Bets
estão em 60% das propagandas em campo no Brasileirão
Para
Karen, tudo começou com um anúncio e um influenciador digital. Em seguida, ela
fez uma aposta de R$ 30. Depois, vieram a vergonha, dívidas crescentes, o uso
do cartão de crédito da mãe e uma batalha contra o vício que, embora tenha
diminuído, ainda existe.
"Se
eu estava em uma festa, estava lá jogando. Se ia a algum restaurante ou bar, o
celular estava na mão. Até para tomar banho, era com o celular na mão. Embaixo
do chuveiro, com o braço esticado", disse à DW a jovem de 29 anos, natural
de Minas Gerais.
Ela não
sabe ao certo quanto perdeu, mas sabe que foram vários milhares de reais a mais
do que ela pode pagar. "As empresas de cartão de crédito ligam todos os
dias", disse Karen, que prefere não divulgar seu sobrenome, pois a maior
parte de seus familiares não sabe do seu problema.
Embora
o vício em apostas seja uma questão cada vez mais grave em todo o mundo, dos
EUA e Alemanha à China, histórias como a de Karen refletem o aumento do
problema no Brasil. O país legalizou as bets online no final de 2018, mas não
fez nenhum esforço para legislar contra seus malefícios ou sua publicidade até
janeiro de 2025. Pesquisadores e profissionais de saúde mental identificaram um
aumento nos casos de vício em bets, especialmente entre brasileiros de baixa
renda.
Um
indicador de como as apostas se disseminaram pelo país é que os beneficiários
do Bolsa Família gastaram aproximadamente R$ 3 bilhões em jogos de azar online
no mês de agosto de 2024, segundo um relatório do Banco Central do Brasil. O
valor equivale a 21% de todos os benefícios pagos pelo programa no mesmo
período.
Um
estudo feito pela Universidade Federal de São Paulo em 2023 descobriu que 6%
dos brasileiros afirmavam fazer apostas esportivas online (o equivalente a
cerca de 9 milhões de pessoas), e que 67% delas eram "apostadores de
risco" – não necessariamente pessoas viciadas, mas que apresentam
comportamentos imprudentes, como apostar mais do que pode perder.
O jogo
também se infiltrou no esporte favorito e obsessão nacional do país, o futebol.
O mesmo estudo mostrou que as bets online, impulsionadas pelo futebol, são a
segunda forma mais popular de apostas no Brasil, atrás apenas das loterias
estatais.
Uma
análise exclusiva da equipe de dados da DW mostra ainda que seis em cada dez
painéis publicitários ao redor do campo durante o Campeonato Brasileiro de 2024
exibiam anúncios de apostas esportivas ou outros tipos de jogos de azar –
número que subiu para sete em cada dez na rodada final do torneio.
• Anúncios de bets inundam o futebol
brasileiro
Há
cinco anos, uma ampla gama de setores econômicos aparecia nos painéis
publicitários do Brasileirão: bancos, postos de gasolina, companhias aéreas,
empresas farmacêuticas, lojas de varejo e redes de comunicação eram quase
sempre visíveis ao redor do campo.
Agora,
tudo gira em torno da Superbet, Betano, PixBet ou BetNacional. Comparado a
2019, primeira temporada após a legalização das apostas, a participação de
empresas de jogos de azar em anúncios ao redor do campo dobrou.
Esses
números são resultado de uma análise realizada pela DW que utilizou um modelo
de inteligência artificial para detectar, classificar e contar os painéis
publicitários exibidos em partidas do Brasileirão de 2019 a 2024.
A
investigação foi realizada utilizando vídeos com os melhores momentos de jogos
disponíveis no YouTube. Mais detalhes sobre a metodologia estão disponíveis
neste repositório público.
Os
dados também revelam que cerca de 70% dos anúncios exibidos nas placas de
propaganda ao redor do campo na rodada final do Campeonato Brasileiro de 2024
eram de empresas de bets. São 16 pontos percentuais a mais que o segundo
colocado, o torneio da Colômbia, e mais que o dobro das principais ligas
europeias, como a Série A da Itália e a Premier League, na Inglaterra.
• Clubes ficaram dependentes desse
patrocínio
Alguns
países com setores de apostas esportivas estabelecidos há mais tempo começaram
a implementar restrições à publicidade. Em 2021, a Espanha, por exemplo,
proibiu essas empresas de exibir publicidade durante transmissões de eventos
esportivos no horário nobre e impediu os clubes de assinarem contratos de
patrocínio com elas.
Os
clubes da primeira divisão inglesa não poderão mais exibir logotipos de bets na
frente de suas camisas a partir da temporada 2026/27, embora os anúncios ao
redor do campo continuem.
No
Brasil, todos os 20 clubes da primeira divisão exibem atualmente pelo menos um
patrocinador de jogos de azar em seus uniformes, e 90% deles os exibem na
frente e no centro, de acordo com o portal Globo Esporte.
A
extensão da dependência dos clubes brasileiros da indústria de jogos de azar
ficou clara quando um projeto de lei foi proposto para reduzir drasticamente
essa publicidade, em maio de 2025.
