segunda-feira, 23 de junho de 2025

Por que setores de Israel hesitam no apoio ao genocídio do Estado sionista contra Gaza?

Recebi de um amigo próximo uma demanda para analisar uma situação sobre os dramáticos acontecimentos na Palestina ocupada que está se difundindo nos dias que correm. A interpelação foi feita em função de um artigo da grande imprensa indicando que mais de mil oficiais da força aérea sionista estariam dispostos a dar marcha ré no trabalho que vêm realizando com esmero há vinte meses. Seria esta situação indicadora de mudança substantiva na destruição do povo palestino ora em curso?

Estes militares altamente qualificados e pró-ativos na implementação da política social genocida contra o povo palestino se manifestaram via um abaixo-assinado pelo encerramento do conflito alegando, entre outros:

a) a guerra é política e “não serve mais aos propósitos de segurança nacional do Estado judeu”;

b) a maioria da opinião pública do país é contra a guerra;

c) os cativos desde 7 de outubro de 2023 podem vir a perecer;

d) soldados sionistas e a população civil estão morrendo;

e) a guerra pode levar à prática de crimes de guerra;

f) a invasão de Gaza seria a realização de um projeto messiânico partilhado apenas por uma pequena minoria da sociedade sionista.

Finalmente, destacamos abaixo trecho do texto do abaixo-assinado que faz uma profissão de fé num presumido sentido histórico e moral do Estado sionista, como indica a reprodução do documento pelo jornal Haaretz:

“Nossa existência como sociedade e como país é condicionada pela crença na justiça do nosso caminho, garantias mútuas, defesa dos valores da moral judaica e um profundo compromisso com a vida humana.”

A análise feita pelo periódico online indica ainda que esta situação marca o encontro das posições dos missivistas com a opinião pública mais ampla sobre o que está acontecendo na Faixa de Gaza. Nesta mudança, o que é indicado não é o processo em si, tal como ele foi iniciado em outubro de 2023, pois este já estaria esgotado, mas apenas a questão “(da) retomada e intensificação das ações militares em Gaza (em março de 2025, após dois meses de cessar fogo – BK) e dos alertas sobre a escassez de alimentos e insumos básicos emitidos por organizações que trabalham no enclave palestino”.

A política social genocida está neste momento se defrontando com uma (a primeira) barreira relevante. Já abordamos este tema no artigo anterior desta série que estamos publicando no Opera Mundi. Naquele momento realizamos algumas reflexões sobre o porquê esta situação se conformar neste momento, não depositando muitas esperanças de que esta nova e aparentemente inovadora correlação de forças traria, ao menos no curto prazo, o fim da implementação da política social genocida.

Nossa resposta ao estimado amigo, com algumas correções para adaptação ao presente texto, foi a seguinte: 

“Isto é oportunismo político. Já aconteceram inúmeras manifestações como esta anteriormente. Veja o filme de animação ‘Valsa com Bashir’, onde ex-soldados arrependidos que presenciaram e contemplaram os massacres de Chabra e Shatila em 1982 se manifestam sobre o ocorrido. Muitos se expõem apenas depois de prestarem os seus serviços como militares. O genocídio está alcançando um ‘ponto de não retorno’ e seus executores e patrocinadores não querem assumir a responsabilidade no futuro do que está acontecendo/por acontecer. França, Inglaterra e Alemanha estão fazendo o mesmo papelão. Se estes militares quisessem fazer alguma coisa, se recusariam participar das missões (alguns poucos fazem isso) ou executariam uma ação direta de impedir que os aviões decolem. Eles estão ‘rompendo sem romper’ com o sionismo. Faz parte da encenação. Os nazistas não enviaram os judeus para ‘campos de trabalho’? Estes militares e outros sionistas de esquerda estão preocupados apenas com a ‘situação humanitária’. Nunca chamam o que está acontecendo de genocídio. É manifestação típica da pequena burguesia, que fica pendulando de um lado para outro do espectro político. As manifestações na Europa cresceram muito no último dia 18 de maio (além de serem contínuas) e estão expondo os sentimentos piegas desta gente. Mesmo na Europa e EUA os manifestantes focam nos ‘direitos humanos’ ou algo similar mas nunca na política imperialista como promotora do genocídio e também não se insurgem em grande número. A classe trabalhadora destes países está produzindo e transportando as armas para o Estado sionista. São militares, mil deles! Não têm culhão de pegar em armas e impedir a mortandade, que é estruturada a partir dos bombardeios aéreos de aviões e munições caríssimos fornecidos por EUA e Europa. A ação deles não muda nada, apenas fazem parte do cenário. A situação é absolutamente crítica, quase no limiar da execução completa do plano de liquidação dos palestinos de Gaza. Param um pouco e continuam depois. Foi o que ocorreu entre 1947 e 1951, o Nakba. Não dá prá confiar neles. Amanhã voltam pros aviões e dizem que vão defender a todo custo Eretz Israel dos ataques terroristas ou dos inimigos árabes vizinhos. No fundo é pura dissonância cognitiva produzida pelo sionismo e pelo sociedade parasitária em que vivem: fazem uma guerra caríssima não utilizando a riqueza social produzida no próprio país. Possuem um padrão de vida muito maior do que a economia suporta.”

