Aquiles
Lins: O plano T subiu no telhado
O gesto
do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao apoiar o
pacote tarifário de Donald Trump contra produtos brasileiros — incluindo a
proposta de liberar Jair Bolsonaro para negociar com o presidente dos EUA —
causou espanto no Supremo Tribunal Federal e revelou o colapso moral e político
de um projeto de poder que tenta sobreviver à custa da submissão nacional. A
revelação expôs a desconexão de Tarcísio com os interesses do Brasil e,
sobretudo, com a economia paulista, a mais afetada pelas novas sanções
comerciais dos EUA.
O
episódio reforçou perante a população brasileira a percepção de que Tarcísio
governa não para os paulistas, mas para um segmento ideológico que despreza a
soberania nacional. A tentativa de convencer o STF a liberar Bolsonaro para uma
missão diplomática ilegal escancarou o desespero do governador. Ministros
classificaram a proposta como “esdrúxula” e “totalmente fora de propósito”, por
violar princípios institucionais da diplomacia e indicar risco de fuga de um
réu por tentativa de golpe.
Politicamente,
o desgaste é monumental. Tarcísio carrega na testa o estigma de um agente
antipatriótico, que defende um ex-presidente investigado, ataca o Judiciário e
se alinha a um governo estrangeiro que impôs sanções injustificáveis ao seu
próprio estado. O boné vermelho com os dizeres “MAGA”, que o governador usou
com orgulho e depois apagou das redes, virou símbolo da humilhação e da
ausência de projeto nacional da direita bolsonarista — uma direita burra,
colonizada e sem visão estratégica para o país.
A crise
provocada pela sobretaxa imposta por Trump desencadeou uma onda de patriotismo
no Brasil. O presidente Lula, ao reagir com firmeza e acionar a OMC, ganhou
respaldo político e institucional. A retaliação estadunidense fortaleceu a
imagem do governo federal diante de empresários, governadores e da população,
especialmente em São Paulo. “Não adianta esconder o chapeuzinho do Trump”,
ironizou Lula — com razão.
Tarcísio
apostava, com o incentivo explícito do mercado financeiro e da mídia
corporativa, no desgaste de Lula para viabilizar sua candidatura presidencial
em 2026. Agora vê esse plano ruir antes de ganhar tração. Com a economia
paulista diretamente atingida pelas tarifas — afetando setores estratégicos
como Embraer, suco de laranja, metalurgia, café e carnes —, o governador perde
apoio em sua própria base. A crise escancarou o conflito entre sua lealdade
ideológica ao bolsonarismo e a responsabilidade de defender os interesses do
estado. E ele escolheu o lado errado.
Com
gesto anti-nacional e politicamente burro, Tarcísio de Freitas minou sua
viabilidade nacional e comprometeu seriamente sua reeleição. A imagem de alguém
que se curva a interesses estrangeiros e abandona os setores produtivos do
estado é devastadora. O boné de Trump virou, além de símbolo de subserviência,
a marca do fracasso. O plano T subiu no telhado — e dali não descerá.
• Apóstolos da mentira: quando a política
trai a verdade. Por Luis Pellegrini
A carta
dos 50%, enviada por Donald Trump com ataques insidiosos ao Brasil, acusando
nosso país de ser “contra as eleições livres” e “os direitos fundamentais de
liberdade de expressão dos americanos”, seria apenas risível e ridícula se não
fosse tão eivada de mentiras óbvias e de falta de educação e compostura
diplomática. Verdade que, em matéria de desatinos, nada mais vindo do atual
presidente norte-americano chega a surpreender. O que surpreende e espanta, em
vez disso, é que políticos brasileiros da atual oposição entrem no barco furado
das vendetas e notícias falsas trumpianas e façam declarações explícitas de
apoio a essa missiva que mais parece ter sido escrita por um transtornado
psíquico. Tarcísio, governador de São Paulo, é um dos que se juntaram ao coro
dos atuais aprendizes de ditador em curso e acusaram Lula de ser o responsável
pela ira funesta do colega Trump. Caro Lula, a mentira faz escola. O Evangelho
dos Apóstolos da Mentira tem muitos seguidores, no Brasil e no mundo.
Vivemos
uma era de crise da verdade. Em vez de serem líderes comprometidos com o bem
comum, muitos políticos atuais se tornaram verdadeiros apóstolos da mentira -
não apenas mentirosos ocasionais, mas missionários da falsidade, que constroem
sua influência com base na manipulação sistemática da realidade.
