terça-feira, 15 de julho de 2025

Antonio Machado: Disputa de ultrajes

No mundo em que corre solta uma matilha de pitbulls sem guia nem focinheira, recomenda a prudência não os provocar, de preferência nem passar perto, nem parecer fofinho, que aí é que atacam mesmo.

Foi o que o presidente Lula vinha fazendo e recrudesceu na cúpula dos BRICS+, ao atacar o unilateralismo tarifário dos EUA de Donald Trump e o dólar como moeda dominante. Tomamos uma mordida mais por isso que pelas razões alegadas por Trump numa carta enviada a Lula pela sua rede social Truth, uma das muitas esquisitices do que não tem cabimento – da maneira esdrúxula de se comunicar com um país ao pretexto de que Jair Bolsonaro está sendo injustiçado pelo STF.

Num texto padrão que tem enviado aos países de todo tipo alegando em geral razões econômicas para impor tarifas de 20% a 35%, Trump adicionou o que chamou de “caça às bruxas”, referindo-se à ação no STF contra Bolsonaro, que, advertiu imperialmente, “deve terminar imediatamente”, para justificar a oneração de 50% das exportações brasileiras aos EUA, um recorde, a partir de 1º de agosto.

Misturou a agrura de Bolsonaro pelo seu golpismo com dados falsos sobre a balança comercial, que há mais de dez anos favorece aos EUA, e tascou que qualquer tarifa retaliatória será adicionada aos 50%. Convenhamos, isso não é linguagem entre adultos civilizados.

Empresário polêmico dublê de político, narcisista, mitômano e com a ideia fixa de que os EUA são os otários do livre mercado global, razão pela qual decidiu tarifar as exportações da poderosa China ao quase irmão Canadá, Trump chega ao sexto mês de seu segundo governo ainda mais errático e ameaçador, além de confuso.

O tarifaço é tão irracional, tão sem propósito e distante do que a tecnocracia trumpista idealiza para cortar a dependência externa dos EUA e conter a China, que não me surpreenderia se Trump, nos próximos dias, anunciar que atendeu ao apelo de Bolsonaro, “herói da resistência democrática” em seu roteiro de programa de podcast, e perdoar a “multa” de 50%. Mas com outro aviso: estará de olho no que farão o STF e o governo Lula. Ele quer dominar a narrativa.

•        Inteligência está escassa

Entende-se que Lula tenha ficado possesso. Todos ficamos, até os setores da direita, exceto a mais reacionária. Mas com a China de Xi Jinping mais poderosa que nunca, a Rússia de Putin e devaneios soviéticos atolada na Ucrânia e os EUA do MAGA, de Faça a América Grande Novamente, agindo para desestabilizar a ordem global do pós-guerra, a inteligência estratégica está escassa no Brasil.

Tais precedentes não o contiveram. Pareceu que esperava por um Trump destrambelhado para sair das cordas agitando a bandeira da soberania e acuar Bolsonaro, o filho Eduardo (autoexilado nos EUA para atiçar o trumpismo e tentar salvar o pai de uma pena severa) e o governador Tarcísio de Freitas, seu provável rival em 2026.

Neste jogo de cena, as consequências para o país estão em segundo plano, com o petismo e a direita antecipando a campanha eleitoral agendada para começar, oficialmente, só em agosto de 2026. Mal…

O jogo eleitoral deve ficar embolado por ora. É possível que um jogo ensaiado leve Trump a atender os apelos do empresariado mais atingido pela sanção tarifária, com a mediação de Tarcísio, já que as sondagens ao STF para permitir Bolsonaro ir a Washington foram negativas. Tarcísio procurou o encarregado de negócios da Embaixada dos EUA, Gabriel Escobar, e foi bem recebido.

Importante, a esta altura, é apagar o incêndio geopolítico, seja a iniciativa de quem for, de preferência com todos em sintonia.

•        Índia é o cavalo premiado

Apesar de a botinada de Trump animar o governismo, a ponto de os partidos de esquerda terem mobilizado 15 mil pessoas num protesto quinta à noite na avenida Paulista, não se deve esquecer de que o Brasil é só mais um no embate do governo dos EUA com o mundo.

Canadá, parceiro de todas as guerras dos EUA tal como Inglaterra e Austrália, foi contemplado com tarifa geral de 35%, e mesmo já tendo cedido na tributação das bigtechs – um dos pontos de atrito com o governo brasileiro e o STF, com a judicialização do tema.