Malgrado a linguagem telegráfica e algo irônica que utilizamos na resposta, temos nesta manifestação uma espécie de “agenda” de reflexão sobre a conjuntura que está se abrindo. Agregaríamos aos pontos indicados acima que muitos poderiam indicar ainda que entre o atual governo norte-americano e o sionista já existe uma aberta discordância sobre os destinos da invasão militar na Faixa de Gaza.. Aquele preocupado com o business que o processo de paz pode propiciar; este voltado para uma forma de enriquecimento parasitário baseado no expansionismo territorial e na limpeza étnica dos povos originários que caracteriza a sociedade sionista desde os seus primórdios. Mesmo sem a menor possibilidade de ruptura da relação figadal que une as políticas externas dos dois países para o Oriente Médio, notamos que a principal força motora do estancamento do estágio atual da política social genocida vem apenas e tão somente do governo Trump. Sendo assim, podemos inferir que os defensores desta posição indicam que as negociações isoladas que estão sendo conduzidas por aquele governo nestas últimas semanas com a resistência palestina visam criar uma ponte de salvação para que o governo sionista encerre a guerra encenando uma espécie de concessão feita (ou este ser obrigado a acatar a pressão) do seu principal financiador. Isto impediria o fardo de uma eventual consideração de que houve uma derrota do Estado sionista ao não eliminar fisicamente a resistência islâmica e nem obter sucesso da extração dos seus cativos pela via da força.

Todos estes aspectos alinhados acima indicam a necessidade da compreensão meticulosa das formas de atuação do Estado sionista desde quando ainda era constituída, nas décadas de 1920 até 1940, de um braço político (Waissman, Ben Gurion, Golda Meir, etc.) e outro terrorista (Irgun, Gang Stern e Palmach). Esta dupla dinâmica de atuação nunca contemplou na sua atuação na Palestina a implementação de recuos na limpeza étnica, apenas paradas estratégicas. Assim, por exemplo, a não ocupação da Cisjordânia e a instauração do enclave artificial da Faixa de Gaza foram processos instituídos em função da incapacidade, em 1948, de tornar a Palestina histórica totalmente esvaziada dos seus habitantes originários. Adotou-se na época uma parada estratégica para continuar o processo mais adiante, quando as condições políticas permitissem. Da mesma forma, o Grande Israel em sua dinâmica constitutiva atual se enquadra nesta mesma situação. Parar a matança para continuá-la posteriormente não é uma derrota, mas uma estratégia.

Não podemos entender o que está ocorrendo com a reversão de posição de vários defensores da política social genocida contra o povo palestino, entre eles os da força aérea sionista, senão como um momento muito próprio que não pode ser considerado um ponto fora da curva na História da usurpação que os sionistas impingiram a todo um povo. Não há ainda acúmulo de forças suficientes para reverter definitivamente a política social genocida contra o povo palestino. O que está ocorrendo neste exato momento é, numa visão de longa duração, de uma catarse coletiva por parte da sociedade sionista que necessita de uma espécie de “descanso emocional” para, num futuro próximo, voltar a atuar como agentes da exterminação física e social do povo palestino. No momento de exaustão de um ciclo de agressões ocorre uma arrefecimento da política social genocida, que será retomado em algum momento no futuro, quando uma outra nova geração de soldados continuará a tarefa da limpeza étnica. Muitos soldados sionistas das gerações anteriores passam, neste momento de uma nova ofensiva, a proferir críticas sobra a ação do seu governo.

