"Ao
Brasil, interessa uma Europa independente dos EUA", diz ex-embaixador
brasileiro na Alemanha
Embaixador
brasileiro mais longevo na Alemanha, Roberto Jaguaribe deixou o cargo nesta
sexta-feira (11/07), após ter representado dois governos brasileiros muito
distintos – Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva – e lidado
com três governos alemães, liderados por Angela Merkel, Olaf Scholz e, agora, Friedrich Merz. Desde fevereiro de
2019, quando chegou a Berlim, ele acompanhou também, a partir da maior economia
da Europa, desenvolvimentos geopolíticos como a invasão russa da Ucrânia, a alta em gastos militares no
continente,
a crescente competitividade dos produtos Made in China e o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Nesta entrevista à DW,
ele conta como foi representar o Brasil durante o isolamento internacional dos
anos Bolsonaro e depois receber o entusiasmo alemão com a eleição de Lula, e a
dificuldade de elevar as trocas econômicas a um patamar equivalente à da relação
histórica e política entre os dois países. "Quando cheguei aqui, havia uma
mudança radical no Brasil – uma mudança malvista não apenas na Alemanha, mas
praticamente na Europa inteira", afirma. "Eu era o homem feio no
baile, ninguém queria dançar comigo." Depois da eleição de Lula, conta,
todas as autoridades alemãs o "chamaram para dançar". Esse
entusiasmo, porém, não se refletiu em uma "aceleração" significativa
da relação econômica, em parte por conta "uma certa inquietação" sobre o futuro
da indústria alemã. Ele considera que a atual corrente de comércio entre Brasil
e Alemanha – de 20 bilhões de dólares em 2024 – é muito inferior à
"intensidade do relacionamento político e das convergências de interesses
e de valores" entre os dois países.
Para
Jaguaribe, uma solução à vista seria a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre o
Mercosul e a União Europeia (UE), que, na sua opinião, traria ganhos econômicos
para os dois lados da equação, reduziria a pressão por desmatamento ao gerar
riqueza e fortaleceria um eixo de países democráticos. O otimismo com o acordo
Mercosul-UE dá lugar um tom ácido quando a conversa avança para a lei antidesmatamento do bloco europeu (EUDR, na sigla
em inglês). Ele considera que a norma foi elaborada a partir de uma visão
"muito arrogante" sobre o que é sustentabilidade, e pode vir a ser
usada como instrumento de protecionismo. "A ideia de que Bruxelas tenha a
chave da sustentabilidade do mundo (...) é profundamente equivocada, derivada
de um dos problemas que a Europa enfrenta hoje, que é acreditar que o mundo
todo ainda é eurocêntrico", afirma. No entanto, ele reconhece a
importância da "convergência valorativa" entre os países do continente
e a América do Sul. E pontua que seria importante a Europa fortalecer sua independência frente
aos Estados Unidos,
crucial para um mundo multipolar equilibrado. "Se é uma Europa atrelada a
outro, e, no caso, o atrelamento é sempre com os Estados Unidos, já deixa de
ser forte", diz. "Para ser forte, precisa ser independente de fato, e
essa é a aspiração que o Brasil tem em relação a como é que a Europa deveria se
colocar."
Questionado
se Brasília deveria evitar alianças com líderes autocráticos, ele reconhece que
o desafio global que se coloca hoje diante das democracias é "muito
grande" e vai requerer uma "concertação de países que têm interesse
em defender o modelo democrático". Mas diz que o Brasil "não é um
missionário da democracia" e mantém relações "muito amplas, profundas
com países de regimes de naturezas diferentes". Ele critica ainda grandes
países democráticos refratários a uma reforma da governança global – "o
Brasil é defensor de modelos mais abertos e democráticos em tudo" – e a
politização da defesa dos direitos humanos – "o chamado double
standard, que é defender o direito internacional somente quando
convém". Aos 72 anos, Jaguaribe já foi embaixador em Pequim e Londres e
agora deve atuar no Itamaraty em Brasília até sua aposentadoria. Ele será
substituído em Berlim por Rodrigo de Lima Baena Soares, atual embaixador
brasileiro na Rússia.
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Começo difícil com "arroubos retóricos" de Bolsonaro
Indicado
para a embaixada de Berlim durante o governo Michel Temer, Jaguaribe assumiu o
posto em fevereiro de 2019, um mês após a posse de Bolsonaro. Não foi um início
tranquilo. Na campanha, Bolsonaro disse que poderia retirar o Brasil do Acordo de
Paris e
prometeu que daria uma guinada na política
externa do Itamaraty.
