Por
que setores de Israel hesitam no apoio ao genocídio do Estado sionista contra
Gaza?
Recebi
de um amigo próximo uma demanda para analisar uma situação sobre os dramáticos
acontecimentos na Palestina ocupada que está se difundindo nos dias que correm.
A interpelação foi feita em função de um artigo da grande imprensa indicando que
mais de mil oficiais da força aérea sionista estariam dispostos a dar marcha ré
no trabalho que vêm realizando com esmero há vinte meses. Seria esta situação
indicadora de mudança substantiva na destruição do povo palestino ora em curso?
Estes
militares altamente qualificados e pró-ativos na implementação da política
social genocida contra o povo palestino se manifestaram via um abaixo-assinado
pelo encerramento do conflito alegando, entre outros:
a) a
guerra é política e “não serve mais aos propósitos de segurança nacional do
Estado judeu”;
b) a
maioria da opinião pública do país é contra a guerra;
c) os
cativos desde 7 de outubro de 2023 podem vir a perecer;
d)
soldados sionistas e a população civil estão morrendo;
e) a
guerra pode levar à prática de crimes de guerra;
f) a
invasão de Gaza seria a realização de um projeto messiânico partilhado apenas
por uma pequena minoria da sociedade sionista.
Finalmente,
destacamos abaixo trecho do texto do abaixo-assinado que faz uma profissão de
fé num presumido sentido histórico e moral do Estado sionista, como indica a
reprodução do documento pelo jornal Haaretz:
“Nossa
existência como sociedade e como país é condicionada pela crença na justiça do
nosso caminho, garantias mútuas, defesa dos valores da moral judaica e um
profundo compromisso com a vida humana.”
A
análise feita pelo periódico online indica ainda que esta situação marca o
encontro das posições dos missivistas com a opinião pública mais ampla sobre o
que está acontecendo na Faixa de Gaza. Nesta mudança, o que é indicado não é o
processo em si, tal como ele foi iniciado em outubro de 2023, pois este já
estaria esgotado, mas apenas a questão “(da) retomada e intensificação das
ações militares em Gaza (em março de 2025, após dois meses de cessar fogo – BK)
e dos alertas sobre a escassez de alimentos e insumos básicos emitidos por
organizações que trabalham no enclave palestino”.
A
política social genocida está neste momento se defrontando com uma (a primeira)
barreira relevante. Já abordamos este tema no artigo anterior desta série que
estamos publicando no Opera Mundi. Naquele momento
realizamos algumas reflexões sobre o porquê esta situação se conformar neste
momento, não depositando muitas esperanças de que esta nova e aparentemente
inovadora correlação de forças traria, ao menos no curto prazo, o fim da
implementação da política social genocida.
Nossa
resposta ao estimado amigo, com algumas correções para adaptação ao presente
texto, foi a seguinte:
“Isto é
oportunismo político. Já aconteceram inúmeras manifestações como esta
anteriormente. Veja o filme de animação ‘Valsa com Bashir’, onde ex-soldados
arrependidos que presenciaram e contemplaram os massacres de Chabra e Shatila
em 1982 se manifestam sobre o ocorrido. Muitos se expõem apenas depois de
prestarem os seus serviços como militares. O genocídio está alcançando um
‘ponto de não retorno’ e seus executores e patrocinadores não querem assumir a
responsabilidade no futuro do que está acontecendo/por acontecer. França,
Inglaterra e Alemanha estão fazendo o mesmo papelão. Se estes militares
quisessem fazer alguma coisa, se recusariam participar das missões (alguns
poucos fazem isso) ou executariam uma ação direta de impedir que os aviões
decolem. Eles estão ‘rompendo sem romper’ com o sionismo. Faz parte da
encenação. Os nazistas não enviaram os judeus para ‘campos de trabalho’? Estes
militares e outros sionistas de esquerda estão preocupados apenas com a
‘situação humanitária’. Nunca chamam o que está acontecendo de genocídio. É
manifestação típica da pequena burguesia, que fica pendulando de um lado para
outro do espectro político. As manifestações na Europa cresceram muito no
último dia 18 de maio (além de serem contínuas) e estão expondo os sentimentos
piegas desta gente. Mesmo na Europa e EUA os manifestantes focam nos ‘direitos
humanos’ ou algo similar mas nunca na política imperialista como promotora do
genocídio e também não se insurgem em grande número. A classe trabalhadora
destes países está produzindo e transportando as armas para o Estado sionista.
