QUEM
SÃO OS DONOS DO JOGO? Copa do Mundo de Clubes da FIFA e as
redes multi-clubes
Embora
possua participações significativas em clubes como Botafogo (Brasil), Lyon
(França), RWD Molenbeek (Bélgica) e Crystal Palace (Inglaterra), o americano
John Textor enfrenta um dilema contemporâneo: os regulamentos da UEFA que
restringem a atuação de investidores com vínculos em mais de um clube
classificado para uma mesma competição.
Em maio
deste ano, o Crystal Palace garantiu sua vaga na próxima edição da Europa
League ao conquistar a FA Cup, enquanto o Lyon se classificou por terminar em
sexto lugar na League.
- Este episódio
escancara uma questão central do futebol atual: quem realmente controla os
clubes? Para além das figuras públicas ou de pessoa jurídica registrada, o
controle se exerce por mecanismos muitas vezes opacos, dispersos
entre holdings, fundos de investimento e grupos de
subsidiárias.
Pensando
o futebol como espelho da
sociedade,
é possível perceber que formas semelhantes de fragmentação no controle estão em
curso há tempos em diversas esferas da sociedade. Vivemos sob o domínio
político-econômico do capitalismo financeiro, marcado por juros, derivativos e
pela transformação de quase tudo em ativos negociáveis, como a terra, a
moradia, a cultura e o próprio futebol.
Embora
essa dispersão de controle pareça um fenômeno recente no futebol, ela ecoa um
padrão mais amplo de ocultamento e concentração já observado em outras esferas.
Foi justamente esse cenário que levou pesquisadores da Rede
de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede SSAN), a desenvolver
o Ranking of Power, uma metodologia voltada a identificar os
verdadeiros proprietários da terra no Brasil, diante de um contexto de
estruturas jurídica interposta que dificultavam o rastreamento do controle
fundiário dos proprietários de terras no Brasil.
A
justificativa era urgente: a crescente financeirização da terra e sua
apropriação por mecanismos societários fragmentados que colocavam em risco a
soberania alimentar, os modos de vida locais e a função social da propriedade,
exigindo transparência sobre a estrutura de controle. Sem transparência sobre o
controle, não há como garantir justiça no uso dos territórios.
Com
base nesse diagnóstico, os autores deste texto, integrantes do Observatório
Social do Futebol (UERJ), propõem uma analogia crítica: do mesmo modo que o
Ranking of Power revelou os bastidores da concentração fundiária, também é
preciso deixar nítido quem controla os clubes de futebol e com quais
interesses.
Desse
modo, é importante lembrar que os clubes de futebol são instituições civis,
muitas vezes centenárias, enraizadas em territórios específicos. Representam
bairros, cidades, regiões e até países, mobilizando afetos, identidades e
sentimentos de pertencimento. Por meio dos clubes, o futebol ativa vínculos
comunitários e constrói narrativas de origem e lealdade. Para além do esporte,
clubes exercem influência social e política, projetam a imagem dos dirigentes e
interferem em agendas públicas. Movimentam também grandes volumes de recursos
públicos e privados, tornando-se alvo de interesses econômicos frequentemente
alheios às comunidades que lhes deram origem.
Assim
como no campo agrário, os clubes de futebol também vêm sendo fatiados e
inseridos em estruturas societárias cada vez mais difusas e complexas. A posse
formal pouco diz sobre o seu verdadeiro controle. No lugar de títulos de
propriedade, entram as ações com ou sem direito a voto, acordos de governança e
estratégias de diluição societária. O que está em disputa, portanto, não é
apenas o clube enquanto instituição, mas a capacidade de decidir seus rumos
estratégicos. Assim como Ranking of Power ajudou a revelar os
bastidores da terra, é urgente lançar os holofotes para descobrir quem
realmente controla os clubes de futebol e com quais objetivos.
·
Crystal Palace e o dilema UEFA
O
Crystal Palace corre o risco de ser excluído da Europa League por causa da
presença de John Textor em mais de um
clube classificado para o torneio. A discussão gira em torno dos limites
regulatórios das redes multi-clubes, quando um indivíduo ou grupo ou agente
econômico possui participações múltiplas.
No
caso, a Eagle Football Holdings detém 45% do
capital do Palace, com apenas 25% das ações com direito a voto (o que,
tecnicamente, não configura controle majoritário). De qualquer forma, a
UEFA avalia não apenas a participação formal, mas também a influência informal
que um acionista pode exercer sobre decisões estratégicas – o
controle.
