Memória
sobre a maldade dos ricos contra os pobres
Nas
últimas décadas, a cidade de São Paulo tem sido laboratório de políticas que
misturam repressão policial, higienização social e interesses do mercado
imobiliário. A justificativa oficial é o combate às drogas. Mas o que está em
curso é a criminalização sistemática da pobreza racializada e o apagamento das
formas populares de vida, memória e cultura.
A
criminalização da pobreza é uma velha arma da lógica perversa que entrelaça
racismo e exclusão de direitos, e desde 2015, a Iniciativa Negra por Uma Nova
Política sobre Drogas tem denunciado que a chamada “guerra às drogas” é um
dispositivo que reatualiza e sustenta a manutenção da opressão racial no Brasil
e no mundo.
Esse
cenário não é novo. A guerra às drogas tem sido usada como ferramenta para
sustentar uma política racista de controle social, aprofundando desigualdades
históricas. A violência estatal se manifesta nas abordagens abusivas, no
encarceramento em massa, na letalidade dirigida contra a juventude negra e
periférica, mas também em processos menos visíveis, como remoções forçadas,
repressão à cultura de rua e especulação fundiária nos territórios populares.
A
Favela do Moinho, no centro de São Paulo, é um exemplo recente dessa ofensiva.
Em maio de 2025, foi alvo de uma operação policial com despejos forçados que
apenas a resistência da comunidade conseguiu conter. Mas ela está longe de ser
um caso isolado. A repressão a usuários de drogas na região da Luz e o avanço
da especulação em áreas como a Cracolândia, Paraisópolis, Baixada Santista e o
Largo do Rosário, na Penha, demonstram um padrão recorrente. A criminalização
da pobreza serve de álibi para liberar terrenos e revitalizar áreas inteiras
sob comando de interesses privados.
Em
nossa publicação Racismo e a gestão pública das políticas de drogas na
Cracolândia, analisamos dois programas voltados para a região: o De Braços
Abertos, implementado pela gestão de Fernando Haddad em 2014, e o Redenção,
iniciado em 2017 pela gestão João Doria/Bruno Covas. O estudo demonstra o
quanto a guerras às drogas é ineficiente em seus objetivos: no período de 2017
a 2020, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) apreendeu o equivalente a R$
342.803,33 em drogas, ao tempo que, no mesmo período, apenas a Inspetoria
Regional de Operações Especiais (Iope) recebeu verbas para compra de
equipamentos no total de R$ 469.149,39. Ou seja, para cada R$ 1,00 apreendido
em drogas, muito mais dinheiro é gasto, já que, ao valor dos equipamentos
adquiridos deve-se somar o custo dos profissionais ocupados nas ações, todas às
custas do Estado. Um enorme passivo, cujo cheque é assinado por todos os
cidadãos, pois a maioria deles confiou em governantes que defendem a manutenção
dessa guerra.
No
último mês de abril, organizamos também o lançamento da revista PLATÔ
Intersecção – Uso da Terra, Política de Drogas e Justiça Climática, publicação
pioneira que reúne dezessete artigos em perspectivas diversas, demonstrando que
a proibição das drogas fragiliza territórios, alimenta o crime organizado,
bloqueia alternativas sustentáveis e fortalece desigualdades históricas – desde
a macropolítica até a micropolítica, perpetuando um rastro de sangue no campo,
na floresta e na cidade.
Por
essas razões, reafirmamos que o estado de violência antinegros gerado pela
proibição das drogas é apenas a ponta de um iceberg de raízes profundas:
outrora, foram criminalizadas as nossas religiões, nossas expressões e nossa
cultura, enquanto éramos chamados de vadios para não nos empregarem. Em nome do
progresso e do desenvolvimento, grandes empreendimentos destroem patrimônios
materiais e imateriais e impedem a criação da memória dos bairros e
territórios, entregando a autoria e a versão oficial da história nas mãos das
pequenas elites que determinam os rumos da cidade.
