam tarifas de 50%, o que tem impactado diretamente a siderurgia brasileira.

<><> Estados Unidos

Do outro lado da balança, a decisão de Trump também deve impactar o consumidor americano, justamente porque o Brasil é um grande vendedor de café, suco de laranja, açúcar, carne bovina e etanol para os EUA, entre outros produtos.

Com a elevação da tarifa, os exportadores tendem a repassar o custo aos consumidores. E, como no caso do café, os EUA nem sempre conseguirão substituir totalmente as importações vindas do Brasil.

Mais da metade do suco de laranja vendido nos EUA, por exemplo, vem do Brasil, que detém 80% do comércio global do produto.

"Essa medida impacta não só o Brasil, mas toda a indústria de sucos dos EUA, que emprega milhares de pessoas e tem o Brasil como seu principal fornecedor há décadas", disse Ibiapaba Netto, diretor executivo da CitrusBR, associação brasileira da indústria de suco de laranja.

Nesse sentido, a Associação dos Exportadores de Suco declarou que a sobretaxa é péssima para o setor como um todo e que atinge os próprios americanos, que há décadas têm o Brasil como principal fornecedor externo.

A carne bovina também tem sido um problema. A inflação do produto para o consumidor americano está batendo recorde por causa de uma redução histórica do rebanho do país, que encareceu o preço do boi por lá — ele está custando duas vezes mais que o boi brasileiro. Daí a disparada nas importações da carne.

Apesar disso, a analista de macroeconomia Sara Paixão, da InvestSmart, ressalta que o Brasil respondeu por apenas 1,4% das importações totais dos Estados Unidos em 2024. Por isso, o impacto direto da tarifa sobre a economia americana tende a ser limitado.

Segundo ela, outra questão que poderia impactar os EUA nesse contexto é que "a imposição de tarifas pode fazer com que outros blocos econômicos se juntem para fortalecer as relações comerciais", deixando os EUA mais isolado.

<><> Preços no Brasil

A tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entra em vigor em 1º de agosto e já gera preocupação em diversos setores da economia. A medida pode afetar tanto grandes exportadores quanto o bolso do consumidor brasileiro.

g1 ouviu economistas e representantes dos setores que mais exportam para os EUA para entender os efeitos da nova tarifa e como ela pode influenciar os preços de itens do dia a dia, como combustíveis, carne e até o tradicional cafezinho.

Os EUA são o segundo principal destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China. No primeiro semestre de 2024, o Brasil exportou mais de US$ 22 bilhões em produtos para o mercado norte-americano, com destaque para petróleo, ferro, aço, café, carne bovina e celulose.

Segundo especialistas, o setor agropecuário pode ser o primeiro a sentir os efeitos da tarifa, embora tenha maior capacidade de adaptação.

Parte da produção destinada aos EUA pode permanecer no mercado interno, elevando a oferta e pressionando para baixo os preços de produtos como café, suco de laranja e carne bovina.

  • 🔎 Como são perecíveis ou têm prazos curtos de comercialização, esses produtos são difíceis de armazenar ou redirecionar para outros mercados. Caso as exportações sejam reduzidas ou suspensas, o excedente tende a retornar ao mercado interno, derrubando os preços ao consumidor.

“O café e suco de laranja, por exemplo, podem ter uma oferta maior no mercado interno. Esse aumento na disponibilidade pode pressionar os preços para baixo, com risco até de deflação localizada”, avalia o economista André Perfeito.

Por outro lado, setores industriais — como os de aço, máquinas, equipamentos e produtos químicos — são mais suscetíveis a esse tipo de barreira comercial, segundo a economista Alessandra Ribeiro.

Por se tratarem de produtos de alto valor agregado, fabricados sob demanda e com ciclos de venda mais longos, é difícil redirecioná-los ao mercado interno.

“Os produtos mais expostos negativamente são os da siderurgia, aeronaves e componentes, como os jatos da Embraer, além de bens de capital — especialmente máquinas voltadas ao setor de energia”, destaca a economista.

Como consequência, pode haver redução no faturamento das empresas e ajustes na produção, o que afetaria o emprego e os investimentos no setor industrial.

“O que vai determinar o impacto é a reação do setor produtivo. Se o setor acreditar que essa tarifa veio para ficar, deverá direcionar a produção ao mercado interno. Caso contrário, pode optar por manter estoques para redirecionamento futuro ou até reduzir a produção”, diz André Perfeito.

O economista também alerta que, caso a tarifa seja mantida e provoque impactos significativos nas exportações, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) poderá ser comprometido.

Alessandra Ribeiro, da Tendências, acredita que o impacto sobre o PIB e o emprego será limitado. Mas isso não exclui um abalo na balança comercial brasileira: “Mesmo que parte da produção seja redirecionada a outros mercados, o efeito líquido ainda tende a ser negativo para as exportações”.

Na mesma linha, a economista Zeina Latif afirma que o impacto macroeconômico tende a ser “moderado e de pouca relevância no conjunto”. Segundo ela, as exportações para os EUA representam cerca de 2% do PIB, o que limita o potencial de um impacto generalizado.

