quarta-feira, 11 de junho de 2025

César Fonseca: Desmonte do estado especulativo americano é derrocada do capitalismo rentista que leva à guerra

O racha inevitável que vai se aprofundando na economia e sociedade americana coloca, de um lado, os financistas, rentistas, os especuladores, defensores da economia de guerra, mas, de outro, os pregadores da guerra tarifária, como arma para fortalecer a industrialização nacional, em debacle diante da competitividade e produtividade chinesa.

A semana terminou em empate entre Musk e Trump, porque o racha entre eles, se não for contido, pode levar os Estados Unidos à guerra civil.

O presidente Donald Trump colocou o poderoso empresário Elon Musk, financiador de sua candidatura,  com a plataforma de desmonte do capitalismo liberal americano.

Musk prometeu, no seu cargo estratégico, cortar mais de um 1 trilhão de dólares de gasto público em nome do combate à financeirização econômica, responsável por produzir dívida pública de 37 trilhões de dólares e despesas anuais de 9 bilhões de dólares em juros e amortizações geradas pelo endividamento fiscal.

Eis o preço que cobra a economia de guerra imperialista, especulativa, bancando bases militares nos cinco continentes, desde o pós-segunda mundial, para bancar a hegemonia do dólar.

O deep state, o estado profundo, bancados pelo armamentismo, não suportou a cruzada fiscal restritiva de Trump e Musk em forma de corte de gastos públicos inflacionários – escondidos na barriga da dívida – sustentado por altas taxas de juros especulativas.

As pressões dos falcões da guerra romperam a aliança Trump-Musk, implodida em forma de acusações recíprocas e jogaram o estado industrial militar norte-americano na sua mais profunda divisão política.

O conflito militar na Califórnia, estado federado mais poderoso dos Estados Unidos, dominado pelos democratas, senhores da guerra imperialista, braço direito do financismo rentista, mostrou que este tem no conflito bélico a alavanca do imperialismo americano.

FINANCEIRIZAÇÃO EM COLAPSO

Trump, acuado pelos poderes da guerra, bancados pela financeirização econômica imperial, deu passo atrás, despachando Musk e seu discurso, falsamente anti-neoliberal, visto que deseja colocar o estado americano na corrida espacial, comandada por suas empresas, clientes do deep state, expresso no Pentágono, onde está o poder real do império.

Inicialmente, Trump, acusado por Musk de escândalos sexuais, que prometeu denunciar e extremar, chegou a falar em deportar o empresário sul-africano, estadunidense, detonando suas empresas(Space-X e Tesla), para, em seguida, afirmar que as relações entre ambos não chegaram ao ponto de ruptura.

Jogaram água fria na fervura, mas, até quando?

O fato é que Musk tem a força do capitalismo rentista e de guerra por trás, que coloca a economia americana em marcha, no seu processo de sustentar hegemonia global do dólar.

Por isso, o poderoso empresário se vê forte o suficiente para ir chacoalhando o poder de Trump, na da Casa Branca, aprofundando a divisão política que se verifica no Capitólio entre financistas especuladores e liberais pró-guerra tarifária impulsionada por Trump.

Musk, a favor dos gastos com guerra espacial, sintoniza-se com o deep state e seu propósito de continuar multiplicando capital por meio do financismo, já que não acreditam na escalada tarifária de Trump para vencer a China por meio do aumento da competitividade capitalista por meio do aumento da produtividade liberal.

Quem triunfará nessa escalada: Trump, que contraria o deep state, ou Musk, aliado aos falcões da guerra?

Ou Trump, para não correr perigo de morte, se contrariar os donos da guerra, pode mudar de rumo e acelerar a cruzada imperialista, a força natural do capitalismo americano de ir escalando guerras como única saída do imperialismo?

O fato é que, por enquanto, Trump, com seu discurso favorável à redução do déficit comercial por meio da desvalorização do dólar, como arma para fortalecer a industrialização americana, vai, mesmo que de forma precária, acumulando pontos, enquanto os financistas temem pelo futuro próximo da crescente instabilidade gerada pela dívida pública especulativa.

