segunda-feira, 14 de julho de 2025

Aquiles Lins: O plano T subiu no telhado

O gesto do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao apoiar o pacote tarifário de Donald Trump contra produtos brasileiros — incluindo a proposta de liberar Jair Bolsonaro para negociar com o presidente dos EUA — causou espanto no Supremo Tribunal Federal e revelou o colapso moral e político de um projeto de poder que tenta sobreviver à custa da submissão nacional. A revelação expôs a desconexão de Tarcísio com os interesses do Brasil e, sobretudo, com a economia paulista, a mais afetada pelas novas sanções comerciais dos EUA.

O episódio reforçou perante a população brasileira a percepção de que Tarcísio governa não para os paulistas, mas para um segmento ideológico que despreza a soberania nacional. A tentativa de convencer o STF a liberar Bolsonaro para uma missão diplomática ilegal escancarou o desespero do governador. Ministros classificaram a proposta como “esdrúxula” e “totalmente fora de propósito”, por violar princípios institucionais da diplomacia e indicar risco de fuga de um réu por tentativa de golpe.

Politicamente, o desgaste é monumental. Tarcísio carrega na testa o estigma de um agente antipatriótico, que defende um ex-presidente investigado, ataca o Judiciário e se alinha a um governo estrangeiro que impôs sanções injustificáveis ao seu próprio estado. O boné vermelho com os dizeres “MAGA”, que o governador usou com orgulho e depois apagou das redes, virou símbolo da humilhação e da ausência de projeto nacional da direita bolsonarista — uma direita burra, colonizada e sem visão estratégica para o país.

A crise provocada pela sobretaxa imposta por Trump desencadeou uma onda de patriotismo no Brasil. O presidente Lula, ao reagir com firmeza e acionar a OMC, ganhou respaldo político e institucional. A retaliação estadunidense fortaleceu a imagem do governo federal diante de empresários, governadores e da população, especialmente em São Paulo. “Não adianta esconder o chapeuzinho do Trump”, ironizou Lula — com razão.

Tarcísio apostava, com o incentivo explícito do mercado financeiro e da mídia corporativa, no desgaste de Lula para viabilizar sua candidatura presidencial em 2026. Agora vê esse plano ruir antes de ganhar tração. Com a economia paulista diretamente atingida pelas tarifas — afetando setores estratégicos como Embraer, suco de laranja, metalurgia, café e carnes —, o governador perde apoio em sua própria base. A crise escancarou o conflito entre sua lealdade ideológica ao bolsonarismo e a responsabilidade de defender os interesses do estado. E ele escolheu o lado errado.

Com gesto anti-nacional e politicamente burro, Tarcísio de Freitas minou sua viabilidade nacional e comprometeu seriamente sua reeleição. A imagem de alguém que se curva a interesses estrangeiros e abandona os setores produtivos do estado é devastadora. O boné de Trump virou, além de símbolo de subserviência, a marca do fracasso. O plano T subiu no telhado — e dali não descerá.

•        Apóstolos da mentira: quando a política trai a verdade. Por Luis Pellegrini

A carta dos 50%, enviada por Donald Trump com ataques insidiosos ao Brasil, acusando nosso país de ser “contra as eleições livres” e “os direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”, seria apenas risível e ridícula se não fosse tão eivada de mentiras óbvias e de falta de educação e compostura diplomática. Verdade que, em matéria de desatinos, nada mais vindo do atual presidente norte-americano chega a surpreender. O que surpreende e espanta, em vez disso, é que políticos brasileiros da atual oposição entrem no barco furado das vendetas e notícias falsas trumpianas e façam declarações explícitas de apoio a essa missiva que mais parece ter sido escrita por um transtornado psíquico. Tarcísio, governador de São Paulo, é um dos que se juntaram ao coro dos atuais aprendizes de ditador em curso e acusaram Lula de ser o responsável pela ira funesta do colega Trump. Caro Lula, a mentira faz escola. O Evangelho dos Apóstolos da Mentira tem muitos seguidores, no Brasil e no mundo.

Vivemos uma era de crise da verdade. Em vez de serem líderes comprometidos com o bem comum, muitos políticos atuais se tornaram verdadeiros apóstolos da mentira - não apenas mentirosos ocasionais, mas missionários da falsidade, que constroem sua influência com base na manipulação sistemática da realidade.