Não desconsideramos que a crescente pressão de governos (França, Inglaterra e Alemanha), indivíduos relevantes nos meios de comunicação (o jornalista Piers Morgan) e movimentos sociais podem elevar a contestação da política social genocida aplicada contra o povo palestino a um nível tal que seja capaz de, ao menos temporariamente, frear a ação que os sionistas estão até agora impunemente realizando. Esta situação está em desenvolvimento positivo para a mobilização popular contra a política social genocida desde 18 de maio de 2025. Várias notícias informando a existência de mobilização estão neste exato momento sendo noticiadas nas redes sociais. Elas contém até mesmo projetos de tentativas de intervenção no território da Faixa de Gaza. Mas estas forças (da forma como se conformam) não estão se constituindo como atores autônomos, já que possuem limites: são caudatárias da nova política do governo norte-americano, dependendo deste para abrir uma fratura política na política social genocida contra o povo palestino para que estas manifestações ganhem corpo e densidade. Este é o cenário que estamos assistindo neste momento.

Uma outra consideração que fazemos nesta novíssima correlação de forças que está em desenvolvimento é que caso seja a sociedade civil seja o fator decisivo do fim da matança os governos que representam esta perderão capital político. Aqui é necessário considerar que demanda tempo e análise do escopo do que está prestes a acontecer para podermos avaliar se houve (ou haverá) uma transformação substantiva na correlação de forças das classes sociais em favor do fim da política social genocida contra o povo palestino. Temos em conta que a insurgência contra a política social genocida contra o povo palestino corresponde em alguma medida um questionamento das bases de reprodução da vida social dos países de origem dos manifestantes. Se a ampliação do questionamento dos fundamentos de produção da política social genocida não ocorrer vivenciaremos apenas um conjunto de tentativas frustradas de frear a matança, indicando que a luta política ganhará novos contornos mas não será capaz de modificar as caraterísticas basilares das lutas sociais dos países capitalistas desenvolvidos. Será destes, de forma substantiva, de onde sairão os ativistas que projetam interferir no processo de limitação da política social genocida.

Como produto desta limitação, temos que considerar que o manifesto dos militares aviadores sionistas contém uma imprecisão preciosa, que já indicamos acima: “a invasão de Gaza seria a realização de um projeto messiânico partilhado apenas por uma pequena minoria da sociedade sionista”. Ora, o descolamento das posições dos militares querelantes da implementação da política social genocida contra o povo palestino, que possuem a auto-imagem de serem eles mesmos representantes da maioria da população de seu país, indica apenas que se colocam numa posição tão messiânica quanto a dos que estão criticando. Se esquecem (?) de que o governo atual foi eleito e possui maioria parlamentar. Isto também ocorreu com os primeiros governos dos sionistas laicos, dos quais eles possuem afinidades, que perderam a hegemonia do processo político do Estado sionista em 1977 quando o Likud venceu sua primeira eleição. Foram estes sionistas laicos que criaram no Nakba (1948) toda esta situação catastrófica para as vítimas (palestinas) das vítimas (do holocausto). 

Somente as lutas sociais informadas por uma crítica ao imperialismo e a sociedade de classes geradora da “engenharia política” genocidária que poderá produzir fatos realmente novos, capazes de colocar esta posição dos militares aviadores numa efetiva rota de colisão com o sionismo. Assim, conjuntamente com outras forças políticas contestatórias e questionadoras do capitalismo, haveria o ressurgimento do povo palestino enquanto ente coletivo.                                                

Se tudo o que os militares aviadores sionistas podem oferecer é não ter afinidades com o governo democraticamente eleito que possui uma “visão messiânica”, além de uma política abertamente hostil e racista, imaginemos o que sente o povo palestino em relação às duas correntes. Esta situação está configurada desta forma porque os militares aviadores sionistas e tudo que eles representam (ou dizem representar) de fato não representam neste momento nada para o povo palestino.

Encerramos estes escritos oferecendo condolências à nossa querida jornalista palestina Bisan Owda. Ela informou pelas suas redes sociais que três de seus primos foram assassinados pelas bombas incendiárias dos sionistas. Que Deus em sua imensa misericórdia receba estes mártires e conforte seus familiares e amigos. Allahu Akbar!

¨      Israel prevê "campanha prolongada" em 2ª semana de conflito

O chefe das forças armadas de Israel, Eyal Zamir, alertou nesta sexta-feira (20/06) que o país se prepara para uma "campanha prolongada" contra o Irã, à medida que os dois inimigos abrem a segunda semana do conflito com uma nova troca de agressões.