O Vietnã, que tem agigantado seu superávit comercial em cima dos EUA, esperava simpatia. Chegou a anunciar a compra de jatos F-16, algo surpreendente para um país comunista, que esteve em guerra com os EUA. Recebeu tarifa de 20%, quando esperava manter os 10% atuais, igual à do Brasil antes da pancada desta semana.

A própria China tem manifestado moderação, depois de acompanhar os tarifaços de Trump com sanções equivalentes. Ambos recuaram, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, assumiu as negociações com o conselheiro pessoal de Xi, e ambos comunicam que há progressos.

Mas o cavalo premiado dessa corrida é a Índia de Narendra Modi, um nacionalista habilidoso, que pede tratamento especial. É o país de maior crescimento econômico do mundo, com o 4º maior PIB, e o mais estratégico no BRICS depois de China e acima da Rússia. É potência nuclear e detém tecnologia militar avançada. Na cúpula do BRICS, não endossou as críticas de Lula a Trump, além de dizer não concordar com um sistema de pagamento fora da órbita do dólar.

Tais credenciais levam Modi a esperar que Trump não lhe envie uma “cartinha” como tem feito com os demais governos. A expectativa é que sua tarifa seja abaixo de 20%, contra os 26% propostos.

•        Perigoso mesmo é o centrão

Nossos governantes e políticos só têm a ganhar nesta discussão se forem menos provincianos. Não fazemos parte do tal “eixo do mal”, como os EUA pintam China, Coreia do Norte, Irã e Rússia, nem se supõe que Trump espere, de fato, que o Congresso ou o STF anistie Bolsonaro e seus golpistas só porque ele mandou. Menos, gente…

Se as partes puserem Google, Microsoft, AWS, Nvidia na mesa, provavelmente o tarifaço seja adiado sine die e a conversa sobre tarifa seja mais fluída. Acabar, elas não vão, ao menos enquanto Trump tiver maioria no Capitólio. Além disso, a incerteza vai crescer. Depois das tarifas, deverá entrar em cena a tributação dos capitais externos aplicados nos EUA como havia até 1984 (30%).

Portanto, haverá muito suor adiante. Que não nos distraia do que é relevante e que depende apenas de nós. O projeto que propõe dar isenção do IR até R$ 5 mil, por exemplo, prevê compensar a perda de receita com a oneração de 10% dos lucros distribuídos a pessoas com renda mensal superior a R$ 50 mil. Isso fará a tributação do capital produtivo subir dos atuais 34,0% para 40,6%. É no way!

Foi só o governo liberar o pagamento de emendas e otras cositas más para o tal centrão parar de cantar de galo. Sinceramente, isso é mais preocupante que o humor vacilante de Trump.

•        No espírito do Brics, o réu Jair Bolsonaro deveria ser imediatamente transferido para a China. Por Brian Mier

Em um dos episódios mais bizarros da história do comércio internacional, o presidente Donald Trump anunciou esta semana a imposição de tarifas de 50% sobre o Brasil — um país que mantém superávit comercial com os Estados Unidos e é um dos seus principais importadores de café, suco de laranja e petróleo — unicamente sob a condição de que retire as acusações contra o réu criminal, ex-presidente brasileiro e amigo pessoal de Trump, Jair Bolsonaro. Bolsonaro atualmente enfrenta uma possível pena de até 40 anos de prisão por tentativa de golpe militar após perder as eleições de 2022.

Gostaria de sugerir que, no espírito do BRICS, Bolsonaro seja imediatamente transferido para prisão domiciliar na China, onde poderá aguardar seu direito democraticamente garantido a um julgamento, agora em sua fase final. Isso pode soar absurdo — e até uma violação do direito internacional — mas os Estados Unidos jamais foram um país que respeita o direito internacional, como prova seu recente bombardeio ao Irã. Além disso, têm um longo histórico de intervir em países da América Latina para libertar seus aliados ou prender seus inimigos.

