sábado, 14 de junho de 2025

Brasil leiloará direitos de exploração de petróleo meses antes de sediar a Cop30

O governo brasileiro está se preparando para realizar um leilão de exploração de petróleo meses antes de sediar a cúpula climática da ONU, Cop30, apesar da oposição de ativistas ambientais e comunidades indígenas preocupadas com os impactos ambientais e climáticos dos planos.

A Agência Nacional de Petróleo (ANP) do Brasil vai leiloar os direitos de exploração de 172 blocos de petróleo e gás, abrangendo 146.000 km² (56.000 milhas quadradas), uma área mais que o dobro do tamanho da Escócia, a maior parte dela offshore.

O “leilão do juízo final”, como os ativistas o chamaram, inclui 47 blocos na bacia amazônica, em uma área sensível perto da foz do rio que as empresas de combustíveis fósseis consideram uma nova fronteira petrolífera promissora .

O leilão é fundamental para os planos do Brasil de se tornar o quarto maior produtor de petróleo do mundo, uma ambição apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que argumenta que a receita do petróleo trará desenvolvimento econômico e financiará a transição energética.

Mas uma ampla gama de grupos, incluindo ambientalistas, promotores federais e até mesmo sindicatos de trabalhadores do petróleo , estão pressionando para que a rodada de licitações seja cancelada, citando estudos de avaliação ambiental inadequados, a violação dos direitos indígenas e a incompatibilidade do aumento da produção de petróleo com os compromissos climáticos do Brasil.

A Agência Internacional de Energia diz que o desenvolvimento de novos campos de petróleo e gás é incompatível com os esforços globais para atingir emissões líquidas zero até 2050.

O Instituto ClimaInfo do Brasil calculou que a queima de petróleo e gás de todos os 172 blocos em oferta, caso avancem para a fase de produção, pode levar à liberação de mais de 11 bilhões de toneladas de CO2 equivalente — o equivalente a mais de seis anos de emissões do poluente setor agropecuário do país, ou 5% das emissões que a humanidade ainda pode produzir para manter o aquecimento global dentro de 1,5°C.

Somente as áreas da bacia amazônica poderiam liberar 4,7 bilhões de toneladas de CO2 equivalente.

“Este leilão está representando ameaças realmente sérias e graves para a biodiversidade, as comunidades e o clima”, disse Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora executiva do Instituto Internacional Arayara, uma organização da sociedade civil que entrou com cinco ações judiciais contra o leilão da próxima semana.

Muitos dos blocos de exploração de petróleo em oferta possuem estudos de avaliação ambiental desatualizados ou próximos do vencimento. Alguns se sobrepõem a territórios indígenas ou áreas de conservação, incluindo reservas marinhas ao redor da paradisíaca ilha de Fernando de Noronha. Arayara também argumenta que a ANP não avaliou de forma transparente a real extensão das emissões de gases de efeito estufa da exploração e da possível produção futura de petróleo e gás nessas áreas.

A Bacia Amazônica está no centro do debate sobre o futuro da exploração de petróleo no Brasil. A Petrobras, estatal petrolífera, passou anos tentando obter uma licença ambiental para perfurar ali, e Lula pressionou o Ibama para que a licença fosse concedida.

As áreas que seriam afetadas pela perfuração offshore e atividades relacionadas em terra incluem recifes de corais sensíveis e comunidades indígenas que dizem não ter sido devidamente consultadas.

“Nós, indígenas, estamos sendo arrasados por esse processo, não estamos sendo vistos nem ouvidos”, disse Edmilson Oliveira, coordenador de um grupo de lideranças indígenas que se opõem publicamente às atividades de exploração na costa norte do Brasil.

Lucas Louback, gerente de campanha e advocacy da Nossas, uma das organizações que exigem o cancelamento do leilão, disse: "Milhares de pessoas já estão dizendo não à exploração de petróleo na Amazônia e o governo brasileiro precisa ouvir. A poucos meses da Cop30 , continuar apostando no petróleo é uma contradição gritante."

“A Amazônia está perigosamente perto de um ponto de inflexão, e apegar-se a esse modelo empurra o Brasil e o mundo para mais perto do colapso climático.”

•        Leilão de petróleo pode causar emissões de 11 bi de toneladas de carbono

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) fará na 3ª feira (17/6) o leilão do 5º ciclo da Oferta Permanente de Concessão (OPC), ofertando 172 blocos para exploração de combustíveis fósseis – 47 na foz do Amazonas. O que o órgão regulador não conta é que a queima dos combustíveis fósseis projetados para esses blocos jogará na atmosfera uma quantidade imensa de dióxido de carbono equivalente (CO2e), agravando as mudanças climáticas.

O novo “leilão do fim do mundo” da ANP pode gerar a emissão de 11,1 bilhões de toneladas de CO2e, destacam Folha e Vocativo. O cálculo feito por Shigueo Watanabe Jr., pesquisador do ClimaInfo, baseia-se na expectativa do governo de reservas de petróleo e gás nas 172 áreas, de 24 bilhões de barris. As emissões com a queima desses combustíveis fósseis equivalem ao que o agronegócio brasileiro – o principal vetor das emissões do Brasil, respondendo por 75% dos GEE – emitiu nos últimos seis anos (10,5 bilhões de tCO2e).

Somente na foz do Amazonas, os combustíveis fósseis projetados para os 47 blocos poderão emitir 4,7 bilhões de tCO2e se explorados. É mais de duas vezes o que o Brasil emitiu em 2023, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de GEE (SEEG), do Observatório do Clima (OC).

A foz do Amazonas está no alvo da indústria petrolífera diante da expectativa da Petrobras de obtenção da licença para perfurar um poço no bloco FZA-M-59, no litoral do Amapá. Por isso, organizações da sociedade civil, indígenas e de Comunidades Tradicionais protestaram contra o megaleilão da ANP. A ação foi realizada na 3ª feira (10/06), no Amapá.