"Quando
cheguei aqui, havia uma mudança radical no Brasil – uma mudança malvista não
apenas na Alemanha, mas praticamente na Europa inteira", afirmou. Ele
rememora que o governo Bolsonaro começou com uma retórica nas relações
exteriores muito diversa da tradição do Itamaraty, em especial a política de
não alinhamento. "Uma das coisas peculiares era uma certa filiação,
lembrando épocas pregressas não muito felizes, a interesses de outros
países, particularmente um grande país da
região",
afirma. Logo começaram os atritos com políticos alemães. Em abril de 2019,
Bolsonaro afirmou que o nazismo havia sido um movimento de esquerda, provocando reação de partidos do país europeu. Dois meses depois,
Merkel disse que via com "grande preocupação" a situação de
direitos humanos e de meio ambiente no Brasil, e suspendeu o repasse de verbas ao Fundo
Amazônia. Bolsonaro reagiu dizendo que Berlim não iria mais "comprar a Amazônia" e poderia
"fazer bom uso dessa grana, o Brasil não precisa disso".
A
ameaça de retirar o país do Acordo de Paris não se concretizou – segundo
Jaguaribe, muito por pressão do agronegócio, que viu que teria prejuízo
– e aos poucos a relação bilateral entre Brasil e Alemanha seguiu
funcionando de alguma forma, apesar do isolamento internacional de Brasília.
Ele aponta que isso ocorreu por diversos motivos. O principal foi a "longa e densa história" de relações
entre os dois países, que funciona como elemento de "união e
confiança". Uma "solidez" ancorada em uma miríade de interesses
econômicos e de parcerias em diversos níveis que se impõe sobre questões
conjunturais. Além disso, "arroubos retóricos" de autoridades no
governo Bolsonaro não tiveram impacto prático no dia a dia da atuação da
embaixada. "Não havia uma política estruturada, eram devaneios de algumas
pessoas (...) Afetou minha orientação para cá? Praticamente nada", afirma.
Outro
aspecto foi a "solidez institucional do Itamaraty", que segundo ele
funcionou como inibidor para transformar retórica em prática. Reportagens da
imprensa brasileira relataram que, na gestão Bolsonaro, alguns diplomatas
montaram redes informais para trocar informações e articular-se com o objetivo
de evitar maiores danos à política externa brasileira.
Indagado
pela DW, ele afirma desconhecer se houve algo do tipo em Berlim
– "mas não há dúvida de que colegas conversavam e mantinham um
diálogo a respeito de questões relevantes estruturais". "O governo
determina a política, mas sempre temos presente que, como funcionários de
Estado, temos uma responsabilidade de estabilidade." Se na embaixada em
Berlim ele relata que o impacto não foi tão grande, na representação em órgãos
multilaterais, em especial nas sedes da ONU em Nova York e Genebra, o cenário foi
diverso. Lá, o Brasil patrocinou mudanças de posição "a meu juízo
completamente equivocadas". No governo Bolsonaro, Jaguaribe recebeu a
visita da então ministra da Agricultura, Tereza Cristina, "que foi muito
bem", do então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que o
surpreendeu positivamente, e outras visitas "que não foram tão
exitosas" – a mais difícil, diz, foi a do então Meio Ambiente, Ricardo Salles, sem detalhar o
motivo.
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Após vitória de Lula, "todo mundo me chamou para dançar"
Os
momentos complicados à frente da embaixada no governo Bolsonaro deram lugar a
uma onda de otimismo de políticos alemães com o Brasil, desde a vitória
eleitoral de Lula em outubro de 2022 até meados de 2023, em uma magnitude que
ele diz nunca ter visto na sua carreira diplomática. "Todas as lideranças
centrais e mais elevadas do governo alemão fizeram visitas ao Brasil num espaço
de seis meses", afirma. O primeiro foi o presidente, Frank-Walter Steinmeier, seguido pelo
chanceler federal Olaf Scholz, e os ministros da Cooperação e Desenvolvimento,
da Economia e do chefe da Chancelaria, entre outras autoridades. "Havia um
conhecimento sólido dos protagonistas do novo governo, e isso gerou um clima de
aproximação, entendimento, mesmo de entusiasmo, extraordinário". Esse
movimento foi coroado com a visita de Lula a Berlim em dezembro de
2023, e as primeiras consultas intergovernamentais de alto nível entre os dois
países em oito anos. Jaguaribe diz ter resumido a mudança de clima da seguinte
forma a uma autoridade alemã, em tom de brincadeira: "Eu era o homem feio
no baile, ninguém queria dançar comigo. Agora todo mundo me chama para
dançar."
