quinta-feira, 19 de junho de 2025


 


Maria Luiza Falcão Silva: BRICS, Irã e o papel incômodo do Brasil

Israel atacou o Irã mais uma vez. O Irã revidou. Mísseis voam entre Israel e Irã provocando destruições em ambas as partes. Países do Golfo temem que o conflito se alastre e se transforme em uma Guerra Regional. O mundo assiste em silêncio — ou com aplausos discretos vindos de Washington, Londres ou Bruxelas. O argumento é o velho conhecido: Israel estaria apenas “se defendendo” como foi aventado na reunião do G7, no Canadá, esta semana. A pergunta que precisa ser feita, com todas as letras, é: com que direito?

A justificativa oficial sempre gira em torno do direito à autodefesa, consagrado na Carta da ONU. Desde quando esse direito autoriza um país a atacar outro soberano sem aprovação do Conselho de Segurança, sem uma ameaça iminente clara e admitindo, formalmente, a autoria da agressão? Aliás, não podia ser de outra maneira já que hoje assistimos bombardeios pela televisão, tablets e telefones celulares, em tempo real!

Israel tem repetido essa prática por anos. Ataca alvos iranianos na Síria, faz sabotagens dentro do próprio Irã, bombardeios com drones ou mísseis de longo alcance. E agora, com a escalada em Faixa de Gaza e no sul do Líbano, o confronto se aproxima perigosamente de um ponto de não retorno. Em vez de desescalar, Israel amplia a zona de conflito —sob o comando de Benjamin Netanyahu e com o respaldo ou a complacência de aliados que deveriam estar defendendo o direito internacional, não distorcendo-o para caber em seus próprios interesses.

<><> Segurança para quem?

É compreensível que Israel, um país com histórico de guerras e cercado por vizinhos hostis, esteja constantemente em estado de alerta. O medo não é fantasia. Transformar esse medo em licença permanente para atacar quem quiser, quando quiser, onde quiser, é outro assunto. A segurança de um país não pode vir à custa de genocídios em outros, como vem ocorrendo na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ou causando medo e instabilidade global para todos que anteveem uma Terceira Guerra Mundial.

O Irã também não é uma potência inocente. Apoia milícias armadas, desafia o Ocidente em várias frentes, e seu regime tem um histórico de violações internas graves. Mas a pergunta continua válida: Israel pode unilateralmente se colocar acima da ONU e agir como polícia da região se arvorando de ser o único país no Oriente Médio que pode ter armas nucleares? Porque se a resposta for “sim”, então que paremos de fingir que há um sistema multilateral funcionando.

<>< O silêncio barulhento do Ocidente

Imagine por um segundo se fosse o Irã bombardeando o território israelense com o argumento de estar "se protegendo" de ações futuras do Mossad - Instituto para a Inteligência e Operações Especiais, responsável pela espionagem fora de Israel.

O mundo entraria em colapso. Washington convocaria o Conselho de Segurança em minutos. Sanções choveriam. Quando é Israel que ataca, o mundo fecha os olhos. Esse é o retrato claro do duplo padrão internacional.

O silêncio não é neutro. É barulhento. E tem consequências: reforça o sentimento de injustiça no Sul Global, enfraquece a legitimidade das instituições internacionais e empurra países como Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul a construírem outras plataformas de poder — o BRICS, por exemplo — onde esse tipo de assimetria é questionado. O grupo não para de crescer. Aos cinco países originários já se somaram Emirados Árabes, Egito, Etiópia, Irã e Indonésia. O Vietnam torna-se oficialmente o décimo país parceiro do BRICS, juntando-se a Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão. 

<><> BRICS, Irã e o papel incômodo do Brasil

É aí que entra um novo fator na equação: o Irã agora faz parte do BRICS. Isso muda tudo. De coadjuvante, o país passa a integrar um bloco que pretende disputar liderança global — e que, em 2025, se reúne no Brasil, poucas semanas antes da COP 30, também em solo brasileiro.

Isso coloca o presidente Lula em uma encruzilhada estratégica. O Brasil sediará dois dos encontros mais importantes do ano: a cúpula dos BRICS (em julho, no Rio de Janeiro) e a conferência climática da ONU (em novembro, em Belém). Um tratando da complexa geopolítica; outro da sobrevivência planetária. Em ambos, o conflito entre Israel e Irã será um fantasma presente. E o governo brasileiro será cobrado a se posicionar — ainda que sua tradição diplomática prefira o equilíbrio, a mediação de conflitos.