 DESDOLARIZAÇÃO SE ACELERA

O fantástico endividamento fiscal americano já leva à corrida contra o dólar, aprofundando a divisão social nos Estados Unidos entre os desenvolvimentistas e os especuladores de Wall Street, defensores do discurso de Musk.

O capitalismo americano, no seu afã expansionista, avança na economia de guerra espacial, única capaz de sustentar a multiplicação do capitalismo rentista que, no entanto, ameaça o dólar, se a hiperinflação, que se verifica na barriga da dívida pública, entrar em convulsão.

Enquanto isso, vigoram as aparências sobre o que farão os juízes da República dos Estados Unidos, depois da acusação de Elon Musk a Donald Trump de que ele patrocina escândalos sexuais e muitos outros que até agora estavam guardados nos segredos de uma democracia que parece desmoronar-se?

Seria ou não a forma de fuga dos problemas reais, empurrando a realidade na clássica fuga para frente?

Os juízes americanos irão ou não convocar os dois personagens que se auto acusam: um, que patrocina, no cargo, algo explosivo, que dá abertura aos discursos moralistas de direita fascista; o outro, igualmente, fascista, que sofre a acusação de ser, completamente, louco.

E, agora, senhores juízes: vossas excelências, no comando da justiça de um império que se degrada, fará valer a lei claramente confrontada com denúncias que ficarão sem ser esclarecidas, ou irão até o fundo dos acontecimentos para mostrar a essência do império, sua gênese nazi-fascista fantasiada de democracia?

•        Enquanto os gigantes brigam, o povo sangra e o império rui. Por Henrique Pizzolato

Nas ruas abafadas de Los Angeles, cobertas pela fumaça dos protestos e pelo cheiro do medo, os Estados Unidos mostram, mais uma vez, o que realmente são. A vitrine democrática do mundo, o país que se vende como bastião da liberdade, decide responder com tanques, cassetetes e balas de borracha à dor de quem trabalha, de quem migra, de quem resiste.

Ao mesmo tempo, um bilionário do Vale do Silício troca insultos com o presidente da república. Elon Musk, o gênio da tecnologia, o homem que manda foguetes para o espaço e demite trabalhadores por e-mail, chama Donald Trump de doente. Trump, o eterno personagem do caos, responde com ameaças, promessas de vingança, cortes de contratos e insinuações de traição.

Pode parecer que são coisas diferentes. Que o drama das ruas e o teatro dos ricos são dois mundos distantes. Mas não são. Eles fazem parte da mesma engrenagem. A engrenagem de um império em colapso. Um império que tenta se manter de pé com tecnologia de ponta e repressão pesada. Com algoritmos e baionetas.

Trump não reprime os protestos por descontrole. Ele reprime porque é isso que sabe fazer. Porque precisa mostrar poder, impor medo, afirmar sua força sobre quem já nasce vulnerável. Não há nada de novo nisso. Ele apenas retoma a velha tradição americana de resolver com o exército o que a democracia não consegue escutar.

Musk não briga com Trump porque é um defensor das liberdades. Ele briga porque seus interesses começaram a ser ameaçados. Porque viu o risco de perder seus incentivos, seus contratos, sua influência. E quando se sentiu ameaçado, usou o que tinha. Insinuações, chantagens, ironias, dados comprometedores. Como se dissesse: eu também conheço os podres do sistema.

Nesse duelo, os dois perdem alguma coisa. Mas quem mais perde é o povo. Os imigrantes, os jovens latinos, os trabalhadores precarizados. Perdem também os que acreditaram que as big techs trariam liberdade e que os bilionários eram heróis. O que se vê agora é um teatro de vaidades, um embate entre senhores feudais de um império falido.

Trump acusa Musk de traição. Musk diz que Trump enlouqueceu. Um quer o controle do solo. O outro, do céu. E no meio disso tudo, a terra arde. Arde com os gritos dos deportados, com o medo dos sem-documento, com a coragem dos que não aceitam calar.

Esse é o ponto mais grave. Quando a disputa de poder entre um político e um magnata se torna um conflito que pode afetar o cotidiano de milhões. Quando um tweet provoca quedas na bolsa, quando uma reunião fechada define cortes em benefícios sociais, quando um presidente escolhe o confronto ao diálogo e um bilionário prefere o deboche à responsabilidade.