Essa
intensidade da relação bilateral no nível político perdeu força em seguida –
"e nem poderia se manter, é impossível, não fazem nem com a França" –
também em função de crises que ocuparam o então governo
alemão em
diversas frentes, envolto com os efeitos da guerra da Ucrânia, da inflação e da
estagnação econômica. Houve também certa decepção na Alemanha com a posição de Lula sobre a guerra
de agressão russa contra os ucranianos. Mesmo assim, no final de 2024, a
Alemanha fez um gesto "muito bem visto" no Brasil: unir-se à Aliança
Global contra a Fome e a Pobreza lançada na cúpula do G20 no Rio de Janeiro,
cuja presidência rotativa estava nas mãos do Brasil e era uma prioridade para
Lula. A Alemanha foi o primeiro país do G7 a se juntar à iniciativa, somando
esforços de uma aliança similar do G7, a Aliança Global para a Segurança
Alimentar, o que fortaleceu o papel do G20 no tema, diz Jaguaribe.
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Comércio "muito inferior à intensidade da relação entre os países"
A
corrente de comércio – soma de exportações e importações – entre Brasil e
Alemanha em 2024 foi de 20 bilhões de dólares, aproximando-se do melhor ano da
série histórica, 2011, quando alcançou 24 bilhões de dólares. A Alemanha teve a
quarta maior corrente de comércio com o Brasil, atrás da China (158 bilhões de
dólares), EUA (81 bilhões) e Argentina (27 bilhões), e à frente de Holanda e
Espanha (ambas com 14 bilhões). Mesmo assim, Jaguaribe considera os números
atuais "pífios" e muito inferiores à "intensidade do
relacionamento político e das convergências de interesses e de valores"
entre os países. "Há uma extraordinária multiplicidade de oportunidades
reais de negócios relevantes para os dois países. É difícil encontrar uma
complementariedade de atendimento, de fragilidades e de competências como a que
a gente vê entre Brasil e Alemanha."
Ele
lembra que um dos irmãos Siemens foi ao Brasil já na década de 1860, para
instalar a linha telegráfica entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre, e foi
seguido por outras empresas alemães, como a Bayer, a BASF e bancos. Após
a Segunda Guerra Mundial, o país europeu
tornou-se um dos principais parceiros no processo de acelerada industrialização
brasileira e fez de São Paulo a "maior cidade industrial alemã no
mundo", diz. Essa relação esfriou após a queda do Muro de Berlim e o colapso
da União Soviética, na sua avaliação
porque a Alemanha optou por dedicar mais recursos à reunificação do país e ao
Leste Europeu – o que ele considera uma "boa política" à época, tendo
em vista os interesses alemães. No entanto, ele acredita que a perda de espaço
da América Latina foi exagerada, em função da importância que a região poderia
ter tanto para a Alemanha como para a Europa em geral. "A Alemanha é uma
powerhouse de competência produtiva e de geração de inovação, mas não tem
dimensão geográfica, de recursos humanos, e mesmo em algumas instâncias
tecnológicas, para bancar tudo sozinha e se manter na linha de frente da
competitividade produtiva tecnológica e industrial. É preciso de
parcerias-chaves", afirma.
Jaguaribe
diz ouvir com frequência em Berlim que a relação com o Brasil deve ser
intensificada, mas não vê na prática uma "aceleração" significativa.
Em parte, ele considera que isso ocorre por conta de "uma certa
inquietação" sobre o futuro da indústria alemã – sob pressão crescente da
China e do aumento dos custos de energia, e à espera do possível impacto de
grandes pacotes de ampliação de gastos públicos e de alívio
tributário do atual governo. Sobre o resultado da balança comercial, que em
2024 foi deficitária para o Brasil em 8 bilhões de dólares, ele considera que a
relevância da relação econômica entre os países "deriva muito mais da
história dos investimentos alemães no Brasil do que da pauta comercial do
momento".