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A
metáfora é dura, mas precisa. Um apóstolo, no sentido original, é alguém que
propaga uma doutrina com fervor e convicção. No caso desses políticos, a
doutrina é a mentira. Não uma mentira qualquer, mas aquela que se transforma em
ideologia, em instrumento de mobilização de massas e até em alicerce de
governos inteiros.
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A mentira como método
O
fenômeno é global. Nos Estados Unidos, Donald Trump - que da mentira
sistemática não se sabe se é apóstolo ou Papa - construiu um império político
sobre a negação da realidade: das “fake news” à “grande mentira” sobre as
eleições de 2020, sua estratégia foi sempre semear desconfiança e alimentar
conspirações. Sua tática de base é a “Big Lie”, repetir a mentira até que
pareça verdade.
No
Brasil, Jair Bolsonaro zombou da ciência, disseminou desinformação sobre
vacinas e inventou versões paralelas da história nacional, tudo com o objetivo
de manter sua base em permanente estado de alerta e fidelidade. Sua tática
principal é a desinformação via redes sociais e lives semanais com conteúdo
manipulado.
O mesmo
se vê na Rússia de Vladimir Putin, onde a falsificação do passado soviético e a
distorção da realidade da guerra na Ucrânia sustentam uma política autoritária
e belicista. A verdade, nesses regimes, é tratada como inimiga. Putin usa a
mentira como arma de guerra. Tática principal: Criação de uma realidade
paralela via controle da mídia estatal.
Na
Turquia temos Recep Tayyip Erdogan, cujas mentiras mais marcantes são a negação
de repressão a jornalistas e opositores, bem como a manipulação reiterada de
dados econômicos e eleitorais. Os efeitos não poderiam ser outros: Fragilização
da democracia turca, prisões políticas, censura. A tática principal de Erdogan:
misturar até a exaustão nacionalismo, religião e censura, e criar ações para
sustentar narrativas.
E não
podemos deixar de lado, entre os principais apóstolos atuais da mentira (eles
são muitos!), Benjamin Netanyahu (Israel). Suas mentiras mais marcantes:
Minimiza ou nega a dimensão das violações de direitos humanos em Gaza; distorce
fatos históricos e jurídicos sobre os palestinos. Efeitos: Escalada, até as
raias do genocídio, do conflito com os palestinos; crescente isolamento
diplomático. Tática principal: Uso de medo e nacionalismo para justificar ações
militares controversas.
Esses
líderes utilizam o que o pensador político Jason Stanley chamou de
"propaganda autoritária": uma combinação de medo, ressentimento,
distorção e culto à personalidade, que torna as pessoas não apenas
desinformadas, mas incapazes de distinguir o verdadeiro do falso. Uma sociedade
assim está à mercê de qualquer narrativa conveniente ao poder.
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Uma mentira com seguidores
Mas
estejamos atentos: Não é só o político que mente. É o sistema que absorve a
mentira como parte de seu funcionamento. São redes sociais inundadas de fake
news. É a mídia conivente ou intimidada. São instituições enfraquecidas pela
constante erosão da confiança pública.
Mas
talvez o aspecto mais inquietante seja a fidelização dos seguidores. Esses
“apóstolos” da mentira conseguem o que muitos líderes sempre desejaram: uma
base que não apenas os apoia, mas que acredita cegamente neles - mesmo quando a
realidade os desmente. A mentira torna-se um dogma. Quem a contesta é tratado
como inimigo, traidor ou “anti-Deus”.
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Por que isso importa?
Porque
quando a mentira se institucionaliza, a democracia adoece. O debate público se
torna tóxico. A confiança entre cidadãos se dissolve. E o futuro passa a ser
construído sobre areia movediça. A verdade não é apenas um valor moral - é uma
condição para a convivência civilizada.
Haverá
um caminho de volta? Sim, a resistência. Mas resistir a esse novo apostolado
das trevas exige mais do que denunciar mentiras. É preciso reconstruir os
fundamentos éticos do discurso político, defender a educação crítica, valorizar
o jornalismo profissional e cultivar a humildade de mudar de opinião diante dos
fatos. A verdade não é absoluta, mas a mentira deliberada é sempre um veneno.
Se há
apóstolos da mentira, que surjam também os guardiões da lucidez - cidadãos,
intelectuais, artistas, professores, jornalistas -capazes de defender o espaço
público da palavra e da razão. Porque, no fim, a verdade pode ser silenciosa,
mas não é frágil. Ela apenas precisa de quem a sustente, e ponha a boca no
trombone.
• CEBRI alerta para interferência dos EUA
na política brasileira
O
Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) divulgou nota pública em
que expressa “profunda preocupação” com a decisão do governo dos Estados Unidos
de impor uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras. A medida foi
adotada de forma unilateral pela gestão do presidente Donald J. Trump e
representa, segundo o CEBRI, um "retrocesso" nas relações históricas
entre os dois países.