É por
isso que a cultura, longe de ser apenas entretenimento, é também campo de
disputa, tecnologia social e forma de resistência. Funk, rap, samba e tantas
outras expressões das periferias brasileiras não são apenas manifestação
estética: são denúncia, são sobrevivência, são organização política.
A
recente criminalização do MC Poze do Rodo, alvo de perseguição e tentativa de
silenciamento por meio do sistema penal, escancarou mais uma vez a seletividade
do aparato repressivo. Quando uma multidão foi às ruas recebê-lo na saída do
presídio do Bangu, no Rio, não se tratava apenas de apoio a um artista, mas da
expressão coletiva de indignação frente à criminalização da juventude preta e
favelada. Essa mobilização abriu janelas de oportunidade política. Foi mais que
um gesto simbólico porque revelou uma potência real de alargamento do projeto
abolicionista penal com base na força organizada dos territórios e nas vozes
que deles emergem.
A
cultura é também um modo de fazer política, de manter viva a memória e projetar
futuros. Buscando entender como nossos ancestrais resistiram a cenários de
criminalização anteriores, disputando cada esquina das ruas que nós
frequentamos, lançamos em 2024 o projeto multidisciplinar Cartografias de
Bambas, que documenta a história e a memória a partir das vivências e
perspectivas de bambas na Barra Funda, também conhecida como berço do samba
paulista.
E
agora, no próximo dia 12 de junho, realizaremos o lançamento de um
minidocumentário com as dez primeiras histórias de vida, mapeadas como parte do
projeto, além de um livro inédito sobre a comunidade da Barra Funda. Para nós,
celebrar essas narrativas, e através delas recontar a história e a cultura, é
um mecanismo de empoderamento para que pessoas e territórios da cidade possam
disputar os rumos dos seus futuros.
Essas
ações reafirmam nossa crença de que a construção de comunidades fortes é a
melhor resposta que podemos oferecer à ofensiva do capital. Ao recontar nossas
narrativas a partir do olhar dos que são sempre excluídos – embora sejam o
contingente populacional e cultural majoritário deste país –, fazemos um
movimento muito poderoso: revelar a história e nos recolocar em um
posicionamento crítico de cobrança por direitos e reparações históricas. A
memória dos sambistas que sucumbiram, dos que resistiram e dos que ainda seguem
vivos frente a esse contexto de opressão é nossa arma política. Porque um
sambista de rua não morre sem glória. Quando um morre sem reconhecimento, toda
uma comunidade desaparece com ele.
Reconhecendo
a cultura como tecnologia social de transformação e resistência, a Iniciativa
Negra tem assumido a tarefa de narrar a vida – não a morte – e impedir que
nossas peles e territórios continuem sendo alvo sistêmico da estigmatização, da
criminalização e do apagamento. Da Barra Funda ao Largo do Rosário na Penha, da
Baixada Santista a Paraisópolis, nosso compromisso é com as vozes silenciadas,
os territórios ameaçados, os jovens que são alvos preferenciais da letalidade
policial e do encarceramento, e que vivem nos mesmos bairros onde o racismo
consagra interesses especulativos e lucrativos do capital.
Nesse
processo, reconhecemos que cada comunidade que resiste a remoções, despejos, ao
silenciamento está também reivindicando seu direito à cidade, à memória, ao
futuro. Celebrar o funk das vielas, o samba das rodas de rua, o rap das
batalhas e dos palcos improvisados é uma forma de insurgência, uma estética que
também é ética e política. Do Moinho à Baixada, da Cracolândia à Penha,
seguimos comprometidos com a construção de comunidades fortes. Porque são essas
comunidades que resistem, que recontam suas próprias histórias, que geram suas
próprias tecnologias de cuidado, que afirmam a vida em meio ao projeto de
morte. Defender seus corpos e suas culturas é também defender uma cidade mais
justa, onde não haja espaço para que a maldade dos ricos se imponha como
política pública sobre os pobres. Seguiremos defendendo os corpos e as culturas
que insistem em viver, porque somos muitos, somos memória e estamos vivos para
impulsionar “a grande roda da história”.
Fonte:
Por Nathália Oliveira e Juliana Borges, no Le Monde

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