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Acordo Mercosul-UE: "Chance de sair até 2026 é maior que a de não
sair"
A
melhor oportunidade para levar essa relação comercial a outro patamar, na
opinião de Jaguaribe, seria a ratificação e entrada em vigor do acordo de livre
comércio entre Mercosul e União Europeia. Somados, os 27 países do bloco
europeu tiveram no ano passado uma corrente comercial com o Brasil de 95
bilhões de dólares, à frente dos Estados Unidos. Negociado há mais de duas décadas, o acordo chegou a
ser assinado pelos dois blocos em junho de 2019, no início do governo
Bolsonaro, mas depois entrou em banho-maria e não avançou até sua efetiva
implementação.
A
Alemanha historicamente tem interesse no acordo com o
Mercosul, assim como a Espanha e outros países europeus. A França é a maior opositora, em função da
pressão do seu setor agrícola, e outros países, como a Áustria, também já se
manifestaram contra em algumas oportunidades. Para entrar em vigor, é
necessária a aprovação de 15 dos 27 países da UE, que representem ao menos 65%
da população do bloco, e de uma maioria simples no Parlamento Europeu. Apesar
do tradicional apoio de Berlim, um dos motivos para o acordo ter perdido o
ímpeto após a assinatura em 2019 foi, na avaliação de Jaguaribe, uma decisão da
Alemanha, que presidiu o Conselho da União Europeia de julho a dezembro de 2020
e poderia ter usado essa posição para fazer avançar o texto. Jaguaribe
considera que Berlim à época colocou o pé no freio devido a preocupações de que
o acordo poderia estimular o desmatamento, em um contexto de alta de desmate e
queimadas na Amazônia, com Bolsonaro sinalizando que isso não era considerado
um problema para seu governo. Para o embaixador, foi um "erro
estratégico" do governo Merkel, derivado de um "problema de
narrativas". "Apesar de todo o descaso que foi evidenciado, sobretudo
retoricamente, pelo presidente e outras autoridades com relação à questão do
meio ambiente, o Brasil continua sendo muito mais sustentável que praticamente
qualquer país europeu", afirma. Ele lembra que, naquele momento, a
ativista sueca Greta Thunberg estava em
evidência, e chegou a se reunir pessoalmente com Merkel em agosto de 2020, com
impacto na opinião pública europeia e alemã.
Jaguaribe
é da opinião de que o acordo de livre comércio "não tem nada a ver"
com ampliação do desmatamento. Ele considera que o "maior inimigo" da
preservação ambiental é a pobreza, que gera demandas que não satisfeitas
resvalam para a ilegalidade, e pontua que a maior parte do desmatamento ilegal
ocorre em terras devolutas. "Que o Brasil,
a Alemanha e o resto do mundo tinham que se preocupar com o que vem a acontecer
na área de meio ambiente no Brasil, não tenho dúvida, isso faz parte de algo
global e é natural. Mas criar a confusão de que tinha um impacto direto, impulsionador,
caso o acordo fosse firmado, é completamente equivocado", afirma. Ele
considera que o acordo é "potencializador de geração legítima de meios
econômicos para a região e, portanto, diminuidor do potencial de
devastação", e cita que tanto o ex-ministro alemão da Economia Robert Habeck como a
ex-ministra alemã do Exterior Annalena Baerbock, ambos do Partido
Verde, defenderam sua ratificação durante visitas ao Brasil. Por outro lado,
essa demora abriu espaço para novas negociações. A UE enviou uma side letter ao Mercosul
exigindo novas salvaguardas ambientais, e Lula, em resposta, demandou novas salvaguardas para compras
governamentais, desenvolvimento industrial e pequenas e médias empresa.
No
final de 2024, o presidente brasileiro afirmou que o texto assinado em 2019
tinha condições "inaceitáveis" e que sua versão atual estava
"bem diferente". Qual é a probabilidade de o acordo sair do papel até
o final do atual mandato de Lula? "A chance de que isso venha a ser feito
é maior do que a chance de que não venha a ser feito", estima Jaguaribe.
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Lei antidesmatamento da UE tem visão "arrogante"
O
entusiasmo com o acordo Mercosul-UE dá lugar um tom ácido quando a conversa
avança para a lei antidesmatamento da UE (EUDR, na sigla em inglês). A partir
de 2026, a norma exigirá que os exportadores de algumas commodities para o
bloco apresentem provas de que os produtos não provêm de áreas desmatadas de 2021 em
diante. Jaguaribe avalia que, apesar de motivada por preocupações legítimas, a
norma foi elaborada a partir de uma visão "muito arrogante" sobre o
que é sustentabilidade, e pode vir a ser usada como um instrumento de
protecionismo. "A ideia de que Bruxelas tenha a chave da sustentabilidade
do mundo, e possa expandir as preocupações centrais de sustentabilidade na
Europa para o resto do mundo, é profundamente equivocada, derivada de um dos
problemas que a Europa enfrenta hoje, que é acreditar que o mundo todo ainda é
eurocêntrico", afirma. Ainda mais, pontua, diante dos "esforços
exitosos" para reduzir o desmatamento no governo Lula. "O Brasil é
vastamente mais sustentável do que a Europa, e o Brasil ser punido por
insustentabilidade por uma região que tem o nível de insustentabilidade da
Europa coloca dilemas diversos."