Uma
declaração conjunta assinada por mais de 50 clubes, incluindo os que atualmente
disputam a Copa do Mundo de Clubes da Fifa (Palmeiras, Flamengo, Fluminense e
Botafogo), afirmou que o projeto de lei resultaria em uma perda combinada de R$
1,6 bilhão por ano. "Tal limitação, caso não ajustada, terá como
consequência o colapso financeiro de todo o ecossistema do esporte e, em
especial, do futebol brasileiro", alertou a nota, ao mesmo tempo em que
reconhecia a necessidade de alguma regulamentação.
• "É como se algo estivesse cutucando
sua cabeça"
Os
impactos da publicidade tanto sobre apostadores como não apostadores são claros
para o professor de psicologia Jamie Torrance, pesquisador na Universidade de
Swansea, no Reino Unido. Ele disse à DW que o fato de as empresas de apostas
gastarem bilhões em publicidade em todo o mundo, tanto no esporte como em
outras áreas, prova o quanto elas acreditam na eficácia dessa estratégia.
"Incorporar
essas marcas a um jogo com o qual as pessoas se importam, no qual elas investem
emocionalmente, é um paradigma clássico de condicionamento. As pessoas têm
esses laços emocionais com o esporte, e as empresas de apostas também querem
que elas tenham esses laços emocionais com suas marcas de apostas", diz. O
mesmo vale para influenciadores e celebridades – uma tática de marketing que
não se limita ao âmbito esportivo.
Karen
disse que isso certamente funcionou com ela. Suas apostas se concentravam no
Jogo do Tigrinho, uma máquina caça-níquel virtual promovida por personalidades
de redes sociais que ela seguia. Embora ela não o tenha descoberto por meio do
futebol, as principais empresas que aparecem em anúncios e uniformes também
oferecem o mesmo jogo.
"[Um
influenciador] postou um mero jogo , e entrei por curiosidade. O primeiro jogo
foi 30 reais, um depósito em vão. Aí pensei: 'Não, isso aqui é tolice, é
burrada'", disse. "Alguns meses se passaram, e uma amiga veio me
falar: 'Ah, mas eu tô jogando e tô tendo um retorno muito bom'. Aí eu fui
pesquisar sobre e foi aquele inferno no Instagram, né? Sempre vendo postagens,
sempre vendo as pessoas divulgando. Aí ali começou..."
Depois
que o vício se instalou, ela não conseguia escapar dos estímulos para jogar.
"Quando você vê um vídeo ou a pessoa postando algum ganho, aquilo martela
na cabeça: 'E se eu colocar um valor? E se eu tentar mais uma vez?'"
• Anos sem supervisão levaram a uma crise
de saúde pública
Karen
diz que começou a perceber a dimensão do seu problema com o jogo quando
encontrou um grupo de apoio online liderado pelo psicólogo Rafael Ávila e sua
Associação de Proteção e Apoio ao Jogador.
Ávila
oferece um serviço gratuito para centenas de jogadores viciados. Ele disse à DW
que, fora das grandes cidades, quase não há ajuda para pessoas na situação de
Karen. Ele acredita que a falta de uma regulação séria quando o jogo foi
legalizado provocou uma crise. "O governo não está investindo o montante
necessário para resolver o problema. Agora eles estão tentando resolver, mas
isso deveria ter acontecido há seis anos", disse.
A
situação só mudou no início de 2025, quando uma nova norma entrou em vigor. No
entanto, a regulamentação atual se concentra principalmente na tributação e no
registro adequado das empresas de jogos de azar junto às autoridades
brasileiras. Os anúncios permaneceram praticamente inalterados, exceto pelo
fato de que as empresas agora precisam exibir avisos sobre o jogo responsável,
assim como fazem as bebidas alcoólicas, e não podem promover o jogo como uma
fonte de renda.
• Congresso debate regulamentação mais
rígida
O
Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que representa 75% das empresas de
apostas no Brasil, disse à DW que as mudanças recentes já estão surtindo
efeito. "A regulamentação, em vigor desde janeiro de 2025, marcou um novo
começo para o setor, com regras claras que oferecem mecanismos adequados para a
promoção do jogo responsável", afirmou em nota.
O
Congresso brasileiro, no entanto, está discutindo uma regulamentação mais
rígida sobre anúncios, contestada pelos clubes, para proibir anúncios de bets
durante as transmissões dos jogos. A participação de pessoas famosas, como
atletas profissionais e artistas, também seria proibida.
O
projeto de lei já foi aprovado pelo Senado. Para entrar em vigor, precisa ser
ainda aprovado pela Câmara dos Deputados e sancionado pelo presidente. Seu
conteúdo ainda pode sofrer alterações durante a tramitação, e o texto aprovado
no Senado já era uma versão diluída da proposta original, que previa a
proibição total de qualquer tipo de propaganda de jogos de azar.
Para
Karen e inúmeras outras pessoas como ela, isso será muito pouco e chegará muito
tarde. Por meio de seu trabalho com Ávila e outros viciados, e de sua
estratégia de não manter dinheiro disponível online, ela conseguiu ficar sem
apostar por cerca de um mês. Mas ela já havia chegado a esse ponto antes e teve
uma recaída. Algo que começou como uma diversão sem grande importância tomou
conta de sua vida.
Fonte:
DW Brasil

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