De um lado, os membros do BRICS, agora com Teerã à mesa, exigirão um discurso firme contra intervenções unilaterais e pela soberania nacional. A ideia é levar uma posição conjunta à Conferência de Belém. De outro, os países do G7 chegarão à COP 30 cobrando “responsabilidade” e tentando controlar a narrativa sobre segurança internacional e direito de defesa e transição energética. Lula terá que navegar com cuidado — mas também com coragem. Neutralidade, neste caso, pode significar irrelevância.

<><> A escalada como política

O problema é que, ao transformar a lógica da guerra preventiva em política de Estado, Israel contribui para o que já se tornou um ciclo vicioso no Oriente Médio: uma escalada permanente que nunca chega a um fim. A cada novo ataque, a radicalização aumenta. A cada nova morte, cresce o ódio que sustenta as milícias. A cada explosão, diminui a chance de uma saída diplomática.

E o mundo paga essa conta. Não só em vidas, mas em energia mais cara, cadeias produtivas instáveis, aumento da corrida armamentista e, o que talvez seja mais urgente: desvio completo da agenda climática. Como esperar avanços na COP 30 com o Oriente Médio em chamas e o petróleo mais uma vez no centro da crise?

<><> Trump 2.0: gasolina e fósforos

Como se tudo isso não bastasse, Donald Trump de volta ao poder — em seu segundo mandato, age como se os Estados Unidos fossem um exército solitário a serviço de suas convicções. Trump não apenas aplaude os ataques israelenses: estimula o confronto, sabota mediações multilaterais e trata o Oriente Médio como de seu interesse pessoal no tabuleiro global.

A diplomacia virou teatro. A ONU virou obstáculo. E qualquer país que se oponha à lógica do “poder pela força” corre o risco de ser rotulado como inimigo. Com Trump de volta à Casa Branca, a paz – mote de sua campanha à presidência dos Estados Unidos -, virou palavra proibida nos corredores de Washington.

Donald Trump exigiu, na terça-feira (17), a "rendição incondicional" do Irã, ameaçou matar o líder supremo do país, Ali Khamenei, e usou a palavra "nós" ao se referir aos esforços de guerra de Israel em uma sugestão de que os EUA podem aderir ao conflito contra a nação persa. 

<><> O que está em jogo

Não se trata aqui de escolher lados entre Israel e Irã. Trata-se de escolher o lado do direito internacional, da estabilidade global e do bom senso. Não podemos aceitar que um país — por mais ameaçado que se sinta — se arrogue o direito de atacar outro país soberano fora de qualquer regra coletiva. Isso abre um precedente perigoso. Para todos.

Hoje é o Irã. Amanhã pode ser qualquer outro fora do eixo de “confiança” do Ocidente. E o que restará da ordem internacional quando cada nação resolver se defender daquilo que acredita que um dia pode vir a acontecer?

Com o Irã no BRICS, e o BRICS no Brasil, o mundo olha para o presidente Lula. Ele não poderá apenas acolher as cúpulas. Terá que liderá-las.

¨      O que mudou foi o modo de matar nas guerras, não a tragédia de morrer. Por Washington Araujo

Em abril de 2003, as ruas de Bagdá tremiam com o avanço dos tanques M1 Abrams. Sob o sol escaldante do Iraque, soldados americanos travavam combates corpo a corpo contra insurgentes. Era a imagem clássica da guerra convencional: poeira, tiros, explosões, suor e morte.

Hoje, junho de 2025, a guerra tem um novo rosto.

Na mesma região do Oriente Médio, mas com outra roupagem, operadores israelenses sentados em salas refrigeradas controlam drones que sobrevoam o Irã. Enquanto isso, o sistema Domo de Ferro intercepta mísseis no céu. Tudo acontece a partir de centros de comando digitalizados, onde a guerra se desenrola em telas, algoritmos e radares.

No dia 12 de junho de 2025, Israel lançou ataques aéreos contra instalações nucleares em Natanz, marcando o início de um novo confronto com o Irã. Em resposta, Teerã disparou mísseis que atingiram Tel Aviv e Haifa. Em poucos dias, 246 pessoas morreram. A maioria civis. O impacto foi imediato, global, devastador.

Vamos tratar aqui da transição que os conflitos atravessaram ao longo do século XXI e buscar entender como a guerra saiu do corpo-a-corpo e das trincheiras para se tornar uma operação remota. Tudo mudou para permanecer igual: toda a guerra não passa de fábrica de cemitérios e tantos custos humanos. Financeiros crescem sempre de maneira exponencial.

<><> Do chão ao comando remoto

A guerra do início dos anos 2000 era física, brutal, visível. A invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, exemplifica esse padrão: 4.431 militares americanos mortos. Entre 187 mil e 211 mil civis iraquianos perderam a vida, segundo o Iraq Body Count. A destruição de cidades como Fallujah, Mosul e Bagdá foi imensa.