Embora
o Artigo 5 da UEFA proíba que um mesmo agente detenha controle ou influência
sobre mais de um clube nas competições europeias, sua aplicação tem sido
flexibilizada. O primeiro precedente ocorreu em 2017 e 2018, com a autorização
para RB Leipzig e Red Bull Salzburg disputarem a Champions League, apesar da
ligação evidente entre os dois.
Nos
últimos anos, com a proliferação das redes multi-clubes, o cenário se tornou
ainda mais complexo. Em 2023 e 2024, três casos semelhantes foram analisados:
Aston Villa/Vitória SC (V Sports), Brighton/Union SG (Tony Bloom) e
Milan/Toulouse (RedBird Capital). Após adiamentos e negociações internas, todos
foram autorizados a participar mediante ajustes formais, como troca de
dirigentes no board da companhia ou redução temporária de
participação acionária.
Em 2024
e 2025, dois novos conflitos envolveram Manchester City e Girona (City Football
Group), e Manchester United e OGC Nice (INEOS). A UEFA impôs a criação de blind
trusts para Girona e Nice, retirando temporariamente seus clubes
menores do controle direto dos investidores. Ficaram proibidos de trocar
jogadores, firmar parcerias e compartilhar estruturas. Na prática, a entidade
tem redesenhado sua própria norma para acomodar o avanço das redes
multi-clubes, enfraquecendo o princípio da integridade esportiva que o
regulamento originalmente buscava preservar.
O uso
do mecanismo tornou-se, desde então, uma fórmula institucionalizada para
contornar o Artigo 5 do regulamento, transformando o que era exceção em modelo.
Como o próprio presidente Aleksander Čeferin havia antecipado em 2023, a
tendência da entidade passou a ser menos a de restringir o avanço dos
investidores e mais a de oferecer soluções formais para absorvê-los sem
desgaste público.
No dia
5 de junho de 2025, a UEFA rejeitou a proposta dos
acionistas do Crystal Palace, John Textor e David Blitzer, de transferir
suas participações para um blind trust. Mais do que aplicar
seu regulamento, a UEFA desenhou um novo arranjo jurídico capaz de acomodar o
crescimento dessas redes sem enfrentá-las frontalmente.
A
entidade argumentou que a proposta foi apresentada após o prazo limite de 1º de
março. Com isso, a vaga do Palace, conquistada com o título da FA Cup, está
ameaçada porque o Lyon (também vinculado a Textor) se classificou em sexto
lugar na Ligue 1, tendo, portanto, a prioridade da vaga segundo os critérios da
UEFA. A situação se agrava com o envolvimento de David Blitzer, que também
possui participação no Brøndby IF (Dinamarca) e está classificado para a
Conference League. Isso impede o realocamento do clube inglês para essa
competição, uma alternativa aventada pelos proprietários do Palace.
Em
resposta, Textor anunciou a intenção de vender
sua fatia de 43% no clube, mas dificilmente o negócio será concluído antes do
sorteio europeu, marcado para 17 de junho. Caso a exclusão se concretize,
Nottingham Forest e Brighton poderão herdar as vagas na Europa League e na
Conference League, respectivamente. O impasse não afeta apenas a esfera
esportiva: compromete também os planos de abertura de capital da Eagle Holdings
na bolsa de Nova York, uma operação que exige um clube na Premier League devido
à importância econômica da liga.
·
A FIFA e a Copa do Mundo de Clubes
Diferentemente
da UEFA, a FIFA tem adotado uma postura mais restritiva quanto à participação
de clubes sob a mesma estrutura de controle. O caso mais emblemático é o do
Club León (México), do Grupo Pachuca, excluído do Mundial de Clubes de 2025
mesmo após conquistar a CONCACAF Champions League.
O
motivo foi o fato de dividir o controle com o compatriota Club de Fútbol
Pachuca, também qualificado para o torneio, o que contraria as regras da FIFA
que proíbem dois clubes do mesmo grupo empresarial em uma mesma
edição.
Por
outro lado, a edição de 2025 da Copa do Mundo de Clubes contará com 12 equipes
vinculadas a redes multi-clubes, sob controle direto ou indireto. O Chelsea
(Inglaterra) faz parte da rede BlueCo. e Ares Management, o Botafogo (Brasil)
está na Eagle Football Holdings com mais três clubes, o Manchester City
(Inglaterra) é o principal clube do conglomerado do City Football Group com
mais 12 equipes, o Los Angeles FC (Estados Unidos) inserido em três redes
distintas, sendo uma delas do próprio clubes, o Paris Saint-Germain (França)
faz parte de duas redes, o Atlético de Madrid (Espanha) também integra três
redes distintas, o Al-Hilal (Arábia Saudita) está na rede do fundo soberano
público da Arábia Saudita junto com mais três, o Pachuca (México) está na rede
do Grupo Pachuca com mais cinco clubes e o RB Salzburg (Áustria) da rede da Red
Bull.. Além desses, há velha senhora Juventus – envolvida na rede de Lindsell
Train, com participações minoritárias no Manchester United (Inglaterra) e no
Celtic (Escócia) – e o Bayern de Munique (Alemanha) que integra a rede da
Red&Gold1. Para ver as redes com maiores detalhes, informações sobre os
proprietários e outros clubes envolvidos, o leitor pode acessar o Mapa das Redes Multi-Clubes.