Não há heróis nessa história. Há apenas interesses. Trump quer manter o controle, fazer da imigração uma guerra, da diferença um inimigo. Musk quer manter os lucros, dominar o espaço, transformar as relações sociais em linhas de código. E os dois, cada um a seu modo, querem um povo obediente.

O que assusta não é a violência isolada. É o conjunto. É a naturalização da repressão, a estetização do autoritarismo, a celebração da brutalidade como gesto de coragem. É ver crianças sendo separadas dos pais, ativistas sendo espancados, jornalistas sendo silenciados. E é, ao mesmo tempo, ver um bilionário sugerindo que sabe demais, que tem dossiê, que pode destruir um presidente com uma postagem.

Essa é a democracia que vendem. A democracia onde quem manda é quem tem exército ou quem tem servidor. Onde o povo grita nas ruas e as big techs ajustam os algoritmos para que esse grito não chegue a lugar nenhum.

Mas o grito existe. E resiste. Os protestos que explodiram nas ruas da Califórnia mostram que ainda há gente disposta a enfrentar a barbárie. Gente que não aceita ser silenciada. Gente que entende que a luta de um imigrante na fronteira é a mesma luta de um trabalhador explorado em qualquer parte do mundo.

O que acontece hoje nos Estados Unidos interessa a todos. Porque quando o império adoece, seus reflexos chegam à América Latina, à África, à Europa. Porque o que está em jogo não é apenas o destino de um país, mas a sobrevivência da própria ideia de futuro.

Se o futuro for escrito por Trump e Musk, ele será uma distopia. Com muros, drones, repressão, vigilância total e direitos condicionais. Mas ainda há tempo de disputar esse futuro. E essa disputa começa onde sempre começou. Na rua, na palavra, no gesto de resistir.

O império estremece. E quando ele estremece, devemos estar atentos. Porque entre o silício dos bilionários e a baioneta dos generais, pode surgir uma voz nova. E essa voz, talvez, venha de onde menos se espera. Do povo.

•        Disputa entre Estados Unidos e China é uma disputa entre capitalismo e socialismo no mundo. Por Fernando Marcelino

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China representa o conflito entre capitalismo neoliberal em crise e a ascensão do socialismo como modo de produção abrangente, mais dinâmico e próspero que o capitalismo. Trata-se, de fundo, de uma disputa entre “modos de produção” que entram em choque. De um lado, a ditadura do capital em sua fase decadente. De outro, a ditadura do proletariado, na sua melhor forma histórica até hoje.

Os Estados Unidos são um país capitalista que protege consistentemente os interesses de uma classe capitalista superior minoritária. Após quase quatro décadas de neoliberalismo, enfrenta uma crise do gasto público, na medida em que a busca por mais reformas estruturais para estimular o capital privado entra em conflito direto com a necessidade de manter os níveis mínimos de bem-estar social. Experimenta assim um período de estagnação e declínio prolongados, desemprego generalizado, desigualdades de renda abissais, crise urbana, aumento da violência, dívidas excessivas e bolhas de ativos.

Apesar da propaganda negativa, a China vem provendo a “maior transformação econômica dos últimos 250 anos” da história mundial, com relativo sucesso a melhora das condições de vida da população. A novidade deste modo de produção emergente é sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento das forças produtivas e se subordinar a um processo de constante redistribuição de renda, de presença da sociedade e do Estado na economia através de empresas de propriedade cooperativa, pública, estatal e mista. Para se liberar as forças produtivas, se flexibilizou o controle dos meios de produção de setores não-estratégicos, favorecendo a formação de empresas privadas e cooperativas. O crescimento do setor privado se deu em conjunto com o aumento da competitividade das estatais e cooperativas. O gasto público cresceu significativamente com as empresas estatais sendo a espinha dorsal da economia, mantendo controle dos principais meios de produção que atuam no mercado sozinhas e em grupos e servem de base do planejamento macro-econômico, capaz de dirigir e regular o mercado. Os chineses abriram sua economia de forma calculada e gradual, apresentando como atração o baixo custo relativo de mão-de-obra, a boa infra-estrutura de energia, transporte e comunicação, orientação no processo de investimentos e a estabilidade social e política. Aproveitando o capital externo para criar e adensar suas cadeias produtivas, condicionaram os investimentos à associação com empresas chinesas, a transferência de novas e altas tecnologias e a participação no comércio internacional. Criaram um sistema monetário soberano. Modernizaram as estatais e descentralizaram o planejamento. Mantém uma política ativa de distribuição de renda por meio de aumentos constantes de salários, aposentadorias e serviços públicos. E assim vem superando a dependência do capital monopolista.