A nota
destaca que a iniciativa norte-americana quebra os marcos de previsibilidade e
cooperação que sustentaram o relacionamento bilateral ao longo de mais de dois
séculos. O centro também criticou duramente o tom agressivo da carta enviada
por Trump ao governo brasileiro, classificando as alegações feitas como
"lastreadas em informações incorretas".
De
acordo com o CEBRI, os dados oficiais mostram que os Estados Unidos acumulam um
superávit de US$ 410 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil nos
últimos 15 anos, o que desmente a acusação de que o país sul-americano mantém
um relacionamento comercial "injusto".
O CEBRI
classifica como uma tentativa de interferência em assuntos internos do Brasil e
condena a insinuação de que o Poder Judiciário estaria agindo de forma
ilegítima, alertando que isso fere o princípio constitucional da separação
entre os poderes, comum tanto à democracia norte-americana quanto à brasileira.
“Ainda
mais grave é a tentativa de condicionar decisões comerciais a temas da política
interna brasileira”, afirma o texto, que reitera a necessidade de respeito à
soberania nacional.
Apesar
das críticas, o CEBRI defende que o Brasil mantenha-se aberto ao diálogo e
busque resolver a crise por meios diplomáticos apropriados. A instituição
reforça a importância do multilateralismo, do respeito ao direito internacional
e da preservação de um ambiente de cooperação entre as duas maiores democracias
do continente americano.
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Confira a íntegra da nota:
Nota de
Posicionamento do CEBRI sobre as Tarifas Unilaterais Aplicadas pelos Estados
Unidos ao Brasil
O
Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) manifesta profunda
preocupação com a decisão unilateral do governo dos Estados Unidos de aplicar
uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras. Essa medida
representa não apenas um retrocesso nos marcos do relacionamento bilateral, mas
também contraria a longa história de amizade entre Brasil e Estados Unidos,
construída ao longo de mais de dois séculos de relações diplomáticas sólidas e
mutuamente benéficas.
Causa
perplexidade o tom agressivo e desproporcional adotado na correspondência
enviada pelo presidente Donald J. Trump ao governo brasileiro. As alegações
apresentadas estão lastreadas em informações incorretas sobre o real estado das
relações comerciais bilaterais. Os dados estatísticos oficiais revelam o
superávit dos EUA de US$ 410 bilhões no comércio de bens e serviços com o
Brasil nos últimos 15 anos. O Brasil, portanto, não impõe um relacionamento
comercial “injusto”, conforme alegado na carta do presidente americano, mas ao
contrário colabora com os princípios de abertura, complementaridade e
previsibilidade que sempre nortearam as trocas econômicas entre os dois países.
Ainda
mais grave é a tentativa de condicionar decisões comerciais a temas da política
interna brasileira representando uma interferência indevida em assuntos
internos de um Estado soberano, e com a insinuação inaceitável de que o Poder
Judiciário estaria atuando de maneira ilegítima ou parcial. Assim como a
Constituição dos Estados Unidos consagra o princípio da independência entre os
três poderes — cláusula pétrea também na Constituição da República Federativa
do Brasil —, não cabe ao Poder Executivo brasileiro interferir em matérias que
são de competência exclusiva do Poder Judiciário. Da mesma forma que os Estados
Unidos valorizam a separação de poderes e a autonomia de suas instituições, o
Brasil também exige que esses mesmos princípios sejam respeitados.
Apesar
da gravidade do cenário, o Brasil deve manter-se aberto ao diálogo. O CEBRI
defende que qualquer controvérsia comercial entre países com laços tão
profundos e históricos como Brasil e Estados Unidos deve ser tratada por meio
de canais diplomáticos apropriados e com base no respeito mútuo. É essencial
que ambas as partes busquem uma solução construtiva, transparente e
fundamentada em dados críveis, preservando os pilares do multilateralismo e do
direito internacional.
O CEBRI
reitera sua convicção de que medidas unilaterais, precipitadas e motivadas por
objetivos políticos não contribuem para a construção de um ambiente bilateral
estável, previsível e cooperativo. A amizade entre Brasil e Estados Unidos já
enfrentou inúmeros desafios ao longo da história e as partes souberam
superá-los pelo diálogo responsável com moderação e compromisso com o bem
comum. É com esse espírito que esperamos que a racionalidade volte a prevalecer
nas relações entre as duas maiores democracias do continente americano.
Centro
Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI)Rio de Janeiro, 12 de julho de
2025
Fonte:
Brasil 247

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