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Em 1983, o governo Reagan invadiu a nação soberana de Granada para ajudar a prender e assassinar seu líder democraticamente eleito, Maurice Bishop, cuja ênfase na soberania nacional incomodava Washington. Em 1989, o governo de George H. W. Bush invadiu a soberana Panamá para sequestrar o líder Manuel Noriega, que na época era alvo de boatos sobre possuir informações comprometedoras de "armadilhas de sedução" dos tempos em que ele e o então presidente supostamente frequentavam bordéis durante os anos de CIA nos anos 1970. Em 2016, os EUA enviaram uma força de agentes especiais ao Haiti para sequestrar e prender o recém-eleito líder democrático do Senado, Guy Philippe — uma figura controversa, sem dúvida, mas cujo caso foi conduzido sem qualquer respeito pelo direito internacional.

A amizade de Donald Trump com a família Bolsonaro é notória. O filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, era tão próximo ao círculo interno de Trump que supostamente esteve presente na reunião do "Conselho de Guerra", em 5 de janeiro de 2021, com Mike Lindell, Rudy Giuliani e outros republicanos influentes, enquanto tramavam um golpe de Estado amador para impedir que Joe Biden assumisse o poder.

A grande mídia, atualmente, tenta construir uma falsa equivalência entre a invasão do Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 e a invasão em Brasília dois anos depois, em 8 de janeiro de 2023. Mas o nível de planejamento por trás da tentativa de golpe no Brasil foi muito mais sofisticado, executado ao longo de três anos e incluindo tentativas de assassinato contra o presidente Lula, o vice-presidente Alckmin e o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Trechos da denúncia final de 234 páginas apresentada pelo procurador-geral Paulo Gonet estão relatados em um artigo explicativo que escrevi sobre as acusações contra Jair Bolsonaro e seus cúmplices em 20 de fevereiro, que pode ser lido na íntegra aqui. As acusações incluem tentativas de instaurar estado de sítio, entregar o governo do Brasil às Forças Armadas e um plano de assassinato contra o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.

Em resumo, o que aconteceu no Brasil em 8 de janeiro de 2023 não foi um simples apelo de um presidente para que seus apoiadores “invadissem o Congresso”, mas o resultado de anos de planejamento meticuloso. Vale lembrar ainda que, ao contrário do que ocorreu nos EUA, 21 cabos de transmissão de energia elétrica de alta tensão foram sabotados durante o mês da tentativa de golpe, para provocar apagões e espalhar confusão entre a população.

Considerando o longo histórico de intervenção dos EUA no Brasil — incluindo o apoio ao golpe militar de 1964 e à Operação Lava Jato, que retirou Lula das eleições de 2018 e abriu caminho para a presidência de Bolsonaro — o risco de uma operação de resgate das forças especiais americanas ou de uma incursão militar não pode ser subestimado. Por isso, faço um apelo à China para que extradite imediatamente Jair Bolsonaro a um local seguro, onde ele possa ser julgado com segurança e exercer os direitos democráticos que tentou negar ao presidente Lula.

•        Tarifa ao Brasil abre “precedente perigoso”, dizem economistas

Os economistas norte-americanos tem mostrado preocupação com o plano de Donald Trump em impor uma tarifa de 50% a partir de 1º de agosto, a maior taxa a um mercado entre as 22 implementadas ao longo desta semana.

Além de alegar que a cobrança se deve à forma como o ex-presidente Jair Bolsonaro tem sido tratado pela Justiça do país, Trump citou em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o Brasil possui “déficits comerciais insustentáveis contra os EUA”.

Esse fato irritou economistas, uma vez que os EUA possuem superávit comercial com o Brasil, e não um déficit. Nas redes sociais, o ex-presidente do escritório do Federal Reserve (o Banco Central norte-americano) Eric Rosengren afirma que a tarifa mais alta “aumentará os preços do café”, é um “uso estranho das tarifas” e provavelmente não vai mudar o julgamento de Bolsonaro.

Dados do Escritório do Representante Comercial dos EUA mostram que as exportações norte-americanas para o Brasil em 2024 somaram US$ 49,7 bilhões, enquanto as importações de bens dos EUA do Brasil foram de US$ 42,3 bilhões.

“A ação contra o Brasil estabelece um precedente assustador, na medida em que é a primeira vez que as tarifas de Trump visam influenciar (ostensivamente) o cenário político e judicial interno de um país”, disse Thierry Wizman, estrategista e economista do Macquarie Group, em nota publicada no site norte-americano MarketWatch.