São militares, mil deles! Não têm culhão de pegar em armas e impedir a
mortandade, que é estruturada a partir dos bombardeios aéreos de aviões e
munições caríssimos fornecidos por EUA e Europa. A ação deles não muda nada,
apenas fazem parte do cenário. A situação é absolutamente crítica, quase no
limiar da execução completa do plano de liquidação dos palestinos de Gaza.
Param um pouco e continuam depois. Foi o que ocorreu entre 1947 e 1951, o Nakba.
Não dá prá confiar neles. Amanhã voltam pros aviões e dizem que vão defender a
todo custo Eretz Israel dos ataques terroristas ou dos inimigos árabes
vizinhos. No fundo é pura dissonância cognitiva produzida pelo sionismo e pelo
sociedade parasitária em que vivem: fazem uma guerra caríssima não utilizando a
riqueza social produzida no próprio país. Possuem um padrão de vida muito maior
do que a economia suporta.”
Malgrado
a linguagem telegráfica e algo irônica que utilizamos na resposta, temos nesta
manifestação uma espécie de “agenda” de reflexão sobre a conjuntura que está se
abrindo. Agregaríamos aos pontos indicados acima que muitos poderiam indicar
ainda que entre o atual governo norte-americano e o sionista já existe uma
aberta discordância sobre os destinos da invasão militar na Faixa de Gaza..
Aquele preocupado com o business que o processo de paz pode
propiciar; este voltado para uma forma de enriquecimento parasitário baseado no
expansionismo territorial e na limpeza étnica dos povos originários que
caracteriza a sociedade sionista desde os seus primórdios. Mesmo sem a menor
possibilidade de ruptura da relação figadal que une as políticas externas dos
dois países para o Oriente Médio, notamos que a principal força motora do
estancamento do estágio atual da política social genocida vem apenas e tão
somente do governo Trump. Sendo assim, podemos inferir que os defensores desta
posição indicam que as negociações isoladas que estão sendo conduzidas por
aquele governo nestas últimas semanas com a resistência palestina visam criar
uma ponte de salvação para que o governo sionista encerre a guerra encenando
uma espécie de concessão feita (ou este ser obrigado a acatar a pressão) do seu
principal financiador. Isto impediria o fardo de uma eventual consideração de
que houve uma derrota do Estado sionista ao não eliminar fisicamente a
resistência islâmica e nem obter sucesso da extração dos seus cativos pela via
da força.
Todos
estes aspectos alinhados acima indicam a necessidade da compreensão meticulosa
das formas de atuação do Estado sionista desde quando ainda era constituída,
nas décadas de 1920 até 1940, de um braço político (Waissman, Ben Gurion, Golda
Meir, etc.) e outro terrorista (Irgun, Gang Stern e Palmach). Esta dupla
dinâmica de atuação nunca contemplou na sua atuação na Palestina a
implementação de recuos na limpeza étnica, apenas paradas estratégicas. Assim,
por exemplo, a não ocupação da Cisjordânia e a instauração do enclave
artificial da Faixa de Gaza foram processos instituídos em função da
incapacidade, em 1948, de tornar a Palestina histórica totalmente esvaziada dos
seus habitantes originários. Adotou-se na época uma parada estratégica para
continuar o processo mais adiante, quando as condições políticas permitissem.
Da mesma forma, o Grande Israel em sua dinâmica constitutiva atual se enquadra
nesta mesma situação. Parar a matança para continuá-la posteriormente não é uma
derrota, mas uma estratégia.
Não
podemos entender o que está ocorrendo com a reversão de posição de vários
defensores da política social genocida contra o povo palestino, entre eles os
da força aérea sionista, senão como um momento muito próprio que não pode ser
considerado um ponto fora da curva na História da usurpação que os sionistas
impingiram a todo um povo. Não há ainda acúmulo de forças suficientes para
reverter definitivamente a política social genocida contra o povo palestino. O
que está ocorrendo neste exato momento é, numa visão de longa duração, de uma
catarse coletiva por parte da sociedade sionista que necessita de uma espécie
de “descanso emocional” para, num futuro próximo, voltar a atuar como agentes
da exterminação física e social do povo palestino. No momento de exaustão de um
ciclo de agressões ocorre uma arrefecimento da política social genocida, que
será retomado em algum momento no futuro, quando uma outra nova geração de
soldados continuará a tarefa da limpeza étnica. Muitos soldados sionistas das
gerações anteriores passam, neste momento de uma nova ofensiva, a proferir
críticas sobra a ação do seu governo.