"Embarcamos na campanha mais complexa de nossa história para eliminar uma ameaça de tal magnitude, contra um inimigo como esse. Devemos estar prontos para uma campanha prolongada", disse Zamir em uma declaração em vídeo.

Falando no Conselho de Segurança da ONU, o secretário-geral da organização, António Guterres, também alertou que o conflito pode "sair do controle" se as partes não interromperem as agressões imediatamente.

Os ataques aéreos entre os dois países, contudo, permaneceram ativos ao longo do dia, enquanto europeus tentavam reabrir negociações com Teerã por um novo acordo nuclear.

Os diálogos aconteceram em Genebra entre o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, e diplomatas da União Europeia, Reino Unido, França e Alemanha, mas as negociações não avançaram.

Após a reunião, o ministro das Relações Exteriores britânico David Lammy afirmou apenas que os países estavam "dispostos a continuar as discussões e negociações em andamento com o Irã" e que foram claros ao dizer que Teerã "não pode ter uma arma nuclear".

Já Araghchi pontuou que o Irã está disposto a considerar a diplomacia somente se Israel interromper seus ataques e se os responsáveis forem responsabilizados.

Ele expressou "séria preocupação" com a decisão dos três países europeus e da União Europeia de não condenar os ataques israelenses. Para o ministro, bombardeios às instalações nucleares iranianas são uma grave violação do direito internacional.

"Declarei de forma explícita e clara que as capacidades defensivas do Irã não são negociáveis", disse o ministro. No entanto, acrescentou que o governo iraniano está disposto a continuar conversando com os europeus "em um futuro próximo".

Questionado sobre a iniciativa europeia, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o "Irã não quer conversar com a Europa" e defendeu que os países do continente "não conseguirão ajudar desta vez".

<><> Ofensivas renovadas

As declarações acontecem em meio a ofensivas renovadas entre os países.

O exército de Israel afirmou que 25 aviões de combate realizaram ataques aéreos na manhã de sexta-feira, atingindo "componentes de infraestrutura de armazenamento e lançamento de mísseis" no oeste do Irã.

Pelo menos cinco pessoas ficaram feridas em um bombardeio a um prédio residencial em Teerã. As defesas aéreas do Irã voltaram a ser ativadas na noite desta sexta-feira.

No norte de Israel, um projétil caiu no centro de Haifa, ferindo pelo menos 31 pessoas, de acordo com o Centro Médico Rambam da cidade. Uma fumaça preta subiu sobre o principal porto da cidade. As janelas e paredes de vários edifícios, incluindo uma mesquita, foram arrancadas pela explosão.

Haifa abriga o porto mais movimentado de Israel e uma base naval.

<><> Disputa de narrativas na ONU

Na ONU, o embaixador do Irã Amir Saeid Iravani afirmou que centenas de civis foram mortos em ataques israelenses a hospitais, dois deles atingidos nesta sexta-feira. Ele citou como exemplo os bombardeios ao Hospital Infantil Hakim em Teerã, ao Hospital de Reabilitação Farabi em Kermanshah, ao prédio da Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano e a ambulâncias.

A fala de Iravani rebateu declarações sobre um hospital israelense atingido por mísseis iranianos.

Segundo ele, médicos, pacientes e profissionais de saúde foram mortos e feridos. "Esses não foram acidentes ou danos colaterais. Foram crimes de guerra deliberados", disse Iravani durante uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre a escalada do conflito.

Já o enviado de Israel às Nações Unidas, Danny Danon, disse ao Conselho que seu país não interromperá os ataques "até que a ameaça nuclear do Irã seja desmantelada".

<><> Aumenta preocupação de risco nuclear

Também no Conselho de Segurança, o chefe da agência nuclear da ONU alertou contra bombardeios a instalações nucleares e pediu máxima contenção.

"Um ataque armado contra instalações nucleares pode resultar em vazamentos radioativos com grandes consequências dentro e além das fronteiras do Estado atacado", disse Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Na quinta-feira, um oficial militar israelense recuou de uma informação divulgada por um porta-voz militar que dizia que Israel atacou Bushehr, a única usina nuclear comercial do Irã. O oficial afirmou que não podia confirmar nem negar se Bushehr, construída pela Rússia e localizada na costa do Golfo, havia sido atingida.

Israel diz estar determinado a destruir as capacidades nucleares do Irã, mas afirma que quer evitar um desastre nuclear.

 

Fonte: Por Bernardo Kocher, em Opera Mundi/DW Brasil

 

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