Ele
considera que a lei impõe dificuldades e custos adicionais, em especial
aos pequenos produtores, e lembra que o
Congresso brasileiro aprovou em abril a Lei da Reciprocidade Comercial – para
responder às tarifas de importação impostas por
Donald Trump,
mas também tendo em vista a norma da UE sobre desmatamento.
Jaguaribe
avalia que a aprovação da lei brasileira da reciprocidade foi uma medida
acertada – mas espera que não seja necessário usá-la contra UE, e que aplicação
da norma antidesmatamento do bloco europeu seja "muito cautelosa"
para evitar esse tipo de problema. "Se eu for usar critérios europeus,
posso, por exemplo, dizer: qualquer país que tenha uma matriz elétrica que não seja
80% renovável não está sendo sustentável. E vou aplicar uma regra dizendo que
esses países não podem exportar para o Brasil porque não têm uma matriz
energética 80% sustentável. Isso é uma realidade brasileira, que é fácil para a
gente fazer, mas não é fácil para outros países – e não é legítimo que eu
coloque isso", exemplifica. "Ou posso fazer algo muito direcionado:
qualquer país que não tenha pelo menos 20% de cobertura vegetal nativa
preservada em qualquer propriedade produtiva não pode exportar para o Brasil. A
Europa não consegue manter 4%, e vai fazer retaliações contra o Brasil a
respeito disso?", questiona.
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Brasil tem interesse em uma Europa "forte e independente"
Se
Jaguaribe não poupa críticas ao que considera uma postura europeia
"arrogante" de prescrever regras a outras partes do mundo, por outro
lado ele reconhece a importância da "convergência valorativa" entre
os países do continente e a América do Sul. E pontua que seria importante a
Europa fortalecer sua independência frente aos Estados Unidos, crucial para um
mundo multipolar equilibrado. "O mundo bipolar fica muito radicalizado.
Eventualmente pode convir aos dois polos, mas os países que não são exatamente
nem um nem outro se veem estrangulados nas suas opções. Países médios, mas que
têm pretensão de serem dignos e autossuficientes e de terem capacidade de
articulação internacional, ficam pressionados a adotarem políticas que não são
exatamente aquelas que lhes convém, mas que convém à potência que está
pressionado de um lado ou de outro", afirma. Uma das apostas do Brasil
para fortalecer um mundo multipolar é o Brics, que realizou no início do mês uma cúpula no Rio e atraiu a ira de Trump.
Ele
considera "muito difícil" conceber um mundo multipolar adequado sem
que a Europa tenha um papel importante. "Para isso, precisa ser uma Europa forte, com capacidade
própria, que tem a sua própria política. Se é uma Europa atrelada a outro, e,
no caso, o atrelamento é sempre com os Estados Unidos, já deixa de ser
forte", diz. "Para ser forte, precisa ser independente de fato, e
essa é a aspiração que o Brasil tem em relação a como é que a Europa deveria se
colocar." Ele afirma que a América do Sul tem uma relação "mais
tradicional" com a Europa tanto em investimentos como em comércio, mas que
os europeus infelizmente "estão deixando de prestar atenção nisso".
"O Brasil não tem nada contra a Ásia, temos a melhor relação possível e
vamos expandir onde a gente puder. Mas achamos que é sempre melhor ter mais
equilíbrio, e onde há mais potencial para ampliação exponencial é o
relacionamento Mercosul – União Europeia", afirma. Jaguaribe expressa que
"gostaria muito" que a Europa não perdesse a condição de ser de certa
forma uma referência para a América Latina, mas receia que "isso já está
acontecendo". "Temos uma base conceitual, partindo de princípios
formatados essencialmente na Europa, mas que na verdade são muito universais,
porque são expressões de humanismo e do interesse dos povos em geral",
afirma. "Esses valores precisam ser sustentados, e um eixo
europeu-latino-americano é um eixo muito forte disso", afirma.