Não
desconsideramos que a crescente pressão de governos (França, Inglaterra e
Alemanha), indivíduos relevantes nos meios de comunicação (o jornalista Piers Morgan) e movimentos
sociais podem elevar a contestação da política social genocida aplicada contra
o povo palestino a um nível tal que seja capaz de, ao menos temporariamente,
frear a ação que os sionistas estão até agora impunemente realizando. Esta
situação está em desenvolvimento positivo para a mobilização popular contra a
política social genocida desde 18 de maio de 2025. Várias notícias informando a
existência de mobilização estão neste exato momento sendo noticiadas nas redes
sociais. Elas contém até mesmo projetos de tentativas de intervenção no
território da Faixa de Gaza. Mas estas forças (da forma como se conformam) não
estão se constituindo como atores autônomos, já que possuem limites: são
caudatárias da nova política do governo norte-americano, dependendo deste para
abrir uma fratura política na política social genocida contra o povo palestino
para que estas manifestações ganhem corpo e densidade. Este é o cenário que
estamos assistindo neste momento.
Uma
outra consideração que fazemos nesta novíssima correlação de forças que está em
desenvolvimento é que caso seja a sociedade civil seja o fator decisivo do fim
da matança os governos que representam esta perderão capital político. Aqui é
necessário considerar que demanda tempo e análise do escopo do que está prestes
a acontecer para podermos avaliar se houve (ou haverá) uma transformação
substantiva na correlação de forças das classes sociais em favor do fim da
política social genocida contra o povo palestino. Temos em conta que a
insurgência contra a política social genocida contra o povo palestino
corresponde em alguma medida um questionamento das bases de reprodução da vida
social dos países de origem dos manifestantes. Se a ampliação do questionamento
dos fundamentos de produção da política social genocida não ocorrer
vivenciaremos apenas um conjunto de tentativas frustradas de frear a matança,
indicando que a luta política ganhará novos contornos mas não será capaz de
modificar as caraterísticas basilares das lutas sociais dos países capitalistas
desenvolvidos. Será destes, de forma substantiva, de onde sairão os ativistas
que projetam interferir no processo de limitação da política social genocida.
Como
produto desta limitação, temos que considerar que o manifesto dos militares
aviadores sionistas contém uma imprecisão preciosa, que já indicamos acima: “a
invasão de Gaza seria a realização de um projeto messiânico partilhado apenas
por uma pequena minoria da sociedade sionista”. Ora, o descolamento das
posições dos militares querelantes da implementação da política social genocida
contra o povo palestino, que possuem a auto-imagem de serem eles mesmos
representantes da maioria da população de seu país, indica apenas que se
colocam numa posição tão messiânica quanto a dos que estão criticando. Se
esquecem (?) de que o governo atual foi eleito e possui maioria parlamentar.
Isto também ocorreu com os primeiros governos dos sionistas laicos, dos quais
eles possuem afinidades, que perderam a hegemonia do processo político do
Estado sionista em 1977 quando o Likud venceu sua primeira eleição. Foram estes
sionistas laicos que criaram no Nakba (1948) toda esta situação catastrófica
para as vítimas (palestinas) das vítimas (do holocausto).
Somente
as lutas sociais informadas por uma crítica ao imperialismo e a sociedade de
classes geradora da “engenharia política” genocidária que poderá produzir fatos
realmente novos, capazes de colocar esta posição dos militares aviadores numa
efetiva rota de colisão com o sionismo. Assim, conjuntamente com outras forças
políticas contestatórias e questionadoras do capitalismo, haveria o
ressurgimento do povo palestino enquanto ente
coletivo.
Se tudo
o que os militares aviadores sionistas podem oferecer é não ter afinidades com
o governo democraticamente eleito que possui uma “visão messiânica”, além de
uma política abertamente hostil e racista, imaginemos o que sente o povo
palestino em relação às duas correntes. Esta situação está configurada desta
forma porque os militares aviadores sionistas e tudo que eles representam (ou
dizem representar) de fato não representam neste momento nada para o povo
palestino.
Encerramos
estes escritos oferecendo condolências à nossa querida jornalista palestina
Bisan Owda. Ela informou pelas suas redes sociais que três de seus primos foram
assassinados pelas bombas incendiárias dos sionistas. Que Deus em sua imensa
misericórdia receba estes mártires e conforte seus familiares e amigos. Allahu
Akbar!
¨
Israel prevê "campanha prolongada" em 2ª semana
de conflito
O chefe
das forças armadas de Israel, Eyal Zamir, alertou nesta sexta-feira (20/06) que o
país se prepara para uma "campanha prolongada" contra o Irã, à medida que os dois inimigos abrem a segunda semana do
conflito com uma nova troca de agressões.
"Embarcamos
na campanha mais complexa de nossa história para eliminar uma ameaça de tal
magnitude, contra um inimigo como esse. Devemos estar prontos para uma campanha
prolongada", disse Zamir em uma declaração em vídeo.