A reconstrução foi estimada em US$ 88 bilhões pelo Banco Mundial. E o custo total da guerra, incluindo a presença militar, infraestrutura e veteranos, ultrapassou US$ 2 trilhões, segundo o projeto Costs of War, da Universidade Brown.

Mas os conflitos evoluíram.

Na Ucrânia, desde 2022, drones se tornaram protagonistas. O turco Bayraktar TB2 e o iraniano Shahed-136 substituíram tanques e aviões tripulados. Segundo o New York Times, cerca de 80% das baixas russas nos dois primeiros anos da guerra vieram de ataques de drones ucranianos — muitos operados a quilômetros de distância.

Em Israel, o Domo de Ferro, sistema antimíssil de última geração, intercepta cerca de 90% dos foguetes e drones lançados contra o país. No atual conflito com o Irã, tem sido decisivo para minimizar baixas civis — embora ainda haja falhas.

Essa transformação é sustentada por inteligência artificial, sensores térmicos, conectividade via satélite e análise de dados em tempo real. Na Ucrânia, o sistema Kropyva processa informações de vigilância em minutos e permite contra-ataques quase instantâneos.

A guerra deixou de ser uma marcha de botas e passou a ser uma dança entre códigos e sinais. A fumaça dos tanques foi substituída pelo silêncio das salas climatizadas. Mas o cheiro de morte permanece.

Contudo, a automação não anula o sofrimento humano.

Até 16 de junho de 2025, o Irã havia registrado 224 mortos e 1.277 feridos no conflito com Israel. Do lado israelense, os números chegavam a 22 mortos e 390 feridos. Entre as vítimas, muitas eram crianças.

A guerra moderna é mais tecnológica — mas não menos letal.

<><> O preço da guerra: do dinheiro ao sangue

Nos primeiros anos do século, as guerras custavam vidas e bilhões de dólares. O Afeganistão, entre 2001 e 2021, registrou 2.461 militares americanos mortos e cerca de 70 mil civis afegãos mortos. A reconstrução do país demandou US$ 145 bilhões.

Somando Iraque e Afeganistão, os Estados Unidos gastaram entre US$ 4 trilhões e US$ 6 trilhões em duas décadas de guerra. Um peso orçamentário que atravessou governos e gerações.

O impacto humano foi permanente: mortes em grande escala amputações, traumas psicológicos, orfandade, cidades em ruínas, populações inteiras deslocadas.

Como escreveu a jornalista Anna Politkovskaya, “a guerra nunca é só sobre armas; ela destrói a confiança, a compaixão, a memória”.

<><> Os custos das guerras tecnológicas

Hoje, o preço não desapareceu — apenas mudou de forma.

O sistema Domo de Ferro custa cerca de US$ 100 milhões por bateria. Cada míssil Tamir interceptador vale entre US$ 40 mil e US$ 50 mil. Um único ataque pode consumir dezenas deles.

Na Ucrânia, a ajuda internacional superou US$ 407 bilhões desde 2022, com grande parte destinada à compra de drones, mísseis, satélites e sistemas de comando.

No recente conflito entre Israel e Irã, Israel mobilizou 200 caças e lançou mais de 330 mísseis em menos de 72 horas. Um custo operacional altíssimo — sem contar os danos civis e estruturais causados nos dois países.

As guerras digitais, por mais limpas que pareçam, ainda deixam rastros de sangue. As telas não mostram o calor dos corpos que tombam. Os gráficos escondem o desespero das mães diante dos escombros.

<><> Feridas abertas nas cidades e nos corpos

A guerra tradicional arrasava cidades. Bombardeios em Bagdá, Cabul, Grozny e Aleppo destruíram hospitais, mesquitas, escolas e mercados. A reconstrução foi lenta e, em muitos casos, jamais concluída.

No Iraque, entre 2003 e 2011, estima-se que 3 milhões de pessoas foram deslocadas. No Afeganistão, o número ultrapassou 5 milhões.

Esses conflitos deixaram marcas não apenas físicas, mas psíquicas: gerações inteiras cresceram entre ruínas e trincheiras.

Em muitas cidades destruídas, o único som constante era o eco dos passos de quem ainda buscava parentes sob os escombros.

<><> A precisão que também mata

Na guerra moderna, a destruição é seletiva, mas ainda brutal.

Na Ucrânia, 40 mil civis morreram ou ficaram feridos desde 2022. Em Kharkiv, prédios residenciais foram reduzidos a escombros por drones e artilharia.

