quarta-feira, 11 de junho de 2025

Gutierres Fernandes Siqueira: Nem majoritariamente católico, nem majoritariamente evangélico

O Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE, confirma uma transformação profunda e irreversível na paisagem religiosa brasileira. O Brasil, que já foi o maior país católico do mundo, deixou para trás a era da hegemonia confessional para entrar num tempo de pluralismo religioso consolidado. Não se trata apenas da ascensão evangélica ou do crescimento dos “sem religião”, mas da inauguração de uma nova configuração: múltiplas formas de crer, nenhuma dominante.

Os números falam por si. A proporção de católicos caiu de 65,1% da população, em 2010, para 56,7% em 2022. Enquanto isso, os evangélicos avançaram de 21,6% para 26,9%. Embora o ritmo de crescimento tenha desacelerado levemente — 5,3 pontos percentuais na década passada, ante 6,5 na anterior —, a expansão segue vigorosa. O fenômeno evangélico continua sendo o movimento religioso mais consistente das últimas décadas, impulsionado por forte presença territorial, alta mobilização missionária e redes comunitárias enraizadas, sobretudo entre os mais pobres, adolescentes e jovens. Se essa tendência for mantida, a paridade numérica entre católicos e evangélicos deve ocorrer apenas na segunda metade da década de 2040.

Outro dado relevante é o crescimento dos que se declaram “sem religião”, que passaram de 7,9% para 9,3%. Mas este grupo não é uniforme. Inclui ateus e agnósticos, mas também muitos que mantêm algum tipo de crença, rejeitando apenas as instituições religiosas formais. É a fé fora das estruturas, típica de sociedades onde o indivíduo se torna o gestor da própria espiritualidade. Trata-se de um movimento que ecoa fenômenos já observados em países europeus e nos Estados Unidos.

As religiões de matriz africana também apresentaram crescimento expressivo. Umbanda e candomblé passaram de 0,3% para 1% da população — um salto numérico relevante, que reflete, entre outras coisas, um resgate identitário da herança afro-brasileira. Mas, como ensina a estatística, grandes oscilações em grupos pequenos — tanto para mais quanto para menos — são normais.

O dado central, no entanto, é que o Brasil já não caminha rumo a uma “nação evangélica”, como preveem alguns analistas entusiastas. O que emerge é outra coisa: uma cristandade sem hegemonia. Um mapa de crenças em que o catolicismo segue influente, o evangelicalismo se consolida como força dinâmica e os grupos minoritários ganham visibilidade. Um cenário semelhante ao dos Estados Unidos, mas com a peculiaridade tropical de nossa própria história e sociabilidade.

Não estamos diante apenas de uma mudança estatística, mas da formação de um novo pacto espiritual brasileiro. A fé se torna mais plural, mais exposta no debate público e, ao mesmo tempo, mais íntima e individualizada. Esse novo tempo exige maturidade institucional, responsabilidade política e um compromisso firme com a liberdade religiosa — não como concessão estatal, mas como expressão de uma sociedade civil robusta e democrática.

•        Por que o avanço evangélico estagnou e não deve voltar? Por Fabio Miessi e Raphael Corb

Os dados sobre religião do Censo de 2022 surpreenderam muitos analistas: a participação dos evangélicos cresceu, mas ficou abaixo das expectativas. Estimativas comuns apontavam que eles já representariam entre 33% e 35% da população. O número final foi de 26,9%, frente aos 21,6% registrados em 2010.

Em março, publicamos uma nota levantando a hipótese de que o crescimento evangélico poderia estar sendo superestimado. A avaliação se baseava em pesquisas sobre mecanismos institucionais que impulsionaram a expansão das igrejas nas décadas anteriores —e que ajudam a entender por que esse avanço começa a perder força. É com base nesses resultados que propomos uma leitura para os dados divulgados.

Nas últimas décadas, o crescimento evangélico foi um dos fenômenos sociais mais marcantes do país. A participação saltou de cerca de 6% em 1980 para 21,6% em 2010, chegando a 26,9% em 2022, alterando o cenário religioso e político. Muitos passaram a tratar como certo que os evangélicos se tornariam maioria em breve, mas os dados deste Censo sugerem desaceleração. É improvável que o ritmo acelerado retorne.

<><> O que explica essa mudança?

Nossos trabalhos indicam que o avanço evangélico foi impulsionado por um modelo de expansão baseado na multiplicação de templos de baixo custo, com estrutura enxuta e replicação rápida. Enquanto a Igreja Católica operava com paróquias caras e dependentes de clero especializado, igrejas evangélicas —sobretudo as pentecostais— adotaram uma configuração mais flexível. Seus pastores, geralmente lideranças locais com trajetória informal, abriram templos em espaços comerciais com pouco investimento, ocupando rapidamente áreas não cobertas pela Igreja Católica.