A FIFA
não apenas aceita esse modelo, como o chancela ao permitir sua participação em
uma competição de elite. O discurso oficial é de diversidade e inclusão global.
Na prática, o torneio servirá como vitrine para redes que tratam os clubes como
ativos financeiros: bens que podem ser comprados, valorizados e negociados. A
pergunta nos bastidores, então, deixa de ser apenas “quem joga?”, mas “quem são
os donos do jogo?”.
·
Ares Management: o investidor silencioso por trás das
redes
Um dos
protagonistas desse cenário é a Ares Management, uma gestora global de ativos
com sede nos Estados Unidos que opera com discrição. O fundo investiu de
maneira minoritária em clubes como Chelsea (Inglaterra), Lens (França) e Inter
Miami (Estados Unidos) – neste último clube, por meio de capital preferencial,
sem direito a voto.
Entretanto,
a principal via de atuação do grupo é o investimento em outras empresas já
constituídas, como a Eagle Football Holdings, proprietária do Botafogo
(Brasil), Lyon (França) e RWD Molenbeek (Bélgica); e a Atlético de Madrid
International Holdings, que tem sob domínio o Atlético de Madrid (Espanha),
Atlético Ottawa (Canadá) e Atlético de San Luis (México).
O
modelo permite à Ares fornecer empréstimos e injetar capital nessas holdings,
viabilizando suas operações e expansão sem assumir o controle formal. Em 2024,
por exemplo, a Eagle Football buscou um empréstimo
de US$ 300 milhões para refinanciar sua dívida com a Ares. Essa arquitetura
revela um modo de atuação alinhado à financeirização contemporânea: clubes
passam a operar como ativos integrados a redes financeiras, e investidores como
a Ares desempenham papel central na sustentação dessas redes, mesmo sem exercer
influência direta sobre decisões esportivas.
É
curioso que pouco se fale sobre o fato de Chelsea e Inter Miami, dois clubes
com participação da Ares Management, estarem classificados para o novo Mundial
de Clubes da FIFA. Em meio a tantas discussões sobre integridade esportiva, o
capital preferencial e silencioso da Ares passa despercebido. Mas está lá,
sustentando estruturas, financiando operações e participando da engrenagem que
movimenta o futebol global. Nem toda influência precisa ser visível para ser
decisiva.
·
A geografia das redes multi-clubes
As
redes multi-clubes já não seguem fronteiras nacionais nem critérios esportivos
tradicionais. Expandem-se onde há vantagens legais, menor resistência política
ou acesso facilitado às competições internacionais. A concentração em países
como Portugal, Bélgica ou Suíça revela uma lógica de ocupação da
“semiperiferia” europeia. Nesse arranjo, o futebol se converte em ativo
estratégico, instrumentalizado por conglomerados que operam com racionalidade
empresarial e lógica transnacional de valorização. Não se trata apenas de
jogar, mas de posicionar capital, construir redes e explorar territórios sob as
coordenadas do capital global.
O
avanço dessas redes não é aleatório: segue a lógica do capital. Investidores
escolhem clubes em cidades médias da Europa Oriental, mercados emergentes da
América do Sul ou centros em crise, não pela qualidade esportiva imediata, mas
por sua utilidade dentro da rede. A financeirização do futebol não significa
apenas entrada de dinheiro privado. Significa uma transformação nas formas de
organização, em que clubes deixam de ser instituições esportivas locais e
passam a funcionar como pontos de uma engrenagem global. A Red Bull, o City
Football Group e a Eagle Holdings são exemplos de sistemas integrados que
articulam formação de jogadores, exposição de marcas e valorização dos
ativos.
Neste
esforço de compreender as transformações em curso, construímos o Mapa das Redes Multi-Clubes do Futebol, um trabalho inédito
que buscou sistematizar informações dispersas e tornar visível a arquitetura
societária que redefine o futebol contemporâneo. Trata-se de uma ferramenta
interativa que busca contribuir para o debate público e acadêmico sobre a reconfiguração
do controle no esporte.
Fonte:
Por Jonathan Ferreira e Irlan Simões, em Le Monde

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