O economista destacou que grande parte dos analistas considerada o Brasil a salvo das tarifas “recíprocas” por conta do déficit comercial com os EUA, mas ninguém imaginava que Trump poderia usar outros motivos para aplicar tamanha taxação.

Entretanto, um ex-funcionário do governo Trump argumentou que o presidente norte-americano agiu com o Brasil de forma semelhante quando implementou tarifas contra o México e a União Europeia.

No caso do México, a argumentação foi que eles não estavam ajudando nem com o controle das fronteiras e nem com o controle do fentanil, enquanto a justificativa contra a UE está ligada à contribuição para os orçamentos de defesa. Assim, pode-se perceber que Trump está usando as tarifas como mecanismo de poder e de uma forma muito mais ampla.

•        Itens de fácil substituição serão afetados pelo tarifaço de Trump

A tarifa de 50% anunciada na semana passada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as importações de produtos brasileiros para o país norte-americano não terá o mesmo efeito sobre toda a cadeia produtiva nacional. Especialistas afirmam que itens com mais facilidade de substituição por outros concorrentes podem ser mais prejudicados com o tarifaço, enquanto produtos de maior valor agregado, como máquinas, aviões e peças de aeronaves podem sofrer menos.

Na avaliação de Rogério Marin, CEO da Tek Trade, empresa catarinense especializada em comércio internacional, o setor do agro pode ser um dos maiores afetados, principalmente no caso de itens como café e laranja, que dependem ainda mais das exportações para os EUA. "Quanto mais ele se aproxima de commodity, mais ele vai sentir. Os mais substituíveis sentirão mais", avalia o especialista.

Além dos produtos propriamente agrícolas, o desafio também é relevante para a indústria de pescado, que teve que suspender a importação de mais de 1,5 mil toneladas, após empresas norte-americanas suspenderem a compra, devido ao aumento da tarifa já a partir do próximo mês. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) apontam que cerca de 70% de todo pescado exportado no ano passado pelo país teve como destino os EUA.

"As cadeias de produção hoje são muito ajustadas. Na maior parte do mundo, a produção é muito semelhante ao consumo. Se algum fornecedor passa a fornecer para o mercado americano porque o produto brasileiro ficou caro, a tendência é de que em outro lugar do mundo abra um buraco para o produto brasileiro entrar, mas isso não acontece da noite para o dia", acrescenta Marin.

Por outro lado, apesar de ser um dos principais produtos exportados aos norte-americanos, o setor de produção de aeronaves, liderado pela Embraer, pode sofrer menos os efeitos iniciais da tarifa, justamente pela dificuldade de substituição rápida deste item no mercado, como explica, ainda, o CEO da Tek Trade. "A Embraer está importando para uma fábrica que é dela mesmo. Agora, se uma empresa dos EUA diz que não pode mais trazer essa peça, isso pode levar anos. Então mesmo com a tarifa, ela vai ter que comprar mesmo do Brasil", considera Rogério Marin.

No campo das commodities industriais, produtos como óleos brutos de petróleo, ferro, aço e celulose também estão no centro das preocupações, tanto pelo peso que têm na balança comercial quanto pela dificuldade de reposicionamento em outros mercados no curto prazo, como explica Thiago Eik, CEO da fintech Bankme e especialista em soluções de crédito.

"Já os produtos manufaturados de maior complexidade, como aeronaves e equipamentos para o setor de energia, enfrentam um cenário ainda mais delicado, já que diferentemente das commodities, têm baixa capacidade de redirecionamento para outros países. O risco aqui não é apenas de perda de receita, mas de desarticulação de cadeias industriais inteiras", destaca.

O especialista também considera que as tarifas podem acelerar um movimento de desinvestimentos, fuga de capitais e não apenas de pressão em setores específicos. "Isso afeta toda a economia, promovendo a desvalorização cambial, elevando o custo de importações e reduzindo a entrada de divisas no país. Em um cenário como esse, o impacto se espalha: o crédito encarece, o consumo retrai e a geração de empregos qualificados sofre um baque direto", conclui Eik.

<><> Inflação

Com experiência na área de logística internacional para empresas como Coca-Cola, BRF, Americanas, Magalu e Havan, o co-fundador e diretor de operações da Next Shipping, Bruno Meurer, também espera impactos inflacionários se a medida for confirmada e acredita que os efeitos serão percebidos de duas maneiras em momentos diferentes.