Esse modelo de crescimento pelo lado da oferta — ou seja, centrado na expansão da infraestrutura religiosa — foi o motor da transformação evangélica nas últimas décadas. Ele contrasta com a explicação centrada na demanda, segundo a qual os evangélicos teriam ganhado espaço por oferecer maior capacidade do que os católicos ou o Estado de acolher os mais pobres em momentos de crise. Essa perspectiva parece plausível, mas obscurece o papel da ocupação territorial no processo de crescimento. Os dados do Censo parecem reforçar esse diagnóstico: mesmo com aumento da insegurança social, o crescimento evangélico não acelerou como se previa.

Com a ocupação dos espaços, o modelo perde fôlego. A competição entre igrejas evangélicas e com a Igreja Católica impõe limites à abertura de novos templos. Estimativas mostram que a entrada de novas igrejas cai conforme cresce o número de templos em operação. Hoje, há cerca de sete templos evangélicos para cada templo católico, um sinal da intensidade da ocupação.

Mais importante: o retorno esperado da abertura de um novo templo —em termos de expansão líquida de fiéis— encontra limites. A competição redistribui membros entre igrejas e enfraquece o efeito expansivo da infraestrutura sobre o grupo como um todo. Em áreas com presença católica consolidada, a pressão é maior.

O fim da fase de expansão acelerada não implica perda de influência, mas impõe novos desafios a um movimento que molda disputas eleitorais e o debate público. Trata-se do esgotamento de um modelo que operou com força no passado e agora testa seus limites.

•        Por que o crescimento evangélico desacelerou? Por Mariama Correia

“Havia uma previsão de que os evangélicos iriam ultrapassar os católicos em 2032, mas esse resultado confirmou uma dinâmica de desaceleração e consolidação desse crescimento, o que já vínhamos observando”, diz Magali Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser). “A religião está misturada com a vida, com a cultura. Muitas vezes as projeções levam em conta apenas números e não observam essa dinâmica”, explica.

A pesquisadora aponta alguns fatores que podem explicar esse freio no ritmo do avanço evangélico. O primeiro deles é o próprio funcionamento do segmento evangélico, que é bastante fragmentado. “O trânsito dentro do campo evangélico é intenso, ou seja, não há uma vinculação tão fixa com determinada igreja, um apego a uma só comunidade, como era mais comum no passado. Isso cria uma fragilidade na vinculação”, explica.

Essa maior fragilidade na vinculação, que é mais forte em igrejas tradicionais, onde a quantidade de membros é mais fixa, pode levar a perda de fiéis, segundo a pesquisadora. Outro fator pode ser a frustração dos evangélicos com o excesso de política nas igrejas. “A forma como Bolsonaro foi lançado como candidato, com uma aliança muito forte com lideranças evangélicas, explicitou essa direita evangélica na política”, lembra.

Ela recorda que nas últimas eleições, desde 2018, a participação de candidatos em igrejas se tornou muito forte. “Cultos apresentando candidatos como escolhidos de Deus, demonizando outros. Antes isso acontecia de uma forma mais velada”, comenta. A pesquisadora também observa que a consolidação de uma direita evangélica é uma novidade dentro do campo social e que isso provocou uma insatisfação com o uso das igrejas para campanhas, mesmo entre evangélicos conservadores, o que pode ter gerado afastamentos.

“Isso tudo ainda precisa ser medido. Os dados do IBGE não trazem maiores detalhamentos. A pandemia, por exemplo, também pode ter sido um fator que leva a perda de membros nas igrejas, porque muitas pessoas passaram a acompanhar apenas os cultos online. Então ainda precisamos de um refinamento maior desses dados”, aponta.

Além do crescimento dos evangélicos, no Brasil, mais pessoas têm declarado que são de religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé.

<><> Mosaico religioso está mais diverso, diz pesquisadora

Os novos dados do Censo 2022 mostram um Brasil mais plural do ponto de vista religioso, diz Magali Cunha. “Sempre houve essa ideia do Brasil como país católico, mas os dados mostram, com próprio crescimento evangélico e de outros segmentos, inclusive com uma pluralidade religiosa mais marcante no tocante às religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé [que mais do que triplicaram, alcançando 1% – 1,8 milhão de pessoas]. Isso gera um mosaico religioso mais diverso”, diz.

Cunha acredita que a maior diversificação pode estar relacionada ao fato de que as pessoas podem estar falando mais abertamente sobre suas escolhas religiosas. “O Censo é uma autodeclaração. Antigamente as pessoas ficavam com medo, por exemplo, de dizer que eram da umbanda, do candomblé. As pessoas continuam sofrendo discriminação, mas essa maior autodeclaração pode ter mexido com os números”, observa.

O segmento católico recuou de 65% em 2010 para 56,7% em 2022, seguindo uma tendência já observada desde a década de 40, segundo o Iser. São 100,2 milhões de católicos no país. A pesquisa também aponta um crescimento no número de brasileiros sem religião, que somaram 16,4 milhões.

 

Fonte: IHU/Agencia Pública

 

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