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Enfrentar crise da democracia exige articulação, mas Brasil não é
"missionário"
Diversas
pesquisas apontam uma tendência global de recuo da democracia e da confiança
nas instituições democráticas. E há um debate sobre se a democracia deve ser um
aspecto relevante das relações externas, ou se as relações externas devem ser
norteadas prioritariamente por interesses econômicos e políticos. Essa questão
surgiu, por exemplo, quando Lula decidiu ir a Moscou em maio para se
encontrar com Vladimir Putin e participar do
desfile militar que marcou o 80º aniversário da vitória do exército soviético
sobre a Alemanha nazista. O evento foi usado por Putin para projetar poder, e o
brasileiro foi um dos poucos líderes de países democráticos que acompanharam a
cerimônia. Jaguaribe considera que o desafio que se coloca diante das
democracias é "muito grande" e vai requerer uma "concertação de
países que têm interesse em defender o modelo democrático". Mas afirma que
"o Brasil não é um missionário da democracia – o Brasil tem relações muito
amplas, profundas com países de regimes de naturezas diferentes". "Optamos
pela democracia, e achamos que é melhor para o mundo como um todo, inclusive
como gestão global", apontando para a resistência de grandes países
democráticos a apoiarem uma reforma da governança global. "O Brasil é
defensor de modelos mais abertos e democráticos em tudo."
Ele vê
a democracia não apenas como um meio para chegar a uma sociedade mais justa e
eficaz, mas um "fim em si próprio", pois "maximiza o que o homem
tem de melhor, que é a liberdade". No entanto, é um modelo mais complexo,
que exige a habilidade de "falar com todo mundo e reconhecer que o outro
tem legitimidade". Esse modelo está ameaçado por várias frentes, como a
dificuldade de ciclos eleitorais corresponderem aos ciclos de resolução de
problemas, um problema "antigo", hoje exacerbado pelo
"empoderamento da ignorância facultado pela mídia social". "A
mídia social faz com que a ignorância, que normalmente é mais contida, se
espalhe por toda a parte. E a simplificação dos problemas é usada para fins
políticos por alguns espertalhões", afirma. "É preciso regular as mídias sociais. Com a inteligência artificial, as mentiras com
aparência de verdade vão se multiplicar e, se não houver uma capacidade
regulatória mínima, vai virar um problema insolúvel." Ele afirma que esses
"problemas sérios" estão sendo enfrentados "com muita
dificuldade" pela Europa, pelo Brasil e por outros países democráticos.
Mas considera que eles precisam ser examinados com mais atenção, "tanto
internamente como coletivamente, por países que têm interesse na preservação do
modelo democrático".
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Solução de conflitos "deve passar pelo direito internacional"
Questionado
sobre a atuação do Brasil em relação a conflitos contemporâneos, como a guerra de Israel contra o Hamas, a guerra da Rússia
contra a Ucrânia e os ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, Jaguaribe afirma que a preocupação de Brasília é a
defesa do direito internacional e dos direitos humanos em todos os locais, e
não "somente quando convém". Ele relata que, no seu período à frente
da embaixada em Berlim, foi questionado diversas vezes se o Brasil não estava
preocupado com a situação de direitos humanos, por exemplo, na Ucrânia. No
início de 2023, Lula chegou a dizer que a Europa contribuía para a continuidade
da guerra,
e o líder brasileiro demorou a condenar a violação da integridade territorial
do país – no início, sem mencionar a Rússia. "Estamos tão
preocupados com a situação de direitos humanos que não politizamos a questão,
como vemos muitos países fazerem – o chamado double standard,
que é defender o direito internacional somente quando convém", afirma. Ele
cita que o Brasil denunciou a Rússia pela
invasão da Ucrânia,
que violou o direto internacional, assim como os Estados Unidos por
bombardearem o Irã. E lembra que o Brasil se opõe ao armamento nuclear em
qualquer lugar do mundo, sobretudo no Oriente Médio, mas que isso deve ser
feito por meio do direito internacional e dos órgãos multilaterais, como a
Agência Internacional de Energia Atômica. "A manipulação e o uso político
desses instrumentos enfraquece esses instrumentos." "Direitos humanos
é algo fundamental, e acreditamos na força multilateral de tratar essa matéria.
Apesar de ser lenta, é a única que tem capacidade real de comprometer os
atores e paulatinamente ir abrangendo e ampliando a sua capacidade de
ação", diz.
Fonte:
DW Brasil

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