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A metáfora é dura, mas precisa. Um apóstolo, no sentido original, é alguém que propaga uma doutrina com fervor e convicção. No caso desses políticos, a doutrina é a mentira. Não uma mentira qualquer, mas aquela que se transforma em ideologia, em instrumento de mobilização de massas e até em alicerce de governos inteiros.

<><> A mentira como método

O fenômeno é global. Nos Estados Unidos, Donald Trump - que da mentira sistemática não se sabe se é apóstolo ou Papa - construiu um império político sobre a negação da realidade: das “fake news” à “grande mentira” sobre as eleições de 2020, sua estratégia foi sempre semear desconfiança e alimentar conspirações. Sua tática de base é a “Big Lie”, repetir a mentira até que pareça verdade.

No Brasil, Jair Bolsonaro zombou da ciência, disseminou desinformação sobre vacinas e inventou versões paralelas da história nacional, tudo com o objetivo de manter sua base em permanente estado de alerta e fidelidade. Sua tática principal é a desinformação via redes sociais e lives semanais com conteúdo manipulado.

O mesmo se vê na Rússia de Vladimir Putin, onde a falsificação do passado soviético e a distorção da realidade da guerra na Ucrânia sustentam uma política autoritária e belicista. A verdade, nesses regimes, é tratada como inimiga. Putin usa a mentira como arma de guerra. Tática principal: Criação de uma realidade paralela via controle da mídia estatal.

Na Turquia temos Recep Tayyip Erdogan, cujas mentiras mais marcantes são a negação de repressão a jornalistas e opositores, bem como a manipulação reiterada de dados econômicos e eleitorais. Os efeitos não poderiam ser outros: Fragilização da democracia turca, prisões políticas, censura. A tática principal de Erdogan: misturar até a exaustão nacionalismo, religião e censura, e criar ações para sustentar narrativas.

E não podemos deixar de lado, entre os principais apóstolos atuais da mentira (eles são muitos!), Benjamin Netanyahu (Israel). Suas mentiras mais marcantes: Minimiza ou nega a dimensão das violações de direitos humanos em Gaza; distorce fatos históricos e jurídicos sobre os palestinos. Efeitos: Escalada, até as raias do genocídio, do conflito com os palestinos; crescente isolamento diplomático. Tática principal: Uso de medo e nacionalismo para justificar ações militares controversas.

Esses líderes utilizam o que o pensador político Jason Stanley chamou de "propaganda autoritária": uma combinação de medo, ressentimento, distorção e culto à personalidade, que torna as pessoas não apenas desinformadas, mas incapazes de distinguir o verdadeiro do falso. Uma sociedade assim está à mercê de qualquer narrativa conveniente ao poder.

<><> Uma mentira com seguidores

Mas estejamos atentos: Não é só o político que mente. É o sistema que absorve a mentira como parte de seu funcionamento. São redes sociais inundadas de fake news. É a mídia conivente ou intimidada. São instituições enfraquecidas pela constante erosão da confiança pública.

Mas talvez o aspecto mais inquietante seja a fidelização dos seguidores. Esses “apóstolos” da mentira conseguem o que muitos líderes sempre desejaram: uma base que não apenas os apoia, mas que acredita cegamente neles - mesmo quando a realidade os desmente. A mentira torna-se um dogma. Quem a contesta é tratado como inimigo, traidor ou “anti-Deus”.

<><> Por que isso importa?

Porque quando a mentira se institucionaliza, a democracia adoece. O debate público se torna tóxico. A confiança entre cidadãos se dissolve. E o futuro passa a ser construído sobre areia movediça. A verdade não é apenas um valor moral - é uma condição para a convivência civilizada.

Haverá um caminho de volta? Sim, a resistência. Mas resistir a esse novo apostolado das trevas exige mais do que denunciar mentiras. É preciso reconstruir os fundamentos éticos do discurso político, defender a educação crítica, valorizar o jornalismo profissional e cultivar a humildade de mudar de opinião diante dos fatos. A verdade não é absoluta, mas a mentira deliberada é sempre um veneno.

Se há apóstolos da mentira, que surjam também os guardiões da lucidez - cidadãos, intelectuais, artistas, professores, jornalistas -capazes de defender o espaço público da palavra e da razão. Porque, no fim, a verdade pode ser silenciosa, mas não é frágil. Ela apenas precisa de quem a sustente, e ponha a boca no trombone.