Além disso, quem governa o Estado é o Partido Comunista da China, com um sistema organizacional e disciplina rígidos de seus 80 milhões de membros, cobrindo todos os departamentos e campos e alcançando o nível de base. Ao contrário dos partidos ocidentais que são relativamente frouxos, sem base de mobilização popular real, com divisão de poderes e governos, muitas vezes em conflito permanente, o Partido Comunista da China é capaz de unificar pensamentos e ações, com forte capilaridade social e capacidade organizacional, alta eficiência no planejamento e execução, podendo realizar tarefas importantes e responder efetivamente aos principais desafios nacionais. Ele absorve grande maioria dos membros proeminentes da sociedade chinesa para se tornarem membros do partido, mas também tem talentos notáveis de todas as esferas da vida, o que é incomparável a qualquer outra organização política.

No Leviatã Socialista da China, é propriedade do Estado: os solos urbano e rural, os principais instrumentos de desenvolvimento econômico (estatais em setores estratégicos, política industrial, juro, crédito, câmbio e sistema financeiro). As áreas onde as estatais devem atuar são discriminadas. As atividades econômicas que concernem à soberania e à segurança do Estado, os setores com fortes graus de monopólio e com efeitos notáveis no bem estar público, as indústrias básicas, as indústrias de exploração de recursos nacionais, as indústrias de processamento, os ramos de produção em estado incipiente e as atividades que têm forte incidência na economia nacional e nas condições de vida da população, devem ser firmemente controladas pelo Estado. O capitalismo nunca manteve uma posição dominante de longo prazo na China. O planejamento estatal desempenha um papel crucial na economia chinesa, coexistindo com mecanismos de mercado. O governo chinês utiliza o planejamento como ferramenta para direcionar o desenvolvimento econômico e social, definir metas e prioridades, e implementar políticas que visam o crescimento e o desenvolvimento. Ao contrário dos países ocidentais, o Estado chinês dispõe de recursos e de capacidade administrativa para mobilizar rapidamente uma ação coletiva a serviço dos objetivos da nação.

O sucesso econômico capitaneado pela China já se traduziu em profundos impactos para as economias ocidentais, que se veem obrigadas a reformular rapidamente suas estruturas produtivas e a empreender amplas reformas institucionais para ampliar sua competitividade e conservar sua posição nas cadeias globais de valor. Para os EUA, a China passou a ter os elementos que a caracterizam como um estado desafiador do status quo. Com isso, os EUA serão impelidos a barrar o avanço chinês no continente asiático, minando a possibilidade da China tornar-se uma hegemonia regional. Enquanto isso, a China enfraquece as vantagens financeiras que sustentam a hegemonia dos EUA e avança nos altos escalões da "quarta revolução industrial", da inteligência artificial à computação quântica, com os Estados Unidos decaindo para uma "versão desindustrializada e anglófona de uma república latino-americana, especializada em commodities, imóveis, turismo e talvez evasão fiscal transnacional". 

O socialismo é um processo histórico concreto. Para o socialismo substituir o capitalismo é preciso passar por um desenvolvimento histórico de longo prazo. Embora a ascensão global do socialismo ainda esteja em seus estágios iniciais, já provoca impactos significativos e atrai a atenção de todo o mundo, oferecendo novas opções para países subordinados ao império do capital. À medida que a China continua a crescer e assume uma posição de liderança como potência global, o caminho do desenvolvimento socialista deve atrair mais atenção como uma alternativa viável, tanto de modo de produção como de estilo de vida, promovendo a formação de um novo sistema socialista global que seja cada vez mais implantado ao redor do mundo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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