Falando
no Conselho de Segurança da ONU, o secretário-geral da organização, António Guterres, também alertou que
o conflito pode "sair do controle" se as partes não interromperem as
agressões imediatamente.
Os
ataques aéreos entre os dois países, contudo, permaneceram ativos ao longo do
dia, enquanto europeus tentavam reabrir negociações com Teerã por um novo
acordo nuclear.
Os
diálogos aconteceram em Genebra entre o ministro das Relações Exteriores do
Irã, Abbas Araghchi, e diplomatas da União Europeia, Reino Unido, França e
Alemanha, mas as negociações não avançaram.
Após a
reunião, o ministro das Relações Exteriores britânico David Lammy afirmou
apenas que os países estavam "dispostos a continuar as discussões e
negociações em andamento com o Irã" e que foram claros ao dizer que Teerã
"não pode ter uma arma nuclear".
Já
Araghchi pontuou que o Irã está disposto a considerar a diplomacia somente
se Israel interromper seus ataques e se os responsáveis forem
responsabilizados.
Ele
expressou "séria preocupação" com a decisão dos três países europeus
e da União Europeia de não condenar os ataques israelenses. Para o ministro,
bombardeios às instalações nucleares iranianas são uma grave violação do
direito internacional.
"Declarei
de forma explícita e clara que as capacidades defensivas do Irã não são
negociáveis", disse o ministro. No entanto, acrescentou que o governo
iraniano está disposto a continuar conversando com os europeus "em um
futuro próximo".
Questionado
sobre a iniciativa europeia, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o "Irã não quer conversar
com a Europa" e defendeu que os países do continente "não conseguirão
ajudar desta vez".
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Ofensivas renovadas
As
declarações acontecem em meio a ofensivas renovadas entre os países.
O
exército de Israel afirmou que 25 aviões de combate realizaram ataques aéreos
na manhã de sexta-feira, atingindo "componentes de infraestrutura de
armazenamento e lançamento de mísseis" no oeste do Irã.
Pelo
menos cinco pessoas ficaram feridas em um bombardeio a um prédio residencial em
Teerã. As defesas aéreas do Irã voltaram a ser ativadas na noite desta
sexta-feira.
No
norte de Israel, um projétil caiu no centro de Haifa, ferindo pelo menos 31
pessoas, de acordo com o Centro Médico Rambam da cidade. Uma fumaça preta subiu
sobre o principal porto da cidade. As janelas e paredes de vários edifícios,
incluindo uma mesquita, foram arrancadas pela explosão.
Haifa abriga
o porto mais movimentado de Israel e uma base naval.
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Disputa de narrativas na ONU
Na ONU,
o embaixador do Irã Amir Saeid Iravani afirmou que centenas de civis foram
mortos em ataques israelenses a hospitais, dois deles atingidos nesta
sexta-feira. Ele citou como exemplo os bombardeios ao Hospital Infantil Hakim
em Teerã, ao Hospital de Reabilitação Farabi em Kermanshah, ao prédio da
Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano e a ambulâncias.
A fala
de Iravani rebateu declarações sobre um hospital israelense atingido por
mísseis iranianos.
Segundo
ele, médicos, pacientes e profissionais de saúde foram mortos e feridos.
"Esses não foram acidentes ou danos colaterais. Foram crimes de guerra
deliberados", disse Iravani durante uma reunião de emergência do Conselho
de Segurança da ONU sobre a escalada do conflito.
Já o
enviado de Israel às Nações Unidas, Danny Danon, disse ao Conselho que seu
país não interromperá os ataques "até que a ameaça nuclear do Irã seja
desmantelada".
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Aumenta preocupação de risco nuclear
Também
no Conselho de Segurança, o chefe da agência nuclear da ONU alertou contra
bombardeios a instalações nucleares e pediu máxima contenção.
"Um
ataque armado contra instalações nucleares pode resultar em vazamentos
radioativos com grandes consequências dentro e além das fronteiras do Estado
atacado", disse Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia
Atômica (AIEA).
Na
quinta-feira, um oficial militar israelense recuou de uma informação
divulgada por um porta-voz militar que dizia que Israel
atacou Bushehr, a única usina nuclear comercial do Irã. O oficial afirmou
que não podia confirmar nem negar se Bushehr, construída pela Rússia e
localizada na costa do Golfo, havia sido atingida.
Israel
diz estar determinado a destruir as capacidades nucleares do Irã, mas afirma
que quer evitar um desastre nuclear.
Fonte: Por
Bernardo Kocher, em Opera Mundi/DW Brasil

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