“O Brasil é uma economia muito fechada. As exportações são muito importantes para as contas externas, mas nem tanto assim para movimentar a economia internamente”, afirmou.

➡️ Veja abaixo um panorama dos principais setores afetados:

  • CAFÉ

Exportações para os EUA em 2024: quase US$ 2 bilhões (16,7% do total exportado).
Possível impacto: com a perda de competitividade, a oferta de café pode aumentar no Brasil, pressionando os preços para baixo. O consumidor norte-americano deve ser diretamente afetado pelo encarecimento do produto.

  • 🥩 CARNE BOVINA
  • Exportações para os EUA em 2024: US$ 1,6 bilhão, com 532 mil toneladas embarcadas (16,7% do total).

Possível impacto: aumento da oferta interna pode reduzir os preços, mas grandes empresas do setor têm operações nos EUA, o que pode suavizar os efeitos.

  • 🍊 SUCO DE LARANJA

Exportações para os EUA na safra 2024/25: US$ 1,3 bilhão (41,7% das exportações do setor).

Possível impacto: setor não tem margem para absorver o aumento de custo; excedente pode gerar queda nos preços internos.

  • 🛢️ PETRÓLEO
    Exportações para os EUA em 2024: 
    US$ 5,8 bilhões (13% do total exportado da commodity).

Possível impacto: apesar da tarifa, setor possui flexibilidade para redirecionar embarques, o que pode reduzir impactos internos.

  • 🏗️ FERRO, AÇO E MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO

Exportações de semifaturados de ferro ou aço: US$ 2,8 bilhões, com mais de 70% indo para os EUA.

Materiais de construção e engenharia: US$ 2,2 bilhões exportados para os EUA (58% do total).

Possível impacto: excesso de oferta pode afetar preços internos e pressionar margens da indústria.

  • ✈️ AERONAVES

Exportações para os EUA: US$ 2,4 bilhões em 2024 (63% do total exportado no setor).

Possível impacto: setor pode sofrer com queda nas encomendas, já que não é possível redirecionar facilmente aviões ao mercado doméstico. Risco de perda de receita e impacto na produção e empregos

  • 🌳 CELULOSE E MADEIRA

Exportações de madeira: US$ 1,6 bilhão, com os EUA comprando mais de 40% do total.

Celulose: a Suzano, principal empresa do setor, tem cerca de 15% da receita vinda dos EUA.

Possível impacto: curto prazo pode ser desafiador, mas presença global e logística podem ajudar grandes empresas a contornar os efeitos e entrar outros mercados.

  • ⚙️ MÁQUINAS, MOTORES E ELETRÔNICOS

Máquinas e motores: US$ 1,3 bilhão exportado para os EUA (mais de 60% do total do setor).

Eletrônicos: US$ 1,1 bilhão exportado no 1º semestre de 2024; os EUA são o principal destino.

Possível impacto: queda na competitividade e potencial redução de receita para empresas e fabricantes de eletrônicos, segundo avaliação de analistas.

g1 procurou associações e entidades representativas dos principais setores exportadores para entender os possíveis efeitos da nova tarifa em suas cadeias produtivas.

Nenhuma delas, no entanto, aceitou conceder entrevista até o momento, alegando que preferem aguardar o andamento das negociações entre os governos do Brasil e dos EUA.

<><> E se o Brasil retaliar?

A carta de Trump trouxe um recado direto: caso o Brasil responda com aumento de tarifas sobre produtos americanos, os EUA devem reagir com novas elevações. Esse tipo de reação em cadeia cria uma “escada tarifária”, que pode agravar ainda mais a situação para ambos os países.

“É preciso cautela com a retaliação, pois ela pode gerar pressão inflacionária, encarecer produtos importados e aumentar as incertezas econômicas. Além disso, há o risco de uma resposta ainda mais severa por parte do governo norte-americano”, alerta Zeina Latif.

Para André Perfeito, a forma como o governo brasileiro reagirá será decisiva. “Se for pelo caminho da retaliação, pode ser muito ruim. Muita coisa que a gente importa dos EUA são insumos, não produtos finais. Isso pode afetar produção agrícola e industrial.”

Além disso, o aumento das tensões também pode influenciar o câmbio e a política monetária. “Se o dólar subir devido à incerteza, o Banco Central pode ser obrigado a interromper a trajetória de queda dos juros, o que impacta toda a economia”, explica o economista.

Todos os economistas ouvidos pelo g1 concordam que a resposta mais viável seria adotar uma estratégia focada no fortalecimento de acordos comerciais com outras regiões, como a União Europeia e a Ásia.

“Além de negociar com os Estados Unidos, o Brasil deve reforçar sua agenda de acordos comerciais com outras regiões. Em alguns segmentos, há espaço para uma diversificação mais ágil, como nos casos de suco de laranja e carnes”, destaca Alessandra Ribeiro, da Tendências.

“Temos visto diversos países buscando novas parcerias em resposta à postura dos EUA. O Brasil também precisa abrir sua economia, mesmo que gradualmente, e diversificar seus parceiros comerciais, inclusive indo além da China”, conclui Zeina.

 

Fonte: Reuters/g1

 

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