•        CEBRI alerta para interferência dos EUA na política brasileira

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) divulgou nota pública em que expressa “profunda preocupação” com a decisão do governo dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras. A medida foi adotada de forma unilateral pela gestão do presidente Donald J. Trump e representa, segundo o CEBRI, um "retrocesso" nas relações históricas entre os dois países.

A nota destaca que a iniciativa norte-americana quebra os marcos de previsibilidade e cooperação que sustentaram o relacionamento bilateral ao longo de mais de dois séculos. O centro também criticou duramente o tom agressivo da carta enviada por Trump ao governo brasileiro, classificando as alegações feitas como "lastreadas em informações incorretas".

De acordo com o CEBRI, os dados oficiais mostram que os Estados Unidos acumulam um superávit de US$ 410 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, o que desmente a acusação de que o país sul-americano mantém um relacionamento comercial "injusto".

O CEBRI classifica como uma tentativa de interferência em assuntos internos do Brasil e condena a insinuação de que o Poder Judiciário estaria agindo de forma ilegítima, alertando que isso fere o princípio constitucional da separação entre os poderes, comum tanto à democracia norte-americana quanto à brasileira.

“Ainda mais grave é a tentativa de condicionar decisões comerciais a temas da política interna brasileira”, afirma o texto, que reitera a necessidade de respeito à soberania nacional.

Apesar das críticas, o CEBRI defende que o Brasil mantenha-se aberto ao diálogo e busque resolver a crise por meios diplomáticos apropriados. A instituição reforça a importância do multilateralismo, do respeito ao direito internacional e da preservação de um ambiente de cooperação entre as duas maiores democracias do continente americano.

<><> Confira a íntegra da nota:

Nota de Posicionamento do CEBRI sobre as Tarifas Unilaterais Aplicadas pelos Estados Unidos ao Brasil

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) manifesta profunda preocupação com a decisão unilateral do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras. Essa medida representa não apenas um retrocesso nos marcos do relacionamento bilateral, mas também contraria a longa história de amizade entre Brasil e Estados Unidos, construída ao longo de mais de dois séculos de relações diplomáticas sólidas e mutuamente benéficas.

Causa perplexidade o tom agressivo e desproporcional adotado na correspondência enviada pelo presidente Donald J. Trump ao governo brasileiro. As alegações apresentadas estão lastreadas em informações incorretas sobre o real estado das relações comerciais bilaterais. Os dados estatísticos oficiais revelam o superávit dos EUA de US$ 410 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos. O Brasil, portanto, não impõe um relacionamento comercial “injusto”, conforme alegado na carta do presidente americano, mas ao contrário colabora com os princípios de abertura, complementaridade e previsibilidade que sempre nortearam as trocas econômicas entre os dois países.

Ainda mais grave é a tentativa de condicionar decisões comerciais a temas da política interna brasileira representando uma interferência indevida em assuntos internos de um Estado soberano, e com a insinuação inaceitável de que o Poder Judiciário estaria atuando de maneira ilegítima ou parcial. Assim como a Constituição dos Estados Unidos consagra o princípio da independência entre os três poderes — cláusula pétrea também na Constituição da República Federativa do Brasil —, não cabe ao Poder Executivo brasileiro interferir em matérias que são de competência exclusiva do Poder Judiciário. Da mesma forma que os Estados Unidos valorizam a separação de poderes e a autonomia de suas instituições, o Brasil também exige que esses mesmos princípios sejam respeitados.

Apesar da gravidade do cenário, o Brasil deve manter-se aberto ao diálogo. O CEBRI defende que qualquer controvérsia comercial entre países com laços tão profundos e históricos como Brasil e Estados Unidos deve ser tratada por meio de canais diplomáticos apropriados e com base no respeito mútuo. É essencial que ambas as partes busquem uma solução construtiva, transparente e fundamentada em dados críveis, preservando os pilares do multilateralismo e do direito internacional.

O CEBRI reitera sua convicção de que medidas unilaterais, precipitadas e motivadas por objetivos políticos não contribuem para a construção de um ambiente bilateral estável, previsível e cooperativo. A amizade entre Brasil e Estados Unidos já enfrentou inúmeros desafios ao longo da história e as partes souberam superá-los pelo diálogo responsável com moderação e compromisso com o bem comum. É com esse espírito que esperamos que a racionalidade volte a prevalecer nas relações entre as duas maiores democracias do continente americano.

Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI)Rio de Janeiro, 12 de julho de 2025

 

Fonte: Brasil 247

 

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