No primeiro momento, logo após o início da incidência da nova tarifa, o especialista avalia que, para alguns tipos de produtos específicos, deve haver uma baixa no preço, em virtude da relação estabelecida na lei de oferta e da procura. Nesse contexto, o café — maior produto agrícola exportado para os EUA — vai sofrer com diminuição das exportações e grande parte das reservas ficará no país, o que, por consequência, deve reduzir o preço deste produto.

Ao mesmo tempo, se Lula implementar a Lei de Reciprocidade com tarifas de 50% sobre os produtos americanos que entram no Brasil, pode haver um encarecimento no preço do diesel, visto que este foi o 4º item mais importado pelo país, dos norte-americanos no ano passado. Diante disso, o valor do frete de outros produtos também aumentaria, o que poderia causar um impacto amplo em toda a cadeia produtiva. "Então, acredito que a gente pode ter duas visões diferentes. Para algumas coisas, uma redução temporária e inicial no custo, e para outras coisas, uma escalada, fazendo com que a inflação no Brasil também suba", analisa o especialista.

Em contrapartida, a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros pode causar efeitos inflacionários para os próprios consumidores norte-americanos. Para Claudio Santos, presidente do Next Group, holding composta por 10 empresas com atuação internacional, quando medidas protecionistas são implementadas em cadeias globais complexas, os consumidores americanos tendem a enfrentar preços mais altos ou menos opções.

"Isso é especialmente válido para produtos como aço, autopeças, insumos agrícolas e produtos industriais intermediários, amplamente utilizados pelas empresas nos EUA. O protecionismo resulta em aumento artificial de preços, encarecendo a produção e os produtos finais para os consumidores", destaca Santos. Além disso, o especialista também destaca que o Brasil oferece competitividade e qualidade em áreas que os EUA não conseguem suprir internamente com a mesma eficiência. "Assim, ao restringir o acesso a esses produtos, os EUA correm o risco de prejudicar sua própria indústria nacional, tornando-a menos competitiva e mais cara em relação aos concorrentes globais", conclui.

<><> Cautela

Apesar da possibilidade da adoção da Lei da Reciprocidade, sancionada por Lula em abril, após ser aprovada por ampla maioria no Congresso Nacional, analistas também pregam cautela em se adotar retaliações. Mesmo com uma relação deficitária, a parceria com os Estados Unidos deve ser vista como importante ao Brasil, na avaliação do professor de Relações Internacionais da Universidade UniCentro, Vladimir Feijó.

"Considerando os últimos cinco anos, os Estados Unidos esteve com uma média de US$ 75 bilhões de dólares de comércio com o Brasil, que o coloca em segundo lugar, mas isso é menos da metade da China, que está em primeiro lugar e bem próximo da União Europeia que está em terceiro lugar, mas chega a ser o dobro do comércio com o Mercosul", destaca.

Na visão de Rebeca Lucena, internacionalista e diretora de Relações Governamentais na BMJ Consultores Associados, a resposta ideal neste momento parece ser cautela estratégica, visando preservar a relação bilateral e proteger os setores que podem ser mais impactados pela medida. "Negociar com os americanos ainda pode evitar a entrada em vigor das tarifas ou, ao menos, mitigar seus efeitos — especialmente se houver disposição para concessões mútuas", observa.

No entanto, a especialista frisa que é essencial que o Brasil não descarte completamente o uso da Lei de Reciprocidade Econômica, o que fortaleceria sua posição nas negociações, sinalizando que há capacidade e respaldo jurídico para agir, se necessário. Nesse sentido, Erick Nuñez, sócio do Equity Fund, avalia que o momento exige mais firmeza e clareza do governo brasileiro na defesa de seus interesses econômicos. "Não se trata de confronto ideológico, mas de posicionar o Brasil como um país que respeita o livre mercado, a concorrência global e a previsibilidade nas relações comerciais", avalia.

Nuñes acredita que o Brasil deve abandonar o que ele considera como uma postura reativa e assumir uma agenda mais pragmática: menos retórica e mais estratégia comercial. "A solução não está em subsídios e protecionismo interno, mas, sim, em fortalecer o ambiente de negócios, garantir segurança jurídica e buscar acordos bilaterais que tragam estabilidade e abertura de mercado para quem produz e gera valor", completa.

 

Fonte: Jornal GGN/Fórum/Correio Braziliense

 

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