Em Gaza, a guerra tem um nome: permanência. A Faixa é alvo recorrente de bombardeios que destroem infraestrutura civil básica — hospitais, escolas, redes de esgoto. Mesmo com armamentos de precisão, os impactos são devastadores: segundo a ONU, cerca de 70% dos mortos em ofensivas recentes são mulheres e crianças. A densidade populacional transforma cada explosão em massacre. Gaza não é apenas cenário de guerra — é laboratório da impunidade.

No conflito entre Israel e Irã, os ataques israelenses atingiram instalações nucleares em Natanz e depósitos de petróleo. Já os mísseis iranianos danificaram prédios civis em Tel Aviv e Haifa. Em ambos os lados, famílias perderam casas, negócios, entes queridos.

A dor é menos visível, mas não menos intensa.

E há um detalhe ainda mais cruel: nas guerras digitais, o ataque muitas vezes é transmitido ao vivo, em alta definição. Morre-se, agora, diante de uma câmera, enquanto milhões assistem em tempo real.

<><> O crescimento dos arsenais letais

O século XXI trouxe uma explosão de inovação bélica.

A Rússia opera drones Shahed-136 — fornecidos pelo Irã — que custam entre US$ 48 mil e US$ 193 mil. Seus mísseis hipersônicos Kinzhal, usados contra a Ucrânia, valem cerca de US$ 10 milhões cada.

A Ucrânia se apoia no drone turco Bayraktar TB2 (US$ 5 milhões) e em drones FPV improvisados que custam pouco mais de US$ 1.000 — mas são capazes de paralisar colunas russas.

Israel investe pesadamente em tecnologia defensiva. O Domo de Ferro já salvou milhares de vidas. Seus drones Harop, que operam como kamikazes eletrônicos, custam entre US$ 100 mil e US$ 500 mil.

O Irã responde com seus próprios drones, como o Ababil e o Shahed, além de mísseis balísticos como o Fateh-110.

Na Caxemira, Índia e Paquistão disputam território com mísseis supersônicos BrahMos (US$ 2,5 milhões) e sistemas de defesa chineses HQ-9.

Essas armas são frutos de orçamentos bilionários, mas também de escolhas políticas. Cada drone lançado é uma oportunidade de diálogo perdida.

<><> A falência diplomática no século da tecnologia

Se as armas avançaram, a diplomacia parece ter regredido.

A Organização das Nações Unidas, criada após a Segunda Guerra Mundial para impedir conflitos, tem sido uma espectadora constrangida da atual desordem global. Embora decepcionante em sua atuação e efetividade para impedir guerras, a ONU é melhor que exista do que o contrário. Ruim com ela, pior, muito pior sem ela.

Desde 2022, o Conselho de Segurança fracassou em conter a invasão da Ucrânia, a escalada entre Israel e Hamas, e agora o confronto direto entre Israel e Irã — ambos países com capacidades militares avançadas e conexões com potências nucleares.

As resoluções não passam. Os vetos se repetem. E os discursos esvaziam a esperança.

As potências não apenas ignoram o direito internacional: em muitos casos, o redesenham conforme seus próprios interesses. A guerra, em vez de ser evitada, é muitas vezes autorizada informalmente nos bastidores da geopolítica.

A diplomacia, que deveria ser o escudo da humanidade, tornou-se refém de algoritmos de conveniência.

<><> A urgência da paz

A guerra tradicional arrasava tudo: pessoas, cidades, culturas. A guerra moderna foca em precisão, mas o sofrimento permanece.

Mísseis podem ser inteligentes, mas ainda caem sobre lares. Drones podem ser controlados à distância, mas ainda tiram a vida de crianças. Os custos mudaram — menos soldados mortos, mais bilhões gastos com algoritmos e sensores.

No conflito entre Israel e Irã, em apenas cinco dias, 246 pessoas morreram. A maioria era civil.

Enquanto os arsenais crescem e as tecnologias se sofisticam, a humanidade precisa escolher outro caminho. Não se trata apenas de evitar a guerra, mas de construir a paz como projeto real, prático, institucional.

É hora de investir mais em mediação, diálogo, confiança mútua e acordos sustentáveis. A tecnologia pode proteger, mas só a humanidade salva.

Em 25 anos, a guerra deixou de ser uma marcha sobre desertos para se tornar um clique sobre mapas digitais. O inimigo, antes visível e temido, agora é um ponto vermelho em uma tela.

Mas o sangue ainda é o mesmo. As lágrimas, as ausências, as casas destruídas — tudo isso permanece. O que mudou é o modo como se mata, não a tragédia de morrer.

Se queremos preservar nosso próprio futuro, devemos exigir mais do que eficiência militar. Precisamos de eficiência moral, política e espiritual.

Porque nenhuma vitória justifica a morte de inocentes. E nenhum avanço tecnológico justifica a falência da humanidade.

 

Fonte: Brasil 247


 

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