Mas a ameaça vai além. A pressão aumenta sobre outras bacias sedimentares na Amazônia, no mar e em terra, que levariam a mais emissões e, por consequência, mais danos no clima do planeta.

O território amazônico abriga outras seis bacias além da foz. Em terra, há as bacias do Parecis (que terá 21 blocos no leilão da próxima semana), entre Mato Grosso e Rondônia; Solimões e Amazonas, no Amazonas; e Parnaíba, no Maranhão. No mar, Pará-Maranhão e Barreirinhas, no litoral maranhense.

O potencial total estimado de petróleo e gás fóssil sob essas bacias é de quase 60 bilhões de barris. Se esse volume for confirmado – e explorado –, sua queima associada poderia emitir cerca de 24 bilhões de tCO₂e. Isso é quase a metade de todas as emissões globais de 2023 (57 bilhões de toneladas) ou tudo que o Brasil emitiu nos últimos 11 anos, aponta Watanabe Jr..

“Com a COP30, o governo Lula precisa escolher: apoiar os Povos da Amazônia ou seguir apostando no petróleo. O tempo das contradições acabou. Como guardiões da floresta, reafirmamos nossa autoridade climática: A Resposta Somos Nós”, destacou Toya Manchineri, coordenador geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).

Diretamente ameaçados pela exploração de petróleo e gás na foz do Amazonas, e em particular pela ação da Petrobras no bloco 59, mais de 60 caciques de Povos Indígenas do Oiapoque (AP) lançaram uma carta de repúdio a Lula e outras autoridades, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), por “disseminar desinformação” sobre a atividade petrolífera na região.

O apelo indígena atravessou o Atlântico. Na 4ª feira (11/6), durante a Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC3) em Nice, o presidente da França, Emmanuel Macron, recebeu uma mensagem do cacique Raoni Metuktire pedindo que o ajude a convencer Lula a desistir do petróleo na Amazônia. Ao que Macron respondeu que a exploração na foz “não é boa para o clima”.

•        MPF vai à Justiça para suspender leilão de 47 blocos de petróleo na foz do Amazonas

O Ministério Público Federal (MPF) entrou na Justiça Federal, nesta quinta-feira (12), com uma ação em que pede a suspensão imediata do leilão de blocos de petróleo e gás da 5ª Oferta Permanente de Concessão (OPC), previsto para a próxima terça-feira. A ação busca impedir a oferta de 47 blocos para exploração de petróleo e gás na bacia da foz do Rio Amazonas até que sejam cumpridas uma série de medidas previstas na legislação socioambiental.

A ação foi movida contra a União e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Segundo o MPF, a realização do leilão sem os estudos prévios adequados representa uma grave violação de direitos fundamentais, compromissos internacionais e da legislação ambiental brasileira.

O MPF pede que a Justiça condicione a realização do leilão à execução de quatro medidas principais:

• Estudo de Impacto Climático: realização de um estudo abrangente sobre os efeitos somados e potencializados da exploração de múltiplos blocos na bacia, argumentando que a atividade aumenta a pressão sobre o clima e o direito a um meio ambiente equilibrado;

• Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS): um estudo estratégico para classificar a aptidão da bacia da foz do Amazonas para a outorga de blocos exploratórios, medida que o MPF considera indispensável para a abertura de uma nova fronteira exploratória em área de elevada sensibilidade;

• Estudos sobre povos e comunidades tradicionais: análise prévia dos aspectos culturais, históricos e de uso de recursos naturais por parte dos povos indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais que habitam a região costeira, para avaliar os potenciais impactos socioambientais; e

• Consulta Prévia, Livre e Informada: realização de consulta aos povos e comunidades tradicionais potencialmente afetados, conforme previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O MPF argumenta que essa consulta deve ocorrer na fase de planejamento, antes de qualquer medida relacionada à licitação, garantindo a participação efetiva desses povos na tomada de decisão.

<><> Contrassenso

– Na ação, o MPF destaca que a expansão da exploração de petróleo na região representa um “grave contrassenso” diante da emergência climática e dos compromissos assumidos pelo Brasil, como o Acordo de Paris. O órgão aponta que a decisão de leiloar os blocos sem quantificar previamente os impactos climáticos e socioambientais é “cientificamente insustentável, legalmente indefensável e moralmente injustificável”.

A petição ressalta a excepcionalidade socioambiental da bacia da foz do Amazonas, que abriga o estuário do Amazonas e seus manguezais, integrante da Lista de Zonas Úmidas de Importância Internacional – a chamada Lista de Sítios Ramsar –, além de extensos ambientes de recifes de corais. A área é lar de uma imensa quantidade de comunidades e povos tradicionais, cuja sobrevivência e modo de vida estão diretamente ligados aos ecossistemas costeiros, ressalta o MPF.

O documento destaca, ainda, que experiências anteriores de tentativas de licenciamento na região enfrentaram obstáculos técnicos e institucionais, inclusive com negativas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) quanto à viabilidade de empreendimentos similares.

<><> Urgência

– O pedido de decisão urgente (liminar) se justifica pela proximidade da data do leilão. Segundo o MPF, permitir a realização do leilão “solidifica uma decisão estratégica (…) que deveria ter sido submetida à participação dos povos e comunidades afetadas”, esvaziando o direito fundamental à participação e tornando qualquer determinação judicial posterior “inócua ou meramente protocolar”. Caso o leilão ocorra sem o cumprimento das medidas, o MPF pede que o certame e os contratos de concessão decorrentes sejam declarados nulos.

 

Fonte: The Guardian/ClimaInfo/MPF Pará

 

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